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Filosofi a, Comunicação e Ética

Professor conteudista: Vladimir Fernandes Professor conteudista: Vladimir Fernandes

Sumário

Filosofia, Comunicação e Ética

1 O USO DA LINGUAGEM1
2 O USO DA RAZÃO3
3 A ATITUDE CIENTÍFICA5
4 AS LUZES E AS SOMBRAS DA RAZÃO9
5 OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO DE MASSA12
6 O MUNDO GLOBALIZADO15

Unidade I

7 VALORES E EDUCAÇÃO18
8 MORAL, ÉTICA E EDUCAÇÃO20
9 ARISTÓTELES E A ÉTICA FINALISTA24
10 SANTO AGOSTINHO E O LIVRE ARBÍTRIO27
1 A ÉTICA RACIONAL KANTIANA29
12 NIETZSCHE E A GENEALOGIA DA MORAL3

Unidade I 13 WEBER: ÉTICA DA CONVICÇÃO E ÉTICA DA RESPONSABILIDADE ............................................39

1 O USO DA LINGUAGEM

Falar é próprio dos seres humanos, já que os animais não falam. Aristóteles, ao afirmar (em sua Política) que o homem é um animal político, sustenta sua tese na ideia de que o homem é o único que possui linguagem, enquanto os animais apenas expressam dor ou prazer por meio de sons. E por que a linguagem é importante? Segundo o filósofo Ernst Cassirer1, o uso e o entendimento da linguagem possibilitam o verdadeiro “abre-te-sésamo”, que permite a entrada no mundo da cultura humana e o seu desenvolvimento.

A linguagem é composta por um sistema de signos. Mas o que é um sistema? E o que são signos? Um sistema é um conjunto de elementos organizados, neste caso os elementos são os signos. Os signos são elementos que designam outros elementos. Por exemplo, a palavra árvore está no lugar do objeto árvore, o número 3 está no lugar da quantidade real que corresponde a três coisas etc.

Cassirer afirma, em seu Ensaio sobre o Homem, que é fundamental fazer uma distinção entre sinais e símbolos para que seja possível ter uma melhor clareza do problema. Expõe, ainda, que os animais são suscetíveis a identificarem sinais, como tom de voz, expressões do rosto humano, gestos, e que também podem ser condicionados a vários tipos de sinais, como mostrou Pavlov em suas várias experiências.

1 Cassirer, Ernst. Ensaio sobre o Homem: introdução a uma filosofia da cultura humana. Trad. Tomas Rosa Bueno. São Paulo: Martins Fontes, 1994.

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Conforme Cassirer, todas essas atividades denominadas de reflexo condicionado estão distantes, e, até mesmo, do lado oposto ao caráter fundamental do simbolismo humano.

O filósofo esclarece que as várias experiências feitas com animais superiores demonstraram que algumas reações não são meros acasos, mas que envolvem um tipo de compreensão e solução criativa. Mesmo nesses casos, a inteligência animal ainda se distancia muito da inteligência propriamente humana, já que ela fica limitada à experiência momentânea, não ocorrendo um progressivo desenvolvimento. Cassirer busca fundamentar sua tese de que o homem é um animal symbolicum, argumentando que somente o ser humano atinge o estágio de uma linguagem proposicional, enquanto os animais mais evoluídos atingem apenas uma linguagem emocional e uma inteligência prática, ou seja, identificam sinais por reflexos condicionados, o que os coloca muito distantes de uma linguagem simbólica.

“Em resumo, podemos dizer que o animal possui uma imaginação e uma inteligência práticas, enquanto apenas o homem desenvolveu uma nova forma: uma imaginação e uma inteligência simbólicas” (1994, p.60).

A transição de uma forma para outra fica evidente no desenvolvimento humano, mas nos animais tal processo não ocorre. Cassirer cita o caso especial de Helen Keller, que mesmo tendo nascido cega, surda e, consequentemente, muda, conseguiu, a partir dos esforços de sua professora, Mrs. Sullivan, compreender o sentido simbólico da linguagem e adentrar ao mundo humano do significado. E mesmo no caso de Helen Keller, o fato de usar sinais táteis no lugar dos vocais não prejudica a continuidade de desenvolvimento do seu pensamento simbólico (1994, p.63).

Para Cassirer, apenas o homem desenvolve por si mesmo uma linguagem e uma inteligência simbólica, sem o simbolismo ficaríamos presos às necessidades biológicas e às situações concretas. Dessa forma, a questão sobre o que é o homem e qual sua diferença mais primária e específica em relação aos outros seres ganha novo enfoque. Daí que, para Cassirer, é mais adequado definir o ser humano como um animal symbolicum ao invés de animal racional, ou mesmo animal político ou construtor. Na verdade, essas definições não são excludentes ou contraditórias, mas a definição de Cassirer enfoca uma característica mais primária no ser humano: criar símbolos. E esse fato é a condição de possibilidade para o desenvolvimento de outras capacidades humanas. O que possibilita que o homem seja um ser racional, um ser político, um ser construtor de coisas, pois esta é sua capacidade primária de criar símbolos. O ser humano, enquanto animal simbólico, constrói a realidade em diferentes perspectivas. O sistema simbólico é a condição para ordenação do pensamento e da ação, sem ele não sairíamos da caverna de Platão nem adentraríamos no mundo plenamente humano (2006, p. 3)2.

2 O USO DA RAZÃO

A palavra razão, na sociedade ocidental, tem origem em duas fontes: o termo latino ratio e o termo grego logos. Segundo Chauí, ambos os termos são substantivos originados de dois verbos com sentidos semelhantes em grego e latim. “Logos vem do verbo legein, que quer dizer: contar, reunir, juntar, calcular”; “Ratio vem do verbo reor, que quer dizer: contar, reunir, medir, juntar, separar, calcular” (1997, p.59). E o que fazemos, questiona Chauí, “quando medimos, juntamos, separamos, contamos e calculamos?”. Pensamos, com medida e proporção, de forma ordenada. Dessa forma:

Logos, ratio ou razão significam pensar e falar ordenadamente, com medida e proporção, com clareza e

2 Fernandes, Vladimir. Filosofia, ética e educação na perspectiva de Ernst Cassirer. FEUSP: Tese de doutorado, 2006.

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Revi são: Amanda - Diagr amação: Léo - 17/1 são: Amanda - Corr eção: Fabio 29/1 de modo compreensível para os outros. Assim, na origem, a razão é a capacidade intelectual para pensar e exprimirse correta e claramente, para pensar e dizer as coisas tais como são. A razão é uma maneira de organizar a realidade, de tal forma que esta se torne compreensível. É, também, a confiança de que podemos ordenar e organizar as coisas porque são organizáveis, ordenáveis, compreensíveis nelas mesmas e por elas mesmas, isto é, as próprias coisas são racionais. (Chauí, 1997, p.59)

Entendendo a razão como um modo de organizar e compreender a realidade fazendo-a inteligível, a atitude filosófica racional irá se opor a quatro formas de atribuição de sentido da realidade. São elas: o conhecimento ilusório, as emoções, a crença religiosa e o êxtase místico. Dessa forma, segundo Chauí, a razão se opõe:

1. ao conhecimento ilusório, isto é, ao conhecimento da mera aparência das coisas que não alcança a realidade ou a verdade delas; para a razão, a ilusão provém de nossos costumes, de nossos preconceitos, da aceitação imediata das coisas tais como aparecem e tais como parecem ser. As ilusões criam as opiniões que variam de pessoa para pessoa e de sociedade para sociedade. A razão se opõe à mera opinião;

2. às emoções, aos sentimentos, às paixões, que são cegas, caóticas, desordenadas, contrárias umas às outras, ora dizendo “sim” a alguma coisa, ora dizendo “não” a essa mesma coisa, como se não soubéssemos o que queremos e o que as coisas são. A razão é vista como atividade ou ação (intelectual e da vontade) oposta à paixão ou à passividade emocional;

3. à crença religiosa, pois, nesta, a verdade nos é dada pela fé numa revelação divina, não dependendo do trabalho de conhecimento realizado pela nossa inteligência ou pelo nosso intelecto. A razão é oposta à revelação e, por isso, os filósofos cristãos distinguem a luz natural - a razão - da luz sobrenatural – a revelação;

4. ao êxtase místico, no qual o espírito mergulha nas profundezas do divino e participa dele, sem qualquer intervenção do intelecto ou da inteligência, nem da vontade. Pelo contrário, o êxtase místico exige um estado de abandono, de rompimento com a atividade intelectual e com a vontade, um rompimento com o estado consciente, para entregar-se à fruição do abismo infinito. A razão ou consciência se opõe à inconsciência do êxtase.

Assim, a Filosofia é um tipo de conhecimento que faz uso da razão para explicar a realidade. Ela surgiu se contrapondo a outra forma de conhecimento: o pensamento mítico. No decorrer da história vão surgindo outras formas de explicar a realidade, além dessas duas. Na Idade Moderna surge um novo tipo de conhecimento, o científico, que faz uso de método, experimentação e comprovação na aplicação de suas hipóteses. A constante valorização e utilização da razão e do conhecimento científico não produz apenas luzes, mas também desencadeia problemas (as sombras da razão), como será abordado no próximo item.

3 A ATITUDE CIENTÍFICA

Os primeiros filósofos, que ficaram conhecidos como pré-socráticos, foram os inventores do logos, da razão. Eles desconfiaram das explicações míticas e buscaram explicações racionais para explicar o mundo. Mas será que eles já estavam fazendo ciência? O físico Marcelo Gleiser expõe, na Introdução do livro Pré-socráticos – a invenção da razão3, as seguintes considerações:

3Maciel Júnior, Auterives. Pré-socráticos – a invenção da razão. São Paulo: Odysseus Editora, 2003.

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Se entendermos ciência no sentido moderno, em que modelos matemáticos são desenvolvidos na tentativa de expressar, da melhor forma possível, resultados obtidos em experiências realizadas em laboratórios ou observações de fenômenos naturais, talvez seja adequado começar com Galileu Galilei, na Itália, e Johannes Kleper, na Alemanha, no início do século XVII. Porém, se por ciência entendermos a tentativa de compreender racionalmente o comportamento dos fenômenos naturais sem uma preocupação direta com a experimentação, então devemos começar a nossa história muito antes, em torno de seiscentos anos antes de Cristo (2003, p.9).

Nessa perspectiva, os pré-socráticos foram os primeiros a adotar uma postura científica, uma vez que o conhecimento científico resulta de uma atividade racional. Os filósofos entendiam que era necessário passar da opinião (doxa), que é um conhecimento impreciso, superficial e subjetivo, para a ciência (epistéme), entendida como conhecimento racional e objetivo. Por outro lado, de um modo geral, a ciência grega permaneceu contemplativa, separada da prática e sem o interesse de intervir na realidade. Uma possível explicação para isso pode residir no fato de que a sociedade grega era escravagista e, dessa forma, o trabalho braçal e, consequentemente, o aperfeiçoamento dos instrumentos técnicos utilizados não eram valorizados pelos pensadores gregos.

A partir do século XVII, com Galileu Galilei, tem início a moderna concepção de ciência com sua separação da filosofia. Galileu, em seus estudos de astronomia, faz uso da luneta para observar os astros e nas suas investigações de física recorre ao uso de matematização e experiências. Segundo Aranha & Martins:

A grande novidade da nova física foi o uso da experimentação e da matematização. Enquanto a física antiga era qualitativa, baseada nas qualidades intrínsecas das coisas, Galileu observava e realizava experiências em laboratório, usava instrumentos e descrevia quantitativamente os fenômenos.

Para compreender a queda dos corpos, Aristóteles indagava a respeito da natureza dos corpos pesados ou leves. Diferentemente, Galileu investigava “como” os corpos caem (e não “por que” caem) e depois, de repetir inúmeras experiências em um plano inclinado, descobriu a relação entre o espaço percorrido por um corpo em movimento e o tempo que leva para percorrê-lo. Expressou, então, a lei da queda dos corpos numa forma geométrica (2005, p.189).

Com a tendência crescente de valorização da razão e de um saber ativo, o método científico foi se desenvolvendo e sendo adaptado a outros campos do conhecimento, originando outras ciências particulares, como a astronomia, a química, a biologia, a sociologia, entre outras.

Enquanto o senso comum produz um conhecimento superficial e impreciso, a ciência busca um conhecimento preciso e objetivo, que possa ser comprovado, e, para isso, utiliza um método. A palavra método vem do grego meta, “através de” e hodós, “caminho”, portanto, indica a necessidade de buscar procedimentos adequados para atingir determinado objetivo. Faz-se necessário trilhar um caminho para atingir um objetivo, no caso da ciência a elucidação de um problema.

Em uma passagem de “As aventuras de Alice no país das maravilhas”, ela encontra um gato e pergunta: “Como posso sair daqui? O gato responde: Isso depende muito de para onde você quer ir. Alice explica: Não quero ir para lugar nenhum. Apenas, sair daqui. O gato retruca: Se você não vai para lugar nenhum, qualquer direção serve”. Daí a importância de se ter clareza de onde se quer chegar.

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O conjunto de procedimentos adotados pela ciência ao investigar um problema, configura o seu método. Nas ciências da natureza, como a física, a química e a biologia, que possibilitam a experimentação, as seguintes etapas são: observação do problema, hipótese, experimentação, generalização. Vamos ver, segundo Aranha & Martins, um exemplo de aplicação do método científico.

O carbúnculo, doença infecciosa provocada por bactéria, trazia inúmeros prejuízos aos criadores de gado quando, em 1881, o francês Louis Pasteur se ocupou com o assunto. Levantou a hipótese de que os animais poderiam ser imunizados caso fossem vacinados com bactérias enfraquecidas de carbúnculo. Separou, então, 60 ovelhas da seguinte maneira: em dez não aplicou tratamento algum; vacinou duas vezes outras 25, e após alguns dias lhes aplicou uma cultura contaminada por carbúnculo; não vacinou as 25 restantes, mas inoculou-lhes a cultura contaminada. Depois de algum tempo, verificou que as 25 ovelhas não vacinadas morreram, as 25 vacinadas sobreviveram e, comparadas com as dez que não tinham sido submetidas a tratamento, ficou constatado que a vacina não lhes prejudicara a saúde.

Esse procedimento clássico exemplifica o método das ciências experimentais. Inicialmente, apresenta-se um problema que desafia a inteligência humana: no exemplo dado, a doença que dizimava o rebanho francês. A partir do problema, o cientista elabora uma hipótese e estabelece as condições para o seu controle, a fim de confirmá-la ou não. Se não chegar a uma conclusão a partir da primeira suposição formulada, deverá repetir as experiências ou alterar inúmeras vezes as hipóteses. A conclusão é generalizada, ou seja, considerada válida não só para aquela situação, mas para outras similares (2005, p.178).

4 AS LUZES E AS SOMBRAS DA RAZÃO4

Segundo Adorno e Horkheimer, a humanidade tem buscado sempre, a partir do esclarecimento, superar o medo do desconhecido e atingir a posição de senhores. Mas isso levou a um problema: “a terra totalmente esclarecida resplandece sob o signo de uma calamidade triunfal” (1985, p.19). Isso se deve ao casamento infeliz realizado entre o entendimento humano e a natureza das coisas.

O mundo esclarecido se torna também desencantado. É um mundo despido de seus aspectos míticos e místicos. Um mundo onde tudo pode ser conhecido, controlado e numerado. Segundo os autores, a essência desse saber está na técnica. “A técnica é a essência do saber, que não visa conceitos e imagens, nem o prazer do discernimento, mas o método, a utilização do trabalho de outros, o capital” (1985, p.20).

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