(Parte 2 de 4)

2.6 CONCLUSÃO

Embora alguns acreditem que hebreu tenham assimilado a prática da circuncisão, não há evidências constantes que apoiam esta teoria, o mais provável é que os próprios hebreus tenham, em suas raízes mais remotas da época patriarcal, inserido tal prática em seus costumes de maneira independente a quaisquer outros povos sendo mantedores dessa tradição em suas praticas religiosas até a presente época. No antigo Israel, a circuncisão realizava-se no 8º dia de nascimento. Tinha um sentido de um sinal de aliança entre Deus e Abraão e seus descendentes, era um rito de inserção no povo eleito.

Deus terá tornado obrigatória a prática de circuncisão masculina, para Abraão, um ano antes de nascer Isaac. Todos os homens na casa de Abraão, tanto dos seus descendentes como os independentes, estava incluídos, e todos os seus escravos receberam em si este “sinal de pacto” onde entregava a Deus a sua aliança de carne (anel perpurcial) mostrando a reciprocidade acto de fé em seu corpo.

A desconsideração deste requisito era condenado a morte. A circuncisão tornou-se obrigatória na lei dada a Moisés (Levítico 12:2-3), isto era importante que se o 8º caísse no dia de sábado, teria-se de realizar a circuncisão.

Com a fundação do cristianismo, a circuncisão deixou de ser um requisito religioso obrigatório para os cristãos Judeus, embora não fosse expressamente proibida (At 15:6-29). A perspectiva da igreja católica é ao contrária a circuncisão (ritos Judaícos), desde seus primeiros dias. Conforme papa Eugénio IV oficializou na Bula de união com os Coptos, de 1442, a igreja manda todos os seus fieis que... “não pratiquem a circuncisão, seja antes ou depois de Baptismo, pois ponham ou não sua esperança nela, ela não pode ser observada sem a perda da salvação eterna”.

3.CAPITULO III

PERSPECTIVAS TEÓRICAS BÁSICAS SOBRE OS RITOS DE INICIAÇÃO

3.1 INTRODUÇÃO

Na sociedade tradicional moçambicana, os ritos de iniciação não se realizam de uma forma homogénea. Eles variam não só de província para província, mas também de religião para religião e de um sexo para o outro. Todavia, a educação de jovens é tida como objectivo comum em todos os casos, garantindo assim a integração dos jovens naquela sociedade. No caso da província do Niassa, existem dois tipos de ritos de iniciação: O DJANDO e O N’SONDO, para rapazes e raparigas respectivamente. Deve se também realçar que esses dois tipos de iniciação são característicos nas tribos influenciadas pela religião muçulmanas.

3.2 RITOS DE INICIAÇÃO

Para Matos, citado por Cipire (1996:26), a sociedade organiza as actividades educativas, a partir das mães lactentes, raparigas, rapazes adolescentes e mesmo os mais velhos, estas actividades são: a iniciação feminina, os ritos de iniciação masculino, a circuncisão, os contos e as lendas. A educação sexual é reservada para o tempo de iniciação, os pais não falam sobre isso.

O autor pretende falar mais dos ritos de puberdade, que a menina vai depois de apanhar a primeira menstruação e o menino vai depois da vivacidade física, psicológica e espiritual que os mais velhos lhe reconhecem. Actualmente não há muita observância destas normas, a maioria leva os seus filhos com sete a dez anos para submeter aos ritos de iniciação. Devido a esta educação os adolescentes casam com catorze a dezasseis anos concebendo até quarenta e cinco a cinquenta anos, nascem muitas crianças e também morrem muitas (Serra citado por Cipire 1996:33).

3.2.1 Preparativos De Jdando

Para Machael (1990:114), depois de garantidos os requisitos para sua efectivação (pessoal, alimentação, indumentaria e o acampamento), realizam se a cerimónia para a entrega dos iniciandos a estrutura do DJANDO. Essas cerimónias, têm lugar na casa do Nacanga, local indicado para a concentração dos iniciandos, seu familiares e outros convidados. Em regra, as cerimónias realizam-se na noite anterior, ao dia de partida dos iniciados para o acampamento, fazendo se acompanhar dos Alombwes. Nos ritos de iniciação masculina realiza-se a circuncisão Djando. O Djando é o costume na sociedade Yão, se por ventura alguém não realizar, é excluída de todas as danças, das cerimónias fúnebres e dificilmente consegue casar. Na escolha do jovem para os ritos de iniciação depende da sua vivacidade espiritual e o desenvolvimento físico que os mais velhos lhe reconhecem (mudança de to de voz, aparecimento de pelos, o crescimento rápido...). Os rapazinhos vão para a floresta para a grande passagem à adolescência, quando regressam a casa eles tomam parte as conversas dos mais velhos, eles podem ver cadáveres, assistir cerimónias fúnebres, casar e organizar uma família.

Organizado o dia faz-se uma grande festa, antes dos jovens partir à floresta. Em volta de uma grande fogueira os Ngalibas (Operadores) cantam e dançam com a população, isto acontece na casa do chefe tradicional (Régulo). É nesta noite onde o Ngaliba mostra as suas qualidades mágicas como atravessar pelo fogo sem se queimar, pilar na barriga de Ngaliba sem sentir dores... estes dançam até amanhecer. De manhã, todos iniciados são rapados o cabelo e queimam a roupa que simboliza a infância que deixa. Ao longo de partida o primogénito leva consigo uma galinha, os iniciados ignoram do que vai acontecer, mas tem na consciência que vão colher néctar (festa de mel) (Ferreira citado por Cipire 1996:35-36).

3.2.2 A Circuncisão

A circuncisão é uma operação cirúrgica que consista na remoção de prepúcio, prega cutânea que recobre a glande do pénis. Esta remoção chama-se Exerese do Prepúcio, Pretomia ou Postectomia (Anon,2010: 1). A Organização das Nações Unidas defende que a Circuncisão reduz o risco de contrair o HIV-SIDA. A circuncisão provem do Latim Circum e Cisióne, que quer dizer “ Cortar ao redor” e actualmente é praticada em todo o mundo (Anon,2010:1). Nos Estado Unidos de América 75%/80% dos Homens são Circuncidados.

Para Machael (1990:116), chegados no acampamento, os rituandos são imediatamente submetidos à circuncisão. Esta, sendo acto doloroso, acarreta inevitavelmente choros e gritos. Para impedir que aqueles sejam ouvidos por pessoas alheias aos ritos, o que provavelmente causariam medo nas crianças não iniciadas, os Alombwes fazem todo quanto esteja ao seu alcance: tocam tambores com maior rigor, dançam e cantam alto. Também tem sido prático tapar os olhos dos iniciandos para impedir que estes vejam o material usado na circuncisão. Como tratamento das feridas causadas pela circuncisão, utilizam a seiva da parte inferior do cacho da banana ou cinza de algumas plantas. Esse tratamento é feito só no primeiro dia, após a circuncisão.

Para Cipire (1996:36), no dia seguinte os iniciados marcham para a mata. Esta marcha é interrompida em cada cinco metros por grupos de assaltantes mascarados que lançam gritos tenebrosos para assustar os garotos. Chegado o local, o padrinho tapa-lhe os olhos e os tambores e apitos rufam para que eles não oiçam os gritos dos outros a serem circuncidados. O tutor ou o padrinho obriga-lhes a sentar e prende-lhes suas pernas às suas. Por vezes mete-lhe um pauzinho entre os dentes para melhor suportar as dores. Assim o Ngaliba aproxima-se do garoto, há relâmpago corta o prepúcio numa só vez, mesmo que não remova todo prepúcio não repete. Esta ideia entra em contraste com o que disse Weguer citado por Amide (2008:73) que a circuncisão é feita por meio de dois golpes um por baixo e o outro por cima com um canivete bem afiado ou uma navalha de barba. Ainda Cipire argumenta que as navalhas são levadas ao fogo para evitar a infecção de HIV/SIDA. Ferreira, citada por Cipire (1996:39), diz que no dia da circuncisão é vedado os pais a manterem relações sexuais entre si, segundo a tradição, conduziria a morte do seu filho.

Amide (2008:73-74), nega alguns pensamentos errados de alguns autores que pensam mal sobre os ritos de iniciação femininas assim como masculinas, Segundo ele, os Etnólogos e os Antropólogos europeus dizem que nos ritos de iniciação há violação dos direitos humanos, mas, em contrapartida não avançam as propostas para colmatar este problema. Consideraram como violação dos direitos humanos na medida em que os Jovens são despidos e operados violentamente, fazendo-lhe a ablação do prepúcio por meio de dois golpes, um por baixo e o outro por cima, com um canivete bem afiado ou uma navalha de barba, assim como as raparigas são violadas quando são cortadas os clitóris ou então na forma como untam a vagina da menina de oito a nove anos com óleo de rícino para introduzir um ovo quente, de pombo, no órgão sexual da menina Yão, e as meninas macuas conforme os antropólogos europeus dizem, em vens de ovo os macuas usam o “pau” para servir como órgão sexual masculino, para assim poder mexer o sexo da menina (Martinez, citado por Amide 2008:74).

3.2.3 A Estrutura Responsável De Djando

No que diz respeito ao pessoal, para além dos próprios iniciados e convidados, são contactadas outras pessoas que no seu todo, formam a estrutura responsável pelo DJANDO: N’galiba, Nakanga, Atchitonombe, Lombwe’Nkulo, Ntomo e N’tchando ( Michael, 1990:114-115).

1 - N’galiba, é a pessoa responsável pelo acto da circuncisão e pela saúde de todas as pessoas envolvidas na efectivação do DJANDO. N’galiba é a pessoa competente na sua actividade profissional.

2- Nakanga, é o supervisor geral do DJANDO. Ocupa se com a recolha de conselhos, críticas, observações e recomendações confidenciais dos velhos quer, pela sua idade avançada, pode ou não querer passar pelo acampamento do Djando. Ele nomeia e demite os Atchitonombe e Lombwe’Nkulo. Para ser Nakanga, basta ser o primeiro a tomar iniciativa de iniciar os filhos.

3- Atchitonombe, orienta todos os exercícios matinais e decide sobre a reeducação de todo e qualquer iniciado. Na ausência do Nakanga é a Atchitonombe quem o substitui.

4- Alombwe’Nkulo, é a pessoa designada para controlar todas as actividades dos Alombwes.

5- Antomo, é a pessoa a quem é confiada a tarefa acompanhada directa e indirectamente os iniciados. São escolhidos segundo a preferência dos pais dos iniciandos.

6- Os Alombwes, são acompanhantes particulares dos iniciados e tem as seguintes competência:

6-1 receber a comida para os iniciandos, cujo o consumo é sempre colectivo. Caso a comida não seja suficiente então aguarda se até que chegue para todos.

6-2 defender o iniciado a sua responsabilidade (quando necessário), no caso de ser condenados a pena maior.

6-3 informar os pais sobre o estado de saúde de seu iniciado.

6-4 recolher dos pais novo nome para os seus filhos recém iniciados

7- N’tchamdo, ele é nomeado de entre os iniciados do Nakanga. Normalmente é o iniciado mais velho (1º a ser circuncidado). O Tchamdo responde pelos seus colegas durante os tempos de repouso ou de actividades recreativas. Sob suas ordens, os iniciandos podem ou não maltratar qualquer pessoa que viole o código ritual, pondo em causa os tempos livres.

3.3 AVIDA NO ACAMPAMENTO

Para Michael (1990:116), Findo o processo de circuncisão, segue se a fase de mitificação dos iniciandos. Nesta fase, o papel mais importante é desempenhado pelos acompanhantes particulares (Alombwe), que se encarregam de inculcar nos iniciados uma série de mitos e tabus. A não aceitação desses mitos e tabus, sempre é tida como fundamento as penalizações, incluindo as chicotadas. Para se garantir que não haja a fuga de informações sobre os sofrimentos a que os jovens são submetidos nos ritos, utiliza-se a ameaça da morte de uma das pessoas mais importantes da família (pai, mãe, tio, irmão...). Para Alberto, citado por Cipire (1996:37), durante o tempo de cicatrização os jovens constroem cabanas de capim onde dormirão durante a administração do rito educativo. Neste tempo, cada família do iniciado deve entregar alimentação todos os dias.

3.3.1 Os ensinamentos nos ritos de iniciação

Para Matos, citado por Cipire (1996:26) esses ensinamentos têm a finalidade de garantir um comportamento digno dentro da comunidade, a paz e felicidade de todos. Os iniciados são preparados a maneira como devem escolher o seu futuro cônjuges e a maneira como devem sustentar a sua esposa e seus filhos.

Cipire (1996:34) fala da necessidade de iniciarmos os nossos jovens que é para garantir a passagem de uma fase de vida para outra, preparando o jovem para enfrentar a vida adulta, assim o jovem sente-se realizado e capaz de enfrentar e solucionar os problemas em relação a comunidade onde está inserido.

Para Lobo citado por Cipire (1996:35), nos ritos de iniciação os jovens aprendem a sofrer: habituam-se a comer pouco e a beber menos, a levar pancadas, em fim todas as durezas de vida. Até são ensinados a caçar. O sofrimento faz homem e muda a maneira de ser.

Para Miqueias (1996:180), depois da circuncisão, chega-se a fase de cicatrização, neste período ocorre a instrução dos jovens na tradição do povo, conhecimentos sobre o ciclo vital e sua fase, a vida social como é vivida, a vida sexual como é encarada (matrimónio), isto é, acompanhado com a manipulação dos órgãos genitais, danças, provérbios, aprendem também a caçar, os tabus...

Nas cabanas eles aprendem os usos e costumes do seu clã, do comportamento a ter com os mais velhos, as mulheres, a esposa e a seus filhos. São ensinadas também a não roubar, a ajudar os pais nas actividades caseiras como a construção de casa, a fabricar instrumentos de caça, utensílios (pilão, esteira, peneira...), a não bater filhos dos vizinhos, a se colocar em primeiro lugar nas tarefas e nos trabalhos de família. Ensinam-lhe também a tarefa de um bom pai, como se encarar com a mulher sexualmente. O jovem é ensinado a ter um bom comportamento na sociedade e a relacionar-se bem com os outros. Em regra geral esses ensinamentos são transmitidos através de canções, provérbios, contos e lendas (Alberto, citado por Cipire 1996:37).

Os jovens são ensinados para serem bons pais dos seus filhos: conviver com as suas esposas, tudo que refira da vida intima sexual, os seus tabus, interdições de manter relações sexuais com mulheres da mesma linhagem, não fazer as relações sexuais com a mulher menstruada ou a amamentar, a respeitar a sogra, o genro não pode apertar a mão à sua sogra, porque é ela que gerou a sua esposa, por isso não pode manter qualquer relação intima (Cipire 1996:38).

São ensinados a começarem relações sexuais na idade própria (depois dos ritos) só com rapariguinhas, evitando tê-las com adultas (Ferreira, citado por Cipire 1996:39).

Amide não concorda com algumas ideias de alguns autores que dizem, “a menina não deve negar nenhum homem” se os pais dizem “tens de te cuidar meu/minha filho/a” ou “tens de ter cuidado dos homens e das mulheres ”, “preserva-te meu filho/a”. Ainda Ngunga recorda Amide uma canção que sempre no Djando cantam:

Nankopoka lelo chititi che gombo; kumusi kuankujako nambo Nkaligose

Que quer dizer, “tu és neófito, hoje és caule mais leve de bananeira, lá em casa para onde vais, cuida-te e conserva-te”.

Amide não só nega as ideias dos etnólogos e antropólogos, mas também, do que diz Cipire (1996:39) que entre os macuas é recomendado que os jovens fassam sua estreia sexual nos primeiros três dias após o regresso do acampamento. O autor concorda do que disse Cipire, este acto chama-se “otatha makurya” que quer dizer “lubrificar o pénis na vagina”, isto para não apodrecer o sexo do recém iniciado. Esta é a verdade que se vive nos ritos de iniciação, só que Amide é muito optimista. Ele fala muito mais da educação dos nossos pais e não dos ritos de iniciação.

Amide (2008:76-78), apela aos outros autores que não só criticarem os aspectos negativos dos ritos de iniciação, mas também devem apontar os aspectos úteis que se ensinam noas ritos de iniciação como: 1- o Valor da vida; 2- o respeito; 3- a sexualidade; 4- temperança, 5- o amor, o namoro e o casamento; 6- a responsabilidade; 7- o valor de trabalho; 8- o valor do sofrimento; 9- a coragem, 10- ser social, amor e amizade; 11- os antepassados e 12- a morte.

1- Valores da vida, no Djando ensinam como se transmite a vida, através da união entre o homem e a mulher em família e não no contexto da relação extra-conjugal, homossexual e lésbia. Como conservar o bebé dentro da barriga e nada do aborto.

2- Respeito, lá ensinam a se respeitar e a respeitar os outros (pai, mãe, familiares e outras pessoas), com palavras e obras práticas (comportamento). E assim se diz “o respeito não se pede, mas conquista-se através do seu comportamento respeitoso”.

3- Sexualidade, segundo Martinez, citado por Amide (2008:76), diz: nos ritos de iniciação, os rapazes assim como as raparigas aprendem as técnicas e a arte da vida sexual íntima que agora deve pôr em prática, Amide nega esta afirmação (2008:77) para ele o sexo tem grande valor quando usado no amor entre os dois proporcionando um bem maior para os dois e não uma realização egoística (cada membro envolvido luta para satisfazer os seus próprios desejos).

4- Temperança, a temperança faz com que a pessoa ganhe um carácter aceitável pela sociedade e uma personalidade digna de ser confiado, essas pessoas são consideradas sábias, conselheiras, e são indicadas para ajudar o régulo na resolução dos problemas. Ensina-se para controlar-se, equilibrar-se sexualmente, para não ser corrupto (Diule) quer dizer, “quando vem o sexo oposto quer despir para fazer as relações sexuais”.

5- Amor, Namoro e Casamento, Weguer e Calandre, citado por Amide (2008:77), descreve o amor Yão como um “amor animal” excitado unicamente pela paixão carnal, um homem dá autoridade para sua esposa, e muitas vezes trata como escrava. Amide, nega estas narrações, porque no rito se ensina, antes de casar, que a pessoa deve se preparar moralmente e economicamente, tendo machambas, casa, testemunhar o casamento com os tios e os pais. E são ensinados que a beleza não come, no acto de escolha, é necessário ver o tipo de família vem a moça/o e qual é a conduta moral daquela família. Weguer e Calandre, citado por Amide (2008:77), ainda dá a apreciação positiva dos ritos de iniciação no povo Yão, que se ensina no amor aos pais, regras e normas higiénicas diversa em relação ao matrimónio, e as preocupações necessária para evitar as superstições e doenças.

6- A responsabilidade, nos ritos de iniciação se ensina que a pessoa deve saber responder pelos seus próprios actos, deve se interessar com os seus irmãos da família, ou dos seus pais já velhos e ver se os seus familiares, clã, tribo vão bem.

7- O valor de trabalho, nos ritos de iniciação se ensina que o trabalho constrói o homem. Aquele que não gosta de trabalhar é um papagaio sem peso, sem responsabilidade, acaba morrendo de fome, pode não casar, e se casar ele vai expulsar sua família e refugiar se nos seus pais.

8- O valor de sofrimento, lá ensina-se que no mundo há tantas coisas que podem causar sofrimento como: o trabalho, a pobreza, as doenças, as calamidades naturais... ninguém deve fugir destes problemas, mas, devemos trabalhar e ajudar os outros (assim estaríamos a lutar contra estes males que preocupam a população). Ninguém nasceu para sofrer, mas a dor nos faz crescer.

9- A coragem, lá fazem passar os rapazes por algumas provas ou sacrifícios, para lhe ensaiar, e ensinar que devem ter coragem em muitas situações de vida. Os iniciados devem defender com coragem a família, a aldeia em momentos de perigos.

Um Comandante da Polícia da República de Moçambique, numa reunião na Escola Secundária Paulo Samuel Kankhomba em Lichinga, criticou que nos ritos de iniciação há muitas “tonturas”, diz Amide, porque ele leu um livro de antropologia e nunca participou nos ritos de iniciação, confundindo assim “contextos e os ambiente ” concluiu que as aprovações que existem nos ritos de iniciação não chegam e nem aproximam daquele que existem na tropa. Então se durante os treinos de serviço militar, as aprovações não são de pouca coragem, e mesmo assim dizem que não são tonturas (violências) muito menos são tonturas as provações dos ritos de iniciação. Para Clastres (1982:80), os jovens são submetidos as provas físicas muito penosas e uma dimensão de crueldade e de dor que torna esta passagem um acontecimento inesquecível: a tatuagem, a escarificação, flagelação, picada de vespas, ou de formigas que os jovens iniciados devem suportar ao mais profundo silencio, eles desmaiam, mas sem gemer, nesta morte provisória, surge claramente a identidade de estruturar que o pensamento indígena estabelece entre o nascimento e a passagem.

10- Ser social, amor e amizade, lá ensinam a viver em sociedades, que quando nascemos passamos mão em mão, e encontramos pessoas que querendo como não, nos ensinam algo sem termos em conta. Qualquer um, precisa do outro para viver, um amigo é mais que uma família.

11- Os antepassados, nos ritos de iniciação explicam que os antepassados são os ancestrais que por meio deles recebemos a vida e nos deixaram a herança de nossa tradição cultural. Eles já adiantaram para ficar junto do criador e agora estão em forma de espíritos que nos intercedem junto do criador da vida. Por isso, devemos continuar à venerá-los para não ter azar, seca, doenças, por meio deles podemos ter chuva, boa produção, filhos.... Fazendo assim, estamos em comunhão com eles e com o criador, esta relação chama-se religião.

12- A morte, no fim dos ritos de iniciação ensina-se que ninguém vai escapar-se da morte, para tal, precisamos de nos preparar psicologicamente para encarar esta realidade com naturalidade, ela vem nos momentos impróprios. A morte constitui uma passagem deste mundo para ir fazer parte de comunhão com os antepassados, mas somente no caso em que tivermos vivido bem e tivermos feitos boas obras. Por isso ensinam a fazer o enterro usando um pau sagrado chamado Nzizi. Este é enterrado desde o primeiro dia da iniciação até ao fim. O Nzizi constitui o coração ou centro de todas as cerimónias e enigmas durante o rito de iniciação.

3.3.2 Entrega de alimentação

Como vimos anteriormente, uma das funções dos Alombwes é receber a comida dos iniciados. A comida é recebida no posto de controle, onde um ou dois Alombwes se encontram de permanência (Machael 1990:117). As pessoas que trazem a comida, devem entoar no mínimo ou por norma mais de cinco canção cujo conteúdo deve ser o tipo de comida trazida e outras põem código nas canções, se os iniciados não conseguem descodificar perdem a comida, esperando outra oportunidade. Por isso os Alombwes, quando vêem que o caril foi bem confeccionado põem mais códigos nas canções para ganharem a comida, se os iniciados não conseguem descodificar as canções os Alombwes comem na toda, em sua substituição fazem o molho de carvão e obrigam os iniciados a comê-lo. Ninguém deve recusar nem reclamar. Aqui nota-se que a violência dos direito dos iniciados, mas para eles, os iniciados devem lutar para sua sobrevivência, quem não se esforça morre de fome.

3.3.3 As Visitas

As visitas são admitidas, desde que sejam capazes de satisfazer correctamente todas as exigências do Djando. Os hospedes devem ser capazes de descodificar todas as canções que normalmente os iniciandos cantam para os receber. Caso um dos hospedes não consiga descodificar uma das canções, o facto é considerado muitas vezes violação do código ritual que ate leva aos hospedes a serem castigados drasticamente. O mesmo acontece com os hospedes que não sabem cantar as canções entoadas pelos iniciados (Machael, 1990:117).

3.3.4 O Regresso à Casa

Para Machael (1990:114), quando faltam poucos dias para regressar a casa, os iniciandos, vestidos de esteiras de bambu ou de caniço e comandados pelo Ntchando, é costume efectuar visitas aos familiares. É durante essas visitas (que sempre se realizam a noite) que cada um dos iniciados presta declaração em como ultrapassou este ou aquele defeito, ao mesmo tempo que anuncia o seu novo nome. Para Miqueis (1996:), a imposição do novo nome reflecte: 1º a infância que deixa, 2º a responsabilidade que o jovem tem para encarar a comunidade e 3º reflecte o esquecimento do dia da circuncisão. Se a pessoa chama-lhe com o nome que deixou é um insulto grande até pode pagar uma multa correspondente (Wuntuliwa). A imposição do novo nome é feito em grupo, a noite eles vão deixando os seus nomes, cada um na sua família e vão anunciar o seu novo nome.

No último dia, queimam todas as cabanas do acampamento, não deixando qualquer vestígio. Nesta mesma noite, os iniciados regressam a casa. É noite de festa: comem, bebem, dançam... a partir do momento que regressam do acampamento, os recém-iniciados são considerados como homens, devendo gozar todos os direitos dos mais velhos (Machael, 1990:118).

Para Cipire (1996:39), no dia de regresso a casa, toda roupa usada durante a iniciação é queimada, e os jovens recebem uma nova. Queimam a cabana que utilizaram todo o período de ritos de iniciação. Pintam se todo corpo, com farinha de milho. Recebem um nome novo abandonando lhe aquele que lhe foi atribuído durante o nascimento. No tempo que é lançado o fogo na cabana os jovens deitam se de braços no chão de forma a não presenciarem as chamas, se isso acontece, o iniciado que ver o fogo nunca mais vai ter filhos ou o seu pénis vai ficar torto.

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