Claude Lévi-Strauss - Tristes Trópicos

Claude Lévi-Strauss - Tristes Trópicos

(Parte 1 de 13)

1 PARTIDA

Odeio as viagens e os exploradores. E eis que me pre· paro para cantar as minhas expedi<;6es. Mas quanta tempo levei para decidir-me! Quinze anos se passaram desde que pela l1ltima vez deixei 0 Brasil e, durante todo esse tempo, frequentemente projetei a reda~o deste livro; de eada vez, uma especie de vergonha e de aseo me impediram. E entao?indispensavel narrar milidamente tantos pormenores in- \ sipidos, tantos acontecimentos insignificantes? A aventura DaO tem lugar na prafisslia de etn6grafo; ela e apenas a sua servidao, pesa sObre 0 trabalho eficaz com 0 ~so das semanas ou dos meses perdidos em caminho; das horas inuteis enquanto o informante se oculta; da fome, da fadiga, por vezes da e sempre, desses mil trabalhos penosos que roem os dias em pura perda e reduzem a vida perigosa no da floresta virgem a uma do militar.,. Que tantos es-e vaos sacrificios sejam necessarios para atingir 0 objeto

/dos nossos estudos, isso em nada valoriza ° que se deveria 'considerar antes como a aspecto negativo do nosso oficio. 86 despojadas dessa ganga e que adquirem valor as verdades que vamos buscar tao lange. Podem-se, certamente, gastar seis meses de viagem, de e de enjoativa lassitude na co- Iheita (que tamara alguns dias, por vezes algumas horas) de urn mito inedito, duma desconhecida regra de casamento, duma

!ista incampleta de nomes de um cla, mas esta esc6ria da lembran~: "As 5 h. da manha entramos na baia de Recife, enquanto pipilam as gaivotas e uma flotilha de vendedores de frutos ex6ticos se espremem ao longo do casco" - umatao pobre mereceni que eu tome da pena para fixA-Ia?

Entretanto, esse genero de narrativa encontra uma acolhida que, para mim, continua inexplicavel. A AmazOnia, 0 Tibe e a Africa invadem as lojas sob a forma de livros de viagem,

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10 TBISTES TR6PICOS 1 relatorios de expedi!:iies e l.lbuns de fotografias em que ado efeito domiua demais para que 0 leitor possa apreeiar 0 valor do testemunho por eles trazido. Louge de despertar 0 seu espfrito critico, solicita eIe eada vez mais desse alimento, e 0 engole em quantidades prodigiosas. Atualmente, ser explorador transformon-se Dum oficia; offcfo que consiste nao, como se poderia crer, em descobrir, ao termo de anos estudiosos, alguns fatos que permaneceram desconhecidos, mas em percorrer urn mlmero elevado de quil6metros e em rennir fixas ou animadas, de preferencia coloridas,As quais encher-se-a uma sala, durante muitos dias, com uma multidao de auditores para quem a insipidez e as banalidades parecerao miracnlosamente transmudadas em re-pelo unieD motivo de sen autor, em Ingar de compila-Ias no sen gabinete, t43-las santificado por urn percurso de vinte mil quilometros.

Que ouvimos nessas conferl§ncias e que lemos nesses livros? A enumera~ao das caixas transportadas, as reinaif)es do cachorrinho de bordo, e, misturados as anedotas, pedacos de desbotada que se arrastam M urn seculo em todos os manuais' e que uma dose pouco comum de impudencia.

mas em justa com a ingenuidade e a ignorancia dos consumidores, nao hesita em apresentar como urn teste- munho, que digo? como uma descoberta original. Ha exce-sem duvida, e cada epoca conhece viajantes dignos de fe; eutre os que hoje partilham os favores do pUblico, eu citaria prazeirosamente urn ou dois. Meu fim nao e denunciar as rnistificac6es ou distribuir diplomas, mas antes compreender urn fenomeno moral e social, muito particular a Franga e derecente, mesmo entre n6s.

Quase nao se viajava ha uma vintena de anos, e naD eram as salas Pleyel cinco ou seis vezes lotadas que acolhiam os narradores de aventuras, mas, unico Ingar em Paris para esse genero de manifesta!t>es, 0 pequeno anfiteatro sombrio, glacial e arruinado que Deupa urn velho pavilhao num canto do Jardim BoW-uico. A Sociedade dos Amigos do Museu ai organizava todas as semanas - e talvez continue a faze-lo - conferencias sobre as ciencias naturais. 0 aparelho de projecao enviava a uma tela demasiadamente grande, com lampadas excessivamente fracas, algumas sombras imprecisas de que 0 conferencista, com 0 nariz colado a parede, mal chegava a perceber os contornos e que 0 publico qnase nao distinguia das manchas de umidade que maculavam os IDuros.

Quinze minutos depois da hora auuuciada, pensava-se aiuda com aDglistia se viriam outros ouvintes alem dos raros freqtientadores cujas silhuetas esparsas povoavam a plateia. Quando 0 desespero se anunciava, a sala se enchia pela metade com criancas acompanhadas das maes ou de empregadas, nmas avidas de urn espetaculo gratuito, outras cansadas do barulho e da poeira de fora. Diante dessa mistura de fantasmas roidos de e de gurizada impaciente - suprema recompensa de tantos de tantos cuidados e de tantos tra- balhos - llsava-se do direito de desencaixotar urn tesouro degeladas para sempre por uma tal sessao, e que, falando na penumbra, sentiamos desprender-se de n6s e cair uma a uma, como pedras no fundo de urn :tlOCo.

Tal era 0 retorno, pouco mais sinistro que as solenidades da partida: bauquete ofererido pelo "Comite Frauce-Amerique·' num palacete da avenida que hoje se chama Franklin Roosevelt; residencia desabitada onde, lleSsa ocasHio, urn hoteleiro vinha, eom duas horas de antecedencia, instalar 0 seu acampamento de panelas e de sem que urn apressado arejamento pudesse purgar 0 lugar de urn odor de

Tao pouco habituados a diguidade de tal lugar quauto ao tedio poeirento que ele exalava, sentados em tarno de uma Illesa pequena demais para urn vasto saHio de que mal se tinha tido tempo de varrer a parte central, efetivamente ocupada, tomavamos contacto pela primeira vez uns com os outros, jovens professores que mal acabavamos de estrear nos nossos liceus de provincia, e que 0 capricho urn pouco perverso de Georges Dumas ia bruscamente transferir - da umida invernagem das pens5es de sub-prefeitura, impregnadas de urn cbeiro de grogue, de porao e de sarmentos apagados - para os mares tropicais e para os navios de luxo, experil§ncias essas, de resto, destinadas a oferecer longinqua rela~o com a imagem iuelutavelmente falsaque, pela fatalidade propria as viagens, ja nos forjavamos.

Eu tiuha sido aluuo de Georges Dumas ua epoca do Tratado de Psicologia. VIDa vez por semana, ja nao me recordo se na quinta-feira ou no domingo pela manha, ele reunia os estudautes de filosofia uuma sala do Hospicio Sainte-Aune cuja parede oposta As janelas estava inteiramente coberta depinturas de alienados. Todos ja se sentiam ali expostos a' uma especie particular de exotismo. S6bre urn estrado, Dumas instalava 0 seu corpo robusto, talhado a machado, coroado de uma amassada que parecia uma

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12 O. LEVI-STRAUSS TRISTES TR6pICOS 13 grande raiz e descascada por uma permanencia no fundo do mar. Pois a sua tez c5r de cera unificava 0 rosto e os cabelos brancos, que ele cortava a escovinha, e a barbicha, igualmente branca e que crescia em todos os sentidos.:E'::sse curioso destr()c;;o vegetal, ainda das suas radiculas, tornava-se de repente humano pelo olhar de seus olhos negros que acentuavam a brancura da oposi~o que continuava na camisa branca e no colarinho engomado e dobrado, contrastando com 0 chapeu de abas largas, a "laval- liere" eo' terno, sempre pretos. Seus eursos nao ensinavam grande coisa; ele jamais os preparou, seguro que estava do encanto fisieo que exerciam s5bre 0 seu audit6rio 0 j5go expressivo dos seus labios deformados por um rieto m6vel e sobretudo a sua voz, rouea e melodiosa: verdadeira voz de sereia eujas estranhas infle.xoes DaO lembravam apenas 0 seu Languedoc natal, mas, muito menos que particularidades regionais, mOOos muito arcaicos da musica do frances falado, de tal forma que voz e rosto evocavam, em duas ordens sensiveis, urn mesmo estilo simultaneamente rustico e incisivo: 0 dos humanistas do seculo XVI, medicos e fil6sofos cuja pelo corpo e pelo espirito, ele parecia perpetuar.

A segunda hora, e as vezes a terceira, era reservada ade doentes: assistfamos entao a cenas estupendas entre 0 especialista astuto e sujeitos treinados por anos de asilo em todos os exercicios desse tipo; sabendo muito bern o que se esperava deles, produziam perturba!:5es ao sinal con- vencionado ou resistiam 0 suficiente ao domador para fornecer-Ihe a ocasiao de urn "ntimero Sem ser 10- grado, 0 audit6rio deixava-se de born grado fascinar por essasde virtuosismo. Quando se merecia a do mestre, era-se recompensado com a entrega de urn doente, com uma particular. Nenhum contacto com in- dios selvagens me intimidou mais do que a manha passada com uma velha senhora enrolada em blusas de malha, que parecia urn arenque podre no meio de urn bloco de gelo: intacta na aparencia, mas amea~ada de se desintegrar desde que 0 envolt6rio protetor derretesse. 1:sse sabio urn pouco mistificador, anirnador de obras de sintese cujos amplos objetivos permaneciam ao de urn positivismo critico assas decepcionante, era urn hornem de grande nobreza; devia revela-Ia mais tarde, logo ap6s 0 armis- ticio e pouco antes da sua morte, quando, ja quase cego e retirado na sua cidade natal de Ledignan, fez questao de me escrever uma carta atenciosa e discreta, eujo tinieo objetivo possivel era afirmar a sua solidariedade com as primeiras vftimas dos acontecimentos.

Sernpre lamentei nao have-Io conhecido em plena juventude, quando, moreno e queimado como urn conquistador e todo impaciente pelas novas perspectivas cientificas abertas pela psicologia do Beculo XIX, partira a conquista espiritual do Novo Mundo. Ness:a especie de arnor a primeira vista que se ia produzir entre ele e a sociedade brasileira, manifestou-se certamente urn fen5meno misterioso quando dois fragmentos duma Europa velha de 409 anos - e da qual certos elementos essenciais se haviam conservado, por urn lado, numa familia pi'otestante meridional, e, por outro, numa burguesia muito refinada e urn pouco decadente, vivendo molemente sob os tr6picos - se encontraram, se reconheceram e quase se ressoldaram. 0 erro de Georges Dumas foi 0 de jamais ter tido consciencia do carater verdadeiramente arqueol6gico desta0 tinico Brasil que ele soube seduzir (e ao qual uma breve passagem pelo poder ia dar a iIusao de ser 0 verdadeiro) era 0 dos proprietarios agrfcolas deslocan.do progres- sivamente seus capitais para industriais com parti-estrangeira, e que procuravam uma cobertura ideol6- gica num parlamentarismo bern educado; os mesmos que os nossos estudantes, provindos de imigrantes recentes ou de fazendeiros ligados a terra e arruinados pelas flutua!:5es do co- mercio mundial, chamavam com rancor os gran/ino8. Coisa curiosa: a fundarao da Universidade de Sao Paulo, grande \obra na vida de Georges Dumas, devia permitir a essas classes modestas com~ar a sua ascensao, obtendo diplomas que Ihes abriam acesso as posi!:5es administrativas, de tal forma que a nossa missao universitaria contribuin para formar uma nova "elite", que se ia afastar de n6s ua medida em que Dumas, e 0 Quai d'Orsay atras dele, se recusavam a compreender que era ela a nossa mais preciosa, embora se entregasse a tarefa de solapar uma classe feudal que nos havia, e verdade, introduzido no Brasil, mas para servir-lhe em parte de e em parte de passatempo.

Porem, na noite do jantar "France-Amerique", nao nos preocupavamos ainda, meus colegas e eu - e nossas mulheres, que nos acompanhavam - em rnedir 0 papel involuntario que

'famos desempenhar na 'L~ao da sociedade brasileira. Estiivamos demasiadamente ocupados em nos fiscalizar mutuamente dU SOlUdU S 'e lEln'elS;

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14 o. LEVI-STRAUSS e os nossoS eventuais passos em falso; pois tinhamos side prevenidos por Georges Dumas de que nos preeisavamos preparar para levar a vida dos nossos novas senhores: isto e, o Autom6vel Clube, os cassinos e os hip6dromos. ISBa pareCla extraordimirio a jovens profess(')res que antes ganhavam 26.0 francos por ano, e meSilla - tao raros eram os candidatos it - depois que os nossos honorarios se triplicaram.

"Sobretndo", havia-nos dito Dumas, "teremos de nos vestir bern"; e preocupado em nos tranqiiilizar, ajuntava com uma candura bern tocante que issa poderia ser feito muito economicamente, naG longe do mercado, nUID estabelecimento chamado "A la Croix de Jeanette" de que jamais tivera queixas nos tempos em que era urn jovem estudante de medieina em

Paris.

Nao adivinhAvamos, em todo caso, que, durante os quatro ou cinco anos que se seguiram, nosso pequeno grupo estava destinado a constituir - salvo raras exce~es - 0 efetivo inteiro da primeira classe nos paquetes mistos da Companhia de Transportes Maritimos que servia a America do SuI. Tinham-nos proposto a segunda no unico navio de luxe que fazia essa linha ou a primeira em navios mais modestos. Os intrigantes escolhiam a primeira f6rmula, pagando de seu bolso a com isso esperavam aos embaixa- dores e dai tirar problematicas vantagens. N6s outros tomavamos os vapores mistos, que levavam seis dias a mais, porem dos quais eramos senhores e que faziam numerosas escalas.

Hoje, gostaria que me fOsse dado, hA vinte anos atras, apreciar em seu justo valor 0 luxe extraordinario, 0 real pri- viIegio que consiste na exclusiva por oito ou dez passageiros, do conves, das cabinas, da sala de estar e da sala de jantar de primeira classe, num navia construido para acomodar 100 ou 150 pessoas. No mar, durante dezenove dias, esse espa~ tornado quase sem limites pela ausencia de outrem, era-nos uma provincia; nosso apanagio se movia conoseo. Ap6s duas ou tres travessias, reencontravamos nossos navioo, noosos habitos; e conheciamos pelos nomes, antes mesmo de embarcar, todoo esses excelentes camareiros marselheses, bigodudos e de sapatos grossos, que exalavam urn poderoso odor de alho no instante mesrno em que nos serviam os supremos de frango e os files de rodovalho. As refei('5es, normalmente pantagruelicas, mais pantagruelicas se tornavam pelo fate de sermos pouco numerosos a consurnir a cozinha de bordo.

o fim de uma a com~ de outra, a subita descoberta pelo nosso mundo de que com~a a tornar-se pe-

'queuo demais para os homens que 0 habitam, nao Sao tanto

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