LIVRO EDUCAMPO 2016.compressed
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No capítulo Interdisciplinaridade e licenciatura em educação do campo, Cássia Ferreira Miranda e Maciel Cover apresentam experiências do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus de Tocantinópolis. Miranda e Cover mencionam as estratégias utilizadas para efetivar a interdisciplinaridade com base
Educação do campo, artes e formação docente na proposta formativa do curso e analisam o Projeto Pedagógico do Curso (PPC) e as experiências com a realização de atividades vinculadas às disciplinas Seminários Integradores I, I, II e IV nos tempos2 universidade e comunidade.
Em Percurso metodológico para construções identitárias na formação de professoras e professores do campo no norte do Tocantins: reflexões a partir da experiência com o curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da UFT – Câmpus Tocantinópolis- TO, Ubiratan Francisco de Oliveira apresenta algumas reflexões sobre a criação e o funcionamento, a partir das experiências metodológicas, do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da UFT, explicitando as características próprias da educação, dos sujeitos e sujeitas do campo. Traz uma experiência de atividade com os alunos do curso sobre a “História de Vida”, desenvolvida no tempo universidade e tempo comunidade.
Para fechar a primeira parte, a obra traz o capítulo A reforma agrária e a educação no campo, potencialidades para a promoção do desenvolvimento territorial: um estudo sobre a região norte do Estado do Tocantins, de Sidinei Esteves de Oliveira de Jesus e Rosa Ana Gubert. O trabalho apresenta resultados de um estudo a respeito da importância da reforma agrária e da educação do campo no Brasil,
2 Inspirado na proposta formativa da Pedagogia da Alternância, o curso de licenciatura caracterizado adota dois tempos e dois espaços formativos diferentes: Tempo Universidade (período de aulas na universidade) e Tempo Comunidade (período de permanência no meio socioprofissional ou comunidade, espaço social em que os discentes desenvolvem suas pesquisas, isto é, estabelecem a relação teoria/prática).
Introdução como meios para tentar resolver os confrontos pela posse de terra entre latifundiários e camponeses.
É assumida na pesquisa a abordagem qualitativa, conduzida a partir de levantamentos bibliográficos baseados em autores/ pesquisadores que têm se debruçado sobre essa temática nos últimos anos. Fundamentam o trabalho autores como Oliveira (2007), Fernandes (2008), Feliciano (2006), Guanziroli et al. (2001) e outros das ciências sociais que acreditam que a estratégia para solucionar a questão agrária atual seja a realização de uma reforma agrária de forma justa. No contexto da educação do campo, Fernandes e Molina (2004) e Rodo e Enderle (2012) são alguns dos autores utilizados para discutir a importância da educação no campo para os movimentos sociais campesinos.
Iniciando a segunda parte – Artes e educação do campo –, Gustavo
Cunha de Araújo, em Arte/educação no campo: algumas reflexões, propõe-se a desenvolver algumas reflexões sobre a importância da arte na educação do campo a partir de uma pesquisa teórica realizada nesses dois campos de conhecimento. De abordagem qualitativa e de caráter descritivo e interpretativo, as reflexões produzidas nessa pesquisa teórica são frutos de leituras realizadas a respeito da história do ensino de arte no Brasil dos últimos trinta anos, a estética sociológica e a educação do campo, sendo esta última área recente de pesquisa.
Araújo defende em sua pesquisa que a arte possibilita ao estudante jovem e adulto do campo desenvolver um olhar crítico a partir do contato com diversas manifestações artísticas, suas matrizes
Educação do campo, artes e formação docente teóricas e seus diferentes procedimentos técnicos. A arte tem papel fundamental na educação do campo ao produzir novas ideias e saberes. Pesquisar a temática arte/educação na educação do campo é uma forma de contribuir para a produção de conhecimento nessa área e para outros grupos de pesquisadores que se interessam por essa temática.
Nesse sentido, o estudo pode contribuir de maneira significativa para a área focalizada, pois há escassez de pesquisas no Brasil sobre arte/educação no campo.
Em seguida, temos o capítulo Campo em vídeo: experiências artístico-educativas na produção de audiovisuais no norte do Tocantins, elaborado pelos autores Leon de Paula, Marcus Facchin Bonilla e Cícero da Silva, que discute a produção de audiovisual realizada por discentes do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT), nas disciplinas Seminário Integrador I e Seminário Integrador I. As obras produzidas integraram a I e I Mostras de Vídeos de 1 Minuto do curso de Educação do Campo, cujas temáticas eram A comunidade (semestre 2014-2) e Vida em imagem e som (semestre 2015-2). Além de aspectos estéticos vinculados à música e às artes visuais, os autores analisam a produção escrita do Diário de processo criativo, gênero discursivo utilizado pelos educandos e educandas como registro escrito do desenvolvimento das diferentes etapas ou atividades, e o resultado final de suas obras de arte.
O penúltimo capítulo, Música e educação do campo na UFT: reflexões sobre as matrizes curriculares musicais de Arraias e
Introdução
Tocantinópolis, por Mara Pereira da Silva e José Jarbas Pinheiro Ruas Junior, analisa as matrizes curriculares que constam no PPC dos cursos de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus Tocantinópolis, e Artes Visuais e Música, Câmpus Arraias, dando ênfase às disciplinas da habilitação Música. Para tanto, partiuse da abordagem qualitativa e quantitativa para analisar o PPC de ambos os cursos, levando-se em consideração posicionamentos de autores da educação musical. Os resultados da pesquisa sinalizam a necessidade de formular um currículo musical que fuja da tendência conservatorial para atender as demandas da educação do campo.
Para fechar a obra, o capítulo Música e transformação social: ensino e aprendizado a partir da perspectiva do outro, de Anderson Fabrício Andrade Brasil, discute de que forma o ensino de música pode contribuir para a formação de um profissional reflexivo, capaz de dialogar e construir metodologias alicerçadas pela compreensão e aceitação da subjetividade do outro. Por focalizar especificamente fenômenos sociais, o autor enfatiza, desde a primeira seção do capítulo, que a educação musical é tomada no estudo como área autônoma e, por seguinte, as interfaces que ela estabelece com outras ciências para responder a tais fenômenos.
Ainda de acordo com a pesquisa de Brasil, a utilização da educação musical como instrumento de transformação social requer um diálogo estreito com certas áreas do conhecimento para entendêla enquanto ciência. Nesse arcabouço teórico, precisaremos pensála epistemologicamente, compreendendo-a como uma área de
Educação do campo, artes e formação docente conhecimento relativamente jovem, mas que apresenta elementos capazes de potencializar a transformação social.
Por fim, esperamos que esta obra ajude a fortalecer as raízes da educação do campo, de modo especial, a formação de educadores e educadoras. A todos e a todas, desejamos boa leitura!
Tocantinópolis-TO, 26 de outubro de 2016. O(A)s organizadores (a)s.
Parte I
Educação do campo, alternância e questões agrárias
Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins
Rejane Cleide Medeiros de Almeida3
1 Introdução
Os movimentos sociais, tema deste capítulo, são ações coletivas de caráter sociopolítico e cultural com variadas formas de organização. Elaboram diagnósticos sobre a realidade social e desenvolvem proposições para mudanças. Por isso é que se discute sua importância na trajetória da luta por uma educação do campo. A reflexão sobre educação do campo está na dimensão educativa das práxis política e social, retomando a centralidade do trabalho, da cultura, da luta social, enquanto matrizes educativas da formação do ser humano, e observando a intencionalidade dessas práticas pedagógicas em um projeto educacional que pretende ser emancipatório.
Este texto tem por objetivo refletir sobre a trajetória de luta por uma educação do campo no estado do Tocantins, apresentando desde a trajetória dessas experiências até a identificação do protagonis-
3 Doutoranda em Sociologia. Professora do curso de Educação do Campo com habilitação em Artes e Música, da Universidade Federal do Tocantins, Câmpus de Tocantinópolis. E-mail: rejmedeiros@mail.uft.edu.br
Educação do campo, artes e formação docente mo dos movimentos sociais do campo nessa construção. Discute-se, também, o papel dos movimentos sociais do campo na condução do processo de luta pela educação do campo no estado, por constituir o campo material de resistência às práticas políticas conservadoras que não identificam a realidade social e cultural desse espaço. Como elemento relevante do processo de luta dos movimentos sociais, busca-se refletir sobre o aspecto educativo da luta política por uma educação do campo.
O capítulo é fruto de pesquisa desenvolvida junto ao Programa
Projovem Campo – Saberes da Terra, acompanhado pelos movimentos sociais que, no seu primeiro momento (2010-2012), contribuiu para a formação de professores do campo e potencializou o debate para a organização do curso de Licenciatura em Educação do Campo com habilitação em Artes e Música da Universidade Federal de Tocantins (UFT), Câmpus Tocantinópolis, configurando-se como materialidade de uma práxis política. A metodologia se embasou na análise de documentos do MEC/Secad, na leitura de autores que oferecem aportes teóricos para as reflexões sobre o tema e no acompanhamento realizado junto aos referidos programas e sua elaboração.
O resultado das reflexões apontou para o sentido que os movimentos sociais do campo apresentam na luta por uma educação do campo no Tocantins, e têm na sua trajetória histórica a luta pela terra e pela educação dos trabalhadores que nela vivem e trabalham.
2 Movimentos sociais: conceitos e características
Para Gohn (2011, p. 336), os movimentos sociais
[...] possuem identidade, têm opositor e articulam ou fundamentam-se em um projeto de vida e de sociedade. Historicamente, observa-se que têm contribuído para organizar e conscientizar a sociedade; apresentam
Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins conjuntos de demandas via práticas de pressão/mobilização; têm certa continuidade e permanência. Não são só reativos, nem são movidos apenas pelas necessidades (fome ou qualquer forma de opressão); podem surgir e desenvolver-se também a partir de uma reflexão sobre sua própria experiência. Na atualidade, apresentam um ideário civilizatório que coloca como horizonte a construção de uma sociedade democrática.
Um aspecto relevante para este estudo é compreender a relação entre movimentos sociais e classes sociais, analisar a composição social deles, a hegemonia no interior da sociedade. Viana lembra que é indispensável o acompanhamento do conceito social, entendendo que movimento social é um movimento de um grupo social. “Consideramos mais adequado pensar essa categoria como sendo deslocamento no tempo e/ou no espaço. O deslocamento espacial significa ir de um lugar para outro e o temporal significa sofrer alterações em sua composição original” (VIANA, 2015, p. 2).
Nesse sentido, um movimento social só existe quando o conjunto de pessoas que o constitui possui algo em comum, que vai desde aspectos biológicos, por exemplo, raça e sexo, até aspectos culturais e ideológicos, que, nesse caso, se constitui em projeto político (JENSEN, 2014).
Jensen (2014) elabora uma reflexão em que destaca que o movimento social é importante para o seu grupo social, pois desenvolve um processo de experiência e de consciência nos seus membros, sobretudo, porque adquire unidade e organicidade política, modificando os seus componentes, e, consequentemente, a sociedade, o que implicaria em mudança social.
Partindo da premissa de que todo movimento social é provocado pelas determinações das relações de produção, e que, por conseguinte, são relações de classes sociais, elencam-se alguns elementos fundantes para o entendimento do que são movimentos sociais. O
Educação do campo, artes e formação docente primeiro elemento é entender a relação entre movimentos sociais e classes sociais como formas de lutas, de resistências e de consciência. O outro elemento é pensar no movimento do capital e a dinâmica imposta pelo desenvolvimento desse modo de produção. E, sobretudo, no processo de mercantilização das relações sociais que esse sistema promove e que provoca o surgimento dos movimentos sociais.
Sobrepostos a todos esses elementos destacados, têm-se a hegemonia e a cultura que se delineiam em todos esses processos. Isso quer dizer que os movimentos sociais não podem ser entendidos fora da totalidade, que é a sociedade (VIANA, 2015).
Um movimento social existe quando há um princípio de identidade construído coletivamente ou de identificação em torno de interesses e valores comuns no campo da cidadania. Existe também quando há a definição coletiva de um campo de conflitos e de adversários centrais nesse campo, bem como a construção de projeto de transformação ou de utopias comuns de mudança social nos campos societário, cultural ou sistêmico.
No Brasil, em que a modernidade emergente trouxe consigo as evidências de um sistema de desigualdades, projetadas por forças de conflitos e lutas sociais no cenário público da sociedade brasileira, a desigualdade social é trazida para o lugar em que a linguagem elabora promessa de futuro. E sua ação se faz visível na sua capacidade de interromper o ciclo da natureza e dar início a um novo começo.
Nessa perspectiva, a expressão movimentos sociais diz respeito aos processos, não só aos institucionalizados e aos grupos que desencadeiam as lutas políticas, mas também às organizações e aos discursos que fomentam as manifestações e os protestos com a finalidade de mudar, de modo frequentemente radical, a distribuição vigente dos direitos civis, políticos e sociais, as formas de interação entre o individual e os grandes ideais universais. Os movimentos sociais, portanto, são parte constitutiva das tramas sociais e políticas modernas. Os sujeitos que compõem os movimentos sociais desenvolvem
Movimentos sociais do campo e práxis política: trajetória de luta por uma educação do campo no Tocantins uma práxis que alimenta as ações políticas para a organização de suas demandas e de seus repertórios políticos. Nesse sentido, faz-se necessário conhecer as dimensões da práxis e de seus elementos norteadores.
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