Emergências Cardiovasculares - SBC

Emergências Cardiovasculares - SBC

(Parte 2 de 5)

A palpação de pulso pode ser realizada por profissionais da área da saúde, mas não deve demorar mais do 10 segundos. Na ausência de pulso, ou em casos em que exista dúvida, manobras de RCP, começando pelas compressões torácicas, devem ser iniciadas imediatamente. As compressões torácicas devem ser realizadas com 5 cm de profundidade mínima, na frequência mínima de 100 compressões por minuto. O tórax deve retornar à posição original após cada compressão, antes que uma nova compressão seja iniciada. As interrupções das compressões torácicas devem ser minimizadas e devem acontecer somente para intervenções como a desfibrilação.

Terceiro elo

O terceiro elo consiste na desfibrilação precoce. Assim que disponível, o desfibrilador automático externo (DEA) deve ser empregado e a desfibrilação deve ser realizada nos casos de PCR em ritmo chocável (fibrilação ventricular [FV] ou taquicardia ventricular sem pulso [TVSP]). Quando o colapso não é presenciado e o DEA já está disponível, recomenda-se que a RCP seja realizada até que o DEA esteja carregado e pronto para o choque; assim que o DEA estiver pronto, o choque deve ser administrado. Estudos mostram que, quando a RCP é iniciada por socorristas leigos e o DEA é aplicado, as taxas de sobrevida com alta hospitalar praticamente dobram. O retorno da circulação espontânea (RCE) conseguido no local do colapso é um forte preditor de alta hospitalar com boa função neurológica.

Quarto elo

O quarto elo consiste no suporte avançado precoce. O suporte avançado somente poderá contribuir para o aumento de sobrevida no atendimento de vítimas de PCR se o suporte básico tiver sido efetivo. O suporte avançado tem sua importância potencializada no atendimento de PCR em ritmos não chocáveis. Quando o ritmo inicial é chocável, a desfibrilação automática externa promovida pelo suporte básico tem grandes chances de restabelecer a circulação espontânea, principalmente nos

8 Treinamento de Emergências Cardiovasculares Avançado primeiros minutos após o colapso. Quando a vítima encontra-se em atividade elétrica sem pulso (AESP) ou assistolia, não é possível que a desfibrilação promova o RCE. As causas que levaram o paciente à PCR precisam ser identificadas e tratadas imediatamente. Nessas situações, as intervenções avançadas, como dispositivos de via aérea avançada, drogas e diagnósticos diferenciais, são de extrema importância.

Quinto elo

O quinto elo consiste nos cuidados pós-PCR, que incluem continuar a pesquisa e o tratamento das causas relacionadas à PCR, os controles hemodinâmico e metabólico, os ajustes dos parâmetros ventilatórios e demais cuidados intensivos. Quando a síndrome coronariana aguda é uma das possíveis causas, o cateterismo cardíaco deve ser realizado nas primeiras 24 horas. Nos casos de RCE em pacientes que permanecem comatosos, a única intervenção capaz de aumentar as chances de recuperação neurológica e prevenção de sequelas hipoxêmicas cerebrais é a indução de hipotermia moderada (de 32 a 34 °C), por 12 a 24 horas.

capítulo 3

Introdução

A realização imediata de reanimação cardiopulmonar (RCP) em uma vítima de parada cardiorrespiratória (PCR), seja com RCP tradicional ou hands-only, contribui sensivelmente para o aumento das taxas de sobrevivência das vítimas.

O suporte básico de vida (SBV) defi ne a sequência primária de ações para salvar vidas. Por mais adequado e efi ciente que seja um suporte avançado de vida (SAV), se as ações de suporte básico não forem re alizadas de maneira adequada, será extremamente baixa a possibilidade de sobrevivência de uma vítima de PCR.

Sequência do SBV do adulto para profissionais da saúde

Em uma situação de PCR, um recurso mnemônico pode ser utilizado para descrever os passos simplifi cados do atendimento em SBV: o “CABD primário”. Seu signifi cado é: checar responsividade e respiração da vítima, chamar por ajuda, checar o pulso da vítima, compressões (30 compressões), abertura das vias aéreas, boa ventilação (duas ventilações) e desfi brilação. A seguir tem-se a sequência completa de atendimento a uma vítima que se encontra em colapso súbito.

Suporte básico de vida no adulto

PONTOS-CHAVE 1. Avaliar responsividade e checar respiração. 2. Chamar por ajuda e solicitar desfibrilador.

3. Iniciar reanimação cardiopulmonar com ênfase em compressões torácicas de alta qualidade.

4. Evitar interrupções nas compressões torácicas. 5. Desfibrilação precoce.

10 Treinamento de Emergências Cardiovasculares Avançado

Segurança do local

Primeiramente, é necessário avaliar a segurança do local. Certifi car-se que o local seja seguro para a vítima e para o socorrista, para que este não se torne uma próxima vítima. Caso o local não seja seguro (p. ex., prédio com risco de desmoronamento, via de trânsito), tornar o local seguro (p. ex., parando ou desviando o trânsito) ou remover a vítima para um local seguro. Se o local apresentar segurança, prosseguir o atendimento.

Responsividade e respiração da vítima

Avaliar a responsividade da vítima chamando-a e tocando-a nos ombros ( Figura 1). Se a vítima responder, apresentar-se e conversar com ela, perguntando se precisa de ajuda. Se a vítima não responder, avaliar sua respiração, observando se há elevação do tórax em menos de 10 segundos. Caso a vítima apresente respiração, fi car ao seu lado e aguardar para verifi car sua evolução e, se necessário, chamar ajuda. Se a vítima não estiver respirando ou estiver somente com ventilações inefetivas (gasping), chamar ajuda imediatamente.

Ajuda

Em ambiente extra-hospitalar, ligar para o número local de emergência (p. ex., Sistema de Atendimento Móvel de Urgência – SAMU –192) e buscar um desfi brilador automático externo (DEA), se disponível no local. Se o socorrista não estiver sozinho, pedir para uma pessoa ligar e conseguir um DEA, enquanto continua o atendimento à vítima. É importante designar pessoas para que sejam responsáveis pela realização dessas funções ( Figura 2).

A pessoa que ligar para o serviço médico de emergência (SME) deve estar preparada para responder a perguntas sobre a localização do incidente, as condições da vítima, o tipo de primeiro socorro que está sendo realizado etc.

Figura 1 Avaliar a responsividade da vítima.

Sociedade Brasileira de Cardiologia 1

Suport e básic o de vida no a dult o

Nos casos de PCR por hipóxia (afogamento, trauma, overdose de drogas e para todas as crianças), o socorrista pode realizar 5 ciclos de RCP e depois chamar ajuda, se estiver sozinho.

Pulso

Checar o pulso carotídeo da vítima por 5 a 10 segundos ( Figura 3). Caso apresente pulso, aplicar uma ventilação a cada 5 a 6 segundos, mantendo a frequência de 10 a 12 ventilações por minuto e checar o pulso a cada dois minutos. Se o pulso da vítima não for detectado, ou em caso de dúvida, iniciar os ciclos de compressões e ventilações.

Estudos mostram que tanto profi ssionais da saúde quanto socorristas leigos podem ter difi culdades em detectar o pulso ou podem levar muito tempo para realizá-lo, por isso, não é enfatizada a checagem de pulso.

Figura 2 Acionar o SME.

Figura 3 Checar o pulso carotídeo.

12 Treinamento de Emergências Cardiovasculares Avançado

Ciclos de 30 compressões e 2 ventilações

Iniciar ciclos de 30 compressões e 2 ventilações ( Figura 4), considerando que existe um dispositivo de barreira (p. ex., máscara de bolso para aplicar as ventilações). Compressões torácicas efetivas são essenciais para promover o fluxo de sangue, devendo ser realizadas em todos os pacientes com PCR.

Figura 4 Realizar compressões e ventilações na relação de 30:2.

Compressões torácicas Para realização das compressões torácicas ( Figura 5):

Posicionar-se ao lado da vítima e manter os joelhos com certa distância um do outro para ter mais estabilidade. Afastar ou cortar a roupa da vítima que estiver sobre o tórax, deixando-o desnudo.

Colocar a região hipotenar de uma mão sobre o esterno da vítima e a outra mão sobre a primeira, entrelaçando-as. Estender os braços e posicioná-los acima da vítima em um ângulo de cerca de 90º.

Comprimir na frequência de, no mínimo, 100 compressões/minuto e com profundidade de, no mínimo, 5 cm. Permitir o retorno completo do tórax após cada compressão, mantendo o contato das mãos.

Minimizar interrupções das compressões.

Revezar com outro socorrista a cada dois minutos para evitar fadiga e compressões de má qualidade.

Recomenda-se a utilização de equipamentos que avaliam a qualidade das compressões durante a RCP, fornecendo um bom parâmetro para os socorristas.

As manobras de RCP devem ser ininterruptas, exceto nos casos a seguir: se a vítima se movimentar, durante a fase de análise do desfibrilador, na chegada da equipe de resgate, no posicionamento de via aérea avançada ou se houver exaustão do socorrista.

Sociedade Brasileira de Cardiologia 13

Suport e básic o de vida no a dult o

Ventilação

Para não retardar o início das compressões torácicas, a abertura das vias aéreas deve ser realizada somente depois de aplicadas 30 compressões.

As ventilações devem ser realizadas na proporção de 30 compressões para 2 ventilações com apenas 1 segundo cada, fornecendo a quantidade de ar sufi ciente para promover a elevação do tórax.

A hiperventilação é contraindicada, pois pode aumentar a pressão intratorácica e diminuir a pré- -carga, consequentemente diminuindo o débito cardíaco e a sobrevida. Além disso, aumenta o risco de insufl ação gástrica, podendo causar regurgitação e aspiração.

Embora evidências de contaminação com a realização de ventilação boca a boca sejam mínimas, é indicado que o socorrista utilize mecanismos de barreira para aplicar as ventilações, como o lenço facial com válvula antirrefl uxo, máscara de bolso ou bolsa-válvula-máscara.

Independentemente da técnica utilizada para aplicar ventilações, será necessária a abertura de vias aéreas, que poderá ser realizada com a manobra da inclinação da cabeça e elevação do queixo ( Figura 6) e, se houver suspeita de trauma, a manobra de elevação do ângulo da mandíbula ( Figura 7).

Quando o socorrista não conseguir realizar a manobra de elevação do ângulo da mandíbula e houver apenas suspeita de trauma cervical, sem evidência de lesão na cabeça, deve-se utilizar a manobra de inclinação da cabeça e elevação do queixo.

Ventilação com bolsa-válvula-máscara

A ventilação com a bolsa-válvula-máscara deve ser utilizada com a presença de dois socorristas, um responsável pelas compressões e outro por aplicar as ventilações com o dispositivo ( Figura 8).

Com uma das mãos, fazer uma letra “C” com os dedos polegar e indicador e posicioná-los acima da máscara, que, se tiver um lado mais estreito, este deve estar voltado para o nariz da vítima, e fazer pressão contra a face da vítima a fi m de vedá-la da melhor forma possível. Posicionar os outros três dedos na mandíbula para estabilizá-la e abrir as vias aéreas da vítima ( Figura 9). Pressionar a válvula durante 1 segundo para cada ventilação. Esse tempo costuma ser sufi ciente para produzir elevação do tórax e manter a oxigenação em pacientes sem respiração.

Se estiver disponível oxigênio complementar, conectá-lo à bolsa-válvula-máscara assim que possível, de modo que ofereça maior porcentagem de oxigênio para a vítima.

Figura 5 Posicionamento para realização das compressões torácicas.

Movimento ascendente Movimento descendente

5 cm

14 Treinamento de Emergências Cardiovasculares Avançado

Figura 6 Manobra de inclinação da cabeça e elevação do queixo.

Figura 7 Manobra de elevação do ângulo da mandíbula.

Figura 8 Dispositivo bolsa- -válvula-máscara.

Figura 9 Ventilação utilizando bolsa-válvula-máscar a.

Sociedade Brasileira de Cardiologia 15

Suport e básic o de vida no a dult o

Ventilação com via aérea avançada

Quando uma via aérea avançada (p. ex., intubação endotraqueal, tubo esofagotraqueal e máscara laríngea) estiver instalada, o primeiro socorrista deve administrar compressões torácicas contínuas e o segundo deve aplicar uma ventilação a cada 6 a 8 segundos (8 a 10 ventilações por minuto), em vítimas de qualquer idade ( Figura 10). Assim, no caso de via aérea avançada instalada, não se deve pausar as compressões para aplicar as ventilações.

Figura 10 Ventilação com via aérea avançada.

Ventilação em vítima com apenas parada respiratória

Uma vítima que não respira ou o faz de forma anormal (somente gasping), porém apresenta pulso, se encontra em parada respiratória. Nesses casos, deve-se realizar uma ventilação a cada 5 a 6 segundos (aproximadamente 10 a 12 ventilações por minuto) para vítimas adultas. Para crianças e lactentes, aplicar uma ventilação a cada 3 a 5 segundos (aproximadamente 12 a 20 ventilações por minuto).

Desfibrilação

Desfibrilação precoce é uma intervenção associada à RCE com aumento das taxas de sobrevida com alta hospitalar. O tempo ideal para a aplicação do primeiro choque no caso de uma PCR em fibrilação ventricular (FV) compreende os primeiros 3 a 5 minutos da PCR, já que nesse período o coração se encontra em ritmo de FV grosseira ( Figura 1), estando altamente propício ao choque. Após 5 minutos de PCR, a amplitude de FV diminui por causa da depleção do substrato energético miocárdico.

A desfibrilação precoce pode ser realizada com um equipamento manual (manuseado somente pelo médico) ou com o DEA, que pode ser utilizado por qualquer pessoa capacitada, assim que estiver disponível.

O DEA é um equipamento portátil, capaz de interpretar o ritmo cardíaco, selecionar o nível de energia e carregar automaticamente, cabendo ao operador apenas pressionar o botão de choque, quando indicado pelo aparelho ( Figura 12).

16 Treinamento de Emergências Cardiovasculares Avançado Figura 1 FV grosseira.

Figura 12 DEA.

Assim que o DEA estiver disponível, o socorrista, se estiver sozinho, deverá parar a RCP para conectar o aparelho à vítima, porém, se houver mais de um socorrista, enquanto o primeiro realiza RCP, o outro manuseia o DEA e, nesse caso, a RCP só será interrompida quando o DEA emitir uma frase como “analisando o ritmo cardíaco, não toque o paciente” e/ou “choque recomendado, carregando, afaste-se da vítima”. Os passos para a utilização do DEA são descritos a seguir:

1. Ligar o aparelho apertando o botão on-off (alguns aparelhos ligam automaticamente ao abrir a tampa).

2. Conectar as pás (eletrodos) ao tórax da vítima, observando o desenho contido nas próprias pás mostrando o posicionamento correto ( Figura 13).

3. Encaixar o conector das pás (eletrodos) ao aparelho. Em alguns aparelhos, o conector do cabo das pás já está conectado.

4. Quando o DEA indicar “analisando o ritmo cardíaco, não toque no paciente”, solicitar que todos se afastem e observar se há alguém tocando a vítima, inclusive se houver outro socorrista aplicando RCP.

5. Se o choque for indicado, o DEA emitirá a frase: “choque recomendado, afaste-se do paciente”. O socorrista que estiver manuseando o DEA deve solicitar que todos se afastem, observar se realmente não há ninguém (nem ele mesmo) tocando a vítima e, então, pressionar o botão indicado pelo aparelho para aplicar o choque.

Sociedade Brasileira de Cardiologia 17

Suport e básic o de vida no a dult o

Figura 13 Posicionamento das pás do DEA no tórax da vítima.

(Parte 2 de 5)

Comentários