Teologia do Antigo Testamento - Eugene Merrill

Teologia do Antigo Testamento - Eugene Merrill

(Parte 1 de 7)

Eugene H. Merrill

Eugene H. Merrill

Originally published in the U.S.A. under the title:

Everlasting Dominion: a theology of the Old Testament Copyright © 2006 by Eugene H. Merrill

Translation copyright © 2009

Published by permission of Broadman &C Holman Publishers,

Nashville, TN

Ia Edição - Setembro de 2009

Publicado no Brasil com a devida autorização e com todos os direitos reservados por Shedd Pubi.icações Ltda-Me

Rua São Nazário, 30, Sto Amaro

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Printed in Brazil / Impresso no Brasil

Tradução & Revisão: Helena Aranha e Regina Aranha Diagramação : Edmilson E Bizerra

Capa: Samuel Paiva

Prefácio13
A g rad ecim en to s15
Capítulo u m17

Sumário

História do movimento da teologia bíblica20
Defesa de uma nova teologia b íb lica34
Afirmação dos pressupostos3 7
M étodo teo ló g ico4 3
P rimeira pa rte4 9

Introdução: as origens, a natureza e o ESTADO ATUAL DA TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO Deus: sua pessoa e sua obra

Capítttb dois51
A ambientação da narrativa51
A natureza de D e u s5
A soberania de D e u s56
A onipotência de D e u s57
A onisciência de D e u s63
A eternidade de D e u s6 6
O caráter de D e u s6 8
A santidade de D e u s68
A retidão de Deus71
A justiça de D e u sL................................................................................72
O am or de D e u s>................................................................................74
A piedade de Deus►............................................................................... 75
A graça de D e u s>.................................................................................7 6
A confiabilidade de D e u s81
A paciência de D e u s8 2
A raiva/ira de D e u s83
O perdão de D e u s84
Capítub três8 7
A revelação pela P alav ra87
A revelação por meio de visões e sonhos8
A revelação por meio do anjo de Iavé92
A revelação por meio dos nomes divinos95
A revelação por meio dos profetas9 7
A revelação por meio dos sinais106
A revelação por meio da so rte109
Capítub quatro1

A aliança de fidelidade de Deus.........................................................79 A REVELAÇÃO DE DEUS

C ria ç ã o1
Ju lgam en to118
Salvação e livram ento123
R ed en ção129
Capítub cinco135

As obras de Deus

Israel e os propósitos de Deus135
O reinado de D e u s137
Criação e soberania divina137
História e soberania d ivina144
O território da soberania divina149
A hierarquia da soberania divina150
A comunhão de Deus com a humanidade155
Comunhão como o motivo da criação155
Comunhão no despertar da Q u ed a156
Comunhão por intermédio do governo humano158
Comunhão por intermédio do povo escolhido160
Segunda P a rte1 6 9

Os propósitos de Deus Humanidade: à imagem de Deus

Capítub seis171
A criação e o propósito da humanidade171
A criação das narrativas173
A imagem de D e u s175

A criação da humanidade A criação da hum anidade.......................................................................179

A teologia do indivíduo183
A teologia da com unidade188
A teologia do c l ã191
A teologia da trib o192
A teologia das n ações194
A teologia da hum anidade196
Capitub sete2 0 3
A narrativa da Q u e d a2 0 3
A possibilidade de uma Q u ed a2 04
O resultado da Q u e d a2 0 6
A identidade do ten tad or2 0 9
A morte e a vida fu tu ra2 1 2
A Queda e a pecaminosidade humana219
A alienação do p ecad o2 1 9
Os termos técnicos para pecado2 2 2
O pecado e os domínios concorrentes,225
Capítulo oito2 2 9

A Queda da humanidade

O princípio e prática do sacrifício2 3 0
O material para o sacrifício2 3 4
Aliança e redenção2 3 9
O protoevangelium2 4 7
C o n clu são,................................................................................2 4 9
Capítulo nove251

A redenção da humanidade

A promessa de um povo especial251
A fundação de uma nação2 5 2
A libertação da n a ç ã o*................................................................................2 5 8
O sentido das pragas2 5 8
A aliança do S in a i2 6 7
T erceira Pa rte+............................................................................... 2 7 3

A criação de uma nação O Reino de Deus

Capítulo d ez2 7 5
O conceito de R e in o2 7 6
O conceito de lugar sagrad o2 7 9
Renovação escatológica do lugar sagrado281
Altares e santuários como lugares sagrados284
O templo como lugar sagrado287
A mediação do Reino289
O conceito de aliança290
A resistência das nações ao Reino294
Os reinos deste mundo294
Os profetas e as nações298
Amós298
Isaías299
Naum301
Jeremias301
Sofonias304
Ezequiel304
Daniel307
Restituição do Reino313
Os salmos sobre a realeza do Iavé313
Os salmos reais316
Conclusão317
Capítulo onze319
A aliança mosaica319
Os Dez Mandamentos323
O primeiro mandamento324
O segundo mandamento326
O terceiro mandamento330
O quarto mandamento332
O quinto mandamento334
O sexto mandamento334
O sétimo mandamento335
O oitavo mandamento336
O nono mandamento337
O décimo mandamento337
O livro da aliança338
A lei do altar338
Outras leis340
A cerimônia da aliança342
Israel como uma comunidade cultual342
O lugar sagrado343
As pessoas sagradas350
A Páscoa e o pão sem fermento358
A festa da co lh eita3 6 0
A festa do encerramento da colheita361
A festa das trom betas3 6 2
O Dia da E xp iação3 6 3
O sabático e o do jubileu363
Atos sagrados3 6 4
Ritual e litu rgia3 6 5
Liturgia e santidade3 6 7
As categorias do sacrifício3 6 8
Vários atos sagrados3 7 0
Capítulo doze3 7 3
A história anterior a D euteronôm io3 7 3
Deuteronômio como um texto da aliança378
O histórico de sua estipulação378
O decálogo deuteronôm ico381
Estipulações gerais da aliança3 8 3
Estipulações específicas da aliança38 8
Implementação da aliança3 9 5
Capítulo treze401
O livro de J o s u é4 0 2
Preparação para a conquista4 0 2
A guerra sa n ta4 0 3
A renovação da aliança na terra prometida405
Os livros de Juizes e de Rute408
O caráter dos períodos4 0 8
Ansiando por um r e i4 0 9
Antecipação da m onarquia4 1 0
Os livros de 1 e 2 S a m u e l4 1 3
O profeta Samuel: preparação para a monarquia414
Saulo: a monarquia falida4 1 6
Davi: a realização da verdadeira monarquia417
A aliança davídica4 2 0
O s livros de R e is4 2 6
A sucessão de Salom ão4 2 6
O estabelecimento do tem p lo4 2 7
A dedicação do tem p lo4 2 9
O sacerdócio re a l4 3 0
O templo e o lugar sagrado436
Elias e Eliseu: a confrontação profética439
Os livros de C rô n icas4 5 0
As genealogias e as histórias tribais450
O reinado de D a v i451
O reinado de Salom ão4 5 7
A natureza e o propósito da história sagrada460
O reino dividido461
O livro de Esdras-N eem ias4 6 5
O livro de E s te r4 6 9
Q uarta parte4 7 1

Os livros de Crônicas, Esdras-Neemias f. Ester Os profetas e o Reino

Capítulo quinze4 7 3

A teologia dos profetas canônicos IX) século VIII

O profeta A m ó s4 7 5
O profeta O séias4 7 7
O profeta Jo n a s4 8 0
O profeta Isaías481
A rebelião de Ju d á4 8 3
O julgamento de Ju d á4 8 3
A restauração de J u d á4 8 5
O servo messiânico e o Salvador490
Oráculos contra as nações4 9 4
O estabelecimento do Reino de Deus496
O profeta M iquéias4 9 8
Capitulo dezesseis501
O profeta Jerem ias501
A infidelidade de Judá à aliança501
O julgamento de J u d á50 3
O julgamento das nações505
Restauração e liberação50 8
O profeta N a u m5 1 4
O profeta H abacuque51 5
O profeta Sofonias5 1 6
O profeta Ezequiel5 1 8
A desobediência de Israel518
O julgamento das n ações521

A teologia dos profetas do final do período pré-exílio e do exílio A restauração de Israel..............................................................................5 2 2

O profeta D an iel5 2 5
A competição pela soberania526
Os reinos deste m u n d o5 2 7
O Reino dos cé u s5 30
Deus com o soberano531
O profeta J o e l5 3 2
O profeta O bad ias5 3 3
O profeta A g e u5 3 4
O profeta Z acarias535
A desobediência de Israel5 3 6
O julgamento de Israel5 3 6
A restauração de Israel5 3 6
O julgamento das nações537
A salvação das n ações5 38
A vinda do Messias539
A soberania do Iavé „ J5 3 9
O profeta M alaquiasJ................................................................................53 9
Q uinta parte5 4 3

Capítulo dezessete...........................................................................................................................525 A TEOLOGIA DOS PROFETAS DO PERÍODO PÓS-EXÍLIO A REFLEXÃO HUMANA SOBRE OS CAMINHOS DE DEUS

Capítulo dezoito545
Deus com o R e i5 4 6
A humanidade como vice-rei de Deus551
O rei m essiânico5 5 3
O papel do Reino de S iã o5 7
A vida no re in o5 5 9
Dificuldades na vida do R e in o564
Hostilidade ao re in o5 6 9
A fidelidade de Iavé ao R ein o572
Capítulo dezenove575
Observações introdutórias57 5
A teologia do livro d e j ó5 7 6
O problema da difícil situação humana577
Deus e a difícil situação humana582

A TEOLOGIA DOS SALMOS A TEOLOGIA DA IJTF.RATURA DE SABEDORIA A resolução da difícil situação humana............................................588

A essência da sabedoria594
A expressão da sabedoria595
A função da sabedoria596
As manifestações da sabedoria597
A acessibilidade da sabedoria600
A teologia de Eclesiastes602
A teologia do livro Cântico dos Cânticos608
Capítulo vinte611

A teologia de Provérbios............................................................................593

As premissas teológicas611
O método teológico612
O centro teológico616

C on clusão O Antigo Testamento e o Novo Testamento.........................................617

Prefácio

Há muitos anos, admoesto meus alunos, mais que meio a sério, dizendo que a teologia bíblica é “um jogo do homem idoso”. Com esse comentário, quero dizer que a teologia pressupõe tantas outras disciplinas e um acúmulo tão grande de conhecimento que poucos estudiosos estão preparados para empreender essa tarefa, a menos que tenham investido longos e árduos anos à preparação dessa realização. Antes, a teologia bíblica é como o topo de uma pirâmide, o toque final de um edifício consistindo de camada sobre camada de aprendizado que fornecem a fundação de método e de sentido. Antes de tudo, é uma módica familiaridade com o próprio conteúdo bíblico, perceber a totalidade e as particu laridades dele. Para fazer isso bem, deve-se ter um domínio competente das linguagens dos textos bíblicos; pois declarar uma compreensão da literatura que depende só das traduções e das interpretações de outros, por melhores que se jam, tende a viciar qualquer senso de autoridade que o teólogo traga para sua alegação. Por fim, princípios sólidos de exegese e de hermenêutica estão entre outras ferramentas que devem sustentar esse estudo tanto quanto uma profunda familiaridade com o ambiente da Israel do Antigo Testamento — o cenário, a história e a interação com as pessoas e com as culturas do mundo do Oriente Próximo da Antiguidade.

De um lado, seria presunção minha fazer a absurda afirmação de que domino essa díspar gama de conhecimento; todavia, de outro lado, os imperativos do tipo agora ou nunca da vida chegam inexoravelmente quando a pessoa deve fazer o melhor que pode com os recursos que tem. Muitas teologias nascem prematuramente, sem a moderação e o amadurecimento da gestação completa e, por isso, ficam aquém de seu potencial. Outras teologias nunca vêem a luz do dia, pois (para continuar com a metáfora), embora bem concebidas, morrem no

14TEOI.OGIA DO ANTIGO TESTAMENTO ventre, por assim dizer, vítimas da percepção de seus progenitores de que ainda não chegou o momento de trazer seu sonho à luz. Assim, há uma pequena janela entre o momento em que a pessoa acredita que cumpriu as demandas de estudo e de preparação espiritual exigidas pela tarefa e o momento em que ele deve agir antes que a mortalidade feche a janela para sempre. Escrevo este prefá cio em meu 71° aniversário, minha janela concedida por Deus, orando para que ele receba toda a glória e louvor por este trabalho e que todos meus alunos — passados, presentes e futuros — beneficiem-se, mesmo que apenas um pouco, com esta obra da mesma maneira que me beneficiei com as contribuições deles para minha vida e aprendizado. Eugene H. Merrill

Agradecimentos

O nome do autor posto no livro é quase uma propaganda enganosa, pois sugere que só ele é responsável pela existência do livro. Na verdade, uma multi dão de indivíduos e de instituições — como os escritores fantasmas, os ghost writers — compartilham o empreendimento e, na verdade, tornam-no possível. Essa gama de indivíduos vai desde a família e os amigos que encorajam e toleram a ausência prolongada e a negligência à equipe de apoio que faz o trabalho árduo de digitar, de tirar provas e de fazer índice — sem dúvida, um trabalho tedioso e sem glamour — para os editores e publicadores que esperam e exigem alto padrão e disponibilizam seus recursos a fim de garantir a valiosa realização desta obra.

No entanto, o ímpeto para escrever esta obra não teve origem em ninguém citado acima, mas no manancial de alunos de graduação do Dallas Theological Seminary que por mais de trinta anos desafiam minhas pressuposições, aguçam meu pensamento crítico e aturam graciosamente minha compreensão da teolo gia do Antigo Testamento sempre em evolução. Agradeço a esses companheiros de peregrinação, impossíveis de serem mencionados aqui devido à quantidade; e dedico esta obra carinhosamente a eles.

A fim de que não pensem que sou relapso em deixar de reconhecer minha profunda dependência também de outros, quero agradecer à sra. Chris Wakitsch por seu esmerado processamento das palavras, à administração do Dallas Theo logical Seminary por me garantir a licença que permitiu o tempo necessário para dar continuidade ao projeto, e à Broadman & Holman Publishers — em espe cial, a Leonard Goss e John Landers — pela aceitação inicial da proposta, pelo apoio entusiástico ao longo do processo e por sua capacidade profissional que possibilitou que esse trabalho chegasse ao fim.

16TEOLCX;iA IX) ANTIGO TESTAMENTO

Que o Deus de Abraão, Isaque e Jacó, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo possa se agradar com esta oferenda, e que esra obra possa redundar em glória e louvor duradouros para ele. Eugene H. Merrill

Capítulo um

Introdução: as origens, a natureza e o estado atual da teologia do Antigo Testamento

Descrever teologia como “bíblica” tende a introduzir imediatamente am bigüidade à disciplina, pois o adjetivo parece estar evidente ou ser redundante. Como a teologia pode ser outra coisa que não bíblica se ela é cristã (ou até mesmo judaica), uma vez que essas tradições vêem a Bíblia como sua testemu nha peremptória e oficial da verdade e desde que, poderíamos cogitar, a teologia não pode ser separada da Bíblia? Todavia, o adjetivo não é todo supérfluo, pois ele distingue a teologia bíblica de outras disciplinas que são ligadas ao empreen dimento teológico — disciplinas, por exemplo, como a teologia sistemática e histórica. Os expositores sistemático e histórico também são cuidadosamente es colhidos a fim de sugerir um determinado aspecto, ou impulso, do estudo teológico, aquele que enfatiza a lógica categorizando as idéias teológicas em um todo coerente, e o outro que traça o reflexo sobre essas idéias e as sínteses delas ao longo do curso da história pós-bíblica.1

Parte da confusão terminológica tem que ver com o ponto gramatical de se a palavra bíblica é subjetiva ou objetiva em sua conexão com a teologia. Ou seja, 0 termo bíblico quer dizer que a teologia está alinhada com a verdade bíblica ou apenas que ela tem origem na Bíblia? Embora idealmente essas perspectivas de vessem resultar em uma única e mesma conclusão do ensinamento bíblico, na prática real, com freqüência, esse não é o caso porque, embora a teologia possa ser bíblica no sentido de que ela não é anti-bíblica nem profana, ela pode conter idéias que sejam extra-bíblicas, ou seja, idéias extraídas da filosofia, da ciência, da história, da sociologia ou de inúmeras outras fontes. De qualquer modo, a

1 Para mais distinções úteis, veja Richard B. GafFin, “Systematic Theology and Biblical Theology”, WTJ 38 (1976), p. 281-9; Gerhard F. Hasel, “The Relationship between Biblical Theology and Systematic Theology”, TJ 5 (1984), p. 113-27.

18TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO teologia bíblica, quando mais bem praticada, limita sua fonte material à Bíblia, recusando-se a deixar a Bíblia dizer mais do que pretende e, ao mesmo tempo, sem negar voz à Bíblia sempre que ela tem uma mensagem a transmitir.

Está claro que até aqui estamos falando mais de um método, ou estratégia, para fazer teologia que de textos teológicos e a exposição deles. A questão não é se determinada teologia é biblicamente defensável, mas se ela se origina exclusi vamente da Bíblia e está alinhada com os termos e as intenções da Bíblia. Em outras palavras, o método teológico bíblico apropriado é (1) aquele que não tem idéias preconcebidas a respeito da verdade bíblica; (2) aquele que se recusa a ler idéias teológicas extrínsecas no texto; e (3) aquele que deixa a Bíblia falar por si mesma em cada estágio de seu desenvolvimento, tanto do ponto de vista canônico como histórico.

Isso levanta a questão de uma metodologia mais abrangente que dedica atenção especial ao cânon e à história, assuntos introduzidos sumariamente aqui e desenvolvidos de forma mais completa mais adiante. Cânon sugere algo fixo e estático, quer dizer, algo sincrônico, ao passo que história, obviamente progres siva por definição, deve ser entendida como diacrônica. O cânon do Antigo Testamento consiste de uma coleção de textos sagrados julgados divinamente inspirados pelo judaísmo e pela igreja e, por isso, autorizados, mas uma coleção que permanece plana, por assim dizer, sem nenhum sinal óbvio de movimento ou direção, apenas uma coleção per se. Não obstante, a leitura atenta desses textos revela que eles estão longe de não ter vida e de serem estáticos. Eles não podem, pela própria natureza de sua condição de textos revelados, ser expandi dos nem diminuídos — nesse sentido, eles são inflexíveis — mas eles, do início ao fim, transmitem um fluxo histórico dinâmico. O Antigo Testamento, em um exame atento, trai-se pelo que realmente é, uma narrativa vibrante e trans formadora de vida que tem um início, uma trama, um desenlace e uma con clusão (pelo menos, uma tentativa de conclusão).

O sincrônico (cânon) e o diacrônico (história) devem ser reconhecidos jun tos como aspectos parelhos e complementares do método teológico bíblico apropriado. Em um ponto mais apropriado deste estudo trataremos o método como um todo, mas mesmo nesse estágio inicial seria útil oferecer, pelo menos, definições breves de termos metodológicos fundamentais e algumas sugestões de como os conceitos que os termos representam se relacionam uns com os outros.

Assim que o termo cânon é trazido ao primeiro plano, apresentam-se diver sas questões. O que o termo cânon ou qual cânon você tem em mente? Os

INTRODUÇÃO: AS ORIGENS, A NATUREZA E O ESTADO ATUAI. DA TEOLOGIA DO AT19 vários livros e seções do cânon podem ser datados e estão interrelacionados? A forma como a pergunta anterior é respondida tem realmente alguma importân cia? Em resposta a essas inquirições e a fim de que elas sejam apresentadas, a pessoa tem de tomar decisões difíceis e, antes, arbitrárias. Nossa percepção é que, para identificar o cânon específico escolhido, o cânon hebraico (chamado massorético) — em contraposição, por exemplo, ao cânon da tradição grega (Septuaginta) — é o único corpo de escritos antigos que se qualifica como reve lação divina e, por essa razão, apenas esses livros podem fornecer a matéria- prima para uma teologia do Antigo Testamento.2 O cânon protestante é igual ao hebraico (embora em sua maior parte siga a ordem do cânon grego) e, por isso, forma a base para nosso estudo atual.

Afirmar que o cânon hebraico é suficiente pode contribuir para solucionar o problema sincrônico, mas a questão diacrônica (histórica) permanece sem solução. O compromisso com o princípio da revelação progressiva do ensina mento do Antigo Testamento, princípio esse inerente a qualquer percepção de auto-revelação divina gradual, é inseparável da questão da autoria e da datação das diversas partes do Antigo Testamento. A maioria dos livros traz indícios de sua origem, mas a erudição crítica moderna contesta muitas dessas asserções, deixando assim essas questões sem resposta, pelo menos, em alguns aspectos. A menos ou até que haja algum consenso em relação ao assunto, a dimensão históri ca do método teológico assume uma ou outra forma dependendo do modelo que o teólogo queira adotar. Em um ponto posterior do nosso estudo, trataremos de forma mais adequada as ramificações mais completas dessas contingências.

Um aspecto adicional do adjetivo bíblico tem que ver com o cânon mais abrangente, ou seja, o Novo Testamento e sua relevância para a possibilidade de desenvolver uma teologia bíblica. O título da nossa obra é: “Uma teologia do Antigo Testamento”, mas uma vez que o Antigo Testamento é apenas uma parte do cânon cristão, em que sentido podemos entender a teologia do Antigo Tes tamento como teologia “bíblica”? Claro que isso é possível se o Antigo Testamen to for construído apenas como uma história da religião de Israel; mas se o cânon completo, do Antigo e do Novo Testamentos, é necessário para se ter uma teolo gia bíblica totalmente satisfatória, então a expressão teologia bíblica é insuficiente para descrever o que estamos fazendo aqui. Por essa razão, escolhemos empreen der uma teologia apenas do Antigo Testamento, mas, ao fazer isso, reconhece-

2 Para uma discussão do cânon do Antigo Testamento na igreja primitiva, veja E. Earle Ellis, The Old Testament in Early Christianity, Grand Rapids: Baker, 1992, p. 3-50.

20TEOLOGIA DO ANTIGO TESTAMENTO mos que ela não é “bíblica” no sentido diacrônico pleno — mesmo que seja bíbli ca em sua atenção às considerações canônicas e históricas do Antigo Testamento. O Novo Testamento, ao mesmo tempo, não pode ser ignorado, pois apenas nele o cristão pode alcançar a culminação plena dos temas e das idéias teológicos do Antigo Testamento que apontam insistentemente na direção do Novo Testa mento. Talvez seja útil declarar no final dessa breve consideração de esclarecimento interpretativo nossa própria compreensão do sentido e do método de teologia do Antigo Testamento: a teologia do Antigo Testamento é o estudo da teologia bíblica que emprega os métodos dessa disciplina apenas para o Antigo Testa mento enquanto está ciente das limitações inerentes por não tratar do testemu nho do Novo Testamento de uma forma abrangente. Essa delimitação pode ser justificada com o fundamento de que o Antigo Testamento transmite sua própria mensagem, mensagem essa que é legítima e autorizada em todo o sentido do termo apesar de, do ponto de vista cristão, não estar totalmente completa.

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