O envelhecimento ativo e seus fundamentos

O envelhecimento ativo e seus fundamentos

(Parte 2 de 6)

- Os desafios de envelhecer na rua, de Ermelinda Maria Bueno (discente) e Paulo Renato Canineu (docente) é artigo que parte da constatação de que, para idosos moradores de rua, a sensação de envelhecimento chega mais cedo (em descompasso com a idade cronológica), impondo estratégias de enfrentamento para a condição de dupla vulnerabilidade: ser idoso e morar na rua. Resultados obtidos em pesquisa de campo com sujeitos nesta condição indicaram que albergues e casas de acolhida são importantes meios proteção, contribuindo para a melhoria de sua qualidade de vida. Além disso, que a política publica para esta parcela da população brasileira só será efetiva se contar com profissionais capacitados para implementá-la.

- O Conselho Nacional de Justiça e o envelhecimento: a falta de uma política pública. Neste trabalho, Thais Araujo de Oliveira Pereira de Carvalho (discente) e Luiz Alberto David Araujo (docente) assinalam que Conselho Nacional de Justiça (CNJ) foi instituído em 2005, como órgão do Poder Judiciário com o objetivo de aperfeiçoar o trabalho do sistema judiciário brasileiro. Dentre suas obrigatoriedades há a emissão do Relatório Anual, importante ferramenta de controle e comunicação. A partir de uma pesquisa documental (compreendendo o período de 2009 a 2015), os autores procuraram analisar os cuidados do legislador para com a crescente população de idosos brasileiros. População que, diga-se de passagem, tem prerrogativa de prioridade de atendimento e tramitação. Concluíram que o sistema judiciário não está atento, nem prevê estratégias a respeito da temática da idade e da fragilidade humana.

Finalmente, na parte IV, encontram-se artigos que abordam a temática relativa à aprendizagem ao longo da vida, quais sejam:

- Educação permanente: diálogo com o contexto globalizado e impacto na vida de idosos. Sandra Carla Sarde Mirabelli (discente) e Suzana Carielo da Fonseca (docente) chamam a atenção para o fato de que a longevidade, em tempos de globalização, traz às sociedades e aos sujeitos importantes desafios, entre os quais se destaca o de criar e/ou manter condições que favoreçam a atualização de suas potencialidades vitais. Para as autoras, a educação permanente pode ser um instrumento de fundamental importância para enfrentar este desafio. Nessa perspectiva, e tendo como base resultados de uma pesquisa de campo, analisam a capacidade de diálogo do Programa Trabalho Social com Idosos (TSI), do Sesc São Paulo, com o contexto social no qual se insere e o impacto das suas ações socioeducativas na vida de sujeitos idosos que dele participam. Os resultados indicaram um impacto altamente positivo na vida dos mesmos, bem como permitiram concluir pela pertinência e adequação da metodologia utilizada na solução de compromisso deste Programa com uma educação emancipadora.

- Longevidade e psicomotricidade: envelhecer com qualidade de vida.

Neste artigo Cláudia Galvani (discente) e Nádia Dumara Ruiz Silveira (docente) discutem a singularidade e a subjetividade da concepção da qualidade de vida e o impacto positivo de “oficinas psicomotoras” no cotidiano de idosos. Isso porque, segundo as mesmas, o trabalho psicomotor leva o idoso a ter a consciência e a reapropriação do uso de seu corpo, tanto no que diz respeito à sua funcionalidade, como também à sua capacidade de expressão. Elas sustentam que a atividade corporal, através de sensações proprioceptivas, permite o resgate de sensações vividas e conquistadas, propiciando a conscientização e a superação de limites. Propõem que tal trabalho seja entendido como uma alternativa norteadora de novas políticas públicas, numa visão intersetorial, abarcando a área da Educação, da Saúde e das Ciências Sociais. Além disso, atentam para o fato de que a Psicomotricidade em sua interface com a Gerontologia pode se colocar como área de competência geradora de novos conhecimentos sobre a velhice e o idoso.

- Teatro-educação está de cortinas abertas para o espetáculo da longevidade brasileira? De acordo com Gracielle Elaine Ramos Costa (discente) e Beltrina Côrte (docente), o aumento do envelhecimento populacional impõe qualificar profissionais de diversas áreas – inclusive professores de teatro - para atender a uma nova demanda na área de educação. A partir de resultados de pesquisa de campo, cujo objetivo era investigar se a temática do envelhecimento tem sido abordada nos Projetos Políticos Pedagógicos (P) dos Cursos de Teatro Licenciatura no Brasil, concluíram pela ur- gente necessidade de inclusão do tema envelhecimento e longevidade nos fluxogramas curriculares dos mesmos.

- Uma segunda língua para falar n(d)a velhice, de Teresa Cristina Ferreira Camargo (discente) e Suzana Carielo da Fonseca (docente). Falar em inglês na velhice, falar da velhice em inglês é o fio que se tece nesta reflexão. Ele foi puxado nos encontros semanais de uma professora com sujeitos que, na velhice tomaram a decisão subversiva de aprender uma segunda língua. A incursão pela literatura pertinente ao tema permitiu construir uma posição para ler (analisar) os dados de uma pesquisa de campo cujo foco se voltou para as narrativas (em português e inglês) construídas em sala de aula. Sob a marca de singularidade implicada neste processo, recolheu-se algo que insiste em se apresentar para todos: o compromisso com o “reinventar-se” na velhice (traduzido pela demanda de falar inglês). Sobre o método para atender à demanda gerada por esse compromisso, indicou-se a centralidade da implementação do diálogo nas aulas: ele é, por definição, espaço de abertura de posição para o outro tomar voz e falar de si e para o outro em inglês.

- Cinema e memória: recursos de aprendizagem ao longo da vida. Partindo de dados de uma pesquisa intervenção realizada por 12 profissionais, de áreas disciplinares variadas, participantes do Núcleo de Pesquisa do Envelhecimento (NEPE), da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), Vera Antonieta Tordino Brandão e Beltrina Côrte concluíram que o Cine-Debate se oferece como importante espaço de aprendizagem. Isso porque, nos encontros, os filmes propiciam um movimento de identificação e reconstrução, mostrando-se facilitadores da leitura e produção de novos significados para a velhice, estimulando a imaginação criativa e ampliando a visão de realidade, no movimento de reconhecimento de si e do lugar projetado no grupo social.

Levando em conta os pontos que assinalei nesta apresentação talvez já se deva antecipar que, embora partindo de diferentes questões-problema, os trabalhos aqui reunidos têm um eixo comum: uma reflexão sobre os determinantes do viver a vida com qualidade na velhice. Nessa medida, e segundo entendo, eles podem contribuir para ampliar e potencializar o debate sobre o Envelhecimento Ativo. É o que eu espero! Boa leitura!

Profa. Dra. Suzana Carielo da Fonseca

À Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em especial à

Pró-Reitoria de Pós-Graduação, que através do Plano de Incentivo à Pesquisa (PIPEq), tornou possível a produção deste livro;

Aos professores e alunos do Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, pela seriedade e competência no encaminhamento de reflexões e ações no campo da Gerontologia Social.

prefácio19
pArte I2

sUMÁrIo

limites e possiblidades23

o cuidador familiar de idosos em cuidados paliativos: Francimar Felipa da Silva Costa | Flamínia Manzano Moreira Ludovici

de estimulação cognitiva57

Vigilantes da memória: programa intergeracional multidisciplinar Gislaine Gil | Elisabeth Frohlich Mercadante

idosos com Doença de Alzheimer7

A importância da fisioterapia gerontológica em um grupo de Ana Maria Tabet de Oliveira | Paulo Renato Canineu

de vida de idosos98

Uma proposta de paradigma: capacidade funcional e qualidade Anderson Pedrosa Barbosa | Maria Helena Villas Bôas Concone

viver criativo112

envelhecer com as mãos no barro. narrativas sobre um Karen Harari | Ruth Gelehrter da Costa Lopes pArte I................................................................................................................. 131

para pessoas com 60+?132

Como a mídia, no Brasil, apresenta o mercado de trabalho Denise Aparecida Pereira de Araújo | Beltrina Côrte

seicho no Ie: idosos migrantes de religiões161

Thuam Silva Rodrigues | Elisabeth Frohlich Mercadante

refugiados na cidade de são paulo176

envelhecer longe de casa: aspectos culturais e sociais de Denise Orlandi Collus | Silvana Tótora

o envelheciment o ativo206

oficina de Memória: prática social de oportunidade para Isabel Cristina de Souza Gonçalves | Suzana Carielo da Fonseca

de Cultura e solidariedade do Jardim da Conquista240

Vivências do envelhecer em comunidade: velhices no espaço Vilma Machado de Sousa | Nádia Dumara Ruiz Silveira

pArte I269
e psicossociais na vida do filho cuidador270

o cotidiano de cuidados a uma mãe idosa: efeitos subjetivos Fernanda Maria Fávere Augusto | Flamínia Manzano Moreira Ludovici

o caso de uma universidade302

o significado da aposentadora para os servidores públicos: Amarilis Maria Muscari Riani Costa | Ruth Gelehrter da Costa Lopes

os desafios de envelhecer na rua336

Ermelinda Maria Bueno | Paulo Renato Canineu

a falta de uma política pública365

o Conselho nacional de Justiça e o envelhecimento: Thais Araujo de Oliveira Pereira de Carvalho | Luiz Alberto David Araujo

pArte IV381
e impacto na vida de idosos382

educação permanente: diálogo com o contexto globalizado Sandra Carla Sarde Mirabelli | Suzana Carielo da Fonseca

de vida418

Longevidade e psicomotricidade: envelhecer com qualidade Cláudia Galvani | Nádia Dumara Ruiz Silveira

da longevidade brasileira?443

teatro-educação está de cortinas abertas para o espetáculo Gracielle Elaine Ramos Costa | Beltrina Côrte

Uma segunda língua para falar n(d)a velhice472

Teresa Cristina Ferreira Camargo | Suzana Carielo da Fonseca

Cinema e memória: recursos de aprendizagem ao longo da vida495

Vera Antonieta Tordino Brandão | Beltrina Côrte preFÁCIo

O Brasil, como outros países, vive importantes mudanças em sua demografia desde meados do século X e em aceleração ainda hoje. São especialmente significativos o declínio nas taxas de mortalidade e de fecundidade e o aumento na expectativa de vida. Essas mudanças vêm provocando - e continuarão a fazê-lo nas próximas décadas - profundas alterações na composição etária da população: diminuindo, relativamente à população, o percentual de jovens (até 15 anos) e aumentando o número de idosos (65 anos e mais). As projeções indicam que, em 2050, 23% da população brasileira será composta de pessoas com 65 anos ou mais (Carvalho e Wong, 2010)6.

Tais mudanças são objeto de estudo e de interesse e devem ser consideradas no planejamento social e econômico do país, uma vez que exigirão respostas a questões de enorme relevância: seguridade social, saúde, bem estar, habitação, transporte etc. Estes e outros temas precisam ser revisitados de modo a garantir um “envelhecimento ativo” de nossa população. Trata-se de meta prioritária para todos, de interesse de todo o país e que participará da definição de nosso sucesso como sociedade que deve caminhar em direção à diminuição da desigualdade e à melhoria da qualidade de vida dos brasileiros e de todos que aqui vivem.

O conceito de envelhecimento ativo, tal como proposto pela Organização Mundial de Saúde apoia-se nos pilares: vida saudável, vida participativa, seguridade social e educação permanente. Para promover o “envelhecimento ativo” de nossa população será necessário, portanto, promover essa mesma concepção como objeto de interesse, de estudo e de propostas de políticas públicas, bem como será necessário promover a compreensão desse fenômeno que tem sido chamado de envelhecimento.

6 Carvalho, J. A. M., & Wong, L. L. R. (2010). O novo padrão demográfico brasileiro: oportunidades e desafios. Em Brasil, Ministério da Educação – CAPES (2010). Plano Nacional de Pós-Graduação – PNPG 2011-2020, Volume 2.

Tal fenômeno, entretanto, não deve ser tomado apenas como processo que afeta decisões e políticas macroeconômicas, já que é feito de pessoas concretas, de indivíduos que vivem vidas concretas e que fazem parte de nosso próprio processo social.

Na PUC-SP já desde a década de 1980 grupos de pesquisa assumiram como objeto de estudo o envelhecimento e a velhice, introduzindo de forma inovadora a Gerontologia como pesquisa interdisciplinar na Universidade. Logo, a expertise de pesquisa permitiu a criação, na década de 1990, de um programa de pós-graduação pioneiro: o Programa de Estudos Pós-Graduados (PEPG) em Gerontologia. O Programa nasceu, portanto, de uma linha de pesquisa e marcou-se desde sempre por estrutura interdisciplinar, congregando pesquisadores, professores e alunos oriundos de diferentes formações. Marcou-se também pelo especial interesse pelos aspectos psicossociais, sociais e culturais do envelhecimento, pela preocupação com a construção do que viria a ser chamado de “envelhecimento ativo”.

O PEPG em Gerontologia da PUC-SP não se especializou na especialidade: marcou-se por uma abordagem que mesclou e considerou a psicologia, a sociologia, a antropologia, a comunicação, a linguística, a filosofia e distintas áreas de saúde, ocupando-se de questões culturais além, obviamente, das questões biológicas e econômicas associadas aos processos de envelhecimento. O PEPG em Gerontologia abordou os processos de envelhecimento de maneiras caracteristicamente interdisciplinares e de modos comprometidos com a geração de conhecimento e tecnologia que têm como metas promover a compreensão do envelhecimento e também a qualidade de vida daqueles que envelhecem e produzir o necessário conhecimento social para garantir tal qualidade.

Mesclando pesquisa e desenvolvimento tecnológico, produção de conhecimento e difusão de informação, resultado científico e desenvolvimento de técnicas de acolhimento, atenção e cuidado, o PEPG em Gerontologia vem contribuindo para uma área de interesse que deve ser estratégica para o país.

O presente livro é uma excelente amostra das possibilidades de tal produção. Tratando de temas como envelhecimento e saúde (Parte 1), oportunidades de participação contínua na dinâmica da vida social (Parte 2), segurança/ proteção e qualidade de vida na velhice (Parte 3), e aprendizagem ao longo da vida (Parte 4), o livro oferece primeiramente um quadro das potencialidades e realizações do Programa. Em segundo lugar, tomado em seu todo, o livro aponta temas de pesquisa possíveis, metodologias de trabalho que permitem a apropriação inédita de fenômenos que são de urgente interesse de todos e resultados que indicam caminhos viáveis para o desenvolvimento de políticas públicas, de construção social alternativa e de difusão de conhecimento para todos (idosos e não idosos) sobre o tema do “envelhecimento ativo”.

É uma enorme satisfação poder reconhecer que nossa instituição vem contribuindo para produzir conhecimento e, muito especialmente, participa da formação de profissionais e de pesquisadores dedicados a um tema tão importante.

É maior ainda a satisfação de ter contribuído para a difusão de tão importante trabalho com o financiamento da produção desse livro pelo Plano de Incentivo à Pesquisa da PUC-SP (PIPEq). Implantado em 2015, com recursos da própria instituição, o PIPEq tem como objetivo fomentar e dar visibilidade à pesquisa feita na Universidade, em seus vários estágios de conclusão e maturidade.

A publicação de “O Envelhecimento Ativo e seus fundamentos”, apresenta exatamente produtos de pesquisa de trabalhos de mestrado conduzidos no Programa. Representa, assim, muito bem aquilo que se espera de programas de pós-graduação e de programas e linhas de pesquisa.

Convidamos o leitor a viver também a experiência de refletir sobre o tema e de conhecer alguns dos resultados do trabalho de um grupo comprometido e competente.

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