A Industria do Holocausto - Norman G. Finkelstein

A Industria do Holocausto - Norman G. Finkelstein

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

Norman G. Finkelstein

A Indústria do Holocausto

EDITORARECORD
RIODE JANEIRO • SÃO PAULO

Tradução de VERA GERTEL 2001

“A mim parece que o Holocausto está sendo vendido — não ensinado.”

Rabino Arnold Jacob Wolf, Diretor de Hillel,

Universidade de Yale {1}

Colin Robinson, da editora Verso, concebeu a idéia deste livro. Roane Carey moldou minhas reflexões numa narrativa coerente. Noam Chomsky e Shifra Stern deram assistência em todos os estágios de produção do livro. Jennifer Loewenstein e Eva Schweitzer discutiram vários rascunhos. Rudolph Baldeo deu apoio pessoal e estímulo. Sou grato a todos. Tentei, nestas páginas, retratar o legado de meus pais. Por conseqüência, este livro é dedicado aos meus dois irmãos, Richard e Henry, e ao meu sobrinho, David.

Este livro faz uma anatomia e uma acusação da indústria do Holocausto. Nas páginas que se seguem, afirmo que “O Holocausto” é uma representação ideológica do holocausto nazista. {2} Como a maioria das ideologias, ele tem conexão, embora tênue, com a realidade. O Holocausto não é uma arbitrariedade, mas uma construção internamente coerente. Seus dogmas centrais sustentam interesses políticos e de classes. Na verdade, O Holocausto provou ser uma indispensável bomba ideológica. Em seus desdobramentos, um dos maiores poderes militares do mundo, com uma horrenda reputação em direitos humanos, projetou-se como um Estado “vítima”, da mesma forma que o mais bem-sucedido agrupamento étnico dos Estados Unidos adquiriu o status de vítima. Dividendos consideráveis resultaram dessa falsa vitimização — em particular, imunidade à crítica, embora justificada. Os que usufruem dessa imunidade, eu poderia acrescentar, não escaparam à típica corrupção moral que faz parte dela. Desta perspectiva, o desempenho de Elie Wiesel como intérprete oficial do Holocausto não é circunstancial. É certo que ele não alcançou esta posição em função de seus compromissos humanitários ou talentos literários. {3} Antes, Wiesel representa este papel de liderança porque está inarredavelmente articulado com os dogmas do Holocausto e, por conseqüência, apoiando os interesses ocultos. O estímulo inicial para este livro partiu do estudo fértil de Peter Novick, The

Holocaust in American Life, do qual fiz a resenha para um jornal literário inglês. {4} Neste livro, o diálogo crítico que tive com Novick foi ampliado; daí, o extenso número de referências ao seu estudo. Mais uma compilação de observações provocantes do que uma crítica consistente, The Holocaust in American Life pertence à honrada tradição americana de denúncia. E como a maioria dos denunciantes, Novick enfoca apenas os abusos mais escandalosos. Sarcástico e com freqüência agradável, The Holocaust in American Life não é uma crítica radical. As raízes do tema permanecem intocadas. Nunca banal ou herética, a obra ateve-se aos extremos de uma controvérsia muito mais ampla. Como era de se prever, foi contemplado com inúmeros artigos na mídia americana, embora confusos.

A categoria analítica central de Novick é a “memória”. Moda atual na torre de marfim, a “memória” é sem dúvida a concepção mais pobre, capaz de derrubar, ao longo do tempo, o ápice acadêmico. Concordando obrigatoriamente com Maurice Halbwachs, Novick procura demonstrar como as “preocupações atuais” modelaram a “memória do Holocausto”. Houve época em que intelectuais discordantes usavam categorias políticas robustas como “poder” e “interesses”, de um lado, e “ideologia”, de outro. Hoje, tudo que restou foi a linguagem branda e despolitizada de “preocupações” e “memória”. Apesar dos evidentes exemplos de Novick, a memória do Holocausto é uma construção ideológica de interesses investidos. Embora escolhida, a memória do Holocausto, segundo Novick, é “com maior freqüência” arbitrária. Ele argumenta que a escolha foi feita não sobre “o cálculo de vantagens e desvantagens” mas, sim, “sem pesar muito (...) as conseqüências”. {5} Os exemplos sugerem a conclusão oposta.

Meu interesse original no holocausto nazista foi pessoal. Meu pai e minha mãe foram sobreviventes do Gueto de Varsóvia e dos campos de concentração nazistas. Exceto meus pais, todos os membros de ambas as famílias foram exterminados pelos nazistas. Posso dizer que minha mais remota lembrança do holocausto nazista é a de ver minha mãe, grudada na tela de televisão, assistindo ao julgamento de Adolf Eichmann (1961), ao voltar da escola. Embora eles tivessem sido libertados dos campos apenas dezesseis anos antes do julgamento, um abismo intransponível sempre separou, na minha cabeça, os pais que eu conhecia daquilo. Fotografias da família de minha mãe ficavam penduradas na parede do living. (Nenhuma foto da família de meu pai sobreviveu à guerra.) Nunca estabeleci uma conexão com aqueles parentes, deixaram-me descobrir sozinho o que aconteceu. Eles eram as irmãs, o irmão e os pais de minha mãe, não minhas tias, meus tios ou avós. Lembro-me de ter lido na infância O muro, de John Hersey, e Mila 18, de Leon Uris, ambos relatos romanceados do Gueto de Varsóvia. (Não esqueço minha mãe se queixando de que, mergulhada na leitura de O muro, esqueceu de descer na estação do metrô a caminho do trabalho.) Apesar de muito tentar, sequer por um momento consegui transpor na imaginação a ponte que ligava meus pais, em todo seu cotidiano, àquele passado. Francamente, ainda não consigo.

A questão mais importante, no entanto, é esta. Fora este fantasma, não me lembro de o holocausto nazista alguma vez ter feito parte de minha infância. A razão principal era que ninguém além da família parecia se interessar pelo que aconteceu. Meu círculo de amigos de infância lia muito e debatia com paixão os acontecimentos do dia. Mas, honestamente, não me recordo de algum amigo (ou pai de amigo) ter feito uma única pergunta sobre o que meus pais sofreram. Não era um silêncio respeitoso. Era apenas indiferença. Deste ponto de vista, só se pode duvidar da explosão de angústias nas últimas décadas, depois que a indústria do Holocausto foi pesadamente estabelecida.

Às vezes penso que a “descoberta” do holocausto nazista pela colônia judaica americana foi pior que seu esquecimento. Claro, meus pais penaram privadamente; o sofrimento pelo qual passaram não foi validado em público. Mas não era melhor do que a atual e grosseira exploração do martírio judeu? Antes que o holocausto nazista se tornasse O Holocausto, apenas alguns estudos universitários, como o de Raul Hilberg, The Destruction of the European Jews, e memórias como as de Viktor Frankl, Man’s Search for

Meaning, e Ella Lingens-Reiner, Prisoners of Fear, foram publicados sobre o assunto. {6}

Mas esta pequena coleção de jóias é melhor do que a infinidade de prateleiras de sensacionalismo que hoje ocupam bibliotecas e livrarias.

Meu pai e minha mãe, embora rememorando diariamente aquele passado até o dia da morte, no final de suas vidas perderam o interesse pelo Holocausto como espetáculo público. Um dos mais antigos amigos de meu pai, companheiro de Auschwitz, era um suposto idealista de esquerda incorruptível que, por princípios, recusou uma compensação alemã após a guerra. Por acaso, veio a se tornar diretor do Museu do Holocausto de Israel, Yad Vashem. Com muita relutância e evidente desapontamento, meu pai teve de admitir que mesmo este homem havia sido corrompido pela indústria do Holocausto, desvirtuando suas crenças em favor do poder e do lucro. Como a interpretação do Holocausto assumiu formas cada vez mais absurdas, minha mãe gostava de citar Henry Ford (com uma ironia intencional): “História é bobagem.” As narrativas de “sobreviventes do Holocausto” — todos internos de campos de concentração, todos heróis da resistência — serviram de fonte para um humor negro especial em minha casa. Há muito tempo, John Stuart Mill reconheceu que as verdades, quando não submetidas a permanentes questionamentos, podem às vezes “perder o efeito da verdade pelo exagero da falsidade”.

Meus pais muitas vezes se perguntaram por que eu teria crescido tão indignado com a falsificação e exploração do genocídio nazista. A resposta mais óbvia é que ele tem sido usado para justificar políticas criminosas do Estado de Israel e o apoio americano a tais políticas. Há também um motivo pessoal. Eu me importo com a memória da perseguição de minha família. A campanha atual da indústria do Holocausto para extorquir dinheiro da Europa, em nome das “necessitadas vítimas do Holocausto”, rebaixou a estatura moral de seu martírio para o de um cassino de Monte Cario. Além dessas preocupações, no entanto, estou convencido de que é importante preservar — lutar — pela integridade do registro histórico. Nas últimas páginas deste livro sugiro que, ao estudar o holocausto nazista, podemos aprender muito não só sobre “os alemães” ou os “gentios”, mas também sobre todos nós. Acredito que ao fazer isso, ao aprender realmente sobre o holocausto nazista, sua dimensão física será reduzida e sua dimensão moral expandida. Uma infinidade de recursos públicos e privados tem sido investida para manter a memória do genocídio nazista. A maioria do que foi produzido não presta, não passa de um tributo ao engrandecimento judeu e não ao seu sofrimento. Muito tempo já se passou para que possamos abrir nossos corações a outros sofrimentos da humanidade. Esta foi a grande lição partilhada por minha mãe. Nunca a ouvi dizer: Não compare. Minha mãe sempre comparou. Não há dúvida de que distinções históricas precisam ser feitas. Mas aceitar distinções morais entre o “nosso” sofrimento e o “deles” é uma caricatura de moral. “Você não pode comparar dois povos miseráveis”, observou humanamente Platão, “e dizer que um é mais feliz que o outro.” Diante dos sofrimentos de afro-americanos, vietnamitas e palestinos, o credo de minha mãe sempre foi: Somos todos vítimas do holocausto.

Norman G. Finkelstein Abril de 2000 Nova York

CAPÍTULO 1 CAPITALIZANDO O HOLOCAUSTO

Numa memorável troca de idéias alguns anos atrás, Gore Vidal acusou Norman Podhoretz, então editor da publicação Commentary, do comitê Judaico Americano, de ser antiamericano. {7} A prova era que Podhoretz atribuía menos importância à Guerra Civil —

“o único grande acontecimento trágico que continua a ter ressonância em nossa república” — do que ao tema judaico. Entretanto, Podhoretz talvez fosse mais americano do que seu acusador. Na época, era a “Guerra Contra os Judeus”, não a “Guerra Entre os Estados”, que figurava como mais importante para a vida cultural americana, A maioria dos professores universitários pode testemunhar que, em relação à Guerra Civil, um maior número de estudantes é capaz de localizar o holocausto nazista no século correto e em geral citar o número de mortos. Na verdade, o holocausto nazista é justamente a única referência histórica que tem ressonância hoje numa sala de aula universitária. Pesquisas mostram que um número maior de americanos é mais capaz de identificar O Holocausto do que Pearl Harbor ou a bomba atômica sobre o Japão.

Até muito recentemente, no entanto, o holocausto nazista mal figurava na vida americana. Entre o fim da Segunda Guerra Mundial e os últimos anos da década de 60, apenas uns poucos livros e filmes mencionavam o assunto. Apenas um curso universitário nos Estados Unidos estudava o assunto. {8} Quando Hannah Arendt publicou Eichmann in

Jerusalem, em 1963, ela só pôde contar com dois estudos acadêmicos em língua inglesa — o de Gerald Reitlinger, The Final Solution, e o de Raul Hilberg, The Destruction of the

European Jews. {9} A própria obra-prima de Hilberg era uma tentativa de ver a luz do dia.

O orientador de sua tese na Universidade de Colúmbia, o teórico social e judeu alemão Franz Neumann, desencorajou-o firmemente de escrever sobre o ponto principal (“It’s your funeral”, É seu funeral), pois nenhuma universidade ou editora importante publicaria o manuscrito completo. Quando finalmente foi publicado, The Destruction of the

European Jews recebeu somente umas poucas resenhas, na maioria críticas. {10}

Não só os americanos em geral, mas também os judeus americanos, incluindo os intelectuais judeus, deram pouca importância ao holocausto nazista. Numa avaliação oficial de 1957, o sociólogo Nathan Glazer informou que a Solução Final nazista (assim como Israel) “foi menosprezada no interior da colônia judaica americana”. Em um simpósio de Commentary sobre “Judaísmo e os jovens intelectuais”, de 1961, apenas dois dos trinta e um participantes destacaram seu impacto. Da mesma forma, uma mesa-redonda organizada pelo jornal Judaism, em 1961, com a participação de vinte e um judeus americanos sobre “Minha confirmação judaica”, praticamente ignorou o tema. {1} Nenhum monumento ou homenagem marcou o holocausto nazista nos Estados Unidos. Pelo contrário, a maior parte das organizações judaicas se opôs a tais comemorações. A pergunta é: Por quê?

A explicação comum é que os judeus ficaram traumatizados com o holocausto nazista e, portanto, reprimiram sua memória. Na verdade, nada comprova tal conclusão. Alguns sobreviventes, sem dúvida, preferiram, por essa razão, deixar de falar sobre o que aconteceu não só na época como nos últimos anos. Muitos outros, no entanto, preferiam falar exaustivamente e, quando tinham chance, não paravam. {12} O problema é que os americanos não queriam ouvir.

A razão verdadeira para o silêncio público sobre o extermínio nazista era a política conformista da liderança judaica americana e o clima político do pós-guerra na América. Tanto nos assuntos internos quanto nos externos, as elites judaicas americanas fecharam com a política oficial dos EUA. {13} Com isso, facilitaram os objetivos tradicionais de assimilação e o acesso ao poder. No início da Guerra Fria, as organizações judaicas proeminentes aderiram à luta. Elas “esqueceram” o holocausto nazista porque a Alemanha — Alemanha Ocidental, em 1949 — tornou-se um aliado crucial do pós-guerra americano no confronto dos EUA com a União Soviética. Vasculhar o passado não seria útil; na verdade, era um complicador.

Com algumas reservas (logo descartadas), as grandes organizações judaicas americanas logo se alinharam com os EUA, apoiando o rearmamento de uma Alemanha mal desnazificada. O American Jewish Committee (AJC) (Comitê Judaico Americano), temeroso de que “alguma oposição organizada de judeus americanos, contra a nova política externa e a aproximação estratégica, pudesse isolá-los aos olhos da maioria não-judaica e pôr em risco suas conquistas do pós-guerra no cenário nacional”, foi o primeiro a pregar as virtudes do realinhamento. O World Jewish Congress (WJC) (Congresso Judaico Mundial), pró-sionista, e seus afiliados americanos derrubaram a oposição, depois de assinar acordos de compensação com a Alemanha no início dos anos 50, ao mesmo tempo que a Anti-Defamation League (ADL) (Liga Antidifamação) foi a primeira grande organização judaica a enviar uma delegação oficial à Alemanha, em 1954. Juntas, essas organizações colaboraram com o governo de Bonn para conter a

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