07-Novas tecnologias e educação - Restivo

07-Novas tecnologias e educação - Restivo

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No capítulo que assinam, Alice Ribeiro e Bruno Giesteira pugnam pela ideia de uma “universidade inclusiva”, inovadora, capaz de aproveitar as potencialidades que lhe são oferecidas pelas novas tecnologias para “promover o equitativo acesso à informação, contribuindo para uma equilibrada e mais justa sociedade do conhecimento”. Neste sentido, a caracterização que fazem da evolução da Universidade do Porto no que respeita aos seus estudantes com necessidades educativas especiais é informada e cuidada, apresentando dados estatísticos e referindo o esforço que representou quer a aquisição de tecnologia adaptada quer a formação dos estudantes para a utilização dessa mesma tecnologia. Prestando especial atenção à forma como a Biblioteca Aberta do Ensino Superior tem vindo a ser tornada cada vez mais acessível a estudantes com deficiência, Ribeiro e Giesteira oferecem-nos um retrato positivo do trabalho que tem vindo a ser desenvolvido neste âmbito na Universidade do Porto, apostada que está num ensino que se quer universal.

No capítulo que encerra este volume, Hugo Cunha Lança oferece a perspetiva do Direito, fazendo uma súmula da evolução história dos Direitos

VIEIRA, Fátima; RESTIVO, Maria Teresa (2014). Introdução. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 5-16 de Autor e preocupando-se em avançar uma definição operacional dos conceitos de “obra” e de “plágio”. Como Lança faz notar, no que respeita às obras académicas ou científicas, “as fronteiras [do plágio] são difusas e de complexa demarcação: não é possível dogmatizar que existe plágio quando se utilizam duas ou três linhas de outro ou se, para estarmos perante um plágio, se exigiria uma ou duas páginas, ou vinte ou trinta!”. Hugo Cunha Lança é irreverente e assertivo na forma como perspetiva a relação entre o plágio e as novas tecnologias, descrevendo estas últimas como um mero instrumento do primeiro; trata-se, pois, de uma relação circunstancial, não sendo as novas tecnologias a causa do plágio, que sempre existiu, ao longo dos séculos, e que, no âmbito do Direito Penal português, é uma infração punível com até três anos de prisão.

Os diferentes capítulos que compõem este volume, embora com enfoques diversos, problematizam e questionam o papel das novas tecnologias na constituição de um novo paradigma de ensino que procura fazer dos estudantes os atores e agentes da sua própria aprendizagem. Tem pois o ambicioso objetivo de apresentar um retrato abrangente (mas não exaustivo) dos novos desafios que os docentes enfrentam pela introdução da tecnologia quer dentro quer fora da sala de aula. No final, parece ficar claro que as novas tecnologias oferecem ferramentas que deverão ser utilizadas com criatividade e critério, num contexto educativo cada vez mais exigente, onde impera a necessidade de uma constante atualização tecnológica por parte dos docentes. Na verdade, a atividade docente no novo contexto

VIEIRA, Fátima; RESTIVO, Maria Teresa (2014). Introdução. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 5-16 educativo caracteriza-se pela exigência da permanente mudança, por oposição à estabilidade tradicional resultante da prática adquirida – à imagem, afinal, do professor sábio.

O livro Novas Tecnologias no Ensino Superior é apresentado com a consciência de que a inovação tecnológica acontece a toda a hora. No tempo que mediou entre o repto lançado pelas organizadoras do volume aos autores de cada capítulo e o momento em que o livro é publicado registaram-se já alguns avanços, que não puderam ser incluídos. Trata-se de uma situação inevitável – é o preço que se tem de pagar quando se vive a vertigem de uma revolução que, na verdade, está apenas a dar os primeiros passos. Em La Petite Poucette (A Pequena Polegarzinha), publicado em 2012 (Paris, Éditions le Pommier), o filósofo francês Michel Serres defende que não podemos continuar a fingir que esta revolução tão recente que vivemos, tão poderosa como as da invenção da escrita e da imprensa, não alterará a esfera do saber e da pedagogia, bem como o próprio espaço universitário, inventado pelo e para o livro. Defende Serres que “as novidades tecnológicas obrigam-nos a sair do formato espacial implicado pelo livro e pela página” (p. 3). Há todo um caminho por descobrir, defende o filósofo francês – um caminho que as organizadoras e os autores que contribuíram para Novas Tecnologias no Ensino Superior também querem ajudar a construir.

VIEIRA, Fátima; RESTIVO, Maria Teresa (2014). Introdução. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 5-16

Referências SERRES, Michel (2012), La Petite Poucette, Paris, Le Pommier

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4

A TECNOLOGIA NA SALA DE AULA JOSÉ FERREIRA GOMES 1

1. INTRODUÇÃO Conta-se a história de que, nos primórdios da exploração espacial, a NASA terá gasto milhões em investigação para produzir uma esferográfica que pudesse ser usada em gravidade zero. Tal como com as velhas canetas de tinta permanente ou com as primitivas penas de pato, todos temos a experiência da falha de esferográficas quando estamos em posições menos comuns porque a tinta deixa de correr por gravidade até à pequena esfera que rola sobre o papel. Finalmente, terão encontrado uma solução high-tech que não agradou muito aos astronautas por ser demasiado volumosa. Assim ficámos até que alguém notou que os soviéticos pareciam ter uma solução diferente, um simples lápis de grafite que ninguém considerara como alternativa no maravilhoso mundo novo da investigação espacial.

1 Professor Catedrático da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto Secretário de Estado do Ensino Superior

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4

Eu ainda me mantenho fiel ao velho lápis, mas já não me recordo de ver nem tenho saudades do estilete de ardósia que usei para escrever as primeiras letras na lousa que, com a marca das pedreiras de Valongo, chegava à minha escola primária. Nesses bons tempos em que a esferográfica, já comercializada em toda a Europa desde o fim da segunda guerra, não chegara ainda às faldas do Marão, a opção entre o estilete de lousa e a pena de bico em aço que se molhava no tinteiro embutido na carteira não era simples e a caneta de tinta permanente era reservada para prenda de fim da primária! Se a lousa individual e o correspondente estilete passaram, já o quadro negro de ardósia me deixa bastantes saudades, principalmente depois de diminuir o pó disperso pelo giz. Os materiais sucedâneos de cor supostamente mais agradável são aceitáveis, mas as vantagens são marginais em relação a uma ardósia de boa qualidade. Só o futuro esclarecerá a longevidade dos novos quadros interativos que agora estão a ser colocados nas nossas escolas depois de muito testados em outros países com resultados duvidosos. Num estudo publicado em 2007 pelo Institute of Education da Universidade de Londres, Moss e tal concluem que os muitos estudos estatísticos que haviam sido usados para demonstrar o seu sucesso não evidenciam uma melhoria do desempenho dos alunos das escolas de Londres2. É impossível prever o sucesso de uma nova engenhoca

até que seja plenamente testada no mercado de massas, por vezes de2 Moss, G. et al, “The Interactive Whiteboards, Pedagogy and Pupil Performance Evaluation: An evaluation of the schools

whiteboard expansion (SWE) project: London challenge”, Institute of Education, University of London, Research Report Nº 816,

2007, ISBN 9781844788521, http://www.dcsf.gov.uk/research/data/uploadfiles/RR816.pdf , acedido pela última vez a 20 de abril de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 formas totalmente inesperadas. Inovação requer visão, risco, investimento. A sala de aula tem sido normalmente um espaço conservador, tornando-se, por isso, pouco atrativa para os mais jovens. As suas portas têm de ser abertas ao professor visionário capaz de pôr a sua imaginação ao serviço do desenho, teste e adoção – ou abandono – de novos métodos ou novas tecnologias. O professor investirá o seu tempo e esforço; a administração escolar, o governo e a sociedade civil deverão encorajar e apoiar financeiramente para que a comunidade escolar possa construir o seu caminho de progresso e que todos os jovens possam encontrar o seu percurso pessoal e sejam ajudados e realizar plenamente o seu máximo potencial.

A introdução de novas tecnologias na sala de aula tem uma longa história de insucesso mas todos concordarão que o aluno deve ver na escola um espaço onde lhe é aberto o futuro e nunca uma iniciação dolorosa e de utilidade duvidosa. Sendo baseado na autoridade do professor, o processo educativo tende a ser conservador. O livro foi inventado no séc. XV mas tivemos, até muito recentemente, professores que esperavam que os estudantes tirassem notas completas das suas aulas magistrais. O policopiador a stencil desenvolveu-se a partir de uma patente de Edison e manteve-se em uso até finais do século passado para reproduzir notas do professor ou de um aluno mais brilhante, vulgo “sebenta”. Esta tecnologia foi sendo substituída pela fotocópia a partir dos anos de 1960, mas a era das fotocópias baratas chegou muito mais tarde. O retroprojetor deu os primeiros passos na

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 formação militar, durante a segunda guerra mundial, e chegou à sala de aula nos anos de 1950, mas teve um caminho lento e controverso nas nossas escolas. O diapositivo fotográfico foi introduzido nos anos de 1930 mas só se tornou popular entre os fotógrafos amadores muito mais tarde, mantendo a primazia para transmissão de imagens coloridas de alta definição até finais do século. Sendo progressivamente adotado como auxiliar em apresentações em congressos, o diapositivo manteve um uso limitado na sala de aula pela rigidez e custo da preparação. Projetores de diapositivos e retroprojetores são agora arcaísmos suplantados por tecnologias baseadas no omnipresente computador pessoal. A apresentação powerpoint tomou conta da sala de aula, ainda que não tenha ultrapassado as deficiências pedagógicas do retroprojetor ou do projetor de diapositivos. A distância entre a muleta do professor e o auxiliar do estudante pode ser enorme. Cabe ao professor reunir as competências em todas as tecnologias ao seu dispor para experimentar e escolher, em cada momento, a que lhe pareça mais eficaz para os objetivos que se proponha. Terá de manter, sempre, um espírito alerta e crítico para corrigir as suas opções em função das consequências que tenham na aprendizagem dos alunos. O ambiente escolar deverá incentivar o professor a manter esta experimentação permanente, dando ao aluno a noção de que a escola é um lugar aberto à modernidade tecnológica, sem atingir um deslumbramento que cegue a realidade permanente de que a aprendizagem exige trabalho reflexivo, disciplina e perseverança, e nunca se poderá reduzir a um jogo para entretenimento. Os jovens gostam de ser surpreendidos pelo mundo que os

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 rodeia. Cabe ao professor dar resposta a essa expectativa e conseguir que os conteúdos e os meios usados na sua apresentação alimentem no estudante uma curiosidade permanente.

2. ENSINO A DISTÂNCIA: TRANSMISSÃO PELA INTERNET Em 2001, estive em Düsseldorf, no 20.º Congresso Mundial de Educação

Aberta e à Distância3, entre mais de 1200 delegados de 85 continentes. Era uma época de grande entusiasmo, em que muitos acreditavam que estava ali o futuro da educação universitária, discutindo-se a forma como poderiam sobreviver as universidades tradicionais onde professores, estudantes e técnicos se reúnem para viver em conjunto durante alguns anos, frequentando laboratórios, bibliotecas, restaurantes e discotecas numa intensa partilha de experiências. A Fernuniversität in Hagen, que organizava o congresso e é a única universidade pública alemã a distância, não atingira ainda os atuais 5.0 estudantes e usava o papel e o correio como veículo privilegiado de comunicação com os seus estudantes. A Internet era já usada extensamente em países como os Estados Unidos e a Austrália e demonstrara o seu potencial para cursos numerosos, pois o ponto de equilíbrio financeiro era estimado por alguns em 300 inscritos, muito acima dos outros veículos de transmissão então em voga. O tema do congresso, The Future of Learning - Learning for the Future: Shaping the Transition,

sugere bem o momento que se vivia e a convicção de que poderíamos estar3 20th World Conference on Open learning and Distance Education, The Future of Learning - Learning for the Future: Shaping the

Transition Düsseldorf, Germany, 01 - 05 April 2001, http://www.fernuni-hagen.de/ICDE/D-2001/ em 2 de abril de 2009

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 à beira de uma grande mutação na maneira como a sociedade percebia a universidade, com uma enorme redução no número de docentes que seriam substituídos em larga escala por monitores menos qualificados e dispersos por centros de apoio aos estudantes. Muitas universidades tradicionais estudavam estratégias de sobrevivência para esse mundo novo que se aproximava enquanto outras espreitavam a janela de oportunidade que se lhes oferecia. Vivíamos tudo isto em Düsseldorf, enquanto a bolha dot-com já rebentara na bolsa de Nova Iorque4 e já surgiam vozes mais serenas a prever uma evolução mais lenta da educação superior dos jovens. São estas vozes mais moderadas que virão a prevalecer nas viragens estratégicas que serão iniciadas com o anúncio pelo MIT, em outubro de 2002, da abertura dos conteúdos dos seus cursos5, como veremos mais abaixo.

A Universidade de Londres parece ter sido a primeira a oferecer, em 1858, cursos de graduação a distância6. Nos últimos decénios o ensino a distância foi visto por muitos governos como um meio de oferecer uma educação superior a um número crescente de estudantes que não encontram lugar nas

universidade tradicionais, conseguindo um custo unitário geralmente mais4 O máximo do índice de preços na bolsa tecnológica de Nova York fora atingido em 10 de março de 2000, aparentemente

associado à decisão judicial americana que declarava a Microsoft um monopólio, mas a grande queda só ocorreu ao longo de 2001 5 Anúncio pelo MIT, em outubro de 2002, de um projeto-piloto para colocar em acesso livre os conteúdos de certos cursos, http://web.archive.org/web/20021014163054/ocw.mit.edu/index.html em 2 de abril de 2009 6 University of London, External System, “The University of London was the first university in the world to offer distance learning degrees – more than a century before the open universities were founded – through its External System established in 1858”, http://www.londonexternal.ac.uk/about_us/facts.shtml em 2 de abril de 2009.

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