07-Novas tecnologias e educação - Restivo

07-Novas tecnologias e educação - Restivo

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GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 baixo. A Indira Gandhi National Open University parece ser a maior universidade do mundo em número de estudantes matriculados, tendo anunciado7 que ultrapassaria os 2 milhões de estudantes em janeiro de 2009. Como meio para chegar aos estudantes, usa um misto de rádio, televisão, e TIC, tendo atualmente 62 centros regionais e 2.053 centros de estudo. No Paquistão, a Allama Iqbal Open University, atingira os 1.806.214 em 2004-05. Muitos outros países têm universidades a distância que servem públicos muito diversificados e atingem as centenas de milhar de estudantes. Na maioria dos países europeus, a educação a distância está bem firmada. No Reino Unido, a Open University foi criada em 1969 e tem atualmente cerca de 200.0 estudantes matriculados em todo o mundo, usando principalmente a Internet como veículo de comunicação.

Apesar do seu enorme sucesso, o ensino a distância é, ainda, visto com alguma reserva em alguns meios académicos. O jornal americano Chronicle of Higher Education dava eco, recentemente, à visão cáustica de muitos professores que dizem não conhecer nenhum curso pela Internet que mereça respeito. Sendo a venda de graus académicos pela Internet um negócio perfeitamente legal nos Estados Unidos e estando muitas universidades conceituadas a oferecer cursos não presenciais nem sempre acreditados da mesma forma que os presenciais, compreende-se esta suspeição. A situação é desagradável para as muitas instituições e

7 http://www.thaindian.com/newsportal/uncategorized/ignou-enrolment-to-cross2-million-by-january_100135848.html

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 estudantes que trabalham seriamente e nem sempre vêm esse esforço reconhecido pela sociedade e pelos empregadores.

Apesar da penetração da Internet em todas as áreas da vida social, económica e intelectual, não devemos esconder as enormes dificuldades que ainda permanecem e que têm de ser ultrapassadas (ou atenuadas) se quisermos que o seu papel na educação continue a crescer. Veremos, sucessivamente, os seguintes aspetos:

As possíveis desvantagens da leitura no ecrã de um computador têm sido discutidas e são muito dependentes do hábito e, especialmente, do hábito criado na infância e juventude. Contudo, parece haver uma dificuldade associada à mais baixa resolução dos ecrãs quando comparados com o papel. Os estudos de Legge encontram uma baixa até 30% na velocidade de leitura que teria de ser compensada por um aumento de resolução de até dez vezes (Legge, 2007). Um esforço para atenuar este problema é a tecnologia ClearType da Microsoft8, já presente nos produtos mais recentes, mas o problema está ligado à própria natureza das telas e à área ali ocupada por um pixel.

8 ClearType information in http://www.microsoft.com/typography/cleartypeInfo.mspx , em 7 de junho de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4

É cada vez mais frequente o uso de hiperligações em textos científicos mas o problema da sua disponibilidade mantém-se. Um estudo publicado na Science9 analisa mais de 1000 artigos publicados no New England Journal of Medicine, no The Journal of the American Medical Association e na Science para concluir que 13% das referências a sítios na Internet estavam inativas 27 meses depois da publicação. Os cursos propostos aos estudantes têm, normalmente, mais referências à Internet e a sua morbilidade é muito alta. O problema da criação de um repositório dos materiais disponíveis na Internet está longe de estar resolvido. Mesmo para revistas científicas publicadas na Internet, o problema mantém-se em aberto.

A qualidade da informação na Internet e o seu uso no ambiente educacional têm sido muito criticados, ao ponto de algumas universidades não aconselharem aos seus estudantes o uso de referências a textos na Internet. Uma das fontes mais usadas é a Wikipedia10 que, na versão inglesa, já tem perto de três milhões de artigos desde o seu lançamento em 2001. O facto de qualquer pessoa poder editar um artigo não dá garantia de qualidade, 9 Going, Going, Gone: Lost Internet references, Science, 302, Nº. 5646, 787 – 788 (2003). 10 Wikipedia, http://wikipedia.org/

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 apesar de os sistemas internos de verificação serem capazes de detetar os problemas mais grosseiros. O problema é, provavelmente, mais grave com outras fontes dispersas, mesmo com fontes em portais universitários. No âmbito da educação, o estudante está particularmente disponível para aceitar como válido o que lhe seja dito na aula ou encontre escrito no seu livro de referência e, por extensão, na Internet. O problema poderá ser muito grave por uma informação incorreta perdurar na memória do estudante, podendo ser, depois, muito mais difícil corrigir um conceito errado assim adquirido.

O custo de manutenção do portal de uma revista ou de outro repositório de informação é mais elevado do que normalmente se pensa, não só pelo equipamento em funcionamento e pelas ligações à rede mas ainda pela necessidade de transcrição de toda a informação arquivada cada vez que há uma transição tecnológica. Não existe, ainda, um bom modelo aberto de financiamento de um portal deste tipo, mas a pressão no sentido do livre acesso aos resultados da investigação tem crescido nos Estados Unidos11, havendo um movimento no mesmo sentido no seio da União Europeia12.

Esta tendência resulta dos elevadíssimos custos que as instituições de1 Todos os artigos com trabalho financiado pelo NIH são publicados num portal de acesso livre do próprio NIH,

http://publicaccess.nih.gov/, em 7 de junho de 2009. 12 ERC Scientific Council Guidelines for Open Access, 17 December 2007 http://erc.europa.eu/pdf/ScC_Guidelines_Open_Access_revised_Dec07_FINAL.pdf , em 7 de junho de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 educação superior e de investigação são obrigadas a suportar para aceder às revistas comerciais. O sentimento generalizado é que estas revistas assumem a parte menos onerosa da investigação mas assumem-se como suas proprietárias por tempo ilimitado. A situação agravou-se com a transição do papel para a Internet. A maioria das universidades tinha grandes coleções de revistas em papel mas teve de fazer novo pagamento para aceder a essa mesma informação digitalizada. A situação é agravada pela noção de que algumas editoras assumiram uma posição dominante no mercado mas a construção de boas alternativas ao modelo comercial tem sido difícil.

3. APRENDIZAGEM DIFERIDA E RECURSOS ABERTOS Passado o sonho dot-com, as universidades seguiram as suas linhas diferenciadas de desenvolvimento. Enquanto a educação a distância crescia a grande ritmo, servindo públicos tradicionais (jovens) em muitos países e oferecendo uma segunda oportunidade a novos públicos de outros países, o problema da comercialização dos conteúdos educativos ganhou grande importância na discussão estratégica nos meios académicos. A estratégia dot-com punha uma enorme expectativa no valor dos conteúdos de que os cursos universitários seriam um exemplo paradigmático. Em alguns países, as universidades espreitavam esta nova oportunidade de negócio13, mas o

mundo empresarial viu ali uma enorme oportunidade e desenvolveu13 O caso mais conhecido é a Austrália, que desenvolveu com enorme sucesso uma estratégia de comercialização da educação

superior especialmente focada na China e no Sudeste Asiático.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 estratégias muito agressivas. Uma das mais conhecidas é a do grupo empresarial britânico Pearson que, partindo do sucesso dos seus sub-grupos Penguin e Finantial Times, tem procurado construir um império global em torno da educação, mas está ainda muito longe de ser a universidade global que a euforia do ano 2000 permitia sonhar14.

O caso mais conhecido de transição do modelo proprietário dos conteúdos para um modelo aberto é o anúncio pelo MIT, em outubro de 2002, da sua nova política para disponibilizar todos os seus cursos de graduação e pósgraduação para uso livre pelo público. Esta decisão resultou de uma reflexão estratégica que estava em curso desde 1999 sobre o posicionamento a adotar pelo MIT face à educação a distância, devendo ser recordado que a perceção sobre o sucesso comercial da exploração dos conteúdos fora drasticamente alterada durante esse período, como vimos acima. Excluída a viabilidade da entrada no mercado do ensino a distância, foram abraçadas as vantagens da abertura dos conteúdos para a reputação e a atração de melhores estudantes, enquanto o risco de perda de estudantes ou de uso dos conteúdos em instituições competidoras foi considerado irrelevante. O desenvolvimento do projeto tem sido relativamente lento e muito desigual, apesar do grande financiamento que obteve de fundações privadas. Em

muitos casos, são disponibilizados apenas sumários das aulas ou gravações14 O grupo Pearson Education atingiu, em 2008, vendas no valor de mais de 3.0 milhões de libras esterlinas e apresenta-se hoje

da seguinte forma: Educating 100 million people worldwide, Pearson Education is the global leader in educational publishing, providing research-based print ad digital programmes to help students of all ages learn at their own pace, in their own way. http://www.pearson.com/index.cfm?pageid=18 acedido pela última vez a 2 de abril de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 video de aulas magistrais sem acesso aos materiais de apoio projetados para os estudantes presentes. Apesar destas limitações, o sucesso da iniciativa é enorme, com acesso de estudantes (e de professores) de todo o mundo. Se é, ainda, difícil de imaginar que um estudante possa seguir uma linha própria de formação, à cadência que escolha, usando apenas estes recursos, não há dúvida de que muitos estudantes de todo o mundo estão a ver estas aulas e outros materiais complementares que anteriormente lhes estavam completamente vedados. Este projeto-piloto tem sido copiado ou adaptado por universidades e governos de muitos países e tem de ser visto, hoje, como modelo de referência com impacto no que os estudantes aprendem e no que os professores ensinam e na forma como o fazem. Um caso significativo deste ambiente vem do Reino Unido com a decisão do JISC15, anunciada16 em janeiro de 2009, de que iriam disponibilizar 5.7 milhões de libras esterlinas para financiar projetos-piloto para avaliar o impacto da colocação em acesso aberto dos conteúdos educativos. A Open University (Reino Unido) lançou, em outubro de 2006, o portal da sua iniciativa OpenLearn17 onde são disponibilizadas algumas centenas de unidades de aprendizagem devidamente estruturadas através da ferramenta Moodle. As universidades holandesas têm uma iniciativa deste tipo com a maioria dos

15 JISC, Joint Information Systems Committee financiado pelo governo britânico, http://www.jisc.ac.uk/ acedido pela última vez a 2 de abril de 2009. 16 The Guardian, 19 de janeiro de 2009, http://www.guardian.co.uk/universitychallenge/university-europe 17 Portal da iniciativa OpenLearn da Open University: http://openlearn.open.ac.uk/ , acedido pela última vez a 2 de abril de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 conteúdos em inglês. Outra iniciativa a merecer registo é a ParisTech18, uma associação de doze Grandes Écoles que reunem cerca de 20 0 estudantes de 2.º e 3.º ciclo (de Bolonha), lançada em 2003 e que, em dezembro de 2008, começou a colocar em acesso livre os recursos pedagógicos e de apoio aos cursos, assim como as teses de doutoramento defendidas. Estas iniciativas estão a pôr grande pressão na Comissão Europeia para que financie iniciativas deste tipo. Para além do grande objetivo altruísta de disponibilizar conteúdos de qualidade a estudantes que poderão ter dificuldade no acesso às instituições líder, estas iniciativas vão pôr grande pressão nos docentes para modernizarem e melhorarem os seus cursos, já que os estudantes terão uma nova facilidade de comparação.

Um excelente exemplo do sucesso dos recursos educativos abertos é o portal educacional do YouTube19, onde a Universidade da Califórnia tinha já 3.320 vídeos e o MIT 932! Naturalmente, um repositório formado por contributos de fontes diversas é heterogéneo e podem identificar-se diversas motivações dos autores e das instituições que ali depositam os materiais. Alguns não passam de pequenos filmes promocionais de um professor, disciplina ou escola, mas alguma persistência permite encontrar séries completas de grandes conferências pelos maiores especialistas e

comunicadores de ciência ou cursos de aulas teóricas de grande qualidade. A18 ParisTech reune perto de 20 0 estudantes, 30% dos quais estrangeiros e tem 3 500 docentes, http://paristech.org/ , acedido

pela última vez a 2 de abril de 2009. 19 A coletânea de videos dos parceiros académicos da empresa YouTube pode ser vista em http://www.youtube.com/edu acedido pela última vez a 24 de maio de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 qualidade didática poderá ficar aquém do desejável, por deficiência da filmagem ou pela ausência dos materiais de apoio a que os estudantes locais têm acesso, mas não haja dúvida de que estamos no dealbar de uma nova era, onde a sala de aula está aberta para todo o mundo ver o que se passa e competir para melhorar a transmissão de conhecimentos. A grande maioria dos materiais é depositada por instituições de educação superior norteamericanas mas o pacote maior vem da Índia, do programa governamental para a aprendizagem reforçada pela tecnologia, um projeto iniciado pelos sete institutos indianos de ciência e de tecnologia de Bangalore que reune já 129 cursos na Internet e 110 gravados em vídeo, cada curso equivalente a cerca de 40 aulas teóricas, perfazendo 3.629 materiais20. O objetivo é que estes materiais, produzidos nas instituições de elite, possam ser usados noutras instituições convencionais ou de ensino a distância, mas o efeito de estimular a melhoria da qualidade de cursos dados por outros professores usando os meios convencionais não deve ser desprezado. Os 29.852 materiais depositados neste repositório do YouTube provêm de 203 instituições com uma média de aproximadamente 150 materiais e uma mediana de 60 materiais de cada instituição. Uma conclusão imediata é que nenhuma instituição de educação superior dispõe dos meios para oferecer um repositório suficientemente completo para se tornar interessante, mas que associações de universidades (caso das indianas ou das californianas)

podem produzir repositórios muito valiosos20 National Programme on Technology Enhanced Learning, http://nptel.iitm.ac.in/index.php, http://w.youtube.com/edu, acedido

pela última vez 24 de maio de 2009.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4

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