07-Novas tecnologias e educação - Restivo

07-Novas tecnologias e educação - Restivo

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GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 aprendizagem, mas tem de ter acesso à formação que entenda necessária, aos meios para aplicar novas metodologias. Enquanto isto decorre, têm de estar criados os estímulos pessoais e sociais para que essa experimentação pedagógica seja prosseguida de uma forma consequente. Têm de ser criadas oportunidades de troca de boas práticas entre os pares, de modo a que haja um progresso real, se atenue a repetição de experiências com provado insucesso. Acresce que as instituições estão a receber um número crescente de estudantes mais velhos, com experiência prévia no mundo do trabalho, cujas exigências são muito diferentes das do jovem adulto que, muitas vezes, aceita de bom grado prolongar a adolescência num ambiente tutelado e de menor responsabilidade pessoal. Os públicos que procuram a educação ao longo da vida têm requisitos muito diferentes quer quanto a conteúdos quer quanto ao ambiente na sala de aula. O docente universitário terá de saber fazer a transição entre uma aula matinal para jovens de 18 anos ainda ensonados e uma sessão destinada a profissionais experientes que ali se apresentam no fim de um longo e exigente dia de trabalho.

O chamado processo de Bolonha veio alertar os docentes e as instituições para estas novas realidades. Na maioria dos países, estas preocupações chegaram ao topo e levaram os governos, ou agências deles dependentes, à criação de políticas públicas de estímulo à modernização do ambiente de aprendizagem, mas Portugal dispensou essa intervenção em nome de um conceito de autonomia desresponsabilizadora da tutela. Estas preocupações chegaram muitas vezes com uma velha linguagem que nem sempre deu os

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 melhores resultados onde foi aplicada de forma rígida. Felizmente que a autonomia docente é maior no ensino superior, o que permite alguma filtragem do que passa do discurso ortodoxo “bolonhês” (pejorativamente designado de eduquês noutros locais). O esforço feito pelos docentes portugueses, nos últimos anos, tem sido notável, mas faltam completamente as oportunidades para troca de experiências, para a apresentação dos casos de sucesso na modernização das práticas pedagógicas. Em algumas áreas como a Medicina e as engenharias, há uma longa tradição de foruns internacionais de discussão das didáticas específicas. Os foruns nacionais são mais raros e deveriam ser alargados a outras áreas, num formato que poderia ser próximo do modelo de congresso científico onde as apresentações são filtradas pela avaliação por pares.

Esta discussão da modernização das práticas em sala de aula e das didáticas específicas de cada disciplina leva ao que, no calão anglófono, é conhecido com blended learning, onde a colocação de materiais na Internet é generalizada, mas o uso de instrumentos web 2 é mais raro e experimental. Mesmo nos casos de uso mais avançado da Internet, a construção de um verdadeiro curso a distância baseado na Internet é, ainda, distante. De facto, a construção de um curso deste tipo é muito cara em recursos materiais e humanos e a dimensão de cada universidade portuguesa torna-o inviável. Mesmo a Universidade Aberta encetou a transição para este modo, muito recentemente. A grande solução seria um modelo cooperativo entre as universidades portuguesas que permitisse construir um espaço digno no

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4 mundo lusófono, mas esta alternativa tem sido prejudicada porque os estímulos externos à competição têm sido superiores aos que poderão ser vistos como estimulando a cooperação. A alternativa de oferta pública de conteúdos também não parece ter sido, ainda, iniciada como política institucional em Portugal e poderia levar a resultados muito interessantes, possivelmente potenciadores de futuras intervenções alargadas. Este é um espaço onde o prestígio custa a autorização de uso alheio com um retorno a mais longo prazo. A possibilidade deste retorno não parece ter sido, ainda, percebida por muitos docentes nem por nenhum responsável institucional. A responsabilidade pelo atraso, que começa a ser grave, pode estar também na falta de financiamento, já que as grandes iniciativas de universidades, em quase todo o mundo, tiveram grandes apoios públicos ou privados.

GOMES, José Ferreira (2014). A tecnologia na sala de aula. Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 17-4

Referências

LEGGE, G. (2007), Psychophysics of Reading in Normal and Low Vision, Mahwah, Lawrence Erlbaum Associate

SAMIL, J. (2009), The Chalenge of Establishing World Class Universities, World Bank Publications (February 10)

PINHEIRO, Bruno; CORREIA, Luís Grosso (2014). E-learning.... Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 45-104

E-learning:

BRUNO PINHEIRO e LUÍS GROSSO CORREIA

A “globalização” realmente revirou a vida das pessoas de tal forma que seus pais ou avós teriam grande dificuldade em imaginar. Muito do que, por décadas e mesmo por séculos, nos parecia familiar e permanente vem caindo cada vez mais rápido no esquecimento. O passado, ao que tudo indica, é realmente um outro país: nele, as coisas eram feitas de outra maneira.

A expansão das comunicações é um caso exemplar. Até às últimas décadas do século X, as pessoas tinham um acesso limitado à informação. Graças à educação nacional, à rádio e televisão controladas pelo Estado e a uma cultura impressa comum, todos passaram a ter a mesma probabilidade de saber praticamente as mesmas coisas dentro de um Estado, nação ou comunidade. Hoje, ocorre o contrário. A maioria das pessoas fora da África subsaariana tem acesso a uma quantidade quase infinita de dados. Na falta, porém, de uma cultura comum, as informações e ideias fragmentadas que as pessoas escolhem ou encontram são determinadas por uma multiplicidade de preferências, afinidades e interesses. Com o passar dos anos, cada um de nós

PINHEIRO, Bruno; CORREIA, Luís Grosso (2014). E-learning.... Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 45-104 tem menos pontos em comum com os mundos em rápida multiplicação dos nossos próprios contemporâneos, sem falar do mundo dos que vieram antes de nós (Judt, 2008, 59).

E-learning é um termo inglês resultante da contração de electronic learning (aprendizagem eletrónica) e refere-se a experiências de aprendizagem baseadas em tecnologias eletrónicas ou, mais atualmente, em computadores. No Glossário da Sociedade de Informação, publicado em 2005 pela Associação Portuguesa para a Promoção e Desenvolvimento da Sociedade da Informação (APDSI), a aprendizagem eletrónica tem por sinónimos aprendizagem em linha ou e-learning e é definida como “acesso a uma formação em linha, interativa e por vezes personalizada, difundida através da Internet, de uma intranet ou de outro meio de comunicação eletrónico, tornando o processo independente da hora e do local” (APDSI, 2005: 7)1. Esta definição de e-learning é a mais utilizada para descrever interações de ensino e aprendizagem baseadas em computadores (estações terminais) e/ou em abordagens em linha (computadores ligados em rede).

No entanto, a investigação desenvolvida em tecnologia educativa releva o facto de a educação desenvolvida em contextos eletrónicos ou com recurso a equipamentos eletrónicos, no qual se integra o e-learning, requerer metodologias específicas de

1 Como nota da definição apresentada, é referido ainda que “como é um método menos dispendioso e não está constrangido por considerações geográficas, é extremamente útil em situações em que o ensino tradicional não é possível, como é o caso de trabalhadores e estudantes com dificuldades de horário ou a viver em locais remotos” (APDSI, 2005, 7)

PINHEIRO, Bruno; CORREIA, Luís Grosso (2014). E-learning.... Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 45-104 ensino e de aprendizagem. Paul Catherall afirma que o e-learning pode também ser “considerado como uma abordagem pedagógica, como um método de ensino que exige metodologias de trabalho adequadas a contextos em linha e digitais” (Catherall, 2005: 2). Neste sentido, o mesmo autor agrupa a pluralidade de definições de elearning em três linhas operatórias: 1. conceito básico de interação educativa através de tecnologias; 2. método de ensino específico baseado em computadores e Internet; 3. técnica educacional ou pedagogia específica.

O e-learning tende a alinhar-se historicamente com outras formas de acesso à educação ou formação profissional que podemos fazer remontar ao advento do ensino a distância no século XIX, da tecnologia educativa (década de 1940), do ensino assistido por computador (década de 1960) e das potencialidades abertas pela Internet e a World Wide Web (Web), a partir de meados da década de 1990.

A história do e-learning não é linear e não tem um significado unívoco. A aprendizagem eletrónica terá começado quando um professor integrou, pela primeira vez, a utilização de, por exemplo, um recetor de rádio, com tubos de amplificação eletrónica, num contexto de aprendizagem, algures no início do século X. Nesse ato, poder-se-á sintetizar as linhas de força que orientam este trabalho, a saber: ensino a distância apoiado por equipamento de tecnologia eletrónica (e-learning) em contexto de sala de aula (tecnologia educativa). Importará, assim, conhecer a história do ensino a distância, da tecnologia educativa utilizada em contextos de trabalho presencial e do e-learning, aqui entendido no seu sentido mais restrito (de equipamento de arquitetura computorizada).

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O presente trabalho foi, assim, concebido como um transcurso histórico-educativo e nele procuraremos integrar a polissemia e complexidade que os conceitos operatórios (ensino a distância, e-learning e tecnologia educativa) encerram. A abordagem não se cingirá a uma análise particular da história do e-learning, como, por exemplo, a história dos computadores em educação (cf. Molnar, 1997; Nicholson, 2007). Deixaremos igualmente de fora o papel desempenhado pelo e-learning no domínio da formação profissional (e-training), já pela ténue fronteira entre educação e formação que o foco de alguns trabalhos consultados, mais orientado para o estudo de contextos empresariais, põe em relevo (cf. Mantyla, 2000; Machado, 2001; UOC, 2003; Borotis et al. 2008), já pelo ruído que esta temática iria introduzir no itinerário do presente estudo. Tentaremos ainda, num primeiro momento, problematizar e analisar temáticas teóricas e históricas do ensino a distância, da tecnologia educativa e do e-learning, para em andamento subsequente integrarmos a história do e-learning numa escala nacional.

1. ENSINO A DISTÂNCIA, TECNOLOGIAS E ELETRÓNICA EM EDUCAÇÃO

Procurar-se-á, neste capítulo, identificar o quadro histórico e conceptual que os conceitos de ensino a distância, tecnologia educativa e e-learning encerram, de forma a tornar inteligível a nossa análise. As etapas mais significativas da evolução registada entre a interação educacional desenvolvida no espaço geográfico (próximo/presencial ou distante) e no ciberespaço (espaço de natureza eletromagnética, gerador de experiências de interação virtual, estruturado por sensores, sinais, conexões, transmissões, processadores, controladores, redes de informação interdependente e

PINHEIRO, Bruno; CORREIA, Luís Grosso (2014). E-learning.... Novas tecnologias e educação... Porto: Biblioteca Digital da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Pp. 45-104 acessível a partir de qualquer computador) serão igualmente analisadas à luz de uma problematização tecida em torno dos equipamentos e soluções tecnológicas (hardware) e dos elementos organizacionais, curriculares e pedagógicos (software) dessa relação.

1.1. Ensino a distância

A expressão ensino a distância presta-se a interpretações ambíguas devido à pluralidade de modalidades de ensino (formal, não formal, escolar, profissional) e aos variados contextos de aprendizagem (experimental, laboratorial, treino manual) que recorrem a este tipo de método. Podemos considerar o ensino a distância como toda a modalidade educativa que assenta numa componente estrutural e significativa de autoaprendizagem, decorrente do trabalho individual do estudante realizado fora da sala de aula convencional e da presença do professor. Assim, a expressão tenderá a ser redutora quando concebemos a panóplia de suportes de comunicação, a arquitetura e a conceção da interação pedagógica. Daí que, em contexto europeu, a expressão de ensino a distância aberto e a distância tenda a ser mais utilizada entre a comunidade académica especializada, por ser a mais inclusiva das designações equivalentes (ensino aberto, aprendizagem baseada em recursos, aprendizagem flexível, aprendizagem em rede, aprendizagem em linha/on-line) e recobre as subtis diferenças entre as possíveis modalidades de aprender por si próprio, as quais “decorrem mais de pormenores de organização e da instrumentação utilizada do que reais diferenças metodológicas” (Trindade, 2001: 56).

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