Banana Produção: aspectos técnicos
(Parte 2 de 9)
| países importadores de banana | Na região |
As melhores bananas do mundo são produzidas nas zonas mais quentes do globo, especialmente entre os trópicos de Câncer e Capricórnio. De modo geral, quanto mais próximo da linha do Equador, mais favoráveis são as condições climáticas para o cultivo da banana. As referidas regiões ainda desfrutam da vantagem da localização, que diminui o tempo de viagem e o custo do transporte para o Hemisfério Norte, onde estão localizados os principais Norte, embora existam vantagens do clima e da localização, alguns estados vêm enfrentando sérios problemas fitossanitários com essa cultura.
As regiões Sul e Sudeste, com maior nível tecnológico e organização dos produtores, estão mais próximas dos países do Hemisfério Sul, que também apresentam um expressivo mercado de banana. A produção de banana dos estados destas regiões poderiam ser exportadas com um menor custo de transporte para os países vizinhos: Argentina, Uruguai e Paraguai.
Embora as regiões Norte e Nordeste apresentem vantagens comparativas para a produção de banana de alto padrão de
Clóvis Oliveira de Almeida José da Silva Souza
Zilton José Maciel Cordeiro
1111Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 1 qualidade, ainda é preciso superar, em grande parte, sua baixa eficiência tanto na produção como no manejo pós-colheita.
São vários os problemas que afetam a bananicultura dessas regiões, que se caracteriza pelo baixo nível de tecnificação empregado nos cultivos, baixa produtividade e qualidade de fruto. As exceções geralmente se localizam nos pólos de fruticultura irrigada, presentes no Nordeste, que, em alguns casos, apresentam melhor produtividade devido ao uso da irrigação, mas deixam muito a desejar em relação ao manejo e tratos culturais dispensados à cultura e ao tratamento pós-colheita.
Os principais pólos estão localizados nas regiões Sudeste e Nordeste, destacando-se entre eles o de Minas Gerais, localizado em Janaúba; os da Bahia, localizados em Juazeiro, Bom Jesus da Lapa, Santa Maria da Vitória, Livramento de Nossa Senhora e Barreiras; os pólos de Pernambuco, sediados em Petrolina e Santa Maria da Boa Vista; o pólo do Rio Grande do Norte, no vale do Açu; o de Sergipe, no Platô de Neópolis, e o do Ceará, na Chapada do Apodi. Em implantação temos ainda, no Ceará, o projeto de irrigação do Baixo Acaraú e, no Maranhão, o projeto de Balsas.
Nas áreas de produção de banana das regiões Norte e Nordeste, existe um grande número de cultivares. No Nordeste o predomínio é das cultivares Prata e Pacovan. A Pacovan destaca-se nos estados do Ceará e Pernambuco. A Prata tem participação expressiva nas duas regiões. As variedades tipo Terra (frutos para cozinhar ou fritar) também são importantes nas duas regiões.
As variedades do tipo Cavendish, as mais aceitas no mercado internacional, aos poucos estão sendo plantadas nos perímetros irrigados do Nordeste. O Rio Grande do Norte é o maior produtor de banana Grand Naine, devido à instalação, no vale do Açu, de grandes empresas especializadas na produção de banana voltada para a exportação. São cultivadas ainda nas regiões Norte e Nordeste, em maior ou menor quantidade, as variedades: Prata-anã, Nanica, Nanicão, Maçã, Figo, Pelipita, Ouro, Caru, dentre outras.
Nas regiões Sul e Sudeste, as variedades tipo Cavendish (Nanica e Nanicão) são as mais expressivas, seguidas da cultivar Prata. A cultivar Maçã destaca-se apenas na região Centro-Oeste. Nessa região também têm participação significativa as cultivares Nanica e Nanicão, Prata, Terra e D’Angola.
Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 11212

será possível nos médio e longo prazos, a partir de resultados de pesquisa (Alves, 1986). As principais cultivares de banana do Brasil apresentam um ou alguns desses problemas (Tabela 1).
Dado o seu enorme potencial, a bananicultura é motivo de interesse cada vez maior da parte de pesquisadores do mundo inteiro. Todavia, o inventário dos conhecimentos científicos e tecnológicos disponíveis sobre essa cultura ainda é relativamente pequeno. Além disso, são muitos os problemas básicos que impedem seu desenvolvimento e aproveitamento em maior escala.
Classificação botânicaClassificação botânica
Segundo a sistemática botânica de classificação hierárquica, as bananeiras produ-
Jorge Luiz Loyola Dantas Walter dos Santos Soares Filho
A bananicultura brasileira apresenta características peculiares que a diferenciam do que ocorre na maioria das regiões produtoras do mundo, tanto no que diz respeito à diversidade climática em que é explorada quanto em relação ao uso de cultivares, à forma de comercialização e às exigências do mercado consumidor. De modo geral, os cultivos seguem os padrões tradicionais, com baixos índices de capitalização e tecnologia. Cultivos tecnicamente orientados são encontrados em São Paulo, Santa Catarina, Goiás e Minas Gerais; neles observa-se a utilização de tecnologias importadas e adaptadas de outros países. O baixo potencial de produtividade das principais cultivares exploradas no país - inferior a 16 toneladas/hectare -, o porte elevado de algumas variedades, a intolerância à estiagem e a presença de doenças e pragas são os principais problemas que afetam a bananicultura brasileira, cuja solução só
CultivarPorteResistência às doenças e pragas¹
Mal-do--panamá Sigatoka--amarela Sigatoka--negra Moko NematóideR.similis Broca-do- -rizoma
Prata (AAB) Alto MS S S S R MR Pacovan (AAB) Alto MS S S S R MR Prata-anã (AAB) Baixo MS S S S R MR Maçã (AAB) Médio S MR - S R MR Mysore (AAB) Alto R R R S R MR Terra (AAB) Alto R R S S S S D' Angola (AAB)MédioRRSSSS Nanica (A) Baixo R S S S S S Nanicão (A) Médio R S S S S S
Tabela 1. Algumas características das principais cultivares de banana do Brasil.
1 - S – suscetível; MS – moderadamente suscetível; MR – moderadamente resistente; R – resistente. Fonte: Embrapa Mandioca e Fruticultura, 1999.
1313Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 1 toras de frutos comestíveis são plantas da classe das Monocotyledoneae, ordem Scitaminales, família Musaceae, da qual fazem parte as subfamílias Heliconioideae, Strelitzioideae e Musoideae. Esta última inclui, além do gênero Ensete, o gênero Musa, constituído por quatro séries ou seções: Australimusa, Callimusa, Rhodochlamys e (Eu-)Musa (Simmonds, 1973). Dentro do gênero Musa existem no mínimo duas espécies, M. ingens (2n = 14) e M. becarii (2n = 18), que não são classificáveis nas seções citadas. A discriminação entre (Eu-)Musa e Rhodochlamys é artificial e não reflete bem os graus de isolamento reprodutivo (Shepherd, 1990). A seção (Eu-)Musa é a mais importante, uma vez que, além de ser formada pelo maior número de espécies desse gênero, apresenta ampla distribuição geográfica e abrange as espécies comestíveis.
A classificação proposta por
Cheesman (1948) para o gênero Musa, aceita atualmente no mundo inteiro, baseia-se no número básico de cromossomos dividido em dois grupos da seguinte ma- neira: as espécies com n = 10 cromossomos pertencem às seções Australimusa e Callimusa, enquanto as espécies com n = 1 cromossomos integram as seções Rhodochlamys e (Eu-)Musa. As espécies componentes destas duas últimas seções são as que apresentam potencialidade como germoplasma útil ao melhoramento genético das variedades cultivadas. Segundo Shepherd (1990), tais espécies são:
a) Rhodochlamys: M. laterita
Cheesman, M. ornata Roxburgh, M. rubra, M. sanguinea e M. velutina Wendl e Drude.
b) (Eu-)Musa: M. acuminata Colla, M. balbisiana Colla, M. flaviflora Simmonds, M. halabanensis Meijer, M. ochracea Shepherd e M. schizocarpa Simmonds.
A Tabela 2, adaptada de Champion (1967), apresenta esquematicamente a classificação das bananeiras, além de incluir outras famílias da ordem Scitaminales.
Origem e níveis cromossômicosOrigem e níveis cromossômicos das cultivaresdas cultivares
A maioria das cultivares de banana originou-se no continente asiático, tendo
Classe Ordem Famílias Subfamílias Gêneros Séries ou Seções
Australimusa, Callimusa
Musoideae Musa Rhodochamys, (Eu-)
Musa
Ensete
Strelitzia
Monocotyledoneas Scitaminales Musaceae Strelitzioideae Phannekospernum
Ravenala
Heliconioideae Heliconia
Lowiaceae Lowia Orchidantha Zingiberaceae Marantaceae Cannaceae
Tabela 2. Esquema representativo da classificação das bananeiras.
Fonte: Adaptada de Champion, 1967.
Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 11414 evoluído a partir das espécies diplóides selvagens M. acuminata e M. balbisiana. Apresenta três níveis cromossômicos distintos: diplóide, triplóide e tetraplóide, os quais correspondem, respectivamente, a dois, três e quatro múltiplos do número básico ou genoma de 1 cromossomos (x = n). A origem de bananeiras triplóides, a partir de diplóides, e de tetraplóides, a partir de triplóides, é constatada por meio de cruzamentos experimentais.
EvoluçãoEvolução
Na evolução das bananeiras comestíveis tomaram parte principalmente duas espécies diplóides selvagens: M. acuminata e M. balbisiana, de modo que cada cultivar deve conter combinações variadas de genomas completos das espécies parentais. Esses genomas são denominados pelas letras A (M. acuminata) e B (M. balbisiana), de cujas combinações resultam os grupos A, B, AB, A, AAB, AB, AA, AB, AB e ABBB. Além disso, Hutchison (1966) e Shepherd & Ferreira (1982) relataram que M. schizocarpa também contribuiu para a formação de algumas cultivares híbridas na Nova Guiné. Nessa ilha é possível, portanto, a ocorrência de combinações como AS e ABBS.
A evolução dessas espécies processou-se em quatro etapas, repetidas em várias épocas (Simmonds & Shepherd, 1955). A primeira etapa constou da ocorrência de partenocarpia por mutação em M. acuminata (A), ou seja, a capacidade de gerar polpa sem a produção de sementes. Em sua forma original, os frutos de bananeiras possuem grande número de sementes duras, que dificultam o seu consumo. Com base nos conhecimentos atualmente disponíveis, supõe-se que a partenocarpia ocorreu apenas em M. acuminata; por conseguinte, as cultivares mais antigas foram diplóides do grupo A. O número dessas cultivares pode ser ampliado por meio de cruzamentos espontâneos entre si ou com outras formas selvagens da mesma espécie.
A segunda etapa caracterizou-se pela hibridação entre cultivares do grupo A e plantas selvagens de M. balbisiana (B), produzindo híbridos diplóides do grupo AB, hoje raros e possivelmente limitados na sua origem à Índia. Vale ressaltar, entretanto, que Shepherd encontrou duas cultivares AB na África Ocidental em 1969. O tipo Ney Poovan foi bastante observado em Uganda, além de se achar presente nas ilhas do Caribe desde o início deste século, sob a denominação de Guindy.
A terceira e quarta etapas da evolução são admitidas com base na capacidade de várias bananeiras e de alguns híbridos de gerar, em baixa freqüência, células-ovo viáveis, sem meiose típica, com a mesma constituição cromossômica e genética da planta-mãe, seja esta diplóide ou triplóide. Por meio de cruzamentos espontâneos envolvendo pólens das espécies parentais (M. acuminata e M. balbisiana) ou de cultivares do grupo A, com genótipos dos grupos A e AB portadores de sacos embrionários diplóides, foi possível a evolução de triplóides dos grupos A, AAB e ABB, pela adição do número básico x (A ou B). Da mesma forma, os tetraplóides dos grupos A, AAAB, AB e ABBB evoluíram a partir dos três grupos triplóides (Figura 1). Cumpre ressaltar que todos esses grupos foram constatados por avaliação taxonômica das cultivares exploradas em todo o mundo, à exceção do grupo A, que só foi obtido por cruzamentos experimentais (Shepherd, 1984a).
Classificação do germoplasmaClassificação do germoplasma
Na classificação de germoplasma desconhecido, deve-se determinar primeiro o número de cromossomos para discriminação entre acessos diplóides, triplóides e tetraplóides. Caso não se disponha de infraestrutura adequada para a contagem dos cromossomos, é possível obter alguma indicação pela orientação das folhas. Segundo Shepherd (1984a), as folhas de bananeiras diplóides são tipicamente eretas,
1515Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 1

as de triplóides são em geral medianamente pendentes e as de tetraplóides são bem arqueadas. Os acessos triplóides são os mais comuns e incluem todas as variedades plantadas em grande escala.
Para esclarecer a taxonomia das cultivares por meio da identificação dos grupos genômicos, Simmonds & Shepherd (1955) utilizaram dois caracteres vegetativos e treze caracteres de inflorescência, todos diferenciais entre as espécies, apesar da existência de algumas exceções. Foram constatados os seguintes grupos: diplóides A e AB; triplóides A, AAB e ABB; tetraplóides A, AAAB, AB e ABBB, classificação adotada em todo o mundo. Ressalte-se que, a princípio, não foram reconhecidas cultivares dos grupos B, BB e B, que pareciam não existir devido à ausência de partenocarpia na espécie M. balbisiana. Entretanto, Shepherd observou uma fraca cultivar B na Tailândia (Lep Chang Kut), que pode ser um híbrido do cruzamento Teparod x B.
Na prática, não são necessários esses 15 caracteres para a determinação do grupo genômico de uma cultivar, embora todos sejam investigados nos casos de difícil discriminação, a exemplo do que ocorre com os grupos A e AAB. Shepherd (1992) elaborou um documento sobre a utilização de poucos caracteres na discriminação entre os grupos triplóides.
Um aspecto notório dos plantios extensivos está relacionado com a relativamente freqüente ocorrência de mutações em muitas cultivares, possibilitando a ampliação do número de variedades. Nos ca-
Figura 1Figura 1. Evolução das bananeiras.
Frutas do BrasilFrutas do BrasilBanana Produção, 1Banana Produção, 11616 sos em que as mutações produzem efeitos importantes no uso e na comercialização, utiliza-se o termo subgrupo proposto por Simmonds (1973) que abrange cultivares originárias por mutação de uma única forma ancestral. Exemplos que se destacam na diversidade das formas são o subgrupo Cavendish (grupo A) e o subgrupo Plantain, Plátano ou Terra (grupo AAB).
Na identificação de cultivares dentro dos grupos são conhecidas apenas as chaves publicadas por Simmonds (1973), que se referem, separadamente, às principais cultivares dos três grupos triplóides. Entretanto, ainda não se publicou uma boa lista de descritores para a caracterização das cultivares; não só a lista de Simmonds (1984) é incompleta, como a lista francesa, inédita, do mesmo modo omite alguns descritores úteis. Há bastante tempo se reconhece a necessidade da elaboração de uma lista internacional, bem abrangente de descritores, para facilitar a identificação de sinônimos em diferentes países e permitir uma descrição mais acurada da variabilidade existente no mundo. Com essa finalidade, foi levada a efeito, no Brasil e no exterior, uma pesqui- sa que resultou em nova lista, com mais de 100 descritores, quase todos relativos a aspectos morfológicos, quantitativos e qualitativos, que podem ressaltar diferenças entre cultivares (Shepherd, 1984).
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