joao calvino institutas1

joao calvino institutas1

(Parte 1 de 7)

As Institutas ou Tratado da Religião Cristã vol. 1

Edição clássica (latim)

João Calvino

11CARTA AO REI

Prefácio à 1ª edição17
Prefácio à 2ª edição21
Carta ao Rei Francisco I23
Prefácio à edição de 155943
Prefácio à edição francesa de 1541 e subseqüentes, nessa língua45
1. O conhecimento de nós mesmos nos conduz ao conhecimento de Deus47
2. O conhecimento de Deus nos leva ao conhecimento de nós mesmos48
3. O homem ante a majestade divina49
1. Piedade é o requisito para se conhecer a Deus50
2. Confiança e reverência são fatores do conhecimento de Deus51
1. Universalidade do sentimento religioso53
2. Religião não é invencionice gratuita54
3. Impossibilidade de ateísmo real5
1. Superstição57
2. Apostasia58
3. Idolatria59
4. Hipocrisia59
1. Inescusabilidade do homem61
2. Visibilidade da sabedoria divina62
3. O ser humano é evidência máxima da sabedoria divina63

4. A ingratidão humana em relação a Deus ....................................................................................... 63

5. Confusão de criatura e Criador64
6. A soberania de Deus sobre a criação6
7. O governo e o juízo de Deus67
8. O soberano domínio de Deus sobre a vida humana68
9. Deus melhor visualizado em suas obras do que em especulações da razão69
10. Propósito deste conhecimento70
1. Cegueira humana ante a evidência de Deus na criação71
12. A superstição humana e o engano dos filósofos constituem obstáculos à manifestação divina72
13. Ao Espírito Santo é abominável toda e qualquer religião de procedência humana74
14. Insuficiência da manifestação de Deus na ordem natural75
15. Inescusabilidade final do homem76

12LIVRO I

1. O verdadeiro conhecimento de Deus na Bíblia7
2. A Bíblia, a Palavra de Deus escrita78
3. A Bíblia é o único escudo a proteger do erro79
4. A superioridade revelacional da Bíblia sobre a criação80
1. A autoridade da Bíblia provém de Deus, não da Igreja81
2. A Igreja está fundamentada na Bíblia82
3. Agostinho não contraria esta tese83
4. O testemunho interior do Espírito é superior a toda prova84
5. A Bíblia é autenticada pelo Espírito85
1. Superioridade da Bíblia em relação a toda a sabedoria humana8
2. Beleza estilística de certas porções da Bíblia89
3. A antigüidade da Bíblia90
4. A fidedignidade de Moisés90
5. Os milagres reforçam a autoridade de Moisés, o mensageiro divino91
6. Incontestabilidade dos milagres mosaicos92
7. Cumprimento das profecias mosaicas92
8. Cumprimento de predições de outros profetas93
9. Preservação e transmissão da lei94
10. A Bíblia foi maravilhosamente preservada por Deus95
1. Simplicidade e autoridade do Novo Testamento96
12. Perenidade da Bíblia97

13. Testemunho dos mártires ................................................................................................... ......... 98

13CARTA AO REI

1. Apelo fanático ao Espírito em detrimento da Escritura9
2. A Bíblia é o árbitro do Espírito100
3. A Bíblia e o Espírito Santo não se dissociam101
1. A doutrina bíblica de Deus como Criador103
2. Os atributos divinos atestados, de igual modo, na Bíblia e na criação103
3. Os idólatras são inescusáveis ante a noção generalizada da unicidade de Deus105
1. Representar a Deus através de imagens é corromper-lhe a glória106
2. Representar a Deus por meio de imagens é contradizer-lhe o ser107
4. A Bíblia condena imagens e representações de Deus109
5. A Bíblia não justifica a representação iconoclástica1
6. O parecer contra as imagens de certos vultos da patrística1
7. Inaceitabilidade das imagens do romanismo112
8. A feitura de imagens procede do desejo de tocar a Deus113
9. O uso das imagens conduz à idolatria114
10. O culto de imagens então reinante116
1. O sofisma do culto de latria e dulia16
12. Função e limitação litúrgica da arte117
13. A introdução de imagens na história da Igreja118
14. Argumentos enganosos que embasam a decisão iconólatra do Concílio de Nicéia de 787119
15. O absurdo da hermenêutica bíblica dos paladinos da iconolatria120
16. Pronunciamentos e práticas blasfemas e absurdas em relação à iconolatria121

3. Manifestações e sinais que patenteavam a presença divina não servem de base para as imagens 108

1. A verdadeira religião proclama o Deus único e absoluto123
2. A ilusória distinção de latria e dulia124
3. Improcedência do culto de dulia à luz das Escrituras125
1. Infinitude e incorporeidade de Deus127
2. A questão de três pessoas e a unidade substancial de Deus128
3. Adequação dos termos Trindade e Pessoa à interpretação do conceito bíblico129
4. Utilidade dos termos Trindade e Pessoa em relação a conceitos heréticos130
hipóstase, pessoa e trindade131
6. Pessoa, essência e subsistência133
7. Deidade do Verbo134
8. Eternidade do Verbo135
9. Evidências veterotestamentárias quanto à divindade de Cristo136
10. O Anjo das teofanias era Cristo137
1. Os apóstolos aplicam a Cristo o que fora dito do Deus eterno139
12. As obras de Cristo atestam sua divindade140
14. A obra do Espírito Santo atesta sua divindade142
15. O Espírito identificado com a Deidade143
16. A unidade de Deus à luz do batismo144
17. Três pessoas: distinção, não divisão145
18. Funções distintivas das pessoas da Trindade146
19. O relacionamento hipostático e a unidade consubstancial147
20. O conceito básico do Deus Triúno148
21. A atitude própria em relação a esta doutrina e às heresias que se lhe opõem149
2. A obstinação dos antitrinitários, principalmente Serveto150
23. Há no Filho a mesma divindade do Pai152
24. O termo Deus não se aplica exclusivamente ao Pai; ele é igualmente extensivo à Palavra154
25. A essência única de Deus é comum às três pessoas156
26. A subordinação do Filho não lhe implica divindade de categoria inferior157
27. Irineu está longe de legitimar a tese dos que negam a Deidade de Cristo159
28. Nem mais favorável lhes é Tertuliano160
29. O testemunho patrístico em geral confirma a doutrina da Trindade160

14LIVRO I 5. Sentido e distinção de termos fundamentais, a saber, substância, consubstancial, essência, 13. Os milagres de Cristo e as prerrogativas divinas que lhe são outorgadas atestam sua divindade 141

1. O conhecimento de Deus à base da criação e o despautério da especulatividade163
criação165
3. Os anjos são criaturas de Deus, que é de tudo o Senhor165
4. Em matéria de angelologia, deve-se buscar somente o testemunho da Escritura167
5. Funções e designativos dos anjos168
6. O ministério dos anjos a velarem de contínuo pela proteção dos crentes169
7. Precária é a base para afirmar-se a realidade de anjo da guarda individual170
8. Hierarquia, número e forma dos anjos170
9. A realidade pessoal dos anjos171
10. Improcedência da angelolatria172
1. O ministério dos anjos motivado pela necessidade humana173
12. Nossos olhos não devem desviar-se de Deus para os anjos174
13. A luta contra o Diabo e suas hostes175

2. A bondosa providência de Deus para com o homem se acha espelhada na obra dos seis dias da 14. O batalhão demoníaco é vasto ................................................................................................... 175

15. A malignidade do Diabo176
16. A degenerescência dos seres diabólicos177
17. O poder do Diabo está sujeito à autoridade de Deus177
18. Limitação do poder satânico sobre os crentes e domínio sobre os incrédulos178
19. A realidade pessoal dos seres diabólicos180
20. O que a criação nos ensina concernente a Deus181
21. A que nos deve conduzir a contemplação das obras de Deus182
2. Deus criou todas as coisas para o bem do homem, daí a gratidão que lhe devemos183

15CARTA AO REI

1. O homem foi criado sem mácula: Deus não é culpado do pecado humano185
2. Espiritualidade e imortalidade da alma, contudo distinta do corpo186
3. O homem é imagem e semelhança de Deus188
regeneração em Cristo190
5. O emanacionismo dos maniqueus quanto à origem da alma191
6. Definição e propriedade da alma192
7. Entendimento e vontade: os centros das faculdades da alma195
8. Livre-arbítrio e responsabilidade de Adão195

4. A verdadeira natureza da imagem de Deus só determinável à luz da concepção bíblica da

1. A providência, corolário lógico da criação, razão por que não se separam198
2. O que rege o mundo é a providência, não o acaso ou a sorte199
3. Deus, causa primeira, também a tudo rege em sua providência200
4. Natureza da providência: não envolve presciência; é atual e eficaz, universal e particular202
5. A providência especial de Deus no âmbito da própria natureza204
6. A providência especial de Deus no âmbito da vida humana205
7. A providência de Deus no âmbito dos fatos naturais206
8. A doutrina da providência não é mera crença no destino ou fado, na sorte ou acaso207
9. A imprevisibilidade e ignorância humanas não discernem a causação divina dos eventos208
1. Sentido e alcance da providência211
2. A reverência devida à providencial sabedoria e governo de Deus212
3. A providência não anula a responsabilidade humana214
4. A providência divina longe está de dispensar todos os meios de proteção e socorro215
5. A providência divina não nos justifica a iniqüidade216
6. O conforto que aos crentes propicia a doutrina da providência de Deus218
7. A atitude do crente tocado pela visão da providência benigna de Deus219
8. A serenidade que a certeza da providência divina faculta ante as adversidades220
9. Relevância das causas intermédias221
10. A certeza da providência divina nos sustenta ante os perigos múltiplos que nos ameaçam2
1. A certeza da providência divina nos propicia jubilosa confiança em Deus e sua operação223
12. Sentido das passagens que falam de arrependimento por parte de Deus225
13. Arrependimento em Deus, antropomorfismo pedagógico226
14. A condicionalidade dos fatos na perspectiva da soberana providência de Deus227

16LIVRO I

1. Eficiência, não permissividade, é a relação de Deus para com a ação dos ímpios229
2. A eficiência da providência divina na mente e coração de todos231
3. A vontade de Deus é una e soberana233

4. Não é procedente incriminar a Deus pelo fato de fazer uso dos ímpios para seus propósitos magnos ........................................................................................................................................ 235

17CARTA AO REI

P R E F Á C I O À 1ª E D I Ç Ã O

Indiscutivelmente, é João Calvino o pensador máximo da Reforma e sua famosa obra, as chamadas Institutas, o magnum opus não apenas de seus escritos, mas de toda a literatura produzida pelos Reformadores. Verdadeira aberração histórica, de um lado, deplorável lacuna teológica, de outro, mais até, pasmosa expressão da incúria ou displicência da liderança eclesiástica, esta obra monumental ainda não existe em português decorridos quatro séculos de existência da fé reformada! O presbiterianismo brasileiro, entretanto, de longa data vem clamando pela tradução das Institutas. Iniciativa tomada neste sentido, passados já duas décadas e mais de um lustro, ainda não parece haver vindo ao encontro desse desideratum. Em1970, se me não trai a memória, o Congresso de Homens Presbiterianos reunido no Recife dirigiu à direção da Igreja Presbiteriana do Brasil pedido formal a que providenciasse essa desejada, mas retardada tradução. Presente ao conclave, fui instado pelo então Presidente do Supremo Concílio a assumir essa tarefa, fazendo a tradução diretamente do latim, ao invés de o ser da versão francesa. Foi só em 1973, entretanto, que, gozando de um estágio nos Estados Unidos, mercê da deferência da Christian Reformed Church, pude tentar atender à incumbência. De fato, nesse período traduzi todo o livro I. Escrevi, porém, ao Presidente do Supremo Concílio que a tradução exigiria muito mais tempo e se faria de mister reduzir-se-me-ia o trabalho de docente no Seminário, que eu então exercia. Retornando ao Brasil, absorvido pelas obrigações do magistério e voltado à redação de meu Manual de Grego, descontinuei a tradução até 1979, quando, já agora professor da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), consegui que a tradução fosse aceita como correspondendo ao trabalho de pesquisa exigida dos professores dessa egrégia instituição de ensino. Revi a tradução já feita do livro Igreja e prossegui por um terço do livro I, quando, discutindo a matéria com o professor Franz Leonard Schalkwijk, do Seminário Presbiteriano do Recife, concluí que a obra assumira caráter excessivamente acadêmico, seja na linguagem demasiado erudita, seja nas notas inclusas, dada a forma do original latino para cada frase e cláusula. Resolvi, pois, não só refazer a redação, mas também reduzir ao mínimo necessário as referências e notas explicativas. É esta tradução revista que, com muitas graças ao Senhor, carinhosamente ofereço agora aos estudiosos, no desejo sincero de enriquecer-lhes a vida espiritual e legar à Igreja um tesouro precioso para a obra de doutrinação e aprofundamento teológico. Praza a Deus abençoa-la, para que alcance esse alvo, motivo de minhas orações e recompensa máxima de meus esforços.

18LIVRO I

Uma palavra de explicação se impõe. Ante um documento histórico dessa importância e de teor tão distanciado da forma vernácula, um dilema se interpunha: ou apegar-me ao texto, buscando-lhe a máxima fidelidade, ou, com vistas à clareza da tradução, afastar-me sensivelmente do original. Optei pela primeira alternativa, deixando a futuros expositores a incumbência de interpretar e afeiçoar a expressão de Calvino a moldes mais comunicativos e a forma de fato mais vernácula, mais livre e atualizada, parafraseada até. Logo, em ser literal, busquei reter, tanto quanto exeqüível, o exato sentido do original latino, quiçá a própria terminologia, se não a fraseologia, pois estou que a primeira e principal qualidade de uma boa tradução é a máxima fidelidade ao que diz o autor. Se, por vezes, a linguagem parece algo obscura e especiosa, isso se deve à própria natureza do latim e ao estilo de Calvino, que não parece azado modificar. Todavia, inserem-se, em colchetes, palavras e expressões que, não parte do original, visam a tornar mais clara a tradução. Ademais, aduzem-se explicações e variantes ou alternativas à forma adoptada, facilitada, assim, a compreensão do texto. Entretanto, é uma obra que tem de ser lida de forma pausada, refletida, cuidadosa, sem sofreguidão nem açodamento, a atenção voltada para com o contexto e a tônica da matéria enfocada.

Afigurou-se proveitoso cotejar a tradução presente com outras de fácil acesso.

Destarte, fiz uso da Edição Francesa, texto atualizado de Pierre Marcel e Jean Cadier, de 1955 (abreviatura: EF), da valiosa tradução para o inglês de Ford Lewis Bat- tles, edição de 1961 (abreviatura: B), da tradicional tradução de John Allen, 7a .

edição americana, de 1936 (abreviatura: A), da versão alemã de Karl Muller, edição de 1928 (abreviatura: KM) e da espanhola de Cipriano de Valera, na forma da revisão de 1967 (abreviatura: CR). Até onde possível, verifiquei as referências feitas aos acervos da Patrologia Latina de Magne (PLM) e sua congênere, a Patrologia Grega (PGM), bem como à Loeb Classical Library (LCL) e ao Corpus Scriptorum Ecclesiasticorum Latinorum (CSEL), de outra sorte citados conforme se mencionam nas versões cotejadas.

Ponto que merece esclarecimento é o referente às citações de textos bíblicos.

Mantive a forma adoptada pelo próprio Calvino. Não é o texto da Vulgata, pelo menos na Versão Clementina, dela divergindo, por vezes, sensivelmente. É matéria para interessante consideração da Crítica Textual. Ademais, parece Calvino modifica-los, alterá-los, adapta-los, fundindo passagens ou fracionando-as, conforme o a que visava, proceder longe de estranhável em uma época em que a moderna divisão capitular e versicular ainda não era generalizada, muito menos estereotipada, nem os cânones critico-textuais fixados e reconhecidos como hoje. Este é, portanto, um aspecto em que se há de atualizar ou revisar o texto ao aplica-lo em moldes correntes. A fidelidade histórica, entretanto, não permitiria referi-los em termos das traduções modernas ou do texto agora vigente.

19CARTA AO REI

Muito e a muitos teria de registrar meu profundo agradecimento para que pudesse levar a cabo esta para mim venturosa empreitada. Primeiramente, a Deus, Pai Amantíssimo, que me conservou com vida e conferiu a capacidade para esta delicada e morosa tarefa; à Christian Reformed Church o propiciar-me período de estudos que me facultaram o contacto primeiro com o esforço de tradução, bem como o interesse na presente edição, objetivando em valioso subsídio financeiro; ao Dr. Peter de Klerk, bibliotecário do Calvin College, Grand Rapids, Michigan, a valiosa colaboração prestada no uso de obras de seu acervo e informações fornecidas posteriormente; assim, ao Rev. Júlio Andrade Ferreira que, generosamente, tanto me assistiu com livros de que tive necessidade ao longo de todo o demorado labor da tradução; à Unicamp o sólido apoio à iniciativa, expresso na aceitação deste trabalho como parte dos encargos exigidos dos docentes; ao professor Rodolfo Ilari, colega de docência, a inestimável ajuda na consecução desse apoio; ao Rev. Celsino da Cunha Gama, Diretor Executivo de Luz Para o Caminho, o empenho em fazer com que a obra viesse a lume, assumindo de começo a dura tarefa de publicação; ao presbítero Glaycon Andrade Ferreira, que se desdobrou na revisão primeira da composição; ao presbítero Dr. Paulo Breda Filho, Presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, ao presbítero Antonio Ribeiro Soares, Diretor Superintendente da Casa Editora Presbiteriana, e ao Rev. Sabatini Lalli, o interesse em ter a obra publicada sob o patrocínio da Igreja Presbiteriana do Brasil, como sempre desejamos. Ao Rev. Sabatini, ademais, o penoso trabalho de revisão final e as oportunas sugestões feitas na parte redacional. À minha nobre esposa, Amélia Stephan Luz, a dedicação e ajuda prestadas de mil e uma formas, sem o que não teria eu tido condições de levar a cabo a árdua empreitada. Aos estudantes do Seminário Presbiteriano de Campinas e a muitos colegas o generoso estímulo, demonstrado vezes tantas e de tantas maneiras. De reconhecimento especial, finalmente, é credora a Comissão Calvino, constituída de ilustres irmãos do Norte, centralizados no Recife, que me respaldaram o esforço com sugestões preciosas, certa ajuda financeira até que assumi a docência com tempo integral na Universidade, leal incentivo e muita oração.

Que lhes recompense a todos a nobreza de alma o grande Senhor Nosso. E que seja este esforço, fruto de intenso labor e especial carinho, ricamente abençoado por Deus de sorte que dele possam muitos auferir grande proveito espiritual e muito estímulo para testemunhar eficazmente de Cristo e seu Evangelho.

Campinas, junho de 1984 Waldyr Carvalho Luz

PREFÁCIO À 1ª EDIÇÃO

20LIVRO I 20LIVRO I

21CARTA AO REI

P R E F Á C I O À 2ª E D I Ç Ã O

É fato assaz auspicioso que a primeira edição das Institutas em nossa língua portuguesa haja sido toda vendida em pouco mais de uma década de sua publicação. Por um lado, demonstra que nosso meio cultural, apesar de tantas limitações e carências, se esmera em cultivar e aprofundar seus conhecimentos teológicos, não desdenhando uma obra que, embora produzida no século 16, é de imensa atualidade, não somente porque representa a magnum opus da Reforma Protestante, documento histórico de real grandeza, mas também porque é uma sistematização da doutrina bíblica de invulgar profundidade e acuracidade hermenêutica irretorquível, fundamento essencial do pensamento protestante clássico. Por outro lado, revela uma visão compreensiva e ampla do mundo teológico, o mais das vezes afeito a vultos e obras ditas modernas, modismos efêmeros e superficiais, de pouca duração e mesmo raízes.

A presente edição difere da anterior em que não mais se aduzem as repetidas notas de rodapé que registravam variantes comparativas de tradução verificadas em duas versões do inglês, da alemã, da espanhola e, mesmo, da francesa. Também, a critério dos editores, retiram-se os colchetes que assinalavam termos e formas que, não encontradas no texto latino original, o tradutor inseriu para efeitos de clareza e expressão, como é o caso dos artigos definido e indefinido e do pronome da terceira pessoa, ausentes na língua latina, que nós, falantes luso-brasileiros adaptamos do demonstrativo ille, illã, illud, em sua forma acusativa. Tais aduções bem que poderiam aparecer em itálico ou negrito. Tratando-se de documento de tal vulto, ao traduzirmo-lo, procuramos, sem sermos literais, ater-nos ao estilo e terminologia de Calvino o mais possível, pelo que nem sempre a tradução é clara e fluente como seria de desejar-se. Os editores, para tornar o texto mais lúcido e acessível, tomaram a liberdade de fazer certos ajustes e alterações, registrando, porém, em nota de rodapé a forma integral da tradução de nossa lavra na primeira edição. É preciso que o leitor tenha em mãos exatamente o que o teólogo de Genebra escreveu, sem deturpações ou falseamento do teor, exatidão necessária em documento desse jaez e importância.

Congratulamo-nos com a Editora Cultura Cristã pela arrojada, mas oportuna, iniciativa de reeditar as Institutas e alegramo-nos em poder continuar facultando ao estudioso Calvino falado em nosso idioma.

Abençoe o Senhor este nobre empreendimento.

Campinas, setembro de 2003 Waldyr Carvalho Luz

22LIVRO I 22LIVRO I

23CARTA AO REI

Ao Mui Poderoso e Ilustre Monarca, FRANCISCO,

Cristianíssimo Rei dos Franceses, seu Príncipe, JOÃO CALVINO Roga Paz e Salvação em Cristo

1. CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE A OBRA FOI INICIALMENTE ESCRITA

Quando, de início, tomei da pena para redigir esta obra, de nada menos cogitava, ó mui preclaro Rei, que escrever algo que, depois, houvesse de ser apresentado perante tua majestade. O intento era apenas ensinar certos rudimentos, mercê dos quais fossem instruídos em relação à verdadeira piedade quantos são tangidos de algum zelo de religião. E este labor eu o empreendia principalmente por amor a nossos compatrícios franceses, dos quais a muitíssimos percebia famintos e sedentos de Cristo, pouquíssimos, porém, via que fossem devidamente imbuídos pelo menos de modesto conhecimento. Que esta me foi a intenção proposta, no-lo diz o próprio livro, composto que é em uma forma de ensinar simples e, por assim dizer, superficial.

Como, porém, me apercebesse de até que ponto tem prevalecido em teu reino a fúria de certos degenerados, de sorte que não há neles lugar nenhum à sã doutrina, dei-me conta da importância da obra que estaria para fazer, se, mediante um mesmo tratado, não só lhes desse um compêndio de instrução, mas ainda pusesse diante de ti uma confissão de fé, mercê da qual possas aprender de que natureza é a doutrina que, com fúria tão desmedida, se inflamam esses tresloucados que, a ferro e fogo, conturbam hoje teu reino. Pois nem me envergonharei de confessar que compendiei aqui quase que toda a súmula dessa mesma doutrina que aqueles vociferam deveria ser punida com o cárcere, o exílio, o confisco, a fogueira, que deveria ser exterminada por terra e mar.

2. DEFESA DOS FIÉIS PERSEGUIDOS

Sei perfeitamente de quão atrozes denúncias teriam eles enchido teus ouvidos e mente, no afã de tornar nossa causa diante de ti a mais odiosa possível. Mas, em função de tua clemência, isto deve ser-te cuidadosamente ponderado, se é suficiente

24LIVRO I haver acusado, que nenhuma inocência haverá de subsistir, nem nas palavras, nem nas ações.

Se no interesse de suscitar ódio, porventura alguém alegue que esta doutrina, da qual estou tentando dar-te a razão, já por muitos tem sido condenada pelo veredicto de todos os Estados, solapada por muitas sentenças peremptivas dos tribunais, outra coisa não estará a dizer senão que, em parte, ela tem sido violentamente pisoteada pela facciosidade e prepotência dos adversários; em parte, insidiosa e fraudulentamente oprimida por suas falsidades, invencionices e calúnias.

Constitui arbitrariedade o fato de que, não facultada oportunidade de defesa a uma causa, contra ela se passem sanguinárias sentenças; é dolo que, à parte de qualquer delito, ela seja acusada de fomentar sedições e promover malefícios.

(Parte 1 de 7)

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