BRICS e a nova ordem mundial

BRICS e a nova ordem mundial

UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS

FACULDADE DE DIREITO E RELAÇÕES INTERNACIONAIS

INTRODUÇÃO À PRÁTICA CIENTÍFICA – JOÃO NACKLE URT

BRUNA KOMATSU, EMILY RAFANY E NATHALY ALMEIDA.

BRICS E AS TRANSFORMAÇÕES NA ORDEM MUNDIAL

Desde o fim da Guerra Fria, pela primeira vez, faltava inteiramente ao mundo qualquer sistema ou estrutura internacional. Verificou-se que a ideal ordem multilateral é, de certo modo, uma utopia e que tampouco uma ordem unilateral comandada pelos EUA é desejável, devido principalmente à contrariedade com a articulação das vontades soberanas que regem o sistema internacional. Existe uma demanda por ordem. A incapacidade das potências tradicionais gerarem os paradigmas de uma nova ordem deu uma abertura a países e grupos emergentes e uma possível redistribuição de poder, estando o BRICs entre eles.

O surgimento do BRICs se dá com o economista-chefe do banco de investimento internacional Goldman Sachs, John O’Neill, que em 2001 lançou um relatório intitulado Bulding Better Global Economic BRIC. Este acrônimo criado por O’Neill reunia quatro potenciais economias emergentes que viriam a se tornar uma forma de sustento à economia mundial nas próximas décadas, levando em conta também suas grandes populações. Eram estas: Brasil, Rússia, Índia, China.

Porém, para entender melhor como se dá a consolidação do BRICs e a sua conjuntura é necessário retornar ao processo de internacionalização de capital. A nova abertura comercial que se dá pós Guerra Fria fortaleceu o processo de integração capitalista, dando inicio a um regime de acumulação capitalista nos mercados financeiros mundiais. As avaliações realizadas pelas organizações financeiras internacionais tais como o FMI e o Banco Mundial, juntamente aos bancos de investimentos, direcionam os fluxos internacionais de capitais, fazendo com que esses bancos interfiram diretamente nos resultados obtidos pelo mercado financeiro. Assim, os eleitos dessas agências buscaram uma nova fronteira de expansão e acumulação para os investidores, principalmente após as crises no final do século XX.

Observando esse contexto, consegue-se analisar o interesse nos BRIC. A Rússia e o Brasil vinham se recuperando de uma grande crise e despontava com seu crescimento econômico, enquanto a China e a Índia eram focos de crescentes investimentos estrangeiros diretos (IED). E, como já explorado antes, todos são notadamente grandes, tanto em território quanto em população, e tem o objetivo de defender suas posições frente aos países tradicionais.

O documento publicado por O’Neill afirmava que a economia dos BRIC ultrapassaria conjuntamente o PIB do atual G7 em 2035 e, embora muitos especialistas estivessem céticos a princípio, os índices e resultados econômicos foram inegáveis tornando necessária a participação desses países nas discussões econômicas globais.

Com a crescente ascensão econômica do BRIC surgiu a possibilidade de uma nova redistribuição de poder mundial. Assim, a partir do ano de 2008, com a primeira reunião de chanceleres, que viria a se tornar reuniões anuais, tal grupo deixa de ser uma entidade apenas econômica para se estabelecer como uma entidade político-diplomática. Essa consolidação foi proposta por dois grandes diplomatas a época: o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim e o Chanceler da Rússia, Sergey Lavrov.

Foram estipulados então alguns pontos de consenso entre os Estados, no que dizem respeito à segurança, oportunidades de desenvolvimento, apoio ao crescimento econômico e político/social e uma aspiração conjunta a um maior papel de atuação internacional. Esses países, enquanto agrupamento político passaram a realizar suas Cúpulas a partir do ano de 2009, e nas próximas que viriam a acontecer em 2010 e 2011, em uma medida geoestratégica, houve a inserção de um novo país, a África do Sul. A denominação passou a ser BRICS. Sua inserção tendia reforçar a linha da cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento.

Porém, essa inclusão acabou gerando muitas críticas de especialistas e do próprio criador da sigla. Eles não acreditam que a África do Sul tenha uma boa inserção econômico-internacional. Basta dar uma olhada na sucessão de boicotes e embargos internacionais que o país sofreu o que prejudicou significativamente sua internacionalização econômica. Observando por este âmbito, o melhor país para assumir essa vaga seria a Nigéria. Entretanto, o país conta com o apoio e proteção da China, o que os leva a acreditar que isso levará a um maior desenvolvimento interno e, consequentemente, sua inserção econômica numa escala internacional. Vale frisar que tal medida serve para reafirmar o caráter político-diplomático do grupo.

Outro problema que tem sido observado mais atentamente nos últimos anos são as diferenças entre estes países na economia mundial e política internacional. Enquanto a China e a Rússia são membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, possuindo um grande poder político-militar e nuclear, o Brasil e a Índia ainda pleiteiam uma vaga. Sendo que a Índia é também uma potência nuclear. Quanto à economia, a China encontra-se num patamar bem elevado em relação aos demais quatro países aliados. Ela possui hoje uma industrialização de alta tecnologia, buscando fortalecer seu mercado interno. A Rússia é grande dependente das exportações de petróleo e gás e as variações nos preços internacionais das commodities acaba por deixá-la vulnerável economicamente. Sendo assim, ela busca o ingresso na Organização Mundial do Comércio (OMC), ganhando apoio do Brasil, ao mesmo tempo em que apoia a entrada deste no Conselho de Segurança.

Cabe ressaltar aqui a proposta da criação de um banco comum do BRICS- Banco de Desenvolvimento- cujo objetivo a princípio é o investimento em obras dos países-membros. Já em longo prazo, seria a permissão de empréstimos e financiamentos aos países emergentes, além da possibilidade de aceitação de novos membros. Outra medida, que pode ser tomado também como um objetivo, é a concessão dos créditos nas próprias moedas, com o intuito de fortalecer as reservas nacionais e reduzir a dependência da moeda internacional, o dólar.

Assim, há a necessidade de analisar a conjuntura que se dará esse possível Banco, como: seu alcance e influência nas economias emergentes e no cenário mundial e sua formatação interna, de forma a estabelecer a dinâmica institucional do Banco.

A urgência para a criação de tal Instituição é a existência de um fundo que ‘proteja’ a economia dos países emergentes diante dos impactos de crises financeiras internacionais, que é quando as instituições multilaterais vigentes dificultam os financiamentos e empréstimos para estes.

E, retomando as diferenças existentes entre os países, o acelerado crescimento econômico da China poderá trazer dificuldades para a implementação desse projeto. Considera-se duas hipóteses: a China, com sua maior capacidade de contribuição de capital, exigirá maior espaço de ação no Banco viabilizando seus interesses particulares dificultando a presença de um grupo política e economicamente sólido no âmbito mundial; ou, num segundo caso, haverá uma estruturação das redes de investimento, produção e comércio, dando início a um novo bloco político-econômico, de forma a substituir a estrutura atual.

Conclui-se então que o BRICS surge como uma nova alternativa viável ao vácuo de poder presente no sistema internacional, a fim de mudar a ordem político-econômica mundial atual. No entanto, é bom salientar que existem hoje diferentes opiniões entre os países quanto ao que deve ser modificado para esta nova ordem mundial.

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