15-09-28 - apostilaculturadocafe

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(Parte 2 de 8)

Graças aos recursos das exportações, que no final do século XIX respondia por cerca de 80% das receitas de nossa balança comercial, importância essa que manteve seu auge até o final da Segunda Guerra Mundial (1938-1945), o café proporcionou a sustentação do aparelho político e administrativo do Regime Republicano, além de ter sido o fornecedor de recursos para a instalação do parque industrial nacional. O café sem dúvidas atuou "como elemento dinamizador da economia na medida em que gerou um capital excedente investido em outros setores que não o agrícola, e na medida, ainda, em que criou um mercado consumidor para novos produtos" , mesmo que nesse caso alguns estudiosos considerem que essa transferência de recursos tenha ocorrido em razão da necessidade de frear a sua expansão, evitando-se assim o risco da superprodução.

Dada sua importância na pauta de exportações do Brasil, foram introduzidas alterações de política econômica, que redefiniram as relações financeiras com o exterior, em razão dos muitos investimentos estrangeiros que aqui estavam sendo realizados. A política cambial passou a ser melhor elaborada, assim como as preocupações com a padronização dos produtos comercializados, mesmo de forma simplificada, passaram a fazer parte do dia-a-dia do exportador. O café, planta nobre que deixou as montanhas etíopes, em solo brasileiro, gerou riquezas e com elas os primeiros passos de uma nação.

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BOTÂNICA E GENÉTICA - Origem das principais espécies e morfologia do cafeeiro.

1. Classificação taxonômica do cafeeiro: O cafeeiro pertence à família Rubiaceae que abrange mais de 10 mil espécies agrupadas em 630 gêneros. De acordo com classificação recente de Bridson e Verdcourt (1988) e Bridson (1994), os cafeeiros foram reunidos em dois gêneros: o Psilanthus Hook e Coffea L., os quais diferem, basicamente, por particularidades apresentadas nas estruturas florais. O gênero Coffea é subdividido nos subgêneros Coffea, representado por mais de 80 espécies e Baracoffea, constituído por sete espécies. A maioria das espécies do subgênero Coffea é oriunda da Ilha de Madagascar e Ilhas vizinhas, enquanto uma quantidade menor de espécies é nativa da África Continental, com destaque para as duas principais espécies de cafeeiro: Coffea arabica L. e Coffea canephora Pierre (Slide 1 – Classificação taxonômica das espécies).

1.2 Origem das principais espécies de cafeeiro 1.2.1 Espécie Coffea arabica L.

A espécie C. arabica L. é nativa de uma região restrita, localizada entre o Sudoeste da Etiópia,

Sudeste do Sudão e Norte do Quênia que ocorre entre 8 a 12º LN, e cuja altitude varia de 1.0 a 3.0 m (Carvalho, 1946). As variedades Typica e Bourbon são responsáveis pela maioria das cultivares de Coffea arabica L. (Anthony et al., 2000). Há grande variabilidade morfológica nas cultivares arábicas, ainda que a base genética seja pouco diversificada (Berthaud e Charrier, 1988), devido às mutações e cruzamentos naturais (Krug et al., 1939), apesar da baixa taxa de fecundação cruzada (5 a 10 %).

As plantas da espécie C. arabica L. desenvolvem-se no ambiente de origem, em sub-bosque, com temperaturas amenas, média anual entre 18,5 e 21,5o. Precipitação varia entre 1.200 a 2.0 m, com período seco de 3 a 4 meses; presença de orvalho, devido a elevada umidade relativa (Narasimhaswamy, 1968). Os cafeeiros desta espécie, quando cultivados a pleno sol e sob elevado déficit de pressão de vapor, tem dificuldade para atender a demanda de água pela transpiração, possivelmente em razão da baixa condutividade hidráulica, que pode ser uma característica de plantas de sub-bosque. Como conseqüência, as plantas dessa espécie se adaptaram ao cultivo a pleno sol por meio de um mecanismo eficiente de regulação estomática, com a finalidade de diminuir a perda de água durante o período mais quente do dia. A espécie Coffea arabica L. é a única do gênero Coffea que além de ser tetraplóide (2n = 4 cromossomos somáticos) é autógama, propaga-se por autofecundação em até 90 a 9 % das flores (Carvalho e Mônaco, 1965). Não há registros de efeitos prejudiciais ao vigor e a produtividade do cafeeiro, proporcionado pelas sucessivas autofecundações, razão porque são utilizadas sementes na propagação e formação de cafeeiros dessa espécie. Apesar da pequena taxa de cruzamento entre as espécies e entre cultivares da mesma espécie, a mesma contribuiu para o surgimento de cultivares e híbridos como, por exemplos, Mundo Novo e Híbrido do Timor (Slide 2 – Característica do ambiente e de C. arabica).

1.2.2. Espécie Coffea canephora Pierre : A espécie C. canhephora Pierre está distribuída por uma ampla área geográfica, na faixa ocidental, centro tropical e subtropical do Continente africano, especificamente da Guiné até a República Democrática do Congo. Nessa região, o ambiente é quente, com alta umidade relativa e baixa altitude, embora sejam encontrados cafeeiros até 1.300 m de altitude. O cafeeiro conilon (C. canephora Pierre), cultivado no Estado do Espírito Santo, Sul da Bahia e Rondônia, é originário de regiões equatoriais de baixa altitude e úmida da bacia do Rio Congo (Paulino et al., 1984). No Brasil são plantados a cultivar conilon e robusta, em que a primeira “tolera” mais a seca, do que a cultivar robusta, plantada principalmente no exterior; enquanto no Brasil é cultivado nos Estados de Rondônia e Mato Grosso. A espécie C. canephora cv. Apoatã IAC 2258, é uma seleção derivada de material introduzido da Costa Rica, que apresenta tolerância a algumas espécies de nematóides, por isso tem sido utilizada como

Cultura do Café w.ifcursos.com.br Álvaro Ferraz porta enxerto à espécie C. arabica L. e, dessa maneira, viabiliza a cafeicultura em áreas infestadas.

As cultivares de C. canephora Pierre possuem grande diversidade genética, inerente à própria origem da espécie (Berthaud e Charrier, 1988; Dussert et al., 1999), o que lhe confere maior variabilidade em relação às características agronômicas e morfológicas. Em razão das condições de origem da espécie C. canephora Pierre, estas plantas se adaptam a regiões com temperaturas médias anuais entre 2 a 26º C, com déficit hídrico anual inferior a 150 m e elevado déficit de pressão de vapor. Devido ao clima quente e úmido das regiões de origem, essas plantas apresentam sistema radicular e condutividade hidráulica suficiente para atender a elevada transpiração e manutenção do equilíbrio térmico da planta. A espécie C. canephora Pierre e demais espécies do gênero Coffea são diplóides (2n = 2 cromossomos somáticos) e alógamas, cuja propagação se dá por fecundação cruzada, em razão da auto-incompatibilidade gametofítica (Conagin e Mendes, 1961), que inibe o crescimento do tubo polínico e impede a fecundação da oosfera e formação do embrião. Em razão da fecundação cruzada há grande variabilidade genética, por isso não se devem utilizar sementes de uma única planta matriz, ainda que tenha características desejáveis. As sementes de várias matrizes devem ser misturadas para evitar que o pólen produzido pela futura planta origine de uma única matriz (incompatibilidade) (Slide 3 – Característica do ambiente e de C. canephora).

1.3 Morfologia do cafeeiro 1.3.1 A planta

O cafeeiro é um arbusto de crescimento contínuo, com dimorfismo de ramos (Carvalho et al., 1950;

Rena & Maestri, 1986), que atinge 2 a 4 m de altura, conforme as condições climáticas da região. Possui caule cilíndrico, lenho duro, branco amarelado e dois tipos de ramos: ortotrópico (do grego orthós: reto, normal) e plagiotrópicos (do grego plágios: oblíquo, transversal). Na espécie C. canephora a planta apresenta vários caules ou multicaule, que necessita de pode para manter a estrutura adequada da planta que possibilita a obtenção de maiores produtividade e facilidade para efetuar os tratos fitossanitários.

1.3.2 Sistema radicular A raiz principal do cafeeiro é pivotante e amplamente ramificada na camada superior do solo (Carvalho e Mônaco, 1965). A parte pivotante das raízes é pequena, grossa e termina abruptamente, sem ultrapassar os primeiros 30 a 50 cm da superfície do solo. Por isso, não é considerada uma planta que possui raiz pivotante típica, mas pseudopivotante (Nutman, 1993a; Rena e Guimarães, 2000).

As raízes axiais (4 a 8) saem da pivotante, se ramificam e crescem, predominantemente, no sentido descendente até 3 m de profundidade, é na realidade uma extensão da raiz pivotante. As raízes verticais por sua vez distribuem se no sentido horizontal sob a projeção do dossel, as quais mudam a direção de crescimento para as camadas mais profundas, praticamente no limite da projeção da copa. As raízes laterais superficiais também crescem próximas e paralelas à superfície do solo e pode ultrapassar 2 m de comprimento, o que significa que vão além da copa pelo menos em 0,8 m. Estas raízes se ramificam horizontalmente, mas podem avançar em outras direções, assim como parte delas pode crescer, também, no sentido descendente como fazem as raízes verticais (Rena e Guimarães, 2001). Este conhecimento é fundamental para orientar as adubações durante o crescimento das mudas e, posteriormente, das plantas adultas em produção.

As raízes alimentadoras são curtas, com diâmetros inferiores a 1,0 m, esbranquiçadas e possui pêlos absorventes, numa extensão de 3 a 5 m da ponta das mesmas. Essas raízes respondem pela absorção de 75 % das necessidades de água e nutrientes organo-minerais, as quais diferem das demais por não serem estruturas permanentes, mas que se renovam. A intensidade da regeneração dessas raízes varia com a fenologia e as condições ambientais, dependendo da partição de assimilados entre os drenos da planta. A manutenção da estrutura permanente e, principalmente, da sua força como dreno de carboidratos, comparativamente às demandas relativas dos demais órgãos da planta (Slide 4 – Sistema radicular).

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Estudo feito em secção transversal de raízes retiradas a 30 cm de profundidade, evidencia a presença de amido armazenado no xilema durante praticamente o ano todo, exceto a partir de outubro. A degradação de reserva pode estar relacionada com o crescimento de raízes, fundamental para a captação de água e nutrientes que se acumulam na camada superficial - zona de concentração de raízes (Chaves Filho, 2008). O crescimento é muito rápido, talvez, para possibilitar maior desenvolvimento da parte aérea. Durante o período seco, conforme a disponibilidade de amido, variável com a última carga de frutos, pode haver também crescimento em profundidade, onde se tem água disponível, o que explicaria o aumento da atividade radicular entre 45 a 75 cm de profundidade, após seca prolongada (Huxley et al., 1974). Para o crescimento celular é imprescindível ter se água disponível, assim é normal que as raízes cresçam a partir da estação chuvosa. Nessa época também se verifica a abertura de flores, bem como de novas folhas e ramos, que indicam a retomada do crescimento intenso da vegetação. Essas atividades demandam compostos carbônicos, seja para síntese de substâncias estruturais ou metabólicos. Por isso é possível que o crescimento inicial das raízes em outubro aconteça à custa das reservas dos tecidos armazenadores da própria raiz, local onde, potencialmente, serão consumidos, com economia de tempo do que se a sua importação vier de outro órgão, como o caule. Isto, no entanto, não significa que não tenha havido alocação de compostos orgânicos das raízes para o caule.

O cafeeiro apresenta dimorfismo de ramos, que se caracteriza por diferenciação das gemas que dão origem aos ramos e que, em alguns casos é permanente, podendo-se propagar as diferentes formas de ramos pela reprodução vegetativa (Carvalho et al., 1950). Em Coffea vários autores afirmam que a extremidade de um ramo ortotrópico reproduz, pela propagação assexuada (enxertia), uma planta normal, enquanto a de um ramo plagiotrópico origina somente ramos laterais, que crescem de forma longelínea e prostrados, semelhantes à posição que ocupam na planta. O tronco do cafeeiro tem diâmetro médio de 7 a 10 cm, lenho duro, branco amarelado, de onde saem ramos opostos e cruzados, denominados ramos plagiotrópicos, laterais ou produtivos. Eventualmente, podem originar também, ramos ortotrópicos ou “ladrão”, os quais crescem paralelos ao caule. Os ramos laterais primários são longos, flexíveis e possui ramificações de ordem superior - secundárias e terciárias, em quantidade variável conforme a cultivar (Figura 4). Os ramos produtivos surgem, normalmente, a partir do 6º e ou 11º par de folhas do caule, de uma única gema que se destaca do conjunto de cinco a seis gemas seriadas, presentes nas axilas foliares. Acima da série existe uma única gema localizada acima da série, denominada cabeça-de-série (Wormer e Gituanja, 1970). A perda desses ramos não é renovada, pois, como afirmado anteriormente, há somente uma gema cabeça-de-série em cada axila foliar. Os ramos plagiotrópicos formam-se aos pares a partir do tronco, dispostos de forma “oposta e cruzada”, nos quais estão inseridas folhas, flores, frutos e também ramos com características produtivas de ordem superior. As gemas seriadas e cabeça-de-série dos ramos produtivos são vegetativas, mas podem evoluir para gemas reprodutivas ou formar ramos laterais de ordem superior. As gemas dos ramos laterais originam flores se houver indução e evocação do meristema, após redução do fotoperíodo – horas de luz inferior a 13 e 14 horas com tendência de diminuir, como se verifica a partir de meados de dezembro (Franco, 1940; Piringer & Borthwick, 1955) (Slide 5 – Caule e ramos).

Estudo de secções transversais do caule do cafeeiro evidenciou comportamento semelhante às flutuações ocorridas nos ramos laterais. Os tecidos do parênquima radial do silema secundário e também da medula, praticamente não possuíam reservas em outubro e novembro, uma evidência de que na fase de granação/expansão dos frutos, o caule também mobiliza suas reservas. Isto não quer dizer que parte não tenha sido destinado à vegetação (ramos e folhas). O amido armazenado de abril a junho pode indicar que as se prepara para a próxima estação de crescimento, que começará em setembro com as chuvas e aumento da temperatura. Para isso, o caule a partir de novembro está, novamente, sem reservas

Cultura do Café w.ifcursos.com.br Álvaro Ferraz degradada e mobilizada para os locais de demanda de carbono (Slide 6 – Amido nos ramos e caule). Em geral os carboidratos se acumulam nos ramos e caule no final da estação de crescimento, para ser consumido no início da estação chuvosa (Kozlowski, 1992). A recuperação das reservas tanto no caule quanto nos ramos em dezembro pode estar relacionado com elevadas taxas fotossintéticas, como fora observadas por Reis (2007), em pesquisa feita com as mesmas plantas de janeiro a junho (Slide 8 – Fotossíntese em função da dose de N).

O crescimento vegetativo (caule, ramos, folhas e raízes) ocorre simultaneamente ao período reprodutivo, embora a taxa média de crescimento das folhas e ramos seja menor em janeiro do que em outubro, no início da estação chuvosa (Rena & Maestri, 1987). Isto acontece em razão da produção e alocação diferencial de carboidratos nos diferentes períodos. Entre o período seco e o início das chuvas (julho a setembro) foi observado muito amido nos tecidos da medula, raios xilemáticos e também no floema dos ramos laterais (Chaves Filho, 2008). Nos meses chuvosos de novembro e dezembro foi observado um novo preenchimento dos tecidos de armazenamento dos ramos laterais, que pode estar relacionado com o rápido desenvolvimento vegetativo do cafeeiro nesses meses, por ser dreno de carboidratos, em particular, no ano de safra baixa.

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