Rachar as palavras

Rachar as palavras

FOUCAULT, Michel. “Rachar as coisas, rachar as palavras”, in: Conversações (1972-1990). Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992

Greyce Falcão – Doutoranda em História, UFPE, Setembro, 2017.

Rachar as palavras. Ou uma história a contrapelo

Partindo de princípios filosóficos, o texto “Rachar as palavras” traz inicialmente uma reflexão sobre movimento. Conceito que é considerado o princípio de tudo dentro da Filosofia e que traz também para a História, a ideia de mudança e de ruptura. Relacionando os estudos de Heráclito, e as discussões sobre Dialética e Marxismo, percebemos como a metáfora do movimento se tornou realidade no século X. É um período de rupturas e quebra de paradigmas em várias áreas do conhecimento. O método científico, o tempo e o espaço absolutos de Newton e o determinismo de Laplace foram postos em xeque.

A teoria geral da relatividade e a mecânica quântica deram importantes contribuições para esse momento de quebra de paradigmas científicos. O mundo objetivo do tempo e do espaço não existia mais. Na área das ciências humanas essas mudanças ainda não foram inteiramente compreendidas e ainda são motivo de muitas controvérsias. A relação da história com a ciência permanece sendo alvo de muitos debates e questionamentos. Como vemos em Paul Veyne: “A história é um romance verdadeiro”.

O fato é que esse modelo clássico de ciência se utiliza de métodos para “descobrir verdades”, estabelecer leis, definir causas e antecipar consequências. Esse modelo de verdade, desde o final do século XIX, foi sendo gradativamente desconstruído. No entanto, as diversas práticas historiográficas que operavam o método científico clássico não romperam definitivamente com seus métodos e técnicas de pesquisa de forma automática.

Nesse contexto, Deleuze pensou uma nova forma de relação entre os diferentes campos do conhecimento e que estes estabeleceriam relações de troca entre si. A história ao buscar adaptar o método científico à prática historiográfica agenciou verdades que hoje nos parecem inconcebíveis: “povo sem escrita, seria povo sem história”. O positivismo do século XIX significou um retorno ao modelo cartesiano, determinista, causal e submetido a leis. A natureza era considerada estática e a história um modelo em constante progresso. É com Darwin e suas teorias que se estabelecerá uma nova conciliação entre história e natureza.

A tradição positivista estabeleceu que fato histórico é o fato como “verdadeiramente” aconteceu. As várias perspectivas teóricas em que a historiografia se fundamentou do século XVII ao início do século X estabeleceram um modelo científico que defende a existência de uma realidade natural, pronta e passível de ser determinada mediante as leis, independente da intervenção ou participação humana. Predominou uma visão do conhecimento aonde havia um mundo pronto e acabado diante de nós e que, para conhecê-lo, bastava utilizar o método corretamente. A verdade estava a disposição das provas. A história estava baseada num tempo linear e cronológico, no resgate da verdade, baseada em provas documentais, escritos oficiais, compreensão teórica causal e determinista.

Segundo essa interpretação, o historiador dispõe de técnicas que irão verificar a autenticidade e a procedência do documento. Todos os outros registros não são levados em consideração. Nesse contexto, verificamos que outras ciências, como a medicina, também passaram por rupturas nos séculos XIX e X, sobre as suas definições do que seria saúde e doença. A ciência começa a ser vista como um sistema aberto, passível de rupturas, descontinuidades e mudanças. Há uma nova perspectiva teórica nas ciências. A produção do conhecimento surge como um campo sem leis pré-determinadas. O foco não é mais a verdade em si, mas as relações, os regimes enunciativos, as práticas que produzem. As coisas, as pessoas e os conceitos estabelecem relações provisórias e estão abertos a constantes mutações. No entanto, as transformações do século XIX no campo da Física, da Matemática e da Química, não tiveram o mesmo significado para os todos os cientistas. Muitos ainda se utilizam da ciência clássica em suas teorias. Com isso, passaram a coexistir teorias bem distintas com diferentes focos de análise e de visão.

A Matemática já não oferece a verdade absoluta e foi chamado de “invenção” por Wittgestein. A Física também passou a ser vista como uma ciência criadora, inventiva, aberta e abstrata, disposta a formular novos modelos. Além disso, estabeleceu-se o princípio de incerteza da Física Quântica. Na Física Moderna surge a dependência do meio ambiente. O foco agora são as relações, as interações, interconexões e abstrações. As palavras e as fórmulas já não oferecem a verdade do mundo.

Que paralelo podemos traçar da História com essa “nova” representação de mundo que a física moderna criou?. Para Paul Veyne é preciso estudar as práticas, as relações, e os percursos. É preciso como propôs Foucault, rachar as palavras e rachar as coisas. Desnaturalizar tudo e ir em busca dos fios que engendram, que trazem significado. Deleuze, Foucault e Veyne compartilham dessas novas reflexões metodológicas.

Na segunda parte do texto, vemos os depoimentos de homens e mulheres pobres onde opera-se esse movimento de rachar as palavras, de descrever uma outra prática e que está além do discurso visível. Esse movimento de desnaturalizar as palavras revela um combate, uma luta na história.

A historiadora Regina Beatriz Guimarães Neto pesquisou no estado do Mato

Grosso, os chamados “pés-inchados”. Assim denominados pejorativamente, esses trabalhadores de baixa qualificação e itinerantes, eram alvo de práticas de violência e desrespeito nos contratos de trabalho, nas ações da polícia e ausência do poder público na garantia de seus direitos. O nome surge nesse contexto como uma representação desqualificação. Muitos aceitam a “denominação”, outros reagem contra ela. Nesse cenário cria-se a anulação da prática da cidadania e do exercício de direitos e deveres. Vemos como é perigoso tornar os signos naturais. É importante perceber como o poder do discurso, da linguagem e das ações são reverberadas a partir da fala. Muitas vezes é preciso reconhecer e também jogar com as palavras e os signos.

Entre 1950 e 1964 as Ligas Camponesas surgiram colocando as condições de vida dos trabalhadores rurais em pauta nacional e trazendo a tona questões como a Constituição, a sindicalização e a exploração. As forças contrárias, com o objetivo de desqualificar o movimento, criaram uma imagem de que essa mobilização levaria a um plano revolucionário para tornar o Brasil comunista.

Para chegar aos trabalhadores as Ligas adequavam seu discurso a um tom professoral, com dimensão cristã, associando pedagogia e política. As falas contrárias também vieram para se opor ao trabalho de propaganda das Ligas. A disputa pelo controle da organização dos trabalhadores rurais, no que tange à reforma agrária, foi alvo de disputa por parte do governo federal, através da Sudene, os Partido Socialista, o Partido Comunista Brasileiro e a Igreja Católica.

Diante de tantas questões importantes vemos como a questão da construção da memória faz um trabalho de reelaboração e ressignificação daquilo que se apresenta aos sentidos. Não há memória pura. O que existe é um trabalho de elaboração do presente enquanto leitura de um passado. Elaboração que contempla mediações, transformações e construção de relatos orais. Por isso se faz tão necessária rachar as palavras, desnaturalizá-las. Compreender a relação entre as palavras, as coisas e o poder do discurso.

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