As fontes, a pesquisa e o trabalho do historiador

As fontes, a pesquisa e o trabalho do historiador

(Parte 1 de 3)

Centro de Filosofia e Ciências Humanas Programa de Pós-Graduação em História

As fontes, a pesquisa e o trabalho do historiador

Ensaio apresentado à Prof. Dra. Isabel Guillen, para a Disciplina de Tópicos de Pesquisa em História, pela aluna Greyce Falcão do Nascimento.

Recife, Fevereiro de 2014.

As fontes, a pesquisa e o trabalho do historiador

A disciplina Tópicos de Pesquisa em História, trouxe como proposta de discussão, os métodos, campos e fontes que envolvem a prática do ofício do historiador. A discussão sobre o “fazer” história foi o que mais me interessou nessa disciplina. O conceito de arquivo, o que é o arquivo para o historiador, como lidar com as diferentes fontes, a memória, o esquecimento e a lembrança, foram alguns dos temas abordados. Que seleção intelectual e afetiva nós fazemos, como elegemos nosso “documento-fonte”, como percebemos o processo de escrita da história e quais as nossas primeiras impressões foram pontos importantes que trouxeram momentos decisivos de reflexão.

Começamos a disciplina discutindo o capítulo Armazenadores, do livro “Espaços de

Recordação”, da autora alemã, Aleida Asmann. O que mais me chamou a atenção foi o que compreendemos como memória funcional e em que condições o arquivo pode assumir uma forma de memória funcional. Como poderemos lidar com as “novas” formas de armazenamento da memória, que lidam com uma tecnologia “descartável”, que precisa constantemente ser revista e novamente repassada para outras mídias. Citamos Foucault, pois para ele o arquivo está carregado de relações de poder, já que trata-se de uma ferramenta de estado, que pode assumir um caráter repressor e que de certa forma vem para ditar o que deve ou não ficar para a posteridade. O arquivo, segundo o filósofo, é um instrumento de repressão, limitador do escopo dos pensamentos e das articulações. Já Boris Grays citou o arquivo como um lugar de “seleção-natural-cultural”, já que estamos diante de um lugar de coleção, de tudo aquilo que em um dado momento é valorizado no tempo e dentro de uma determinada cultura como sendo algo novo e importante. O antigo e o novo dialogam para chegar no arquivo. É a base da comparação para a qualidade de diferenciação do novo. A partir disso, percebemos que tanto os materiais tóxicos radioativos quanto os materiais culturais são guardados em lugares da mais alta segurança. Entendemos que o arquivo faz parte do sistema estadual e que é ao mesmo tempo atuante de objeto de um processo político e social. Enquanto historiadores pensamos qual é a concepção de história que está por tras da concepção de arquivo. Seria um concepção de hstória elistista, já que não há uma proposta de história enquanto cidadania, mas ainda uma ideia de antiquario e colecionadores.

Discutimos a origem do documento, a escrita como um grande meio de armazenamento da memória, a crise do livro com as novas mídias sociais e as funções sociais da memória. Para Aleida Asmman, nossa sociedade está perdendo a capacidade de lembrar. E observamos que somos, não os únicos, mas talvez os mais empenhados profissionais a estarem o tempo todo trabalhando o passado, a memória e a lembrança.

Aleida Asmann vai dizer que o conceito de arquivo remete ao mesmo tempo a início, ordem, escrita, burocracia, administração e os atos administrativos. O arquivo antes de ser memória histórica é memória de dominação. Não há poder político sem o controle sobre os arquivos, sem o controle da memória. A partir da Revolução Francesa, os documentos ganharam um novo valor como prova histórica. Com isso, entendemos que o arquivo tem como funções a conservação, a seleção e a acessibilidade. A partir de Derrida, discutimos ainda sobre o que é destrutível e o que é indestrutível, as cápsulas do tempo, novos problemas de conservação e armazenamento que a nossa sociedade enfrenta, as mudanças de paradgima no arquivamento e na transmissão de dados, as instituições oficiais qu decidem o que será ou não guardado e como lidar com as sociedades ágrafas e portanto, sem arquivo.

Vimos também como a arte pode atuar dentro da memória e como o lembrar e o esquecer fazem parte da memória. Os livros são redescobertos pela arte como nos trabalhos de Anselm Kiefer e Sigrid Sigurdsson. E a memória também é trabalhada na arte como nos trabalhos de Anne e Patrick Poirier, Christian Boltanski e Naomi Tereza Salmon.

Nesse contexto de arquivo e memória, reportando ao meu objeto de estudo, eu percebo que uma das causas dos poucos trabalhos sobre a revista manchete, pode ser a escassez de documentação. Apenas na cidade do Rio de Janeiro,lugar onde a revista foi fundada e atuou por quase cinquenta anos, podemos encontrar todos os exemplares da revista. Não há, até o momento, um projeto de digitalização de todo o acervo para que pesquisadores de outras partes do país e até do mundo possam empreender suas pesquisas. Nesse momento, eu penso que mesmo com toda sua importância histórica, política, social e cultural para o país, a revista não dispõe de um “lugar” privilegiado para ela dentro dos arquivos.

Demos continuidade com o livro “O Sabor do Arquivo”. Arlette Farge é uma historiadora francesa, especialista no século XVIII, em particular nos comportamentos e identidades das classes populares do período, as relações entre homens e mulheres, e a escrita da história., com profundo conhecimento e experiência em arquivos (arquivos da Bastilha, processos de prisioneiros, arquivos da polícia de Paris, documentos privados de agentes da Bastilha, etc). Como resultado do seu trabalho sobre este acervo, ela publicou em 1982 um livro junto com Michel Foucautl, “A desordem das famílias”. Em “O Sabor do Arquivo”, a autora descreve o arquivo com o qual ela trabalha, nesse caso, o Arquivo Nacional (judiciário) – Biblioteca do Arsenal. Ela compara o universo dos arquivos à relação do homem com o mar. E afirma que a atração pelo arquivo acontece principalmente porque o pesquisador prova de imediato um efeito de real que nenhum impresso por mais original que seja, pode suscitar. Os impressos, tem um grande alcance e estão carregados de intenções, (nesse momento eu penso o quanto o meu objeto de pesquisa é perigoso, complexo e problemático, e que enquanto pesquisadora preciso me despir de todas as minhas prévias intenções e toda minha ingenuidade), já no caso desse arquivo judiciário, as falas não obedecem à mesma operação intelectual e revelam o que jamais teria sido exposto não fosse a ocorrência de uma foto social perturbador. O arquivo traz uma brecha, onde personagens comuns, raramente visitados pela história, tem “parte” de suas vidas contadas. Ainda assim, não podemos ser ingênuos, não estamos diante da essência da verdade ao lidar com esses elementos, isso faz parte da primeira impressão, a questão é, o que fazer, diante do conteúdo encontrado. Farge fala ainda da solidão do historiador e de como as mudanças que aconteceram nos arquivos mudaram a percepção de quem antes podia folhear o documento, além disso, traz algumas percepções de como o arquivo deve ser “lido” e a importância da transcrição.

De forma muito prazerosa e literária ela descreve o ambiente físico do arquivo, como ela vê a cidade de Paris através daquela documentação, e como a partir dos documentos, emergem da multidão, mendigos, desocupados, dolentes, ladras e sedutores agressivos. Por meio da transgressão essas pessoas passam a ocupam um lugar. Apesar de conter muito de real, a autora ressalta que o arquivo não “pinta os homens por inteiro, mas fragmentos dele”.

O arquivo traz elementos de realidade que por sua aparição em um determinado momento histórico produzem sentido. É sobre sua aparição que é preciso trabalhar, é nisso que se deve tentar decifrá-lo. A problemática diante de documentos danificados ou ilegíveis, os jogos de aproximação e de oposição, as surpresas e novos horizontes de conhecimentos surgem de forma inesperada ao longo da pesquisa, por isso, o estar disponível para o que a priori não é perceptível, é essencial. Farge vai alertar para o fato estarmos sujeitos a armadilhas e tentações, como por exemplo, estar tão absorvido pelo arquivo, a ponto de nem saber mais como interrogá-lo. Quando se vai com uma ideia pronta do que selecionar, isso lhe retira disponibilidade para o que na hora pode não parecer importante, mas que na verdade poderia se revelar indispensável. Muitas vezes o historiador é atraído apenas por aquilo que pode reforçar suas hipóteses de trabalho, nesse momento me idendifico diretamente, e percebo o quanto preciso exercitar o meu olhar e a minha procura.

Um documento não basta a si mesmo e uma citação não pode ser uma prova. A história não é jamais a repetição do arquivo, mas desinstalação em relação a ele para a produção de conhecimento. As palavras estão mergulhadas num universo ao mesmo tempo pessoal e coletivo. A linguagem pode exprimir a complexidade das relações sociais e as maneiras de fazer boa figura. Por isso o trabalho no arquivo e a produção de história por meio de tal processo de pesquisa devem ser percebidos dentro de sua complexidade.

No caso da pesquisa de Farge, ela está diante de depoimentos onde a polícia quer encontrar culpados, não importa que o caso seja totalmente esclarecido. Uma primeira leitura do documento induz com muita frequência a uma versão inteiramente policial da ordem e da desordem. A autora buscou ver além disso, atentou para a esperteza dos acusados e para os atores envolvidos no conflito. As informações podem não ser verdade, mas são fragmentos de ética, ou seja, uma moral, um estilo, um imaginário e o vínculo singular que o une à sua comunidade. Com isso, percebemos que não devemos buscar apenas o extraordinário ou o resolutamente significativo. O aparentemente insignificante, o detalhe, pode trazer o indizível.

Em outro momento, a autora passa a discutir como o individual e o coletivo são perceptíveis através do testemunho, já que trata-se de um fragmento onde o indivíduo trava relações pacíficas ou tumultuadas com outros grupos sociais revelando fenômenos às vezes coletivos às vezes não, de singularidade. O historiador deve combater a ilusão da narrativa e a construção de uma verdade defitiva, pois trabalha com uma construção plausível e versossímel de continuidades e de descontinuidades do passado, a partir de exigências científicas. O historiador busca a verdade sabendo que ela não está cem por cento na fonte, testemunho ou documento.

Nesse contexto, o arquivo é o ambiente onde se pode produzir conhecimento, discursos, construções simbólicas e intelectuais do passado. O questionamento do arquivo é essencial para que o resultado da pesquisa seja plausível. O documento, texto ou o arquivo não é a prova definitiva de uma verdade qualquer, mas portador de um sentido que deve ser construído por questionamentos específicos. Por isso não devemos nos limitar a descrição do social, descartando sempre que possível, as falas redundante, como as assertivas: “as elites determinam a cultura”, “a política não é assunto do povo”. No caso de Farge, a fala popular trouxe elementos da sociedade como um todo principalmente com relação a esfera pública.

A vida dos homens infames, escrito por Foucault, é resultado direto de trabalho nos arquivos, que datam de 1660-1760. Nesse caso, os arquivos do internamento do hospital geral e da Bastilha, arquivos da polícia, das petições ao rei e das cartas régia com ordens de prisão. Como o próprio texto diz, é uma antologia de vidas, que chamaram a atenção, principalmente de Foucault, pela rapidez do relato e realidade dos acontecimentos. Infratores da lei e da ordem que trazem nos relatos traços fortes de personalidade. O filósofo buscou existências relâmpagos, banindo nesse trabalho tudo o que fosse imaginação, literatura, memórias, lembranças. Ele queria existências reais, fragmentos de uma existência, não queria personagens dotadas de nenhuma dessas grandezas estabelecidas e reconhecidas, antes buscava pessoas comuns, medíocres, mas dotadas de uma energia maior que elas mesmas.

As pessoas/súditos usam do poder político para atingir outras pessoas e para fazer justiça, através das denúncias. Vemos o poder entrando no cotidiano e nas relações. Para Foucault não era interessante explicar, mas apenas juntar os textos e mostrá-los. As falas estão condicionadas a essa relação de poder, chegaram até Foucault através do acaso. Não há nenhuma relação de necessidade nesse encontro. Trata-se de uma fama inversa, produzida pelo rancor ou pelo horror.

Nesse período histórico, a confissão católica era algo instituído para o perdão. Depois surgiram as confissões para o registro e não mais para o perdão, acontecendo assim a passagem do cotidiano para o discurso. Estabelecendo-se então uma nova relação entre o poder, o discurso e o cotidiano. As pessoas passaram a enxergar o poder do rei como objeto de disputa e invocavam para si esse poder. A “lettre de Cachet” era um objeto de resposta a essa demanda de baixo e não havia uma investigação antes do veredito. Esse processo de petição de ordens de prisão-inter namento não foi senão um episódio bastante breve, não mais de um século, e localizado apenas na França.

As camadas mais baixas da sociedade vão se utilizar de um poder político que tem as formas de absolutismo e essa intervenção torna-se ao mesmo tempo temida e desejada. As intervenções surgiram em episódio de brigas de vizinhos, casais, pais e filhos, excessos de vinho e de sexo, disputas públicas e paixões secretas, elementos banais, comuns do cotidiano que são elevados a uma “ocorrência escrita”. Nesses casos utiliza-se de uma grande retórica para vestir casos insignificantes, com uma linguaguem decorativa, imprecativa ou suplicante, o que não impedia também que acontecesse a mistura na fala de uma linguaguem popular com uma linguaguem erudita.

Histórias de perdão, da autora Natalie Zamon Davis, trata das cartas de perdão do século

XVI e as relações entre o real, o ficcional e o histórico. A autora percebeu a qualidade literárias dos textos, qualidades então ficcionais. Nesse caso, os autores dão às etapas de um crime, os moldes de uma história. O inesperado ganha sentido no discurso. A autora diz que enquanto historiadores deveríamos, cientificamente, ir despindo os elementos fictícios de nossos documentos para assim chegar mais próximo da realidade.

As cartas de remissão eram uma petição judicial destinada a persuadir o rei e a corte, um relato histórico dos atos de um indivíduo no passado. Um discurso que precisava de um artifício, já que no século XVI tínhamos três tipos de oratória, a deliberativa, a demonstrativa e a legal. Para Davis não se trata da falsidade de um relato, mas verossimilhança e verdade moral, nesse caso, a ficção não assume o sinônimo de fraude ou mentira. É a história cultural dessas cartas, o modo de como essas pessoas contaram suas histórias que vai ser inverstigado. Percebe-se a importância do rei como uma referência para todas as histórias de perdão e o papel destas no reforço da soberania.

Geralmente as cartas eram escritas pelas classes inferiores, camponeses e artesãos que raramente deixavam registros sobre si mesmos. O perdão real poderia ser concedido diante de penas que iam de execução, confisco de bens, multa e prejuízo corporal, criminal ou civil. Além de crimes graves que geralmente haviam resultado em morte. A petição poderia ser feita em três circunstâncias; logo depois do crime, logo depois da prisão, ou após a fuga. Somente um funcionário da chancelaria real poderia “assinar” a carta. Nas ocasiões em que o rei visitava as cidades, o ritual de leitura das cartas tornava-se um acontecimento. No decorrer da obra a autora ainda vai tratar das testemunhas, do “preço” da escrita da carta, as treze condições atenuantes, os fatores que contribuíam com o perdão, como a juventude, a idade, a dignidade do réu e as datas festivais e de rituais. A obra trata de como essas histórias de perdão precisavam convencer e contar uma história que superasse as versões concorrentes. Além disso, a autora descreve o papel do advogado, o envolvimento dos homens da lei nas petições e o quanto essa parte da sociedade mesmo iletrada sabia contar histórias.

(Parte 1 de 3)

Comentários