Aplicando teorias da história ao estudo da imprensa

Aplicando teorias da história ao estudo da imprensa

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Centro de Filosofia e Ciências Humanas Programa de Pós-Graduação em História

Manchete: Aplicando teorias da história ao estudo da imprensa

Artigo apresentado à Prof. Dra. Maria do Socorro Abreu e Lima para a Disciplina de Teoria e Metodologia da História, pela aluna Greyce Falcão do Nascimento.

Recife, Julho de 2013.

Manchete: Aplicando teorias da história ao estudo da imprensa

Nos últimos anos, multiplicaram-se os estudos dedicados ao período em que o

Brasil viveu um regime ditatorial. Esse interesse tem contribuído para ampliação das temáticas analisadas, com destaque para os veículos de comunicação censurados e para aqueles que teriam supostamente colaborado com o regime militar.

Diante de inúmeras tentativas de discutir o papel da imprensa no âmbito da sociedade, principalmente durante o regime militar brasileiro, é importante revisar a atuação do jornalismo. Essa esfera social poderosa agiu de forma decisiva, em alguns momentos, na preparação e sustentação do golpe, colocando-se como um dos saberes instituídos que operaram reproduzindo a noção de Segurança Nacional, base ideológica do governo.

Todo poder dominante se compões de dois elementos indissoluvelmente ligados, que constituem sua força: a violência e o consenso. Mas se se exclui o caso em que o domínio é efeito direto da violência – real (a guerra) ou virtual (ameaça de recorrer a força) – pode-se dizer que, desses dois fatores de poder, a força maior não provem da violência dos dominantes, mas do consenso dos dominados ao domínio dos primeiros. Por outro lado, violência e consenso, no fundo, não são realidades que se excluam reciprocamente: o consenso é uma força social que vem se acrescentar à violência, ainda que em oposição a ela, e contribui para conservar o contraste, se esse existe, entre dominantes e dominados, no interior de formas e proporções compatíveis com a reprodução duradoura da dominação de uns sobre os outros. Para que indivíduos e grupos dominados possam consentir, consciente ou inconscientemente, com a dominação, é preciso que esta lhe apareça como um serviço prestado pelos dominantes: porém, mais uma vez, é necessário então que as mesmas representações sejam partilhadas por dominantes e dominados, levando a interpretar a divisão de tarefas e os direitos e deveres recíprocos como uma troca necessária.1

Num primeiro momento, iremos identificar os tipos de discurso utilizados pela revista. Em alguns momentos, tentou demonstrar neutralidade diante da crise política do país, em outros, colocava-se como porta voz do governo, reproduzindo o discurso de uma suposta ameaça comunista e atacando fortemente as pessoas e instituições que combatiam o regime autoritário, utilizando assim, sua influência e acessibilidade para demonstrar à população em geral, uma “aparente” normalidade do país.

1 Hobsbawn, Eric. História do Marxismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983. Pg. 382-383

Como fontes para pesquisa serão analisadas notícias, matérias e reportagens, que demonstraram a postura ideológico-partidária assumida pelo veículo investigado. Utilizaremos os documentos, não como verdade absoluta, mas como eles se encontram, carregados de sentidos e objetivos, buscando compreender e analisar o efeito de verdade produzido pela mídia.

Segundo René Armand Dreifuss2 , para que o regime ditatorial fosse implantado no Brasil, o golpe civil-militar de 1964 foi articulado por forças civis e militares representadas por diversos segmentos da sociedade. É importante ressaltar que a adesão da maioria da classe média brasileira deu suporte e legitimidade ao sistema repressor, tendo em vista a profusão dos discursos do “perigo comunista” e da “ameaça de subversão da ordem”, alimentando o imaginário do medo.

Nesse contexto, a imprensa foi parte integrante da complexa e eficiente rede de informações que serviu como pilar de sustentação do sistema autoritário. Para a cooptação das camadas médias urbanas, houve um trabalho sistemático promovido pela Assessoria Especial de Relações Públicas (Aerp), órgão pertencente ao governo, pela imprensa, propaganda, cinema e televisão. De modo geral, os meios de comunicação assumiram a tarefa de adequar o público ao status quo social e político defendido pelos militares.

Gramsci regista o fato novo de que a esfera ideológica, nas sociedades capitalistas avançadas, mais complexas, ganhou uma autonomia material (e não só funcional) em relação ao Estado em sentido restrito. Em outras palavras: a necessidade de conquistar o consenso ativo e organizado como base para a dominação – uma necessidade gerada pela ampliação da socialização da política – criou e/ou renovou determinadas objetivações ou instruções sociais, que passaram a funcionar com portadores materiais específicos (com estrutura e legalidade próprias) das relações sociais de hegemonia. E é essa independência material – ao mesmo tempo base e resultado da autonomia relativa assumida agora pela figura social da hegemonia – que funda ontologicamente a sociedade civil como uma esfera própria, dotada de legalidade própria, e que funciona como mediação necessária entre a estrutura econômica e o Estado-coerção.3

Ao levarmos esses aspectos em consideração, salientamos também que, até o momento, não encontramos nenhum trabalho historiográfico sobre a Revista Manchete,

2 DREIFUSS, René Armand. 1964. A conquista do Estado: ação política, poder e golpe de classe.

Petrópolis: Vozes, 1987, p.50.

3 COUTINHO, Carlos Nelson. GRAMSCI: Um estudo sobre seu pensamento político. Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. Pg. 129 um importante periódico de intensa circulação e visibilidade que circulou no país entre os anos de 1952 e 2000 pela Bloch Editores. Todos os trabalhos acadêmicos desenvolvidos até a presente data tratam de temas como linguística, fotografia, arte e sociologia política. Fator esse que será desenvolvido na dissertação de mestrado. Quais as motivações para que um veículo desse porte não tenha merecido um interesse na academia por parte dos historiadores, é uma pergunta a ser desenvolvida mais adiante, com a análise dos trabalhos já apresentados e uma discussão mais profunda.

Manchete fazia parte da Bloch Editores, que possuía vários títulos, e emissoras de rádio e televisão. Após a morte de seu fundador, Adolpho Bloch, em 1995, a empresa entrou em decadência, até ser decretada a falência de um dos maiores conglomerados de mídia da América Latina. A revista foi arrematada em leilão em 2000 pelo empresário

Marcos Dvoskin que resolveu relançá-la em 2002 com edições especiais sem periodicidade fixa, como os números que enfocavam o Carnaval.

Inspirada na Paris Match e utilizando-se do fotojornalismo como principal forma de linguagem, a revista trazia uma concepção moderna de ilustração. Manchete foi o semanário mais vendido no país durante as décadas de 1950 e 1960. Em 1967, a revista chegou a vender mais de dez milhões de exemplares. O recorde histórico de vendas foi alcançado em 1980, com a visita ao Brasil do papa João Paulo I. Foram 1.577.120 exemplares vendidos4 .

Durante esta pesquisa, levaremos em consideração que nem todos os jornalistas fizeram do seu ofício um ato de resistência ao autoritarismo. O ponto de partida dessa reflexão apreende a existência de jornalistas e de donos de veículos que colaboraram com o regime. Este trabalho não pretende negligenciar a resistência, mas buscar outras problemáticas da imprensa. Nem todos colaboraram com o regime, da mesma forma que nem todos se opuseram. Um dos intuitos é perceber uma atuação colaboracionista, realizada na grande imprensa, ante a imposição autoritária5 .

Este trabalho iniciou-se em 2009, durante o curso de especialização em História do Século X na Universidade Federal de Pernambuco, tendo como resultado uma

4 GONÇALVES, José Esmeraldo. Barros, J. A. Aconteceu na Manchete: as histórias que ninguém contou. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008.

5 KUSHNIR, Beatriz. Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 27.

monografia orientada pela Profª. Dra. Ana Maria Barros. A pesquisa revelou que a revista esquivou-se muitas vezes de comentar a situação delicada em que o país encontrava-se, além de defender abertamente as atitudes tomadas pelo regime militar. Diante disso, destacamos a viabilidade do desenvolvimento da pesquisa durante o mestrado.6

O conteúdo de alguns textos jornalísticos da época analisada evidenciam elementos de colaboração e conivência explícita em parcelas da imprensa àquele regime. Além disso, havia uma recomendação do governo aos meios de comunicação para que não falassem sobre a existência da censura, principalmente nos jornais e revistas que pertenciam a grande imprensa.

Segundo Maria Aparecida Aquino, o conceito de “grande imprensa” refere-se aos veículos de comunicação que mantinham uma distribuição nacional e por vezes com uma abrangência internacional, cuja circulação poderia ser diária, semanal ou mensal e que possuíam um alto financiamento publicitário do qual dependia a sua sobrevivência. Podemos citar como parte da “grande imprensa” da época, as revistas Manchete, O Cruzeiro e Veja, além de jornais como O Estado de São Paulo, Diário de Notícias e A Última Hora.7

Através do poder de escrita dos jornalistas, e do alcance dos diversos veículos de comunicação, estabeleceu-se um combate ideológico entre diferentes segmentos da sociedade. A informação foi tomada como referência na elaboração do discurso, passando a ter uma forte influência ao longo do regime. Durante o período, houve uma grande preocupação com o chamado setor de informações, que incluía todos os veículos de mídias do período, objetivando vigilância e possíveis punições para qualquer tentativa de “subversão”. O controle das informações a serem divulgadas buscava preservar a imagem do governo, num exercício de ocultação do que estava acontecendo na realidade. A imprensa brasileira vivenciou vários papéis. Assim:

Uma reflexão sobre os diversos papéis desempenhados por parte da grande imprensa na ditadura civil-militar, em especial no pós-1968, demonstra uma estreita relação entre alguns jornalistas e policiais como igualmente desvenda uma série de esquemas da direção das empresas com os órgãos de governo para aceitar a autocensura.8

6 NASCIMENTO, Greyce Falcão do. A Imprensa a serviço do golpe: A repercussão do AI-5 nas páginas da revista Manchete (1968-1969). Monografia (Especialização em História) CFCH-UFPE, Recife, 2010.

7 AQUINO, Maria Aparecida. Censura, Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978): o exercício cotidiano da dominação e da resistência: O Estado de São Paulo e Movimento. Bauru: Edusc, 1999.

8 KUSHNIR, Beatriz. Cães de Guarda – Jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988. São

Poucos trabalhos dedicam-se a buscar uma explicação mais detalhada acerca das motivações que levaram as camadas médias urbanas a apoiar a instalação de um governo autoritário. E, principalmente, a parcela da imprensa que contribuiu com a divulgação dos valores ideológicos do militares. O trabalho de alguns veículos consistiu, principalmente, na apreensão e disseminação de notícias que visavam persuadir o leitor da necessidade de um governo forte, associando-o ao desenvolvimento econômico prometido pelos militares. Isso, na tentativa de construir um consenso sobre o governo e suas medidas arbitrárias.

(...) a luta pela hegemonia implica uma ação que, voltada para a efetivação de um resultado objetivo no plano social, pressupõe a construção de um universo intersubjetivo de crenças e valores. Por outro lado, Gramsci articula explicitamente a hegemonia com a obtenção do consenso, distinguindo-a assim da coerção enquanto meio de determinar a ação dos homens.9

Os profissionais da comunicação que pertencentes aos quadros da imprensa podem ser qualificados na leitura de Gramsci, como sendo pertencentes à categoria de

“intelectuais”.10 Segundo esse autor, os intelectuais pertencem a uma categoria social, a que ele chama de “agentes da superestrutura” e atuariam, portanto, no “vínculo orgânico” da relação entre as forças produtivas e a superestrutura ideológica e política da sociedade. Partimos de uma perspectiva fundada no marxismo e nos conceitos de Antonio Gramsci a fim de destacar a interação entre diferentes aspectos que, unidos por um sentindo discursivo, estabeleceriam a direção de um consenso.

Formam-se assim, historicamente, categorias especializadas para o exercício da função intelectual: formam-se em conexão com todos os grupos sociais, mas especialmente em conexão com os grupos sociais mais importantes, e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante. Uma das mais marcantes características de todo grupo social que se desenvolve no sentido do domínio é sua luta pela assimilação e pela conquista “ideológica” dos intelectuais tradicionais, assimilação e conquista que são tão mais rápidas e eficazes quanto mais o grupo em questão elaborar simultaneamente seus próprios intelectuais orgânicos.1

Nesse sentido destacamos o papel dos intelectuais enquanto o grupo que cria,

9 COUTINHO, Carlos Nelson. GRAMSCI: Um estudo sobre seu pensamento político. Janeiro:

Civilização Brasileira, 1995. Pg. 116 10 GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a organização da cultura. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. 9. Ed. 1 Idem. Pg. 9 sistematiza e difunde uma determinada concepção de mundo. Para Gramsci, os intelectuais são figuras que tanto podem agir para a transformação da sociedade quanto para a sua reprodução, já que desempenham o papel de mediadores ou construtores de mediações, inviabilizando assim uma compreensão mecânica e imediata entre infra e superestrutura.

Cada grupo social, nascendo no terreno originário de uma função essencial no munda da produção econômica, cria para si, ao mesmo tempo, de um modo orgânico, uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função, não apenas no campo econômico, mas também no social e no político: o empresário capitalista cria consigo o técnico da indústria, o cientista da economia política, o organizador de uma nova cultura, de um novo direito, etc.12

Os jornalistas, em sua maioria, estariam a serviço das classes dominantes para contribuir na formação de um consenso, onde todas as classes estariam coesas. Já que, num momento de ditadura, não somente a força das armas era essencial para a manutenção do regime. O governo precisava da imprensa e de outras instituições da sociedade civil, além é claro da população em geral, como vozes omissas ou de apoio as suas ações.

Estas funções são precisamente organizativas e conectivas. Os intelectuais são os “comissários” do grupo dominante para o exercício das funções subalternas da hegemonia social e do governo político, isto é: 1) do consenso “espontâneo” dado pelas grandes massas da população à orientação impressa pelo grupo fundamental dominante à vida social, consenso que nasce “historicamente” do prestígio (e, portanto, da confiança) que o grupo dominante obtém, por causa de sua posição e de sua função no mundo da produção; 13

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