Um Planeta Chamado Traicao - Orson Scott Card
(Parte 2 de 7)
Era a pior maneira de morrer, porque não havia funeral; você deixava de ser uma pessoa, mas eles se recusavam a permitir que se transformasse num cadáver. — Diga isso, Homarnoch, e você pode dizer igualmente que estou morto.
— Sinto muito — disse ele, simplesmente. — Mas preciso contar de imediato a seu pai.E saiu.
Olhei de novo o grande espelho na parede, onde minhas roupas estavam penduradas num gancho. Meus ombros ainda eram largos de horas e dias e semanas com espada, bastão, lança e arco; e mais recentemente com os foles na forja. Meus quadris ainda estreitos de corridas e cavalgadas. Meu estômago enrijecido com músculos, duro, sólido e viril. E então, ridiculamente macios e convidativos, meus seios...
Tirei minha faca do cinto pendurado na parede e pressionei o gume afiado contra meu seio. Doeu demais — cortei a apenas dois centímetros de profundidade e precisei parar. Houve um ruído na porta. Virei-me. Uma pequena Cramer negra curvou a cabeça para não me ver. Lembrei que ela fora tomada na última guerra (que o Pai venceu) e, portanto, pertencianos por toda a vida; falei-lhe gentilmente, porque ela era uma escrava: — Tudo bem com você, não se preocupe. Mas ela não relaxou.
— Meu Senhor Ensel deseja ver seu filho Lanik. Ele diz imediatamente.
— Droga! — falei. Ela se ajoelhou para receber minha ira. Não lhe bati, entretanto, apenas toquei sua cabeça ao caminhar até minha roupa, e me vesti. Não pude evitar ver meu reflexo ao me retirar, meu peito subindo e descendo enquanto andava rapidamente para fora da sala. A pequena Cramer murmurou agradecimentos enquanto eu saía.
Comecei a correr escadas abaixo para os aposentos de meu pai. Ainda não havia aprendido a andar como uma mulher, suavizando os passos e girando os quadris para evitar solavancos desnecessários. Depois de três degraus parei e me encostei no corrimão até que a dor e o medo acalmassem. Quando me voltei para descer mais devagar, vi meu irmão Dinte no pé da escada. Ele estava sorrindo afetado, um dos melhores exemplares de imbecilidade em botão que a Família jamais produzira.
— Vejo que você ouviu as novidades — falei, descendo com cuidado as escadas.
— Devo sugerir que você arranje um sutiã? — ofereceu, afavelmente. — Eu pegaria um de Mannoah emprestado, para você, mas os dela são muito menores.
Pus a mão na minha faca e ele recuou alguns passos. Muitas vezes, em brigas de infância, eu já havia cortado fora seus dedos e arrancado seus olhos, de modo que sabia da inutilidade do gesto — mas a faca parecia necessária em minha mão quando eu estava com raiva.
— Você não deve me machucar mais, Lanik — falou Dinte, ainda sorrindo com afetação. — Agora eu vou ser o herdeiro, e brevemente o cabeça da Família, e vou me lembrar.
Tentei pensar em alguma resposta. Alguma réplica mordaz para ele saber que nada do que jamais me pudesse causar seria comparável em agonia ao que acabara de acontecer, ao que estava por acontecer.
Mas confessar tanto medo e dor só se faz com o amigo de maior confiança, e talvez nem mesmo nesse caso. De modo que não disse nada, e passei por ele em direção à sala privativa do Pai. Enquanto passava, ele cantarolou no fundo da garganta, como se faz para chamar as prostitutas da Hivvel Street. Não o matei, entretanto. — Olá, meu filho — disse o Pai quando entrei em seu aposento.
— O senhor deve avisar ao seu segundo filho — respondi — que ainda sei como matar. — Tenho certeza de que você quis dizer olá. Cumprimente sua mãe.
Olhei para onde ele dirigiu os olhos e vi a Turd, que era como nós, filhos da primeira esposa de Papai, chamávamos menos-do-que-afetuosamente, a Número Dois, que passara para a posição de minha mãe quando ela morreu de um estranho e súbito ataque do coração. O Pai não pensou que tivesse sido estranho e súbito, mas eu pensei. O nome oficial da Turd era Ruva; ela era de Schmidt e fora parte do pacote de um acordo que incluiu uma aliança, dois fortes, e cerca de dois milhões de hectares. Ela deveria ser apenas uma concubina, mas o acaso e a paixão inexplicável do Pai haviam feito com que subisse no mundo. Nós éramos compelidos pelo costume, pela lei e pela ira do Pai a chamá-la de mãe.
— Olá, Mãe — disse eu, friamente. Ela apenas deu seu sorriso doce, gentil e assassino.
O Pai não perdeu tempo com gentileza ou simpatia. — Homarnoch me diz que você é um regenerativo radical.
— Mato qualquer um que tentar me colocar nas jaulas — falei. — Mesmo o senhor.
— Algum dia vou levar suas afirmações traiçoeiras a sério, rapaz, e fazer com que o estrangulem. Mas você pode remover o medo, pelo menos. Nunca colocaria um de meus próprios filhos nas jaulas, mesmo que ele seja um rad.
— Isso já foi feito antes — assinalei. — Estudei um pouco de história da
Família.
— Então você saberá o que está acontecendo agora. Entre, Dinte — disse o
Pai.
Eu me virei para ver meu irmãozinho chegando. Foi então que perdi o controle pela primeira vez.
— O senhor vai deixar esse imbecil de merda arruinar Mueller, seu desgraçado — gritei —, mesmo sabendo que eu sou o único que pode ter esperança de manter unido esse império frágil quando o senhor tiver a cortesia de morrer! Espero que o senhor viva o suficiente para ver tudo desmoronar! — Mais tarde eu recordaria amargamente essas palavras, mas como poderia ter sabido, na hora, que essa praga rogada de coração quente se tornaria verdade?
O Pai levantou-se e caminhou rápido ao redor de sua mesa até onde eu estava. Esperei um tapa, e me tensionei. Em vez disso, ele colocou as mãos em minha garganta, e senti um atordoante medo momentâneo de que estivesse finalmente cumprindo sua ameaça de me estrangular. Então ele rasgou minha túnica, pôs as mãos em meus seios e apertou-os juntos, com brutalidade. Ofeguei em pânico e me soltei.
— Agora você é fraco, Lanik! — gritou ele. — Você é mole e feminino, e nenhum homem de Mueller o seguiria a lugar nenhum!
— A não ser para a cama — acrescentou Dinte, lascivamente. O Pai virouse e deu-lhe um tapa no ouvido.
Quando ele se virou, cobri meu peito com os braços, como uma menina virgem, e girei, ficando face a face com a Turd. Ela ainda sorria, e vi seus olhos movendo-se de meu rosto para meu busto...
Não são meus seios! Gritei em silêncio. Não são meus, não são parte de mim, e senti um desejo opressivo de recuar, de sair completamente de meu corpo, deixar que ele ficasse lá enquanto eu ia a qualquer outro lugar, ainda um homem, ainda um herdeiro com a expectativa do poder, ainda um homem, ainda eu próprio. — Ponha uma capa — ordenou o Pai.
— Sim, meu Senhor Ensel — murmurei e, em vez de desaparecer de meu corpo, cobri-o, e senti o tecido grosseiro do manto roçar áspero contra os bicos macios dos seios. Fiquei ali, em pé, e olhei enquanto o Pai realizava o ritual de me declarar um bastardo e meu irmão Dinte o herdeiro. Meu irmão parecia alto, louro, forte e inteligente, se bem que eu sabia melhor do que ninguém que sua inteligência era meramente uma tendência a ser dissimulado; sua força não era igualada por qualquer agilidade ou competência. Quando a cerimônia terminou, Dinte sentou-se naturalmente na cadeira que durante tantos anos havia sido minha.
Fiquei em pé diante deles, então, e o Pai ordenou que eu jurasse aliança a meu irmão mais moço. — Preferiria morrer.
— É essa a opção — disse o Pai, e Dinte sorriu. Jurei aliança eterna a Dinte Mueller, herdeiro das possessões da Família
Mueller, o que incluía o Estado Mueller e as terras que meu pai conquistara: Cramer, Helper, Wizer e a ilha de Hunting-ton. Fiz o juramento porque Dinte, muito obviamente, queria que eu recusasse e morresse. Agora, comigo vivo, ele teria de se preocupar sempre; fiquei imaginando quantos guardas ele colocaria ao redor de sua cama essa noite.
Mas eu sabia que não tentaria matá-lo. Remover Dinte não me colocaria em seu lugar; apenas significaria uma disputa selvagem pela sucessão — ou pior: poderiam permitir que Ruva gerasse algum filho hediondo, tendo metade dos genes de meu pai, para tomar seu lugar. Independente de qualquer coisa, um rad como eu jamais poderia esperar governar em Mueller. Além disso, os rads raramente viviam até os trinta anos, e era ilegal para eles — não, para mim — gerar filhos com pessoas de nível. Senti uma aflição súbita quando percebi o que isso causaria á pobre Saranna. As mulheres tirariam seu filho, agora, e o destruiriam. Ela ver-se-ia a ex-concubina de um monstro, em vez da potencial primeira esposa do patriarca da Família. No dia em que as mulheres me escolheram para seu parceiro de reprodução ela havia posto o pé na estrada da glória; agora a estrada desmoronava sob seus pés. Não apenas o meu futuro estava destruído, o dela também.
— Estarei vendo os pensamentos de um estrangulador em seus olhos,
Lanik? — perguntou o Pai. Achava que eu ainda estava pensando em Dinte. — Jamais, Pai — assegurei-lhe.
— Veneno, então. Ou águas profundas. Creio que meu herdeiro não está seguro com você aqui em Mueller.Olhei-o com ferocidade:
— O pior inimigo de Dinte é ele próprio. Não precisa de minha ajuda para terminar em desastre.
— Também já li a história da Família, filho — disse o Pai. — Todo Mueller que foi sentimental demais para mandar seu fruto regenerativo radical às jaulas arrependeu-se logo em seguida.
— Então faça com que me matem com dignidade, Pai. — Foi o mais próximo a que eu chegaria de uma súplica. No entanto, em silêncio, implorei: não deixem que eles me alimentem e façam colheita de mim, ceifando membros e órgãos como a lã é tosquiada de uma ovelha, ou o leite tirado de uma vaca, ou a seda fiada de uma aranha.
— Sou afetuoso demais — disse o Pai. — Não quero matá-lo. Estou enviando-o numa embaixada, longa e distante, de modo que eu tenha uma esperança razoável de manter Dinte vivo. — Não tenho medo dele — falou Dinte, desdenhoso.
— Então você é um idiota — disse o Pai, cortante. — Com ou sem peitos,
Lanik é mais do que um desafio para você, garoto, e eu não vou lhe confiar o meu império até que me mostre ter pelo menos metade da inteligência de seu irmão.
Dinte ficou em silêncio, então, mas eu sabia que meu pai escrevera minha sentença de morte na mente dele. Deliberadamente? Eu esperava que não. Mas me ocorreu que o Pai poderia ter decidido que o melhor teste para a aptidão de Dinte para governar seria ver como ele cuidaria de meu assassinato. — Uma embaixada a que nação? — perguntei.
— Nkumai — respondeu ele.
— Um reino de selvagens que moram em árvores, longe no leste — falei, recordando minhas lições de geografia. — Por que mandamos emissários a animais?
— Não são animais — disse o Pai. — Ultimamente eles vêm usando espadas de aço nas batalhas. Conquistaram Drew dois anos atrás. Allison está caindo facilmente enquanto nós estamos aqui falando.
Senti meu ódio crescendo ao pensar em negros que vivem em árvores conquistando os orgulhosos escultores de pedras de Drew ou o religioso povo litorâneo de Allison. Não tínhamos acabado de conquistar Cramer, e ensinado a eles o verdadeiro lugar dos negros no mundo ao escravizá-los?
— Por que estamos enviando embaixadas em vez de exércitos? — perguntei, irritado.
— Será que eu sou idiota? — perguntou o Pai de volta. — Se quisesse um fanatismo insensato poderia convocar uma reunião de conselho e ouvir a nobreza.
Achei ao mesmo tempo encorajador e doloroso ele esperar que eu pensasse como o Mueller e não como algum soldado sem responsabilidade. De modo que respondi de verdade, agora:
— Se eles têm metal duro significa que encontraram algo que Fora do
Mundo pode comprar. Nós não sabemos quanto metal eles têm; não sabemos o que estão vendendo. Portanto, minha embaixada não é para fazer um tratado, mas para descobrir o que eles têm para vender e o que o Embaixador está pagando em troca. — Muito bem — disse o Pai. — Dinte, você deve ir.
— Se essas são questões do reino, eu não deveria ficar aqui para ouvir? — quis saber Dinte.
O Pai não respondeu. Dinte levantou-se e saiu. E então o Pai acenou para a
Turd, que também deixou a sala, balançando de forma insolente os quadris.
— Lanik — disse o Pai quando ficamos a sós. — Lanik, eu gostaria, por
Deus, que houvesse alguma coisa que eu pudesse fazer. — Seus olhos encheramse de lágrimas.
Percebi, com alguma surpresa, que o Pai se preocupara o suficiente para lamentar por mim. Mas não realmente por mim, pensei. Por seu precioso império, que Dinte possivelmente não conseguiria manter unido.
— Lanik, jamais nos três mil anos de Mueller houve uma mente como a sua, num corpo como o seu, um homem verdadeiramente talhado para liderar homens. E agora o corpo está arruinado. A mente ainda me servirá? Amará o homem ainda o seu pai? — Homem? Se o senhor me vir na rua irá querer me levar para a cama.
— Lanik! — ele gritou. — Não pode acreditar na minha tristeza? — Retirou sua adaga dourada, levantou-a no alto, e cravou-a através da mão esquerda, pregando-a à mesa. Quando arrancou a arma o sangue esguichou e pulsou da ferida, e ele esfregou a mão na testa, cobrindo o rosto de sangue. Então chorou, enquanto o sangramento parava e se formava um tecido de cicatrização sobre o ferimento. Sentei-me e olhei seu ritual de lamentação. Estávamos silenciosos, a não ser por sua respiração pesada, até que sua mão se curou Então ele me olhou com olhos pesados.
— Ainda que isso não houvesse acontecido eu o teria enviado a Nkumai. Por quarenta anos temos sido os únicos no mundo, os únicos, pelo que sabemos, a ter metais duros em quantidade suficiente para fazer diferença na guerra. Nkumai é agora nosso único rival, e não sabemos nada sobre aquela Família. Você precisa ir secretamente; se souberem que é de Mueller irão matá-lo. Mesmo se você vivesse, eles precisariam ter certeza de que não veria nada de importância.
Ri amargamente. — E agora tenho o disfarce perfeito. Ninguém acreditaria que Mueller mandaria uma mulher para fazer um trabalho de homem.
Pronto, eu disse, dei a mim mesmo o nome que me impediria de deixar de existir. Mas eu sabia que isso era quase impossível; Mueller não aceitaria melhor um rad como mulher do que como homem. Apenas fora de Mueller eu poderia ser visto como humano. O Pai poderia chamar aquilo de embaixada, ou mesmo de espionagem, mas ambos sabíamos que o verdadeiro nome era exílio.
Ele me sorriu de volta. Então seus olhos encheram-se novamente de lágrimas e imaginei se, afinal de contas, seu amor poderia existir por mim.
A entrevista estava terminada, e saí. Providenciei os arranjos, mandando os tratadores cuidarem de meus cavalos e calçarem-nos para a viagem; instruindo os copeiros a preparar os fardos para minha jornada; requisitando aos sábios que me fizessem um mapa. Quando o trabalho estava encaminhado, deixei o castelo propriamente dito e andei pelos corredores cobertos até os Laboratórios Genéticos.
As notícias haviam-se espalhado rapidamente — todos os oficiais de alta patente me evitavam, e apenas os estudantes estavam lá para abrir portas e levar-me ao lugar que eu queria ver.
As jaulas eram mantidas claramente iluminadas dia e noite, e eu olhei pela alta janela de observação os corpos infinitamente espalhados sobre os relvados macios. Aqui e ali a poeira subia dos espojadouros. Toda a carne estava nua, e eu olhava enquanto a comida do meio-dia era espalhada nos cochos. Alguns deles eram como quaisquer outros homens. Outros tinham pequenas partes crescidas aqui e ali em seus corpos, ou defeitos quase imperceptíveis à distância — três seios, ou dois narizes, ou artelhos ou dedos extras.
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