MArcuse capítulos 5, 6 e 7
(Parte 2 de 3)

verdade, que é a das verdadeiras Formas dareãliâãde - ãas Idéiãs. Assim, há~êõi.'itra ição em vez:de correspon encia en e pensâmento dialético e a realidade em questão; o verdadeiro julgamento não julga a realidade em seus próprios termos, mas em termos que visualizam sua subversão. E nessa subversão a realidade che a à sua ró ria verdade. .-
Na lógica clássica, o julgamento que constituía o cerne original do pensamento dialético foi formalizado na forma pro- posicional "S é p". Mas essa forma esconde, em vez de revelar a proposição dialética õãsicaque éít(frrcia~o-'caráter ile'gãhvõ-õa r~ãaeei!lÉ~i~êà: 'Julgadôs- iClui·'deSüãessêIiêiâTiãeiã::§S
| homens e as coisas existem diferentemente do que são' conse----~~-"'"' ~ | •.•.. |
2 Carl Prantl, Geschichte der Loglk im Abendlande, Darmstadt, 1957, vol. I, p. 135, 211. Para o argumento contra essa interpretação, ver p. 136, adiante,
Mas a potencialidade essencial não é como as muitas pos- ?:\. sibilidades contidas no universo da locução e ação em questão; ~." a potencialida,de essenc,ia,l é de ordem muito diferente. Sua rea- W, lização compreende a subversão da ord~m estabelecida, pois ( •.\\ pensar, de acordo com a verdade é um compromisso de existir '\ ,i\.
de acordo com a verdade. (Em Platão, são os seguintes os \ i(f . conceitos extremos que exemplificam essa subversão: morte \ \j .
como começo da vida do filósofo, e a violenta libertação daCaverna). As~, o caráter subversivo da verdade impõe ao i\..~ l ensamento urrrn.Jll! riômie lmpera iva. "i\-lõgl'êa e co ce rai~\-.em julgamentos que são, como proposições demonstrativas, im- " ~ ~ perat~:s: -:t~oP:edi;:~::~~~~~~~~::a~:;::e;e:idimensional é
~ ~ .\ ••..1 é o caso e negam a sua verdade. O Julgamento afirmativo con-l::s\ (§:Jém uma negação que desaparece na forma proposicional (S é p).
,~ é mais bem apropriada"; "o perfeitamente reàl é perfeitamente 10 conhecível"; "verum est id, quod est"; "o homem é livre"; "o
Estado é a realidade da Razão".
Para que essas proposições possam ser verdadeiras, o verbo f "é" declara um "deve", um desiderato. Julga condições nas<- j. quais virtude não é conhecimento, nas quais os homens não ~ ~ desempenham funções para as quais a sua natureza mais bem os
, ~ ~ credencia, nas quais não são livres etc. Ou, a forma categórica+.s. ~~ "'- S-p declara que (S) não é (S); (S) é definido como outro que1-Ç. <:;;::, não ele próprio. A verüicação da proposição compreende um)luA .íeJ j . ~ ~ processo tanto em fato como em pensamento: (S) deve tornar- ", dJ c'r?-
. lida do seguinte modo: o homem não é (de fato) livre, dotado de direitos inalienáveis etc., mas deve ser, porque é livre aos olhos de Deus, por natureza etc.! o pensamento dialético compreende a tensão crítica entre "é" e "deve" primeiramente como uma condição ontológica pertencente à própria estrutura do Ser. Contudo,_o~x:eeonhecimento desse estado de Ser .=._J;ua_teoria ---riiieiítà, llêSdé -ó - iriídtr;uma-pr&tiêa- conérgª-, Vistos à luz de uma verdade qôé ap~-m:terfâfsificada ou negada, os próprios fatos em questão parecem falsos e negativos.
Conseqüentemente, o pensamento é levado, pela situação de seus objetos, a medir a verdade destes em termos de outra-
| .m~dade_d.ê | existência: a. rea~~çã~_ da~era~ª~ f!~.P~. |
lógica, de outro universo da locução. E ~ta lógica ~jet,a outr-ª f! e os atos do homem. E, VIsto como este projeto compreende/I\ o-íiôãiém- cõmou~ "animal social", a polis, o movimento do pensamento tem um conteúdo político. Assim, a locução socráfica é uma locução política porquanto contradiz as instituições políticas estabelecidas. A busca da definição correta, do "conceito" de virtude, justiça, piedade e conhecimento se torna uma empresa subversiva, pois o conceito intenta uma nova polis .
O pensamento não tem poder algum para ocasionar tal modificação, a não ser que transcenda a si mesmo para a prática, e a própria dissociação da prática material, em que se origÍna a
Filosofia, dá ao pensamento filosófico sua qualidade abstrata e
ideológica. Em virtude dessa dissociação, o pensamento filosófico crítico é necessariamente transcendente e abstrato. A Filo-
sofia partilha essa abstração com todo o pensamento genuíno, pois não pensa realmente quem não faz abstração daquilo que
3 Mas por que a proposição não diz. udeve" se significa "deve"? Por que a negação desaparece na afirmação? Terão as origens metafísicas da lógica talvez determinado a forma proposicional? Tanto o pensamento pré-socrâtico como o socrâtíco antecipam a separação entre lógica e ética. Se somente o que é verdadeiro (o Logos; a Idéia) realmente é; então a realidade da experiência imediata participa
J,L1, o~, ou daquilo que não· é. -No entanto, este ".11J ov é, e para a experiência imediata (que é a única realidade para a maioria dos homens) ele é a única realidade que i. O dúplice significado de "6" expressaria, assim, a estrutura bidimensional de um mundo 56. 134
| /ocQ,rrêiiCiãlíiStõnCã num c-ofitfilüô "1iistorlco.· Desenrõl;-se e;;;( --- .:;------.- ~ .---~ | --~ |
I dasquaís se .inicia: ç J!.nive.rs9_soci-ªLe_sJa~Je_çid_o. Até mesD1g
I quando a abstração crítica chega à negação do universo da ! locução estabelecido, as bases sobrevivem na negação (subver- \ são) e limitam as possibilidades do novo ponto de vista. .-
Nas origens clássicas do pensamento filosóficu, os conceitO..8transcendentes permanec~prometidos com a sep:;t':'
-ªSão prevalecente entre trabalho intelectual e manual - co a sociedade escravista estabelecida, O Estado "ideal" de Platão cõiiSerVã-erêfõ'rma a escravização, embora organizando-a de acordo com uma verdade eterna. E em Aristóteles, o rei-filósofo (no qual a Filosofia e a prática ainda estavam combinadas) J _ cede à supremacia do bios theoreticos, que dificilmente se pode invocar uma função e um conteúdo subversivos. Os que suportaram o impacto da falsa realidade e que, portanto, pareciam os mais necessitados de alcançar a sua subversão, não constituíram preocupação da Filosofia. Ela se abstraiu e continuou a se abstrair deles. Nesse sentido, o "idealismo" era adequado ao pensamento filosófico, porquanto a noção de supremacia de pensamento (consciência) também pronuncia a impotência do pensamento ~ num mundo ernpírico que a Filosofia transcende e corrige - em j pensamento. A racionalidade, em nome do que a Filosofia fez I os ,seus j~g~~.':1tos, alcançou ace!.~i':Pllre~a'~ã'Fstfata E-ge;~_., que a tornou imune ao mundo em que se tinha de viver. Com 1 a ~x~çãõd<?s i''Fér~Ücos'' 'iriateriallS'fas, õpéii~ª,mento lfIQsbfISp , mento filosófico que leva à purificação idealista - um intento crítico que visa ao mundo empírico como um todo e não meramente a certas modalidades de pensamento e comportamento dentro dele. Definindo os seus conceitos em termos de um tipJL,..9L~'2t.2 e _~xi~s!~ essencialmeriíTOífêrente, a trítica filosófica se acha bloqueadapelã-realidacre-da-qua-l-s'e
, c()fitingência empírica; As duas dimensões do pensaménto =- ~a da verdade essencial e a da verdade aparente - não mais interferem uma na outra, e sua relação dialética concreta se torna uma relação abstrata epistemológica ou ontológica. Os julgamentos da realidade em questão são substituídos por propo- t I siçoes definindo as formas gerais do pensamento, objetos do pensamento e relações entre pensamento e seus objetos. O sujeito do pensamento se torna a forma pura e universal. de subjetividade, da qual são removidos todos os particulares. . Para tal sujeito formal, a relação entre óv e }J.~ óv, modificação e permanência, potencialidade e realidade, verdade e falsidade, não mais é preocupação essencial;' é, antes, uma questão de Filosofia pura. :f: impressionante o contraste entre a lógica dialética de Platão e a lógica formal de Aristóteles.
| qll~!:...maneira,o pe!l§aJIlento-ê Ba_16.glcaJQW1-ªl, | Q[gimizao de |
No Organonaristotélico, o termo silogístico (horas) é "tão destituído de significado substancial que uma letra do alfabeto lhe é um substituto plenamente equivalente". É, portanto, inteiramente diferente do termo "metaíísico" (também horas) que designa o resultado da definição essencial, a resposta à pergunta: "'T~((7TtV?"S Kapp afirma, contrariando Prantl, que as "duas significações diferentes são inteiramente independentes entre si e jamais foram confundidas pelo próprio Aristóteles". De !la!- um modolíiiillõ difereqte çj.agY§ledo diálogo c!e~_~ essa ógica formal, o pensamento é indiferente aos seus objetos. Quer sejam elêsrnentáiSõü físicos, quer pertençãffià sociedade ou à natureza, tornam-se sujeitos às mesmas leis gerais da organização, cálculo e conclusão - mas o fazem como
Die Allgemeinheit der Gedanken, wie die diskursive Logik sie entwie-" ~ ckelt, erhebt sich ou! dem Fundament der Herrschajt in der Wirklichkeít.ô - .
A Metaiisica de Aristóteles declara a conexão entre conceito e controle: o conhecimento das "causas primeiras" é - como
4 Para evitar mal-entendido: não creio que a Frage nach dem Se in e perguntas similares sejam ou devam ser uma preocupação existencial. O que foi significativo nas origens do pensamento filosófico bem se poderá ter tornado destituído de significado no seu fim, e a perda de significado. pode não ser decorrente da incapacidade de pensar. A história da humanidade deu respostas definidas à "questão de Ser" e o fez em termos bastante concretos que provaram Sua eficácia. O universo tecnológicouma delas. Para maior discussão do assunto, ver capítulo 6, adiante. . S Ernst Kapp, Greek Foundations o} Traditional Logtc (Nova York Colurnbla University Press, 1942). p. 29. ' 6 "O conceito geral que a lógica discurslva desenvolveu tem seus fundamentos na realidade da dominação". M. Horkheimer T. W. Adorno, Dlalektik de, Aufkl/trung (Amesterdã, 1947), p. 25.
iE~ I'~ o conhecimento do universal - o conhecimento mais eficiente e certo, pois dispor sobre as causas é dispor sobre seus efeitos. Em virtude do conceito universal, o pensamento atinge domínio sobre os casos particulares. Contudo, o universo mais formalizado da lógica ainda se refere à estrutura mais geral do mundo em questão, experimentado; a forma pura ainda é a do conteúdo que ele formaliza. A própria idéia de lógica formal é uma ocorrência histórica no desenvolvimento dos instrumentos mentais e ISICOS para o centro e e ca cu a a e universais. essa empresa, o ornem eveõe cnar a arrnoma eonca a discórdia geral, para expurgar as contradições do pensamento, para substancializar unidades identificáveis e fungíveis no complexo processo da sociedade e da natureza. .
~ /""' Sob o domínio da lógica formal, a noção do conflito éntre / essência e aRarência é IS ensave, se não mesmo sem sentido; (, conteúdo material é neutraliz~; o princípio da identidade é , se ara o o rIncí 10 a contradição (as contradições sao culpa
"do pensamento incorreto); as causas finais são removidas da ordem lógica. Bem definidos em seu alcance e função, os .conceitos se tornam instrumentos de predlçao e controle. - A lógica ormal é, assim, o primeiro passo na longa VIagem para o pensamento científico - apenas o primeiro passo, porque ainda é necessário um grau muito mais elevado de abstração e matematização para ajustar o modo de pensar à racionalidade tecnológica.
/ Os métodos do procedimento lógico são muito diferentes. .a lógica antiga e moderna, mas por trás de toda diferença está à construçao de urna urdem de' pensamento Umvers 1 me a ,neu ra com çaD-aQ..C..Qll1.e. ria}. Muito antes e o ornem tecnológico e a natureza tecnológica terem surgido· como objetos de controle e cálculo racionais, a mente foi tornada suscetível de generalização abstrata. Termos que podiam ser organizados num .sistema lógico coerente, livres de contradição ou com contradição controlável, foram separados dos que não podiam ser assim tratados. Foi feita distinção entre a dimensão universal, calculável e "objetiva" do pensamento e a particular, incalculável e subjetiva; esta entrou na ciência somente por meio de uma série de reduções.
A lógica formal prenuncia a redução de qualidades secundárias a primárias, nas quais as primeiras se tornam propriedades da Física, mensuráveis e controláveis. Os elementos do pensamento podem ser então cientificamente organizados - como
De fato, nem os escolásticos nem o racionalismo e o empirismo dos primórdios do período moderno tinham razão alguma para objetar ao modo de pensar que havia canonizado suas formas gerais na "lógica aristotélica. Pelo menos o seu intento estava em concordância com a validez e a exatidão científicas, e o resto não interferiu na elaboração conceptual da nova experiência e nos novos fatos.
A lógica matemática e simbólica contemporânea é, sem dúvida, assaz diferente de sua predecessora clássica, mas ambas compartilham da oposição radical à lógica dialética. Em termos dessa oposição, a 'antiga e a nova lógicas formais expressam o mesmo modo de pensar. Este é purgado do "negativo" que tanto se avultou nas origens do pensamento lógico e filosófico - a experiência do poder de negação; decepcionante e falsificador da realidade estabeleci da. E, com a eliminação dessa experiência, 9 esforço conceptual para manter a tensão entre o "é" e o "deve" e para subverter o universo da locução estabelecido, em .nome de sua própria verdade, é igualmente eliminado de todo pensamento que deva ser objetivo, exato e científico. Pois a subversão científica da experiência imediata que estabelece a verdade da ciência em contraposição à da experiência imediata não desenvolve os conceitos que trazem em si o protesto e a recusa. A nova verdade científica que. eles opõem à verdade f") aceita não~ em SI o J gamen o que con ena a rea lêlãâeesfirb--eleciaa. '. ~ .--- - - _
-Em--cOntraste, o pensamento dialético é e continua sendo não-científico no quanto é tal julgamento, e o julgamento é imposto ao pensamento dialético pela natureza de seu objeto - por sua objetividade. Este objeto é a realidade em sua verdadeira concreção; a lógica dialética evita toda abstração que deixa todo conteúdo concreto sozinho e para trás, incompreendido. Hegel ca ta na Filosofia crítica d s ép...Q.cao "medo do objeto' Angst vot.âem. Obiekt) e exige_que um pensa~nto ~ amente científico su ere essa a.titudé de medo e compreenda o "lógico e o racional-puro" as ogtsc e, as "êTil-Vet- n71nfhge na própria concreção --de seus~objetos.8· .A lógicà dwetic'a -nãO"..eõ3e ser foiinal,':por.q.ue_Lde.terminada_pelo r-ªl, q~éçonÇféto. E,essa concreçãos.longe.de militar contra um
| - | / |
lógica porque se move sob leis gerais que contribuem para a os elementos humanos podem ser organizados na realidade s:oc-~A racionalidade pré-tecnolôgica e tecnológica, a ontologia e a tecnologia são ligadas pelos elementos do pensamento que ajustam as regras do pensamento às regras do controle e da dominação. As formas de dominação pré-tecnológicas e tecno- ' lógicas são fundamentalmente diferentes - tão diferentes quanto escravidão e trabalho assalariado livre, paganismo e cristianismo,I Cidade-Estado e nação, matança da população de uma cidade' capturada e campos de concentração nazistas. Contudo, história ainda é a história da dominação, e a lógcia do pensamento continua a lógica da dominação.
A lógica formal pretendeu dar validez universal às leis do pensamento. Na' verdade, sem universalidade o pensamento seria uma questão privada, sem' cometimento, incapaz de entender o menor setor da existência. O pensamento é sempre mais e outra coisa que ponderação individual; se começo a pensar em pessoas individualmente numa situação específica, encontro-as num contexto supra-individual do qual elas participam, e penso em
(Parte 2 de 3)