visita domiciliar a idosos: caracteristicas e fatores associados

visita domiciliar a idosos: caracteristicas e fatores associados

(Parte 1 de 2)

Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro

w.ufsj.edu.br/recom

Artigo Original

Gerson Souza Santos1 , Isabel Cristina Kowal Olm Cunha2

Objetivo: analisar os fatores associados à visita domiciliar na população idosa e suas características segundo os preceitos da Estratégia Saúde da Família. Método: estudo transversal de base populacional com amostra representativa de 340 indivíduos com 60 anos ou mais residentes na zona urbana de São Paulo, SP. Resultados: a única variável que apresentou efeito estatisticamente significativo na visita domiciliar foi “passar em consulta médica na UBS” (p-valor = 0,02). O odds ratio estimado para essa variável foi de 2,369, com intervalo de 95% de confiança. Conclusão: os resultados do presente estudo mostraram que os idosos avaliados eram mulheres na faixa etária de 60 a 69 anos, com baixa escolaridade, renda familiar insuficiente, vivendo sem cônjuge, dependentes do Sistema único de Saúde, havendo presença de doenças crônicas com destaque para hipertensão arterial e incapacidade para desempenho de atividades instrumentais da vida diária. Descritores: Atenção primária à saúde; Visita domiciliar; Envelhecimento da população.

Objective: to analyze the factors associated with home visits in the elderly population and their characteristics, in accordance with the principles of the Family Health Strategy. Method: A cross-sectional population-based study with a representative sample of 340 individuals aged 60 years or older residing in the urban area of São Paulo, SP. Results: The only variable that presented a statistically significant effect on the home visit was a medical visit at the UBS (p-value = 0.02). The estimated odds ratio for this variable was 2,369, with a 95% confidence interval. Conclusion: the results of the present study showed that the evaluated elderly were the women in the age group of 60 to 69 years, low schooling, insufficient family income, living without spouse, dependents of the Single Health System, with the presence of chronic diseases with a prominence for hypertension arterial, inability to perform instrumental activities of daily living. Descriptors: Primary health care, Home visit, population aging.

Objetivo: analizar los factores asociados a la visita domiciliaria en la población anciana y sus características, según los preceptos de la Estrategia Salud de la Familia. Método: Estudio transversal de base poblacional con muestra representativa de 340 individuos con 60 años o más residentes en la zona urbana de São Paulo, SP. Resultados: La única variable que presentó efecto estadísticamente significativo en la visita domiciliaria fue pasar en consulta médica en la UBS (p-valor = 0,02). El odds ratio estimado para esta variable fue de 2,369, con un intervalo de confianza del 95%. Conclusión: los resultados del presente estudio mostraron que los ancianos evaluados eran las mujeres en el grupo de edad entre 60 y 69 años, baja escolaridad, ingreso familiar insuficiente, viviendo sin cónyuge, dependientes del Sistema Único de Salud, presencia de enfermedades crónicas con destaque para hipertensión, incapacidad para el desempeño de actividades instrumentales de la vida diaria. Descriptores: Atención primaria a la salud, Visita domiciliar, Envejecimiento de la población.

Graduado em Enfermagem. Doutor em Ciências da Saúde pela Universidade Federal de São Paulo.Graduada em Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de São Paulo.

Como citar este artigo: Santos GS, Cunha ICKO. Visita domiciliar a idosos: características e fatores associados. Revista de Enfermagem do Centro-Oeste Mineiro. 2017;7:e1271. https://doi.org/10.19175/recom.v7i0.1271

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O processo de envelhecimento humano tem sido tema de discussão em quase todos os países do mundo e, no Brasil, toma proporções alarmantes, visto que a estimativa de vida da população tem aumentado significativamente. Isso se deve à melhoria das condições de vida, de saneamento básico, de trabalho, de educação, bem como das condições tecnológicas que possibilitaram que se vivesse mais e com melhor qualidade(1).

As pessoas idosas apresentam características especiais quanto à natureza de seus agravos, ao modo de adoecimento e ao uso dos serviços de saúde, o que exige um amplo redimensionamento das práticas de saúde para fazer em face das novas demandas impostas pela crescente população de longevos. Torna-se prioridade a implementação de serviços e programas inovadores, curto-efetivos, e que incorporem novos paradigmas da atenção à saúde com foco na capacidade funcional muito mais do que na doença(2).

Embora envelhecer não signifique diretamente adoecer e estar dependente, sem dúvida indica uma maior fragilidade e vulnerabilidade que aumenta conforme a idade cronológica dos indivíduos é mais avançada, aliada ao contexto social e ambiental em que o idoso se insere. Na maior parte dos casos, a responsabilidade de cuidados ao idoso fragilizado é assumida pela família, que nem sempre está preparada para tal condição. Esse cuidado se concretiza nas ações cotidianas da vida diária e envolve apoio funcional, social, econômico, material e afetivo(3).

O desafio do envelhecimento perante a assistência à saúde ocorre em função da estreita relação entre utilização de serviços de saúde e idade. Por isso, os gastos com saúde crescem em uma população que envelhece. Para estimar o impacto no Brasil, utilizam-se os cálculos do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) que medem regularmente as despesas anuais e sua variação para um conjunto de 1,1 milhão de beneficiários de planos individuais de saúde, distribuídos nas dez faixas etárias da regulação(4).

Uma das estratégias adotada pelos serviços para desonerar o Estado e modificar o modo tradicional de produção em saúde é a inclusão da visita domiciliar no rol de modalidades de atendimento, a qual se caracteriza pela visita da equipe de saúde ao domicílio do usuário com o objetivo de avaliar suas necessidades e as de sua família, considerando a disponibilidade do serviço e constando de plano assistencial e orientações. A visita domiciliar pressupõe uma ação complexa, exigindo técnica e periodicidade da equipe de saúde, de acordo com as necessidades evidenciadas(5).

Essa modalidade tem resultado em maior conforto e segurança ao idoso e sua família, bem como proporcionando cuidado humanizado e qualidade de vida, se comparada ao atendimento institucional. Mas a concreção dessa perspectiva requer um diagnóstico situacional favorecedor de informações quantitativas e qualitativas que contribuam efetivamente para o conhecimento da realidade de saúde da população idosa e da sua dinâmica domiciliar e familiar. As orientações propiciadas por essas informações permitem a tomada de decisões, de forma que o planejamento do serviço de saúde esteja organizado pelo princípio da equidade, priorizando aqueles que mais necessitem de cuidados(6).

No Brasil, nos anos noventa, a concepção de Atenção Primária à Saúde (APS) também foi renovada. Com a regulamentação do Sistema Único de Saúde baseada na universalidade, equidade, integralidade e nas diretrizes organizacionais de descentralização e participação social, para diferenciar-se da concepção seletiva de APS, passou-se a usar o termo atenção básica em saúde, definida como ações individuais e coletivas situadas no primeiro nível, voltadas à promoção da saúde, prevenção de agravos, tratamento e reabilitação(7).

A Estratégia Saúde da Família (ESF) compreende um modelo de atenção à saúde no contexto da Atenção Básica em Saúde, que se estrutura na perspectiva do trabalho de equipes multiprofissionais em um território adstrito desenvolvendo ações a partir do conhecimento da realidade local e das necessidades da população deste território(7).

O objetivo do presente estudo foi analisar os fatores associados à visita domiciliar na população idosa e suas características, segundo os preceitos da Estratégia Saúde da Família, a qual se constitui uma estratégia de reorientação do modelo assistencial.

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Estudo transversal de base populacional, realizado de janeiro a março de 2012. A amostra foi selecionada por conveniência e constituída por 340 indivíduos com 60 anos ou mais, residentes na área de abrangência da Unidade Básica de Saúde Santa Catarina, localizada município de São Paulo.

Foram utilizados questionários estruturados com questões pré-codificadas, após realização de um estudo-piloto. Em caso de incapacidade parcial, as respostas foram dadas por um familiar responsável ou pelo cuidador principal.

A variável dependente ‘visita domiciliar’ foi definida como uma atividade externa à unidade de saúde caracterizada por utilizar tecnologia leve, permitindo o cuidado à saúde de forma mais humana, acolhedora, estabelecendo laços de confiança entre os profissionais e os usuários, a família e a comunidade. A questão aplicada foi: ‘o(a) senhor(a) costuma receber visita da equipe de saúde em sua casa?’ (sim/não).

As variáveis demográficas e socioeconômicas estudadas foram: sexo, idade (60 a 69 anos; 70 a 79 anos; 80 anos ou mais); situação conjugal (casado; solteiro; divorciado; ou viúvo); cor da pele (branca; negra; parda); sabe ler/escrever (sim; não); renda per capita (em salários mínimos: até 1; de 2 a 3; de 4 a 6); plano privado de saúde (sim; não); em caso de doença procura (farmácia; hospital; unidade de saúde); passa em consulta médica na UBS (sim; não); hospitalização no último ano (sim; não). Entre os indicadores de morbidade, foram usadas as variáveis: diagnóstico médico de hipertensão (sim; não); diabetes (sim; não); dislipidemia (sim; não); lombalgia (sim; não); depressão (sim; não); insônia (sim; não). Para estabelecer incapacidade funcional foram utilizadas escalas de avaliação funcional do idoso(8-9).

Para responder ao objetivo do estudo foi utilizado um modelo de Regressão Logística em que a variável dependente foi a visita domiciliar (variável binária, do tipo ‘sim’ ou ‘não’) e as variáveis independentes foram as 18 informações acima citadas. Todos os testes de hipóteses desenvolvidos consideraram uma significância de 5%, isto é, a hipótese nula foi rejeitada quando p-valor foi menor ou igual a 0,05. A técnica de regressão logística é utilizada quando há o interesse em modelar uma variável dependente binária em função de um conjunto de variáveis independentes. O modelo geral, para o caso de apenas uma variável independente, pode ser escrito da seguinte forma:

Sendo )(x a probabilidade de ocorrência do evento de interesse e, portanto, recebe valores entre 0 e 1, X é a variável independente a partir da qual buscamos prever a ocorrência do evento de interesse, 0 é uma constante que representa a média geral, denominada intercepto, e 1 é uma constante que, de forma exponencial, influencia a probabilidade de sucesso de acordo com o valor da variável independente X.

Trata-se de parte dos resultados extraídos da tese de Doutorado intitulada: Atendimento ao idoso na Atenção Básica e as competências do enfermeiro, defendida em 28/08/2014.

O projeto foi aprovado pelo comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Parecer 2012/1) e da Secretaria Municipal de Saúde do município de São Paulo (Parecer 378/1). Os princípios éticos foram assegurados, recorrendo-se ao Termo de Consentimento Livre e Esclarecido.

A maioria dos idosos era do sexo feminino, 211 (62%). A idade variou de 60 a 85 anos, média de 69 anos com desvio padrão de 7,25. Houve predominância para cor da pele parda 143 (42%). Menos da metade era de viúvos, 115 (34%). A baixa escolaridade foi frequente e a amostra foi constituída predominantemente por ensino fundamental incompleto. Maior proporção de idosos possuía renda familiar de um a três salários mínimos, 264 (78%). A maioria não possuía plano privado de saúde, 280 (82%). Em caso de doença, 154 (46%) procuravam os hospitais de referência. Hipertensão arterial foi a principal morbidade referida, seguida de diabetes. A maioria passava em consulta médica na Unidade Básica de Saúde, 219 (64%). Incapacidade para desenvolver atividades instrumentais da vida diária esteve presente em 295 (87%). Menos da metade 90 (27%) apresentava incapacidade para realizar atividades básicas da vida diária (Tabela 1).

A única variável que apresentou efeito estatisticamente significativo na visita domiciliar foi a variável ‘passar em consulta médica na UBS’ (p-valor = 0,02). O odds ratio estimado para essa variável foi de 2,369, com intervalo de 95% de confiança entre 1,364 e 4,115. Dessa forma,

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4,115. Nenhuma outra variável apresentou efeito estatisticamente significativo na visita domiciliar, uma vez que p-valor foi maior que 0,05 em todos os demais casos (Tabela 2).

Tabela 1 - Características socioeconômicas e demográficas de pessoas com 60 anos ou mais, cadastradas em uma Unidade Básica de Saúde - São Paulo, São Paulo (2013).

Variáveis Sexo Feminino Masculino

Idade (anos) 60 a 69 70 a 79 80 ou mais

Cor da pele Parda Branca Negra

Situação conjugal Viúvo Casado Solteiro Divorciado

Sabe ler e escrever Sim Não 177 163 52,0 48,0

Renda per capita (salários mínimos) 1 a 3 4 a 6 264 76 78,0 2,0

Plano privado de saúde Não Sim 280 60 82,0 18,0

Morbidades Hipertensão arterial Sim Não Diabetes Sim Não Dislipidemia Sim Não Lombalgia Sim Não Depressão Sim Não Insônia Sim Não

Consulta médica Sim Não 219 121 64,0 36,0

Hospitalização Não Sim 220 120 65,0 35,0

Incapacidade AIVD Sim Não 295 45 87,0 13,0

Incapacidade ABVD Não Sim 249 90 73,0 27,0

Visita domiciliar Sim Não 231 109 68,0 32,0

Fonte: pesquisa realizada pelos autores com idosos no período de janeiro a março de 2013.

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Tabela 2 - Regressão logística para visita domiciliar, seguida do cálculo de odds ratio e o respectivo intervalo de confiança - São Paulo, São Paulo (2013).

Variável GL Wald p-value Odds

Ratio

IC 95% Odds Ratio (inferior)

IC 95% Odds Ratio (superior)

Incapacidade ABVD 1 2.5837 0.1080 - - Fonte: pesquisa realizada pelos autores com idoso no período de janeiro a março de 2013.

Observou-se neste estudo alto percentual de mulheres idosas classificadas como idosas jovens, na faixa etária de 60 a 69 anos. Estudos recentes apontam que as mulheres constituem a maioria da população idosa em todas as regiões do mundo e as estimativas são de que as mulheres vivam, em média, de cinco a sete anos a mais que os homens(10).

A escolaridade dos idosos deste estudo foi baixa, constituindo-se uma condição social desfavorável para eles já que tem influência no acesso aos serviços de saúde, em oportunidades de participação social e na compreensão de seu tratamento e do seu autocuidado, entre outros. A situação de analfabetismo pode, por si só, ser considerada um fator de limitação para a sobrevivência e para a qualidade de vida. As diferenças no nível de alfabetização, entre os sexos, refletem a organização social do começo do século que bloqueou o acesso à escola aos mais pobres e às mulheres. O amplo acesso aos meios de alfabetização, além de uma questão de cidadania, poderia propiciar maior receptividade, por parte destes idosos, aos programas de educação em saúde e também alguma proteção contra as disfunções cognitivas que os afetam com frequência(1-12).

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