Antropologia do Brasil - mito - historia - etnicidade - Manuela Carneiro da Cunha

Antropologia do Brasil - mito - historia - etnicidade - Manuela Carneiro da Cunha

(Parte 1 de 2)

Db"" publiclldll em co-edi~iio com 8

EDfTORA DA.UNIVERSIDAI)E DE sAc PAULO

Reltor: JDH Goidemberg .Vlc.Reltor: Roberto Le" Lobo 8 Sliva Fllho

EDITORA DA UNIVERSIDADE. DE sAo PAULO I mito, hist6ria, etnicldade p'raldente: JOB6 Carneiro

Comissao Editori./:

Prealdwite: Jos6 Carneiro. Membroa: Alfredo Bosi, Antonio Brito dB Cunha, Jos6 E. Mindlin e O.waldo Paulo Forattlnl. .

Dados de Ca••loppe n. ~ublloaCl.e(CIP) '••••.••olon.' (Clmar •• r•• llelr. do Line. &p, ar•• I)

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Cunha, Hauuala caruiro cla. .

C979. Antropo10s1a do Bra.il I mito, bi.toria. ataicidada I Manuala Ca1:1l8iroclaCunha. - sio Paulo I Brasilia_a ~itor. da vai_nida. da sio Paulo, 1986.

aib1io.rafia.

1. AIluop01oala 2. Aatropo1oli' - Bra.U 3•.ADtropo1ol1a aoclal - Br•• l 4. Soeiad~.a prledtlva. I.Tltu10.

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India•• para aat6lago alti'am ••loo:

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S2 MANUELA CARNEIRO DA CUNHA

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t I

De amigos lormais e.pessoarde companheiros, espelhos eidentidades*

A sessao de hoje leva 0 titulo "A Construcao da Pess~· nas Sociedadeslndigenas do Brasil". Titulo que se quia abrangente, mas que,pode causar certa perplexidade, pols, a menos de tomar os tennos em uma ace~lo lata. ele coloca, me pare- ce, eom0a!~o-r!lell!~~tend.a..dLU~a categoria ~

='0' n IOClgdcis hilS. .' .se, por certo s :uma soc~ clade nlo se pode pensar sem seu acervo de papeis.'de peT.S1 nae, se ela dispOe tambem de urn ideirio sobre oqueep~q .' aindividualidade de um homem, nlo. e claro queela tenha necessariamente uma caleaoria ou simplesmente uma.n~1o de pessoa. Esta, como esereveu hi .uns tantos anos Ipase, Meyerson, Hnio e urn estado simples e ,uno, um Jato primiti- vo, um dadoimediato: a pessoa e mediata, construida e com-

• Bxtraldo do Bokltm do MUSftI NtlCiontli, n.l. n!' 32. 1979. Apreaentado oripnalmente no. Simp61lo "A Pesquila BtnoI6aica no Brasil;'. realizado DO MIlIeU

Nadonal e na Academia BruUelra de Ciencl&, Rio de Janeiro, de 21 a 23.6.1978.

54 MANUELA CARNEIRO DA CUNHA plexa. Nlo ~ uma categorla imutavel, co-eterna ao homem, ~ uma fun~Ao que se elabora diversamente atraves da hist6rla e que continua a se elaborardiante de n6s" ,(Meyerson, 1973:

8). Catcgoria hist6rica e cultural, portanto. Coisas que Mauss ja havia, aliAs, mostrado, quando, retra~ava a emergencia da pessoa, ligando-a a condi~cs de tempo, e de espaco, e inse-

'rmdo-e em modos de organiza~lo, de a~lo e .de pensamento. ) Contrariamente, porem, ao que se poderia. esperar ap6s

este pr610go (que me parece no entanto necessario), creio , quc, sim, se pode falar em pessoa entre os Krah6, uma vez \.r que me parece existir entre eles a no~lo de um principio de i'0: autonomia, de dinAmica propria. Mas esse principio pcssoal {,' deve ser, creio, -procurado e nlo post.ulado. Escrevi, ha uns «~ anos ja, umas coisas,sobre isso,liaandoa nocao de pessoa As ": institui~Oes de amizade formal e de companbelrismo. Como '<:

Dlo tive, no entanto, ocasilo de discUtir 0 que havia entl~C'" escrito, pensei aproveitat este foro para um debat~;Nopro- \ cesso de condensar drasticamente em oito as vinte P~8S <;: originais, deu-se porem uma revisAo e uma c1arifica~o do ~ que cntlo sustentava, e quem vier a comparar os tlois texto percebera nitidas difereneas. .

Naquele trabalho, tentei fundamentar alguns pontes que, por falta de tempo,apenas resumirei aqui. Afirmava mais ou menos 0 seguinte: .

i>'."~:.

1) a amizade formal entre os Krah6 devia ser entendida como consistindo essencialmente em uma r'ela~o deevi~ e solidariedade entre duas pessoas, conjugada com tela~es ' prazenteiras assim~triCas de cada qual com os pais deseus parceiros; insistia, cntlo, que essas dt1asrele.~cs eram pensadas como um todote nao Isoladamente, e como tal deviam ser analisadas em conjunto; e implieavil, alem dlsso, que a liga~Aoda institui~o deamizade formalcom Osnomee pr6prios era secundiria, ou seja •.eta a mOdalidade krah6 do tema je mals amplo da amizade formal;

2) analisando os contextos em que intervem os ~os formais, distinguia dois tipos de situa~Oes: 0 primelro tipo diz respeito a danos fisicos, como queimaduras, picadasde marimbondos ou de formigOes, em que 0 aniigo fonnal 6 chamado para softer na pele preeisamente a mtsma agres- ,..slo Hsica de que foi vitima seu parcelro; enquantc 0 outro

.n I

ANTROPOLOOIADO BRASIL S5 tipo se refere aos ritos de inicia~o e fim de resguardo do assassino, quando os amigos· formais permitem a. reinte- gr~Ao de um Krah6 segregado do convivio social e; eventualmente, sua instaur~o em uma nova condieao social.

QUtf~a aqui retomar, a parti,r dos pontos levantados, a

Wscussllo dessas praticas e institui~Oes. Situemo-nos de saida al6m das vadas explica~Oes funcionais: amizade formal e rel~ prazeiteiras, modos de seconjugare conjurar, como queria Radcliffe-Brown (1952 (1940): 103). umadiverg8ncia de interesse inscrita na estrutura social; ou pela alian~a que instaura entre grupos separados, provedora de seguran~a no

Mundo inccrto de pequenos grupos antaaOnicos como os dos ' Tonga da ZAmbia, e permitindo sancees morais - riden- do castigat mores - quenllo poderiam ser exercidas por membros do ciA, demasiado pr6ximos (na versAo de Colson, 1962: 82).

Teoria dessas rela~Oes de' arilizade ou, como objetou hi muitos anos Mary Douglas, mera classifica~o de modes de manter a amizade entre grupos ou pessoas eslruturalmente separadas? (Tew, 1951: 122). ,

Discussllo pouco proflcuar os beneflcios sociais, para nlo falar em fuil~Oes. da amizade formal e das chamadas joking-relationships slo suficientemente 6bvios ..Mas 'as so- ciedades j@, mais talvez do' que quaisquer outras, por suas pl~t6ncasinstitui~.Oes rituais, suscitam outros niveis de expJi~ ca~o que nlo os da razl.o funcional. Ou seja, a peraunta que se coloca 6: dado que as mesrll.s fun~s poderiam ser preenchidas pot uma variedade de formas, praticas e institui~. a que outras determin~s respoade a escolha dessas formas. especificas?Ou, 'outra maneira de colocar a mesmaquestao,

Be ,6verdade, como nAocusta conceder 0 que cssas:,instituicOes ' de amizade desempenham os pap6is que foram enumerados aclma, quais sao as atribulrlJes semlJn/icasque asqua/~am para tanto? _

Tomemos 0 caso krah6. Poderfamos comecar pelo mito de cria~lo, mas comecemos por outra ponta, pela institui~. o amigo formal ~, por defini~p e por excelencia, um estranho, um nlo-parente, ikhuanare. A relacao imperante ~ de rcspeito extremo e de evitacac. Nos casos que podem aeon- . tecer - ja que aamizade formal e Iigada ao nome - de pa-

" MANUELA CARNEIRO DA CUNHA rentes serem tambem amiaos formais, SO se considera esta rela~o mantida se semantiver a etiqueta social correspondente. Na verdade, como ja tive ocasiao de salientar, a simples inobservAncia, por involuntarfa que seia, da distincia requerida rompe de modo abrupto a relacao, sem que esta : possa jamais ser reparada. Assim, uma mulher mudou-se de uma aldeia para outra e iniciou uma rela~lo descontralda com uma mulher da nova aldeia. Veio depois a saber que os nomes de ambas. eram liaados por amizade formal, mas nlo foi possivel reatar a rel~ de distincia que havia sido infrina1da. Ji se configura, me pareee, que a distincia nlo e apenas urn atributo do amigo formal mas, de certa maneira, sua pro- pria essencia. -Retoniaremos isto mais adiante.

Com os parentes do amigo formal, graceja-se. E estes 010 se podem ,formalizlU;com as injurias e xingamentos de que silo alvo. Agressao simb6lica fundamentada novamente na condi~ao de estranho. E isso em mais de um sentido: na medida, primeiro, emque um estranho pode, como afirmou Gluckman (196S: 9-103). ridicularizar sem ferir la~os sociais e reaflrmar, assim, valarcs;pode operar comoarbnro em um .

jogo do,qual ele nAo e parte. E Gluckman chama a aten~o para 0 status de estranaeiro, que costumava ser 0 do bobo da corte. que exercia controlemoral sobre a autorldade do rei. Deixa de ver, porem, que nao eram apenas alheios, nesse sen-

tido nacional, os bobos da corte. Eram tambem frequentemente seres disformes, isto e, negavam as .proporcoes do . corpo humano, 0 que. em outro c6digo,vem a ser amesma coisa: estranhos a sociedade em um caso, a "humanidade" no outrQ,negando,em seu proprio corpo a articula~ao harmoniosa das partes, eJes eram sempre "os de fora", "os outros", os que negavam por sua propria existenciaa soberania de uma ordem. Sua disformidade expressava portanto, ainda, que, profissionais da: pilheria, eram eles proprios pilherias, seesta e realmente, como argumenta Douglas (1~:

366), urn desafio a' configur~o dommante de rela~es. ...exprimindo as possibilidades latentes dentro deuma ordem imperarite que e assim momentaneamente subvertida. '.,-.-:.:0amigo formal pode, assim, gracejar einsultar suas.viti-

,:~;'namedidaem que ele e um estranho, e isto em mais de umadimenslo. E ao insuh8r, ele ao mesmo tempo reaflrma sua~tianheza e a inverslo que.seu gracejo implica, '\

ANTROPOLOOIA DO BRASIL 51

Em seu duplo aspecto de evita.~o e parceria jocosa, 0 amigo formal teria, portanto, essecariter que me p~ece defin}-lo, 0 de negar, 0 de inverter, 0 de contradizer, 0 de ser urn antonimo, ,

Retomemos 0 fio da meada e perguntemo-nos se a dis- cussao acima traz alguma Juz sobre os fatos kraho evocados no in1cio: por que se pede ao amigo formal que' sofra 0 mesmo dano fisico da vitima original (queimadura, pieada de marimbondo ou de formiglO) senlo porque inflingir 0 dano

. ao antOnimo c duplicar, reiterar a ncga~o e 0 ataque, e recobrar assim a integrldade inieial, que fora atinaida. Por outro lade, por que 0 amigo formal es~ presente, em principio, em ritos de passagem? Por que ele se interpOe entre os iniciandos e seus atacantes, membros da aldeia,aliado eequivalente nessa bat8lha 80S uestrangeiros" de outrasaldeias?

Se 0 amigo formal e 0 outro, a antttese, entl.o sua presen~ atesta a dlssolu~lJo do personalidad,e, a voltaao caos indiferenclado que caractcriza os estados chamados liminares. .Mas, ao mesmo tempo, 0 confronto tese-antitese,. nomeant6nimo, conduz a slntese almejada no ritual, ou seja, ao novo status.

Principio de restaur~o, sim, mas tambem, portanto, principio de instaura~, portador de dinAmica, fermento na

Massa que encerra possibilidade reca1cadas. , ~o plano cosmolOgica, essa rela~ao aparececom maior nitide£ Sol e Lua slo amigos formals e ao mesmo tempo burlam-se mutuamente ao .longo do mito da cria~o. Em suma, reunem, talvez por falta de personagens em um Mundo ainda deserto, as duas facetas da amizade formal. E a cri~o se da. Isto e importante,atraves de um processo diaietico. Rituais fundamentals slo assim institu1dos; se, por exemplo, corridas de toras sAoCria~lo de Sol, ritos fupebres e resguar- do de parte seiUem as prefetenclas de Lua. Ja procurei mostral' em um artigo sobre 0 mcssianismo eanela (Carneiro da

Cunha, 1973:27, n. 2). a lig~o entre as corridas de toras.e a n~o de tempo e de periodicidade, Pare.ce poisadequado que seja 0 Sol, que, como diz DaMatta (197S: 242)"udesempenha. 0 papel de um personagem cego pela regUlaridade' e pela certeza" (isto talvez fosse mais matizado entre os Kraho do que entre os Apinaye), 0 criador dos ritosderegularidade . Quanto· a Lua, cabe-Ihe a origem do trabalho agricola: por

S8 MANUELA CAR~IRO DA CUNHA sua culpa. as ferramentas de Sol nao operam mais sozinhas e exigem 0 concurso humano. E, como se queixa da aus!ncia de movimento, Lua provoca a cria~lo de mosquitos e cobras que atormentam os homens. Lua e portanto causa de diversos males e inconvenientes, instigador de vluias desordens, por eerto, mas e tambem, e preeisamente por isso mesmo, 0 principio dinIJmico na cria~lo. e flnalmente 0 fundador de dois ritos fundamentals. Esses dois ritos sao, como vimos, 0 resguardo de parto e os funerais, e tornar-se-a (espero) claro mais adiante que isso n~ parece ser fortuito: slo estes os ritos de 8epara~0 de individuos do seio de sua! parentelas que tem a vet com ~.cri&~ e a destrui~o de um espa~o propriamente. pesosal. Cabia a Lua instaurar esses ritos.

Dizlamos acima que a evita~lo. ·a distlncia, seriam a propria ess8ncia da amizade formal. Expl1cita nesse sentido e a pratica canela descrita por Niinuendaju (1946: 101). Os inidandos, ao cabo do ritual de pepyl, podem, se 0 desajarem, estabelecer rela~s de amizade formal, mediante 0 seauinte rito: de costas urn para 0 outro, mergulham no ~bcirilo em di~iJes opostQtl. em seauida emergem e se encaram. Significativamente, um rito muito semelhante, mas comuma inversAo crucial, serivira, entre os mesmos Canela, para esta-.

.belecer a re~lo que chamarei de companheirismo (0 termo Krah6 ~ ikhuonfJ, meu companbefro): os candidatos mergu-

1946: 10S)

lham juntos. QbraPldos e na meem« direrlJo (Nimuendaju,

Nossos dados, como os de Meiatti, indicam que BAo ucompanheiras" entre os Krah6 as criancas nascldas no

mesmo dia (mas aparentemente nlo os gemeos verdadeiros), rapazes que foram krtlrigat~. lsto e, chefes de' metades de iniciandos, durante 0 mesmo ritual de in,icia:~o, seja no Pempkahok ou no Ke~, as moeasque foram associadas a um mesmo grupo na mesma celebra~o de um destes rituais, os homens Q,ue'foram prefeitos 40 patio, oficio sempre.inves-

.tido em dois incumbentes, na mesma esta~io do mesmo ano, e assim por diante.

OS IkhuonlJ, ao contrario dos amigos formais, 510companheiros de todas as horas e todas as atividades, pelo menos . atesetomaresn pais de numerosa prole. Reina entre eles tQtal liberdade de'diScurso euma camaradagem descontraida. No .ritual que encerra a esta~lo chuvosa e DO que encerra Itesta-

.i.

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ANTROPOLOGIA 0 BRASIL S9

:~ao seca, ha troca cerimonial de mulheres entre as metades Wakmeye .e ~atamye. Nessa ocasilo, os l/c.huonfJ trocam preferencialmente de mulhers entre sit a nao ser que estas nlopertencam a metade alterna requerida.

'Um estudo lexicolOlico sumluio permite descobrir uma raiz comum nas palavras que designam 0 companheiro, ikhuonfJ (no feminino ikhuore), e, a placenta, ikhuoti, a que os Kra:h6 se relerem alias em portugue& como "0 companheiro da crian~ai . Todos esses dados corroboram, me parece, a liga~o dB'nocao de' semethanc«, ou melhor, de simultaneidade com a institui~lo do "companheirlsmo'", e esclarecem, , alem disso, 0 contraste entre nadar na mesma dir~o e nadar em dire~Oes opostas nos ritos que fundam, entre os Canela, asrelacoes de companheirismo e de arnizade formal, respectivamente. Tal como 0 amigo formal corresponde ao radicalmente oposto, 1\ alteridade por excel@ncia,0 companheiro corresponde 1\ semelhanea, a simultaneidade, 1\ semeleidade.

Diante deuma semelhanca tlo claramente constndda, de uma 'alterldade posta e nlo dada, em um meio social finalmente homogeneo, 0 que pensar? Reduzi-Ias a fun~ de coeslo social, quando mais nao fosse, suporia que os grupos , aserem coesos fosse realmente estranhos de antemlo:ora, se a1gofica patente e que essa estranheza e arbitrariamente edi-

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