Joga o Coco na Gira de Mestre: religião, ação humana e identidades no litoral de Pernambuco

Joga o Coco na Gira de Mestre: religião, ação humana e identidades no litoral de...

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Dedicatória pessoal

Dedico este estudo etnográfico aos brincantes da cultura popular que, motivados por suas memórias e compromissos privados, dão sentido e significados às verdades e perspectivas de realidade que povoam os imaginários, os signos e as metáforas de pernambucanidade.

Joga o Coco na Gira de Mestre:

religião, ação humana e identidades no litoral de Pernambuco

Fernando Antônio Ferreira de Souza

No litoral de Pernambuco sente-se uma ideologia central nacionalista, velada mas ostensiva e opressora. Os cidadãos, sujeitos periféricos relativamente a esta ideologia central, negociam as suas identidades através de comportamentos expressivos diversos. O coco emerge no meu estudo como um caso no qual esta negociação politica se torna visível. A etnografia que desenvolvo é de carácter eminentemente colaborativo (Campbell e Lassiter 2015) ainda que em muitos casos, devido a medos profundos e outras razões, as vozes daqueles que comigo colaboraram se tenham feito sentir por meios que não dá palavras directamente registável. Centra-se pois num conjunto de sujeitos coquistas através das suas produções metafóricas, por vias discursivas e performativas. Na narrativa etnográfica que desenvolvo, surgem lugares e tempos vividos e lembrados que ganham peso estruturante na minha tese. A partir do encontro com os sujeitos praticantes e estudiosos do coco, o meu estudo seguiu a sua inspiração divina, em aspectos marcantes de religiosidade, e a sua ação humana, reprimida primeiro, expressa depois e finalmente refletida. Por último no meu estudo, e motivado pela minha atividade musical como percussionista, junto uma interpretação de aspectos rítmicos específicos do repertório dos cocos considerados, como que dando voz, através dos diversos cocos, às múltiplas representações identitárias com que me deparei.

PALAVRAS-CHAVE: coco, jurema sagrada, religião, política, identidades, Etnomusicologia

Coco Plays in the Round of the Master:

religion, human action and identities In the coast of Pernambuco

Fernando Antônio Ferreira de Souza

In the Pernambuco coast, one feels a nationalist central ideology veiled, though ostentatious and oppressive. Citizens, peripheral subjects in relation to this central ideology, negotiate their identities through different expressive behaviors. Coco emerges in my study as a case in which this political negotiation becomes visible. The ethnography that I developed is eminently collaborative (Campbell and Lassiter 2015) although in many cases, due to deep fears and other reasons, the voices of those who collaborated with me have expressed themselves through means other than those of words to register directhy. It focuses on a group of subjects, coquistas, through their metaphorical production, both discursive and performative. In the ethnographic narrative emerge lived and remembered places and times that step by step gained structural weight in my thesis. After the meeting with the subjects, practitioners and scholars of coco, my study followed their divine inspirations in faith related aspects, and their human actions, first somehow repressed, than expressed and finally reflected. My study was also motivated by my percussionist activity, and in it I used my own performance and interpretation of specific rhythmic aspects of repertoire, as if, through cocos playing, I would give voice to the multiple representations of identity that I came across with.

KEYWORDS: coco, sacred jurema, religion, politics, identities, Ethnomusicology

Capítulo 1. Introdução: dimensões narrativas do coco do litoral
1.1Objeto de estudo: a representação de identidades dos sujeito..................................
1.2Enquadramento teórico: sujeitos, lugares, tempos e metáforas................................
1.3A questão do papel do coco ligando religião, ação humana e identidades...............
1.4Enquadramento histórico do coco: desde as primeiras referências.........................
1.5Motivação, experiência de terreno e etnografia colaborativa: no ritmo do coco....
Capítulo 2. O encontro com os coquistas
2.1Introdução etnográfica geo-referente dos sujeitos ..................................................
2.2Cantadores (Zé Neguinho, P. Roxo, A. Lucia, M. Pereira, N. Gaiola)..................
2.3Brincantes (Tia Fáfa, Maria de Fátima Soares).......................................................
2.4Tocador/Produtor (Alexandre L’Omi L’Odò).........................................................
2.5Conclusão: metáforas nas vozes do coco.................................................................
Capítulo 3. Seguindo a sua inspiração divina
3.1Religião na política cultural brasileira em Pernambuco..........................................
3.2O Acorda Povo, o coco e a devoção a São João Batista.........................................
3.3São João Batista, os cultos afro-brasileiros a Xangô e detalhes rítmicos..............
3.4Coco de Mestre e Jurema Sagrada...........................................................................
3.5Conclusão: a religião como conivente de identidades............................................
Capítulo 4. Perscrutando a sua ação human
4.1A influência da língua portuguesa em tempo de repressão (até 1938)..................
4.2A voz e a identidade em tempo de expressão (1938-1980) ...................................
4.3Interpretações em tempo de reflexão (2014/15) .....................................................
4.4Conclusão: a fluidez do coco e a liquidez das identidades.....................................
Capítulo 5. Um pouco mais de tempo ainda
5.1Influência matricial e geo-distribuição do coco ......................................................
5.2Aspetos rítmicos na cantoria: estilo, e reportório ....................................................
5.3Aspetos rítmicos no toque: interpretação percussiva de instrumentos principais..
5.4Aspetos rítmicos na divulgação e na aprendizagem no início do século 21..........
5.5Conclusão: nuances e detalhes a partir do rítmo no reportório do coco ................
Capítulo 6. Considerações finais
6.1O jogo, a brincadeira, a gira e o coco ......................................................................
Bibliografia
Fontes impressas
Fontes eletronicas (incluindo áudio e video)
Figura 1. Variedade de formas de coco segundo a literatura folclorista
Figura 2. Municípios visitados no Litoral de Pernambuco entre 2003 e 2014
Figura 3. Zé Neguinho
Figura 4. Pombo Roxo
Figura 5. Ana Lúcia do Coco
Figura 6. Dona Jove
Figura 7. Inspetor
Figura 8. Manuel Pereira da Silva
Figura 9. Nascimento Gaiola
Figura 10. Faraíldes Galvão, Tia Fáfa
Figura 1. Maria de Fátima Soares
Figura 12. Alexandre L’Omi L’Odò
Figura 13. Quadro da relação coquista / influências longíquas / caráter performativo
Figura 14. Quadro de variação de filiação religiosa por grupo
Figura 15. Quadro de transcrição musical do sistema assimétrico de articulações Percussivas
Figura 16. Quadro de transcrição musical do padrão de articulações percussivas de 3 batidas
Figura 18. Morte de índio em Brasília
Figura 19. Forma silábica da cantoria na forma loa
Figura 20. Trecho de um acarta de Luiz Saia para Mário de Andrade em 1938
Figura 21. Catimbó rezado baixo. A tática da invisibilidade daqueles que não podiam ter voz
Figura 2. Detalhe coreográfico de um coco de praia
Figura 23. Esquema coreográfico do coco de praia
Figura 24. Representação de detalhe coreográfico de um coco do sertão
Figura 25. Esquema coreográfico do coco do sertão
Figura 26. Predomínio de influências indígenas e africanas nos cocos em Pernambuco
Figura 27. José Antônio na zabumba, José Marques no ganzá e João Gago Filho no caixa

ÍNDICE DE FIGURAS OU ILUSTRAÇÕES Figura 17. Quadro de transcrição musical de padrão e articulações percussivas de 3, 4 e 5 batidas..

Capítulo 1. Introdução: narrativas e toques do coco no litoral de Pernambuco1

Este estudo centra-se em arenas de representação de identidades que revelam jogos de interesses entre uma ideologia central e vozes da periferia. Na sua dinâmica, tais arenas configuram ambiguidades em discursos partilhados de comunhão de perspectivas, e de negociação de conflitos politicamente velados. A implantação política de referenciais culturais de identidade nacional, regional e local promoveu um valor simbólico e depois económico para a prática expressiva do coco, antes emicamente acionada como fundamento religioso próprio do encontro intercultural de índios, mestiços e imigrantes excluídos, ou população de baixa renda da sociedade central. Enquanto prática expressiva herdada do complexo contexto colonial, o cantar e dançar comunitário do coco foi adotado em celebrações múltiplas como veículo de metáforas de identificação de um nós fluido entre o real e o imaginado para interesses religiosos e seculares que busco aqui dialogar a partir da perspectiva dos mais pequenos dessa relação. Para decifrar o título aponto o que digo nas páginas 192 e 193.

1.1. Objeto de estudo: a representação de identidades dos sujeitos coquistas

O meu trabalho estuda uma tradição musical brasileira designada coco. A estratégia metodológica que segui, numa etnografia colaborativa (Campbell e Lassiter 2015) multisituada no litoral de Pernambuco, baseia-se na recolha de testemunhos de um número algo alargado de participantes nesta tradição. Esta estratégia possibilitou-me perceber motivações comuns partilhadas entre os coquistas e demais brincantes que, em terreno, se revelaram como indicadores de seus modos de relação com o coco a partir de suas próprias experiências e memórias vividas e herdadas pela oralidade. Este processo etnográfico permitiu que emicamente os intervenientes desenvolvessem um diálogo reflexivo com seus próprios valores e conceitos, de modo a revelarem-se a seus olhos novos sentidos para as suas histórias vidas (Ibid.: 2-3). O exercício discursivo com o

1 Refiro o esforço que fiz na tentativa de escrever em português de Portugal.

passado levou-os a considerar fatos antes não pensados, ou mesmo velados, e a fazer conexões mais claras entre padrões interculturais em Pernambuco, o que, por sua vez, ajudou a entender, num nível mais profundo, o coco a partir dos seus elementos indígenas e africanos. Do que iniciou como um levantamento da presença da tradição do coco no litoral de Pernambuco, para caracterizar no geral suas diversas arenas e distintas formas expressivas, emergiu uma narrativa polifónica colaborativa que vincou o elemento religioso ameríndio local como principal fator da sua estrutura e motivação. Tal narrativa revela situações em que a ação humana e a religiosidade prefiguram metáforas que me pareceram influentes nos modos como os seus praticantes foram construindo identidades ao longo dos seus tempos de vida. As participações individuais e as manifestações coletivas em contextos de dimensão familiar ou das políticas públicas evidenciaram-se nas conversas entre 2003 e 2014. O coco revelou-se nos discursos do grupo de pessoas estudado como um marcador de identidade individual e coletiva na perspectiva de que a música desempenha um papel fundamental como indicador e ferramenta de continuidade e de mudança. Para tal perspectiva encontrei em Lundberg (2010) base reflexiva acerca do modo como a música é entendida e usada como marcador de identidade experimentada e atribuída. Nesta concepção, a noção de identidade está diretamente relacionada com conceitos e ideias acerca da relação entre a música do coco e os coquistas, de modo a representar planos de realidade simbólica e de significados atribuídos e interpretados pelos seus praticantes, sejam estes cantadores, tocadores ou brincantes. Sob este foco, considero de que a música do coco tem na sua performação o padrão e a representação das identidades (individual e coletiva) dos seus praticantes. O coco revela-se como instrumento expressivo das suas vozes. Em tal abordagem, considerei os processos criadores, em particular os ligados à problemática da metáfora e do símbolo por eles articulados no âmbito da religião e da política.

Coco designa, pois, uma categoria musical performativa no Brasil. Reconhecido na literatura e na prática dos seus adeptos – os coquistas – como definidor de um domínio considerado marcador de identidade individual e coletiva. No entanto, faz-se necessário observar que o termo coquista não demostra ter origem émica, e sim uma possível origem ética, visto que emicamente comporta para o mesmo nome distintos significados por causa de papeis e funções diversas para prática do coco. Este dado, verificado no terreno, levou-me a perceber que no universo émico dos cocos alguns termos a eles associados pela literatura folclorista e académica não são partilhados pelos coquistas como identitários. Sob esta percepção este estudo busca um entendimento do universo metafórico dos coquistas conforme a minha perspectiva por eles induzida. Deste modo, coquista é, ou pode ser, músico/tocador, dançante, cantador e ouvinte assíduo, brincante ou não. Sendo identificado como tal, o coco partilha, no entanto, uma série de elementos com outros domínios musicais conferentes de outras identidades. Como forma poético-musical foi identificado de modo pioneiro por Mário de Andrade entre 1928 e 1929 através do cantador Chico Antônio no estado do Rio Grande do Norte (Nogueira Junior2 2015; Krakowska 2012; Andrade 1972; Andrade 1988; Andrade 2002), marcando presença em estudos folcloristas no Nordeste do Brasil desde então. No prosseguimento dos seus registos Andrade organizou em 1938 uma missão etnográfica (Missão de Pesquisas Folclóricas) que documentou a performação de alguns cocos no interior de Pernambuco. Porém, foi no estado da Paraíba, onde a sua equipa etnográfica foi melhor acolhida que o autor melhor pode etnografar a prática do coco durante o conturbado período ditatorial do Estado Novo instaurado no Brasil em 1937. Em 1954 Câmara Cascudo introduziu o coco no Dicionário do Folclore Brasileiro (1972: 274) a partir de informação catalogada por Aloísio Vilela em 1951 sobre os cocos no estado de Alagoas (1980). Edison Carneiro, em 1961 e Maria Inez Ayala em 1998 e 2000 referem-se lhe novamente.

A expressividade notória atual do coco no litoral de Pernambuco contrasta, no entanto, com a escassez de estudos existentes sobre características peculiares e diferenciadoras desta categoria musical específica neste estado. Da grande diversidade de práticas expressivas concentradas no território pernambucano, as mais representadas na literatura disponível são o frevo, o maracatu de baque virado e o xangô. Entre as menos representadas encontra-se o coco, o cavalo-marinho, o maracatu de baque solto, a ciranda, o pastoril, o caboclinho e a jurema sagrada, entre outras. Uma hipótese para este desfasamento de representação na literatura pode ficar a dever-se ao fato destas práticas coletivizadas e participatórias se centrarem maioritariamente em territórios rurais e suburbanos. Estes comportamentos expressivos são em geral associados à camada popular pobre de índios, negros e mestiços (também vinculados arbitrariamente

2 Nogueira Junior relata em 1927 que Andrade realiza a primeira "viagem etnográfica" percorrendo o

Amazonas e o Peru, da qual resulta o diário O Turista Aprendiz quando tem o primeiro contacto com o coquista Chico Antônio. Em 1928, realiza a sua segunda "viagem etnográfica" ao Nordeste do Brasil (dez. 1928 - mar. 1929). Colabora na Revista de Antropofagia e em Verde. Publica Ensaio sobre a Música Brasileira e Macunaíma - o Herói sem nenhum caráter, onde inova com audácia e rebela-se contra a mesmice das normas vigentes. Em 1929 realiza a sua terceira "Viagem etnográfica" ao Nordeste, colhendo documentos: música popular e danças dramáticas.

à população de desempregados, analfabetos, vadios, pedintes e outras ordens de estereótipos de exclusão social). Uma possível hipótese para a escassez de estudos pode resultar da consideração de que estas expressões teriam ocorrência velada em pequenos grupos comunitários, aparentemente desorganizados, dispersos e fluidos (por não delimitarem formas recorrentes ou ideologias precisas). Motivações laborais e póslaborais ou unicamente de diversão consistiriam, nesta hipótese, na razão da sua existência, figurando assim sem destaque quando comparadas com outras manifestações expressivas locais que urgiam maior atenção estratégica pela gestão pública. Com efeito os cocos não pareciam esboçar um valor político que merecesse atenção diferenciada, como acontecia com os terreiros de xangô e os maracatus de baque virado, intimamente associados a uma mobilização de classe negra em resistência. Também não integravam o corpus de manifestações populares associáveis a ideologias de regulação, controle e contenção da igreja, como por exemplo os pastoris natalinos, presépios, procissões, novenas, etc., intimamente associadas a uma edificação moral segundo preceitos da sociedade dominante. De modo diferente de como era socialmente assimilado em outros Estados3, o coco em Pernambuco não integrou o quantitativo de domínios musicais praticados em salões e espaços de relação da sociedade central como ocorreu com o frevo, o choro, o baião, as danças juninas, e o forró.

Concentrado no coco, o presente estudo visa caracterizar o seu papel de representante identitário de cultura pernambucana, no qual emerge a minha condição de percussionista émico, descendente de pai e mãe pernambucanos, professor de percussão na Escola Técnica Estadual de Criatividade Musical (ETECM) e investigador musical do Núcleo de Etnomusicologia (NETMUS) do Departamento de Música da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), investigador colaborador do Grupo de Etnomusicologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), e investigador colaborador do Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança (INET-MD) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL) em Portugal. A minha condição de nativo na cultura pernambucana facultou-me maior aprofundamento com a prática expressiva do coco, ao que se acrescenta a minha formação etnomusicológica como investigador e musical como percussionista, com atuação musical nas linguagens tradicionais émicas locais. Com efeito, para além destes, possuo vínculos familiares com esta prática expressiva

3 A prática do coco teve diferentes realidades no Nordeste brasileiro. O Estado que mais desenvolveu uma relação de visibilidade política com o coco foi o de Alagoas, onde o coco figurou como dança de salão.

por parte de meu pai na pessoa de minha tia Faraíldes Galvão (Tia Fáfa), que brincava desde a juventude em rodas ou festejos em que o coco estava figurado, como acordapovo, buscada de santos, etc.

De forma significativa e, no entanto imprevista, os dados por mim coletados no terreno revelaram, já próximo do fim do período de meu trabalho de campo, a existência de fundamento religioso vinculado à performação dos coquistas. Este fundamento revelou-se indutor de uma arena política de conflitos, estratégias e táticas de resistência antes imperceptíveis. Ele permeia a relação dos intervenientes coquistas com a sociedade. Este dado trouxe à luz deste estudo o interesse em compreender o que estrutura e motiva a continuidade da linguagem performativa do coquista e os seus desdobramentos, de modo a configurar o coco como forma de representação da cultura pernambucana, enquanto processo de construção da identidade individual e coletiva local e meta-local no Brasil.

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