Manual condutas úlceras em hansiníase e diabetes
(Parte 2 de 7)
Fotos: Cortesia de Cícero Fidelis, Helena M. Bajay, Linda F. Leh- man, Pedro Donati, Sonia L. Cortez
Coordenação editorial: Fabiano Camilo
Projeto gráfico, diagramação e fotos do início dos capítulos: Ct. Comunicação
Capa: Eduardo Trindade
Revisão de texto: Yana Palankof
Impresso no Brasil/Printed in Brazil
Ficha catalográfica
| Catalogação na fonte – Coordenação-Geral de Documentação e Informação – Editora MS – 2008/0631 |
Títulos para indexação: Título em Inglês: Manual of conducts in ulcers in leprosy and diabetes treatment Título em Espanhol: Manual de conductas para tratamiento de úlcera en lepra y diabetes
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância
Epidemiológica.
Manual de condutas para tratamento de úlceras em hanseníase e diabetes / Ministério da Saúde, Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Vigilância Epidemiológica. – 2. ed., rev. e ampl. – Brasília : Ministério da Saúde, 2008. 92 p. : il. – (Série A. Normas e Manuais Técnicos) (Cadernos de prevenção e reabilitação em hanseníase; n. 2)
ISBN 978-85-334-1514-0 1. Hanseníase. 2. Úlcera. 3. Diabetes. 4. Atenção à saúde. I. Título. I. Série. CDU 616-002.73
SuMáRIO


SuMáRIO
Apresentação 6 Introdução 8 Acolhimento 1O
SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS 7
Ahanseníase e o diabetes mellitus, doenças que afligem milhares de brasileiros, são consideradas entre as prioridades da pactuação nas três instâncias do SUS e, portanto, têm metas de controle e melhoria da atenção incluídas no Pacto de
Gestão, assim como no Plano de Aceleração do Crescimento do Ministério da Saúde (PAC).
Hoje, os sinais e os sintomas são conhecidos, e a hanseníase tem cura. Mas em 2006 um contingente importante de pessoas foi diagnosticado já apresentando graus de incapacidade I e I, em conseqüência do diagnóstico tardio.
O diabetes é altamente prevalente e apresenta alta morbi-mortalidade, sendo uma das principais causas de insuficiência renal, amputação de membros inferiores, cegueira e doença cardiovascular.
Em ambas as doenças, a perda de sensibilidade tem papel importante no aparecimento e na evolução de lesões como fissuras, úlceras, infecções. Na hanseníase, as úlceras crônicas infectadas podem levar à osteomielite e à amputação de membros. No diabetes, associam-se a complicações vasculares e, além das amputações, caracterizam quadros de urgência médica.
Essas seqüelas afetam a imagem corporal e a auto-estima das pessoas, levando-as muitas vezes ao auto-isolamento e ao abandono de seus projetos, tendo grande repercussão em sua vida familiar, social e profissional, e essas pessoas são, em sua maioria, oriundas das camadas menos favorecidas da sociedade.
Além das habilidades e das qualificações para dar os encaminhamentos adequados a cada situação, os profissionais de saúde devem ser preparados para dispensar o cuidado humanizado na realização de procedimentos terapêuticos e dar apoio educativo. Devem-se valorizar os cuidados com o “pé neuropático”, seja em conseqüência da hanseníase seja do diabetes, como uma ação cotidianamente negociada com o paciente.
A rede de atenção básica exerce um papel fundamental, pois sabemos que o diagnóstico precoce, o tratamento oportuno e os autocuidados evitam a maioria das complicações e garantem a qualidade de vida aos portadores das duas doenças. Não menos importante é sua interligação com a média e a alta complexidade, garantindo a linha de cuidado com as adequações de calçados, próteses, cirurgias emergenciais e de reabilitação, quando indicadas.
| técnica e, em especial das pessoas que dividiram suas experiências |
Com este manual, o Ministério da Saúde vem fomentar a oferta desse serviço na rede SUS de acordo com sua complexidade e espera subsidiar os profissionais de saúde em suas ações. Também agradece a inestimável colaboração dos especialistas que participaram da revisão
Maria Leide W. de Oliveira Coordenadora do Programa Nacional de Controle da Hanseníase
Rosa Sampaio Coordenadora do Programa Nacional de Hipertensão Arterial e Diabetes
INTRODUçãO 8 SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS
INTRODuçãO
SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS 9
INTRODuçãO
No Brasil, as úlceras constituem um sério problema de saúde pública, em razão do grande número de pessoas com alterações na integridade da pele, embora sejam escassos os registros desses atendimentos. O elevado número de pessoas com essas lesões contribui para onerar o gasto público. Mas muito mais oneroso é o sofrimento das pessoas e a interferência na sua qualidade de vida.
As úlceras são mais conhecidas na linguagem popular como feridas, mas optou-se neste manual por utilizar o termo científico úlcera para evitar duplicidade na nomenclatura e pela complexidade que essas alterações de pele e anexos apresentam.
Entre os diversos tipos de úlceras, as mais freqüentemente encontradas nos serviços de saúde são as úlceras venosas, as arteriais, as hipertensivas, as úlceras por pressão, as neurotróficas e o pé diabético. As úlceras são geralmente de longa evolução e de resposta terapêutica variável. Dentre estas, destacam-se as neurotróficas, comuns em algumas patologias que acometem o sistema nervoso periférico, como a hanseníase, o alcoolismo e o diabetes mellitus, considerados agravos de alta prevalência no Brasil.
As úlceras neurotróficas podem acarretar vários estigmas, levando o doente à marginalização.
Para que isso não ocorra são necessárias medidas de assistência integral que atendam às necessidades biopsicossociais dos pacientes e busquem melhorar suas condições de vida.
Por essa razão, os profissionais devem estar coesos, valorizando a diversidade de papéis em busca da integralidade da assistência, garantindo a adesão do paciente e seus familiares ao tratamento, e enfatizando que a participação destes no processo de cura e o autocuidado são essenciais para a reabilitação.
A relação entre os profissionais e o paciente deve ser baseada em respeito mútuo e dignidade. Os membros da equipe devem ter consciência da responsabilidade de indicar um tratamento adequado, bem como reconhecer as próprias limitações e realizar encaminhamentos para outros profissionais sempre que necessário.
O avanço tecnológico que disponibiliza novas terapias exige dos profissionais da área da saúde uma reflexão da prática realizada, consolidada em base científica, de tal forma que justifiquem as ações adotadas na prevenção e no tratamento das úlceras, com o compromisso de oferecer qualidade na assistência e otimizar recursos.
Este material técnico instrucional pretende oferecer subsídios à equipe de saúde para atualização, direcionamento e reordenamento de suas ações em relação à assistência prestada aos pacientes com úlceras em nosso país. Este manual contém um capítulo que aborda o acolhimento aos pacientes com úlceras, em que profissionais e pacientes apresentam sua visão sobre o agravo e suas implicações. Outros depoimentos estão inseridos ao longo do texto, dando ao leitor uma visão da problemática que envolve as questões sobre úlceras e pé diabético.
As doenças de base, entre outras, são as principais causas de úlceras e, assim, faz-se necessária uma política de saúde claramente definida como estratégia de atuação na sua prevenção.
| 10 | SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS |
ACOlhIMENTO
SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS 1
ACOlhIMENTO
| suas vozes e feri suas gargantas | Eu isolei meu povo |
| amarelado de medo |
Eu sou uma entre tantas que, sob o domínio do medo, discriminei pessoas, as fiz sofrer, silenciei e alimentei o nosso preconceito com o meu leite
| de abandono, feridas e solidão |
Durante tempos, quase toda a gente afastou-se e não viu e não soube e não cuidou dos que foram tocados. E ainda hoje suas histórias mostram trilhas
| florestas |
Numa espiral, outras gentes com medo negaram sua existência, não viram seus sinais e ela espalhou-se pelos quatro cantos, subiu e desceu morros e vales e
E se eu olhar de frente esse medo? Medo de quê?
Medo por quê?
E se eu falar e fizer tantas perguntas até me cansar? E se eu me fartar de respostas e me inundar de certezas e puxar o fio do novelo de medo que tece tantos preconceitos?
Alice1
Acolhimento
Os debates sobre acolhimento ganham importância com a implantação do Sistema Único de Saúde, com a ampliação maciça de serviços e porque a sociedade brasileira está mais exigente quanto ao exercício de seus direitos e em relação à qualidade do que lhe é oferecido. Este conceito tem sido definido, de forma ampla, como a facilitação do acesso à rede de serviços e responsabilização pela assistência integral, adequada à demanda em quantidade e qualidade.
Assim compreendido, o acolhimento abrange a rede como um todo e se materializa por meio das ações das autoridades políticas e dos gestores para identificação de problemas, elaboração de protocolos técnicos, capacitação de pessoal, provisão de insumos e medicamentos, definição de referências e contra-referências e sistemas de avaliação e controle. Além disso, para que os serviços respeitem os direitos das pessoas atendidas, é essencial discutir atitudes, comportamentos e a forma com que os profissionais de saúde tratam pacientes, ex-pacientes e seus familiares.
Além dos aspectos acima referidos, no acolhimento às pessoas acometidas pela hanseníase Alice acompanhou as oficinas e algumas entrevistas realizadas em março de 2008 e escreveu pequenos textos que dão sentido a fragmentos de algumas histórias e idéias expressas no trabalho, com a finalidade de subsidiar os textos sobre acolhimento nos manuais técnicos sobre hanseníase.
| 12 | SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS |
é preciso considerar: as representações negativas da doença na sociedade, em razão do sofrimento e da necessidade de apoio dos pacientes para superar dificuldades, discriminações e preconceitos; e as peculiaridades da doença, com vistas à prevenção precoce de incapacidades e deformidades. Neste texto serão levantadas algumas considerações sobre esses dois temas.
Acolhimento e representAções dA hAnseníAse
A hanseníase está associada a histórias de isolamento, separações, incapacidades, deformidades físicas, feridas incuráveis, pobreza, dependência e discriminação. Como “castigo divino para purgar os pecados” e “sentença de mal incurável e deformante” ela atravessou séculos até que a descoberta do bacilo e a cura pudessem indicar uma mudança que, no entanto, ainda não está materializada.
A hanseníase é tipo uma armadilha. É ou não é? Todo mundo se afasta de você. Até os próprios colegas. Eles têm preconceito. Antigamente, não se falava hanseníase, era tipo uma doença que não tinha cura. Mas hoje em dia já tem tratamento [...] às vezes amigos meus perguntavam: o que é que você tem? Eu dizia: é hanseníase e eles: ah, não dá certo não, você aqui, isso pega na gente. Eu falava que depois do tratamento não pega. Tem deles que passa o pano por cima, mas tem deles que não aceitam, acham que pega, mesmo se tratando, acham que pega. Eu visitei uma pessoa, pedi um copo com água e fiquei lá conversando. Depois o filho dele me disse: sabe aquele copo? Meu pai jogou fora. Eu fiquei sem graça e nunca mais fui lá. Francisco Souza como lidAr com o medo e o preconceito no âmbito dA sAúde
As ações de acolhimento às pessoas acometidas pela hanseníase demandam profissionais de saúde preparados para ajudá-las a lidar com o medo, o preconceito e a discriminação presentes na sociedade.
A atenção multidisciplinar, o apoio psicológico, a troca de experiências com pessoas que passaram pelo problema e os grupos de apoio nos serviços, ou comunitários, são recursos importantes à recuperação da auto-estima, à superação do medo e da vergonha e à promoção do bem-estar.
Hoje eu já consigo viver em paz comigo. Eu agora estou me expondo, mas antes, a coisa que eu mais escondia eram meus pés. Eu tinha muita vergonha, até dentro de casa mesmo, embora meu marido não tivesse preconceito comigo. Hoje em dia não, eu já me soltei com a convivência aqui no grupo de apoio. Wanda
A capacitação dos profissionais de saúde e funcionários dos serviços, além de informações técnicas, demanda reconhecimento e reflexão sobre o preconceito e a discriminação também existentes nos serviços de saúde.
| SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS | 13 |
Eu tentei esconder o meu problema, mas logo as pessoas descobriram. O preconceito pra mim começa desde os médicos. O meu rosto ficou todo preto, as orelhas também, tudo roxo, preto, e quando eu ia para a consulta, às vezes uns me olhavam direito, outros não. Maria José
O preconceito que mais me chocou, entre todos, foi o dos profissionais de saúde [...] na minha cabeça, isso comprova que ninguém sabe nada sobre Hansen. Porque se eu tenho absoluta certeza que hanseníase não pega logo depois que você começou o tratamento, se eu sei que se pega pelo ar, em ambientes fechados, porque eu vou me afastar de alguém que teve esse diagnóstico e está em tratamento?. Marly, diretora do Gamah
A informação técnica sobre a doença não é suficiente para desmontar o medo e o preconceito. Mas estudar e refletir individual e coletivamente sobre o problema pode contribuir efetivamente para seu enfrentamento e superação.
O medo se sobrepõe à informação. Tudo o que eu sabia sumiu quando soube o diagnóstico. Existem medos e medos, um medo maior ou menor que depende das histórias de vida de cada pessoa. Por causa daquele medo tão grande que eu senti ao receber o diagnóstico eu fui fazer psicologia, pra ver se entendia o que se passava, por que tanto medo? Eu tenho estudado e pesquisado muito isso. Zilda, pedagoga e psicóloga humAnizAção do Atendimento
Refletir sobre o imaginário coletivo em relação à hanseníase é uma etapa para a humanização, a integralidade e a qualidade da atenção. No tocante à humanização das relações interpessoais, o olhar, a escuta, o toque ou um simples aperto de mão transmitem ao paciente a sensação de estar sendo cuidado, fortalecem os vínculos, a adesão aos tratamentos e a confiança na equipe.
| ali e eles vão interagindo com os profissionais, conversando | Nós fazemos questão |
Nós buscamos oferecer um tratamento humanizado. Há um diálogo da equipe com os usuários; uma distribuição do volume de atendimentos, de modo que o paciente não fique muito tempo aguardando pela consulta; oferta de material e uma atenção de qualidade. Há pacientes novos que, de início, estão muito assustados por estarem de pegar na mão das pessoas. Isso faz uma diferença! Nossos pacientes reclamam que em alguns serviços a equipe de saúde tem medo de pegar na mão deles. Isso mostra para quem não tem hanseníase que o doutor não tem medo da doença, a auxiliar de enfermagem não tem medo da doença, a faxineira não tem medo da doença. Nós não tratamos de modo diferenciado os pacientes com ou sem hanseníase, e isso faz que as pessoas indiquem o serviço, tragam outras, avisem a gente quando suspeitam de que alguém tem a doença no lugar onde moram. Ali ele vai adquirindo informação. Getúlio, médico, integrante do Morhan
| 14 | SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE/MS |
Para investir na melhoria das relações profissionais de saúde–paciente é importante que cada pessoa esteja disposta a olhar para si e a reconhecer, sem justificativas nem culpas, suas dificuldades. O impacto dessa atitude será maior caso ela esteja inserida em uma ação coletiva no âmbito do serviço e da rede de saúde. Algumas perguntas podem conduzir essa reflexão: como eu gostaria de ser atendido se tiver hanseníase? Como são acolhidas as pessoas no serviço de saúde onde eu trabalho? Como eu/nós estou/estamos recebendo essas pessoas?
A prevenção de incApAcidAdes começA no diAgnóstico precoce
No Brasil, embora o diagnóstico da hanseníase aconteça cada vez mais cedo, muitas pessoas descobrem a doença quando já estão incapacitadas, mesmo tendo passado por serviços de saúde e consultado vários médicos.
(Parte 2 de 7)