Sociologia Ensino e Prática (livro online)

Sociologia Ensino e Prática (livro online)

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SOCIOLOGIA, ENSINO E PRÁTICA (livro online) Luanda, Setembro de 2016

Índice

Apresentação

Este livro é uma alternativa para colocarmos as dispor do público comunicações seleccionadas de duas jornadas da Repartição de Sociologia do Departamento das Ciências sociais do ISCED de Luanda e uma apresentada nas Conversas de Sociologia da COESO (Comunidade de Estudantes de Sociologia) cuja temática tem relação com a trajectória da sociologia em Angola. Continuamos a espera de uma possibilidade de publicar estes textos num livro impresso. Nesta altura, o contexto não é muito favorável a produção de uma obra do género nesta última modalidade.

Os textos que apresentamos, em seguida, versam sobre o ensino, a investigação e o associativismo na sociologia bem como questões relacionadas com o sistema de educação. Aparecem, organizados, sem obedecerem a ordem ou a painéis dos eventos em que foram expostos, estão tão-somente em função da proximidade epistemológica que têm. Infelizmente, a maioria dos participantes dos eventos que os deram origem não enviou os textos das suas comunicações, com os requisitos e em tempo solicitado, de formas que fizessem parte desta obra colectiva.

Não padronizámos os textos em termos de escrita e estilos, neste aspecto, são independentes um do outro. Para facilitar a sua citação, em cada título, colocamos uma nota de rodapé do evento em que foi apresentado.

Sociologia como ideologia em Angola1

Por Adérito Manuel aderito.manuel@isced.ed.ao

Dirigindo um olhar irónico sobre o mundo social, que revela, desmascara, descobre o escondido, a sociologia não pode eximir-se a dirigir este olhar sobre si mesma, não com a intenção de destruir a sociologia, mas, pelo contrário, de a servir, de se servir da sociologia da sociologia para fazer uma melhor sociologia P. Bourdieu

Introdução

A sociologia é das ciências que parece cada vez mais reconhecida devido, entre outros elementos descritos por Costa [1997] e Kajibanga [2009], a sua cada vez mais institucionalização universitária (com abertura de mais licenciaturas, um mestrado e uma especialidade no doutoramento de ciências sociais), intervenção nos medias, participação dos sociólogos em eventos científicos (nacionais e internacionais) e a publicação de obras de investigação.

Vivemos um momento em que a procura e a consciência da necessidade de intervenção de sociólogos parece ser cada vez maior, porque, numa sociedade em que ainda se precisa configurar e caracterizar o tecido social, não seria sério e nem aceitável continuar a menosprezar estes profissionais, que actuam nos mais variados campos da vida em sociedade.

Desde a década de 1990 têm sido feitas reflexões, no nosso país, sobre a trajectória e situação das ciências sociais em geral e da sociologia em particular [Morais, 2015; Manuel, 2014; Lembe, 2013; Kajibanga, 2009 e 2008; Vera Cruz, 2008; Caley, 2011; Costa, 1997; Pacheco, 1997; Gonçalves, 1992] abordando-se questões sobre institucionalização (académica e científica), profissionalização e popularização destas

1 Comunicação apresentada nas Conversas de Sociologia da Comunidade de Estudantes de Sociologia realizada no dia 15 de Agosto de 2015.

áreas2 . Um exercício difícil e infortúnio para uma maioria que ignora ou que considera estas ciências pouco produtivas, no sentido económico e material imediato.

Neste texto, concentramo-nos especificamente em tentar fazer uma introspecção à sociologia angolana3 , a medida que é concebido para animar a conversa de sociologia da

COESO (Comunidade de Estudantes de Sociologia)4 . Pretendemos rumar contra uma tendência já denunciada por Merton [1979: 285] de que os intelectuais das ciências sociais deviam primeiro estudar os seus próprios problemas, situação e comportamento do que despender mais energias em outrem.

Esta espécie de introspecção tem dois perigos. O primeiro é de se pensar que queremos fazer um ataque desnecessário e inoportuno a sociologia, descorando o contexto social, político, económico e cultural do País e mais particularmente no que a produção, circulação e divulgação do conhecimento científico diz respeito. Sobre o olhar a sociologia nesta perspectiva já temos alguma incursão nos textos já citados que vêm desde a década de 1990. Consideramos que a sociologia é das ciências sociais mais promissoras de Angola após 19925 . O segundo perigo é tratarmos de reflectir sobre

Angola a partir do que mais temos acompanhado em Luanda. Preferimos arriscar neste sentido porque, nas actuais condições, Luanda é o centro que reflecte tudo que acontece com a sociologia em Angola. Não temos notícias de algo que aconteça fora de Luanda que sirva de referência ou contraponto ao que sucede na capital. Aliás, a própria história do pensamento sociológico mundial não é mais do que a descrição do que acontece nos principais centro de produção, circulação e divulgação sociológicas de alguns países.

2 Com excepção de Pacheco, Gonçalves e Caley os demais autores citados são sociólogos de formação.

Talvez por isso incidem mais a reflectir sobre a situação da sociologia.

3 Em relação ao termo sociologia angolana existem três sentidos que podem ser aplicados: 1º como sociologia que é feita no território angolano (independente de serem angolanos ou estrangeiros os seus praticantes), 2º considerada aquela que é feita por angolanos de nacionalidade que realizam a maioria das suas investigações em Angola e 3º de uma tradição metodológica, teórica e epistemológica específica.

Neste artigo é aplicado o segundo sentido.

4 Sendo esta uma organização que é integrada maioritariamente por jovens em formação, em que eventualmente existirão aqueles que ainda procuram uma identidade profissional, queremos contribuir para que possam cimentar esta identidade.

5 Embora haja necessidade de fazer um balanço mais exaustivo, a nível das ciências sociais como antropologia, história, ciência política é a única que tem uma revista com mais de 13 números publicados, tem proclamada uma associação profissional e há claramente uma renovação geracional no campo académico.

Vamos fazer uma incursão, pontual e dispersa, de elementos institucionais, com os seus protagonistas, que estejam a contribuir de forma positiva ou negativa para o progresso da sociologia em Angola. É um exercício que poderá trazer algum desassossego dada a falta de profícuos debates à respeito. Por conseguinte, pensamos que tem mais vantagens, a medida que é algo que vem do interior, uma situação em que a fronteira entre o sujeito e o objecto é muito ténue.

1. Institucionalização académica e científica

1. 1. A investigação sociológica

Tratar da investigação sociológica em Angola implica, em geral, reflectir sobre a investigação científica. Vivemos numa sociedade em que o conhecimento faz conviver estágios que vão do místico à aplicação de princípios científicos, com uma tensão entre os dois. Do estado às empresas, passando por fundações pouco é feito até ao momento no sentido de reverter a situação. É neste contexto de dificuldades que vamos a seguir reflectir sobre uma disciplina cuja afirmação tem relação com produção e circulação de conhecimentos que o são peculiares, no seio de instituições de educação superior formal e de duas associações com pretensões científicas. Não queríamos terminar este item sem mostrar, em breves palavras, o nosso desapontamento em relação aos danos nefastos que a reforma educativa provocou ao ensino da sociologia.

Luíz Costa [1997: 72-93] considera que a sociologia em Angola na época colonial estava ao serviço da colonização e entre 1975 e 1992 os sociólogos ficaram sem sociologia. Este autor tinha esperanças que chegariam momentos áureos para a sociologia, em função das transformações ocorridas a partir de 1992, com Angola a tornar-se um estado democrático e de direito e com a proclamação da Associação dos Antropólogos e Sociólogos de Angola (A.A.S.A.). Apesar do conflito armado e sua consequente crise nos mais variados domínios [Carvalho 2002] de 1993 a 2003 a sociologia viveu o seu melhor período, de institucionalização académica e de popularização [Kajibanga, 2009: 197-201].

Como na maioria das ciências sociais, em Angola, quase que não existe, neste momento, investigação sociológica pura, feita de forma sistemática e permanente. Na sua maioria são produtos de trabalhos que visavam a obtenção de um grau académico a nível de licenciaturas, dissertações de mestrado e teses de doutoramento que alguns docentes têm depositado nas bibliotecas e publicados em livros6 . Individualizados e despreocupados em avançar o actual estágio de conhecimentos e pouco apoiados ou solicitados em termos de encomendas técnicas por entidades governamentais, da sociedade civil e das empresas, nós, os sociólogos, vivemos mais do que é produzido fundamentalmente no ocidente.

A sociologia é muito séria para o nosso contexto em geral, daí a imaturidade em recebêla e lhe dar os instrumentos de que necessita para aprofundar a sua marcha. Desprezada pelas elites que só quer vê-la como seu instrumento de dominação e mal compreendida pelo público em geral, passa na maior parte dos casos à margem de uma realidade que lhe oferece muitas questões para pesquisar. Esvaziados em termos de investigação, o que na maior parte das vezes se faz é especular ou apresentar dados evasivos a respeito da realidade angolana. Estamos numa encruzilhada entre a demanda por respostas sobre a realidade social e o pouco investimento que é feito na investigação científica.

Em Angola ainda precisamos muito do labor sociológico. Temos o atraso da sociologia ter sido institucionalizada na 2ª República, com todas insuficiências que a têm acompanhado neste percurso, entre os quais o de pertencermos ao mundo da língua portuguesa que nos faz ser mais consumidores de conhecimentos sociológicos produzidos neste contexto linguístico. Somos poucos lidos e divulgados cientificamente pelo mundo além da Língua portuguesa, o que nos coloca numa situação de desvantagens. No nosso País, a Língua inglesa ainda não é considerada seriamente e, por isso, a internacionalização da sociologia produzida em Angola está numa situação desvantajosa.

Outro aspecto que afecta o nosso atraso é a produção, divulgação e circulação do pouco conhecimento nesta área entre os pares. Vivemos ainda em cantos, isolados e desconectados cientificamente. Há ainda pouco diálogo (sincero e crítico) permanente e

6 Até aqui temos registado apenas dois doutorados cujas teses estão publicadas em livros. Tratam-se da de

Paulo de Carvalho (2008) e Arlindo Barbeitos (2011). Num país com muita escassez bibliográfica e parco doutorados em sociologia, achamos que todas as teses deviam estar publicadas em livros, num esforço que teria forte engajamento da SASO.

periódico. Há desconhecimento, ignorância e falta de partilha sobre o que nós produzimos.

1.2. Os sociólogos e as instituições de educação superior formal

Até 2015 existiam 13 licenciaturas legais na área de sociologia7 e em termos de pós- graduação a única instituição a proporcioná-la é a Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Agostinho Neto com um mestrado em sociologia e um doutoramento em ciências sociais em que a sociologia é uma das suas especialidades. Nestas instituições falta averiguar profundamente até que ponto a opção por uma formação nesta área se deve a uma escolha primária, secundária ou acidental. Numa situação de deficiente orientação vocacional para os jovens no contexto angolano [Zassala, 2005] não se pode esperar, num futuro próximo, que a maioria dos licenciados seja de facto sociólogo.

Na década de 1960, na Alemanha, a direcção da Sociedade de Sociologia havia apresentado uma resolução segundo o qual a Sociologia não devia ser uma licenciatura ou a curso principal porque as saídas profissionais para os sociólogos, em comparação com outras áreas, não era promissora [Adorno, 2004: 7-20]. Se numa primeira estância podemos nos dar por insatisfeitos por não haver licenciaturas em sociologia na maioria das instituições de educação superior formal, logo menos emprego para sociólogos, numa segunda nos posicionamos de forma oposta porque pode resultar disto uma banalização dos diplomados em sociologia. Há algumas iniciativas, pouco coerentes, que estão a promover cursos de sociologia. Uma ciência que se quer séria não pode andar por aí a torto e a direito simplesmente por um reduzido número de indivíduos pretenderem pertencer ao novo-riquismo e de certos actores, a todo custo, pretenderem adquirir um diploma universitário. Somos apologistas de elitismo na formação universitária no sentido paretiano8 , por considerarmos ser melhor termos poucos formados mas competentes científica, cultural e humanamente.

7 Numa brochura publicada em Julho deste ano pelo Ministério do Ensino Superior constata-se que existem 13 licenciaturas legalizadas das quais 10 são de instituições privadas e 3 de instituições públicas e 1 estão na província de Luanda, 1 em Malanje e 1 na Huila. Existem ainda 5 licenciaturas que não estão legalizadas.

8 Pareto defende que elite é uma minoria qualificada que está em melhores condições de comandar a acção colectiva.

O quantitativismo que já começa a dar sinais para afectar a sociologia não deve ser incentivado pelos sociólogos na forma como está a suceder. Qualquer ofício intelectual ainda não é demais para o caso angolano, desde que estes sejam acompanhados do equipamento necessário para o efeito. Há cursos que são criados neste momento que nem sequer tem especialistas ou autoridade que assumam a cátedra, no verdadeiro sentido da palavra, são-nos administrativamente em função da procura. No nosso caso, num futuro breve, esperamos que alguém se encarregue em fazer um estudo sobre as ocupações que têm os recém-formados em sociologia em Angola. Somos apologistas de que o qualitativo é que deve proporcionar o quantitativo e não o contrário como defendem alguns actores que têm estado a se referir no espaço público sobre a necessidade de uma formação universitária massiva.

Refúgio nas aulas

Como quase todos os profissionais que não estejam na carreira administrativa vinculados às instituições de educação superior formal, os sociólogos se dedicam fundamentalmente a docência e nem sempre integralmente. A sociologia como a maior parte dos cursos de ciências sociais têm nas instituições do ensino superior e outras de investigação científica como seu principal canteiro de produção e reprodução de conhecimentos, nada aponta, por enquanto, que será diferente no contexto angolano.

Bourdieu e Giddens, só para referir estas grandes figuras da sociologia contemporânea, não tiveram as suas vidas facilitadas para serem integrados institucionalmente nas instituições do ensino superior e outras de investigação científica dos seus países. A condição de sociólogo não tem sido fácil quando não alinhados por uma postura ideológica que não sejam da sua disciplina.

Há duas categorias de sociólogos e docentes que estão a contribuir negativamente para o fortalecimento de uma competente nova geração de sociólogos:

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