90000010-ebook-pdf - Gado de Leite

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(Parte 4 de 5)

Por que, em alguns rebanhos, as novilhas chegam aos 2 anos sem ter peso nem tamanho para cobrição, e não apresentam cio?

Provavelmente, porque não receberam alimentação adequada, capaz de lhes proporcionar o ganho médio diário (700 a 800 g/dia), necessário para atingirem o peso ideal de cobertura.

Qual o melhor procedimento quando se constata que uma novilha, sem o peso ideal de acasalamento, foi coberta acidentalmente?

O procedimento indicado é fornecer alimentação suficiente para atender às necessidades de crescimento, mantença e gestação, de modo a não prejudicar seu desempenho futuro (produção de leite e reprodução). Se for muito jovem, pode-se também provocar o aborto. Isso demonstra que as novilhas estão ciclando com pesos menores.

2 Alimentação e Manejo de Vacas e Touros

Oriel Fajardo de Campos

Rosane Scatamburlo Lizieire

Fermino Deresz

José Henrique Bruschi Milton de Souza Dayrell Ademir de Moraes Ferreira

Wadson Sebastião Duarte da Rocha Fernando César Ferraz Lopes

41 Quais as funções da proteína e da energia para bovinos?

Quais alimentos contêm esses ingredientes?

Tanto a proteína quanto a energia são vitais para atender as necessidades de mantença, ganho de peso, reprodução e produção dos animais, e permitem o bom funcionamento do sistema de defesa do organismo contra doenças.

A energia é, comumente, expressa em nutrientes digestíveis totais (NDT), ou ainda, em energia líquida (EL) do alimento. Nesse caso, desconta-se a energia perdida na forma de gases (metano) e calor, e o resultado é a quantidade de energia que é utilizada para a síntese de proteína, a partir dos aminoácidos, para acúmulo de músculo, gordura (ganho de peso), ou mesmo para a síntese dos componentes do leite, tais como proteína (caseína, albumina e globulinas), gordura e lactose (açúcar do leite).

Para a síntese desses componentes, é necessária energia líquida, que tem eficiência de utilização diferente para ganho de peso e para lactação. Uma fração da proteína do alimento no rúmen é degradada em nitrogênio não proteico (N) e aminoácidos (A). As bactérias e protozoários precisam de proteína (que pode estar na forma de N e A) para se desenvolverem no líquido ruminal. São eles que digerem a fibra do alimento por meio da produção da enzima celulase. Os produtos da digestão do alimento no rúmen são os ácidos graxos voláteis (AGV), os quais são absorvidos pela parede ruminal e entram na corrente sanguínea. Daí, são levados para o fígado e, depois, para as células da glândula mamária, para a síntese do leite (proteína, caseína, albumina e globulinas), lactose e gordura (manteiga e creme).

As bactérias presentes no rúmen, aderidas às partículas de alimentos que não foram totalmente digeridos, passam para o abomaso e sofrem digestão química por meio da enzima pepsina, ativada pelo ácido clorídrico. No intestino delgado, as proteínas também são digeridas pelas enzimas pancreáticas tripsina, quimotripsina e procarboxipeptidase.

As bactérias são degradadas em proteína de origem microbiana, sendo absorvidas como aminoácido no intestino delgado dos bovinos, assim como a proteína que escapa da digestão ruminal é degradada em A. Parte do alimento que não é digerido no rúmen é eliminada na forma de fezes.

Os suplementos energéticos mais comuns são o milho, o sorgo, o farelo de trigo, a mandioca e seus coprodutos, a polpa cítrica e a casquinha de soja. Já entre os proteicos, destacam-se o farelo de soja, o farelo e a torta de algodão, o farelo de amendoim e o farelo de girassol.

42 Proteína em excesso pode causar problemas para vacas em lactação?

Sim. O excesso de proteína sobrecarrega o fígado e os rins, pois esse excesso é excretado pela urina, com alto custo energético. Também significa maior custo financeiro, já que a parte mais cara do concentrado é, exatamente, a fração proteica. Há indícios de que a proteína em excesso também pode causar problemas no desempenho reprodutivo. Por isso, o balanceamento de rações é importante.

43 Do ponto de vista fisiológico, existe vantagem no uso de rações com pouca proteína para vacas em lactação?

Baixos níveis de proteína reduzem principalmente o consumo alimentar e a produção de leite, o que é altamente indesejável. Além disso, o baixo teor de proteína bruta (PB) na dieta resulta em baixa população microbiana no rúmen e redução da digestão dos alimentos. Portanto, deve-se fornecer a quantidade recomendada de proteína, que varia principalmente com o peso do animal, o estágio da lactação e a produção de leite.

Qual o nível máximo de nitrogênio não proteico (amônia, ureia, etc.), em relação à proteína bruta da ração para vacas leiteiras?

Recomenda-se que a quantidade de nitrogênio não proteico não ultrapasse ⅓ da proteína total da dieta.

O aproveitamento do nitrogênio não proteico pela população microbiana do rúmen depende do nível de energia da dieta. Por exemplo: em uma dieta com 18% de PB na base de matéria seca (MS), seis unidades de PB (1/3) podem ser provenientes da ureia, ou seja, 100 kg de ureia equivalem a 281% de PB (45% de N x 6,25 = 281% de PB). Então, 2% de ureia no concentrado equivalem a 5,6 unidades de PB.

Por isso, usualmente, são utilizados no máximo 2% de ureia no concentrado, pois a energia pode limitar o aproveitamento da ureia pela população microbiana e ser eliminada na urina.

Portanto, para utilizar ureia é necessário fornecer um alimento como fonte de energia, como milho moído, sorgo moído e polpa cítrica, que são ricos em energia.

45 Como as vacas leiteiras utilizam o nitrogênio não proteico?

Na realidade, é a população microbiana (bactérias, principalmente) presente no rúmen da vaca que tem a habilidade de usar o nitrogênio de fonte não proteica para a formação de aminoácidos, garantindo o crescimento e a multiplicação microbiana.

Salienta-se que o aproveitamento do nitrogênio não proteico no rúmen é otimizado quando há energia disponível em quantidade suficiente para o crescimento da população microbiana. A quantidade de ureia na dieta deverá respeitar os limites recomendados, como no caso da cana, em que se recomenda a adição de 1% de ureia, e nos concentrados, de 2%.

As proteínas de origem microbiana que chegam ao abomaso são digeridas e posteriormente absorvidas no intestino delgado, como aminoácidos.

O fornecimento de ureia por longos períodos, mesmo que nas dosagens recomendadas, provoca problemas reprodutivos nas vacas?

O uso diário de ureia não prejudica a reprodução, se obedecidos os limites máximos recomendados. Mas o excesso de ureia, ou até mesmo de proteína na dieta, pode interferir, em certas situações, na reprodução das vacas.

47 Energia em excesso pode causar algum problema para vacas em lactação?

Sim. O excesso de energia na dieta das vacas pode ser acumulado na forma de gorduras.

Vacas obesas (escore acima de 4, em uma escala de 1, para vacas muito magras, até 5, vacas muito gordas) têm maior propensão para problemas reprodutivos e estão mais sujeitas a apresentar distúrbios metabólicos, como a acetonemia (cetose, doença causada pelo acúmulo de corpos cetônicos no sangue) e o deslocamento de abomaso.

A acetonemia provoca redução no consumo de alimento, especialmente na fase inicial da lactação (primeiros 100 dias), com consequências diretas sobre a produção de leite. Por isso, a vaca não deve parir gorda.

48 Qual a importância da alimentação na reprodução?

A alimentação é fator extremamente importante para a obtenção de bons índices reprodutivos no rebanho.

Rebanhos leiteiros que não dispõem de um bom sistema de alimentação apresentam idade tardia à primeira parição e longos intervalos de partos. Para se obter uma boa reprodução, recomenda-se que as vacas estejam com escore corporal de 3,5 ao parto e que tenham dieta bem balanceada em energia, proteína, fibra, minerais e vitaminas.

Usualmente, nos primeiros 100 dias de lactação, recomendase utilizar 60% de concentrado e 40% de volumoso, na base de matéria seca. Nos primeiros 100 dias de lactação, a dieta determina o desempenho reprodutivo. E esse tipo de dieta permite maximizar o consumo de alimento nessa fase.

49 Por que a energia é importante para a reprodução?

Com relação ao metabolismo da vaca, a energia é indispensável para o funcionamento normal dos órgãos, em especial do cérebro e da hipófise, responsáveis pela produção de hormônios necessários para estimular o ovário. Por sua vez, esses hormônios são sintetizados a partir de aminoácidos e de ácidos graxos, e a produção desses compostos é também sempre dependente de energia.

Por essas razões, deve-se estar sempre atento à fase inicial da lactação, quando, por diversas razões, normalmente, ocorre deficiência de consumo de energia pelas vacas. Isso pode significar prejuízos econômicos ao produtor de leite, já que em função disso ocorre atraso do retorno ao cio após o parto e, consequentemente, aumento no período de serviço e no intervalo de partos.

50 Até que ponto uma vaca consegue produzir e reproduzir com dietas deficientes em energia?

As vacas recém-paridas mobilizam reservas corporais como estratégia fisiológica para garantir a produção de leite. No início da lactação é comum as vacas estarem em balanço energético negativo (perdendo peso ou escore corporal) e, se isso estiver acontecendo, a produção de leite é maior do que a esperada pela quantidade de energia e proteína fornecida pela dieta.

Em outras fases da lactação, as vacas poderão também utilizar a energia a partir da gordura acumulada no organismo, se, na dieta, a quantidade da fonte energética for limitante para a produção de leite.

Entretanto, esse processo tem um custo para a vaca e, consequentemente, para o produtor, pois nas outras fases da lactação ou no período seco (60 dias antes do parto), essas reservas deverão ser repostas com dietas mais ricas em energia para recuperar a gordura corporal mobilizada nas fases de déficit energético. Por isso, as vacas podem perder uma unidade de escore corporal (3,5 para 2,5, em uma escala de 1 a 5).

Essa perda equivale a 50 kg a 70 kg de peso na forma de gordura. Portanto, recomenda-se que a vaca tenha um escore de 3,5 no parto. Isso possibilitará que a vaca possa perder peso na fase inicial da lactação, sem afetar negativamente a atividade ovariana da vaca (reprodução).

É bom salientar que a vaca com escore menor que 3,5 não expressa o potencial que tem para produzir leite, pois certamente ela emagrecerá, prejudicando, também, a reprodução, pelo atraso para entrar em cio e mesmo em apresentar anestro (não mostrar cio), até recuperar o escore corporal por meio de maior consumo de alimento. Especialmente no terço final da lactação, há indicações de que a mobilização de reservas corporais pode contribuir com até 30% da produção de leite.

51 As vacas secas devem receber pouca alimentação, uma vez que não geram receita?

Não. A subnutrição da vaca no período seco (em que não está produzindo leite) pode resultar em problemas para o desenvolvimento normal do feto (se ela estiver prenhe), em problemas no parto e em menor produção de leite na lactação seguinte. Também pode ocorrer atraso no aparecimento do cio pós-parto, dependendo da extensão da subnutrição.

Devem-se separar as vacas secas daquelas em lactação, fornecendo-lhes uma alimentação adequada (12% a 14% de PB e 65% de NDT), ou pastagem bem manejada na época das chuvas.

52 Qual a melhor estratégia de alimentação das vacas no período pré-parto?

No período pré-parto – os 2 últimos meses de gestação – não existe uma regra fixa de alimentação a ser seguida. O programa de alimentação depende da condição corporal das vacas no início desse período. O objetivo principal é atingir condição corporal, ou escore corporal de 3,5 ao parto. Se estiverem muito magras, essa é a última chance de se recuperá-las com suplementação alimentar. Nas últimas 3 semanas, recomenda-se utilizar 1% de concentrado em relação ao peso vivo da vaca e fornecer o mesmo concentrado das vacas na fase 1 da lactação (até os 100 dias).

53 Deve-se fornecer concentrado para as vacas no período pré-parto?

Recomenda-se que, pelo menos 21 dias antes do parto, as vacas comecem a receber o mesmo concentrado que as vacas em lactação (do lote da fase inicial, primeiros 100 dias de lactação), sendo fornecido na quantidade equivalente a 1,0% do peso vivo, o que irá minimizar os problemas de distúrbios metabólicos pósparto, muito frequentes em vacas de média e alta produção.

O fornecimento de concentrado pode começar mais cedo, de acordo com as condições corporais das vacas, no início do período pré-parto, em quantidade que depende do ganho de peso desejado. Deve-se também evitar o fornecimento de cálcio em excesso, a fim de reduzir as possibilidades de ocorrência de febre do leite, após o parto.

54 Convém secar a vaca quando estiver faltando 60 dias para o parto, caso ela esteja muito magra?

Sim. O ideal seria melhorar a alimentação da vaca ainda em lactação (na fase de 201 a 300 dias de lactação). A vaca em lactação é mais eficiente do que a vaca seca na utilização de energia para depósito de reservas corporais (ganho de peso). Além disso, na fase final de lactação, o organismo dá prioridade para a recomposição de reservas corporais, ganho de peso e crescimento do feto e da placenta, em lugar da produção de leite.

Portanto, para evitar gasto energético e nutricional para a produção de leite, recomenda-se secar a vaca magra. O indicado para vacas magras seria formar um grupo que possibilite o tratamento específico para recuperar o peso ideal para o novo ciclo.

O que é possível fazer para que haja mais nascimentos de bezerros por vaca, sem prejudicar o descanso normal do animal?

É possível aumentar o número de bezerros durante a vida útil da vaca reduzindo o intervalo de partos. Em muitos rebanhos, o intervalo de partos é muito longo, 15 a 18 meses. O ideal é obter intervalos de partos de 12 meses, o que representa uma cria por vaca/ano.

Para alcançar esse objetivo, é imprescindível estabelecer um bom plano de alimentação para as vacas, antes e depois do parto, uma vez que a alimentação tem influência direta sobre a reprodução. Devem-se adotar medidas de manejo, como secar a vaca 60 dias antes do parto.

Além disso, as vacas de primeira lactação são as que apresentam o intervalo, do parto ao primeiro cio, mais longo, o que é determinado pelo erro no manejo nutricional. Essas vacas devem atingir 80% do peso adulto na data do primeiro parto. O peso ao parto é a variável mais importante para uma produção de leite normal e para um bom desempenho reprodutivo, sendo considerado mais importante do que a idade ou o peso no momento da cobertura/inseminação.

Recomenda-se que as vacas de primeira lactação sejam tratadas em lote separado e que, no cálculo da dieta, sejam aumentadas em 20% as necessidades de mantença, pois esse animal ainda está crescendo e precisa ganhar peso na primeira lactação, para que no segundo parto tenha peso maior que no primeiro.

56 Quais as possíveis razões para o emagrecimento de vacas depois do parto?

Exceto por razões de doença, é normal que as vacas percam peso durante as primeiras semanas de lactação, principalmente as de alta produção.

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