Livro - Metodologia Científica e de Pesquisa

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(Parte 3 de 4)

Fonte:

HEERDT, M. L. Pensando para viver: alguns caminhos da fi losofi a. 5. ed. Florianópolis: Sophos, 2003.

UNIDADE 2 Ciência 2

Objetivos de aprendizagem

Compreender diferentes concepções de ciência; conhecer uma visão histórica de ciência;

conceituar método e técnica;

identifi car métodos e técnicas de pesquisa.

Seções de estudo

Seção 1 O que é ciência? Seção 2 Concepções históricas de ciência Seção 3 Divisão da ciência Seção 4 Métodos e técnicas de pesquisa

Para início de conversa

Na unidade anterior você teve a oportunidade de estudar o conceito de conhecimento e as formas de conhecimento. Nesta segunda unidade, você irá aprofundar aspectos relacionados ao conhecimento científi co. Você verá os vários elementos que compõem esse tipo de conhecimento: conceito, desenvolvimento ao longo dos tempos e as visões racionalista, empirista e construtivista de ciência, entendendo que o foco de interpretação muda conforme as bases teóricas na qual ela se fundamenta. Você verá também que o conhecimento científi co depende do tipo de método de abordagem existente, tais como os métodos dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo e dialético. Por fi m, irá conhecer os diferentes tipos de métodos de procedimentos e técnicas científi cas, diferenciando-os e comparando-os. Há muito para aprender nesta unidade, por este motivo lhe desejamos uma boa leitura! E não esqueça: as atividades de auto-avaliação podem ajudar na sistematização dos seus estudos.

SEÇÃO 1 O que é ciência?

Para que você compreenda o que é o conhecimento científi co é necessário compreender o signifi cado da palavra Ciência.

Etimologicamente, a palavra ciência, do latim scientia, signifi ca “saber”, “verdade”, “conhecimento”. Nesse sentido, pode-se afi rmar que a principal característica do conhecimento científi co é a busca pela apreensão da realidade humana e natural.

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No entanto, falar de ciência ou conhecimento científi co não é algo tão fácil assim e isso jamais poderá ser feito sem polêmicas. A razão é bem óbvia: se você questionar um empirista sobre esta questão, perceberá que ele usará termos como observação, experimentação, etc.; já um positivista falará de dados objetivos e lógicos, um funcionalista dará explicações dos fatos sociais; um materialista abordará os fenômenos históricos, sociais, políticos e econômicos e um racionalista evocará o poder da razão para analisar e expressar o conhecimento e assim por diante.

Se não podemos chegar a um consenso sobre ciência, podemos, pelo menos, elencar alguns elementos para refl etir sobre a mesma, tais como:

racionalidade; objetividade;

historicidade;

questionamento sistemático;

dialogicidade/discutibilidade;

Vamos ver de que forma cada um desses elementos se confi gura?

Racionalidade - Para Köche (1997, p. 31), o ideal da racionalidade está em atingir uma sistematização coerente do conhecimento. O conhecimento das diferentes teorias e leis se expressa formalizado em enunciados que, confrontados uns com os outros, devem apresentar elevado nível de consistência lógica entre suas afi rmações.

Objetividade - O ideal da objetividade pretende que as teorias científi cas, como modelos teóricos representativos da realidade, sejam construções conceituais que representem com fi delidade o mundo real, que contenham imagens dessa realidade que sejam “verdadeiras”, evidentes, impessoais, passíveis de serem submetidas a testes experimentais e aceitas pela comunidade científi ca como comprovadas em sua veracidade. (köche, 1997, p. 32).

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Socialização - O conhecimento científi co difi cilmente é fruto da intuição individual de um cientista, pois todos partem de teorias, leituras, refl exões e questionamentos. Nesse sentido, podemos afi rmar que a ciência é produzida socialmente.

Historicidade - Deve-se ter claro que a ciência, por mais verdadeira que possa ser num determinado contexto, também é histórica, ou seja, ela está relacionada diretamente à época em questão. Trata-se de algo dinâmico e em contínuo processo de aperfeiçoamento:

Se as verdades científi cas fossem defi nitivas, a ciência deixaria de existir como ciência, como pesquisa, como experiências novas, e a atividade científi ca se reduziria a uma divulgação do já visto. O que não é verdade, para a felicidade da ciência. Mas, se as verdades científi cas não são defi nitivas nem peremptórias, a ciência, ela também, é uma categoria histórica, um movimento em contínuo desenvolvimento (gramsci, 1986 apud mendes sobrinho; frota, 1998, p. 7).

Por muito tempo considerou-se a ciência como acúmulo de teorias. Hoje temos uma visão mais qualifi cadora, ou seja, o mundo muda, então as concepções científi cas também estão sujeitas à mudanças.

Questionamento sistemático - Pedro Demo (2000, p. 17) afi rma que um critério importante para defi nir ciência reside no seguinte: ser um questionamento sistemático.

Assim, o contrário da ciência é a falta de questionamento sistemático. O senso comum não é científi co porque aceita sem discutir, ou melhor, porque não aplica ao conhecimento nele implicado sufi cientemente sistematicidade questionadora.

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Os meios de informação disponíveis atualmente colaboram enormemente com esta característica de ciência. Basta pensar na Internet, na vídeo e teleconferência e em outras ferramentas. Podemos debater com o mundo inteiro a qualquer hora do dia.

Dialogicidade/discutibilidade - Jürgen Habermas introduz um conceito interessantíssimo de ciência: a capacidade de diálogo crítico. Descrita nestes termos por Demo (2000, p. 21, grifo nosso):

[...] a discutibilidade é o critério principal de cientifi - cidade. Sobretudo o avanço científi co e a capacidade de inovação se mantêm, recuperam, desenvolvem sob o signo da discussão aberta irrestrita. Somente pode ser científi co o que for discutível. A ciência tem compromisso iniludível de ser crítica e criativa.

Com certeza é uma característica próxima do questionamento sistemático. No entanto, Habermas complementa com a necessidade de discutirmos os parâmetros éticos e as relações existentes entre o saber e os interesses das classes dominantes. Na obra Conhecimento e interesse, de 1968, ele combate a neutralidade pretendida pelo tecnicismo e denuncia o caráter ideológico da ciência e da técnica.

Formalidade - Outra característica importante da ciência é a formalidade. Afi nal, para que o questionamento seja tanto mais viável, há de ser formalmente lógico, bem sistematizado, argumentado da melhor maneira possível, elaborado rigorosamente e coerentemente. (demo, 2000, p. 23).

Esta característica não interfere na questão do conhecimento ser verdadeiro ou falso, diz respeito apenas à sua apresentação formal e lógica, de modo que seja possível estabelecer um diálogo com outras teorias.

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Paradigmática - Th omas Kuhn (1922-1996) acredita que é a prática do cientista que caracteriza o seu trabalho, sendo imprescindível levar em consideração o aspecto histórico.

Nessa direção, Kuhn afi rma que a ciência não é um processo linear e evolutivo. A ciência é movida por paradigmas.

Em seu livro A estrutura das revoluções científi cas (1962), ele sustenta a tese de que a ciência se desenvolve durante certo tempo a partir da aceitação, por parte da comunidade científi ca, de um conjunto de teses, pressupostos e categorias que formam um paradigma, ou seja, um conjunto de normas e tradições dentro do qual a ciência se move e pelo qual ela pauta a sua atividade.

Em determinados momentos, porém, essa visão ou paradigma se altera, provocando uma revolução, que abre caminho para um novo tipo de desenvolvimento científi co. Foi o que se deu, por exemplo, na passagem da física antiga à física moderna, ou ainda na passagem da física clássica à física quântica. De acordo com Kuhn, é como se ocorresse uma nova reorientação da visão global, na qual os mesmos dados são inseridos em novas relações. (cotrin, 2002, p. 250).

Paradigmas, então, são conquistas científi cas universalmente reconhecidas, que por certo período fornecem um modelo de problemas e soluções aceitáveis aos que atuam em certo campo de pesquisas.

Um cuidado: o cientifi cismo

A ciência e o senso comum podem abordar as mesmas questões. O que as diferencia é a maneira de conhecer e de dar as razões para o conhecimento. O senso comum quase sempre ocorre ao acaso, na vivência do cotidiano, e difi cilmente oferece as razões e os porquês dos fenômenos. Já o conhecimento científi co é uma intencionalidade e deve oferecer as razões para os fenômenos estudados. Por isso a pesquisa é tão importante para a ciência.

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No entanto, também não podemos concordar com a idéia de que tudo deve passar pela medida da ciência. Basta lembrar o fi nal do século xix e início do século passado, quando houve uma grande exaltação à ciência, fruto do iluminismo e do positivismo, principalmente. Acreditava-se que a razão e a ciência resolveriam os problemas da humanidade.

Essa exaltação, segundo Aranha (1998, p. 139), provocada pelo avanço da ciência moderna, desembocou no cientifi cismo, visão reducionista segundo a qual a ciência seria o único conhecimento válido. Dessa forma, o método das ciências da natureza – baseado na observação, experimentação e matematização – deveria ser estendido a todos os campos do conhecimento e a todas as atividades humanas. A ciência virou praticamente um mito.

Atualmente, a concepção de ciência está mais aperfeiçoada. Ela não é mais considerada como algo pronto, acabado, defi nitivo ou neutro. Não é a posse de verdades imutáveis e precisa ter consciência de sua falibilidade e de seus limites. Para Manoel de Barros (apud alves, 1999, p. 103): “A ciência pode classifi car e nomear os órgãos de um sabiá, mas não pode medir seus encantos”.

SEÇÃO 2 Concepções históricas de ciência

Historicamente, segundo Chauí (1998, p. 252), são três as principais concepções de ciência ou de ideais de cientifi cidade: a racionalista, a empirista e a construtivista.

A concepção racionalista

Essa concepção afi rma que a ciência é um conhecimento racional dedutivo e demonstrativo. O objeto científi co é uma representação intelectual universal, necessária e verdadeira das coisas representadas que corresponde à própria realidade, haja visto que esta é racional e inteligível em si mesma.

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As experiências científi cas são realizadas apenas para verifi car e confi rmar as demonstrações teóricas e não para produzir o conhecimento do objeto, este, por sua vez, é conhecido exclusivamente pelo pensamento.

O racionalismo apóia-se numa confi ança na capacidade do intelecto humano para conhecer o real e acredita que a razão constitui o instrumento fundamental para a compreensão do mundo.

O pensamento de René Descartes (1596-1650), considerado o pai do racionalismo, desenvolvido sobretudo em seu livro Discurso sobre o método (1637), fundamenta-se numa primeira evidência (“penso, logo existo”). A garantia da certeza das novas idéias se produzia quando cumpriam a condição de serem claras, distintas e não contraditórias.

A concepção empirista

Afi rma que a ciência é uma interpretação dos fatos baseada em observação e experimento; que permitem estabelecer induções, e que, ao serem completadas, oferecem a defi nição do objeto, suas propriedades e suas leis de funcionamento.

Nesta concepção, sempre houve grande cuidado para estabelecer métodos experimentais rigorosos, pois deles dependia a formulação da teoria e a defi nição da objetividade investigada.

John Locke (1632-1704) foi um dos grandes sistematizadores do empirismo. Negava radicalmente que existissem idéias inatas. Quando se nasce, argumentava, a mente é uma página em branco que a experiência vai preenchendo.

A concepção construtivista

Considera a ciência uma construção de modelos explicativos para a realidade e não uma representação da própria realidade. O cientista combina dois procedimentos – um, vindo do racionalismo, e outro, vindo do empirismo – e a eles acrescenta um terceiro, vindo da idéia de conhecimento aproximativo e corrigível.

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O cientista não espera que seu trabalho apresente a realidade em si mesma, mas ofereça estruturas e modelos de funcionamento da realidade, explicando os fenômenos observados. São três as exigências de seu ideal de cientifi - cidade:

a) que haja coerência (isto é, que não haja contradições) entre os princípios que orientam a teoria; b) que os modelos dos objetos (as estruturas do fenômenos) sejam construídos com base na observação e na experimentação; c) que os resultados obtidos possam não só alterar os modelos construídos, mas também alterar os próprios princípios da teoria, corrigindo-a.

Pela proposta construtivista de Jean Piaget (1896 –1980), o conhecimento não é um produto pronto ou acabado, pois está sujeito e é fruto da integração com o meio social, político, cultural e físico, com as relações sociais, com a imaginação pessoal, etc. Atribui também papel ativo do ser humano na construção do processo de conhecimento.

SEÇÃO 3 Divisão da ciência

Das inúmeras classifi cações feitas, de acordo com Chauí (1998, p. 260-261), as mais conhecidas e utilizadas foram propostas tendo em conta três critérios: tipo de objeto estudado, tipo de método empregado e tipo de resultado obtido. Desses critérios e da simplifi cação feita sobre as várias classifi cações anteriores, resultou aquela que é a mais usada atualmente:

Ciências matemáticas ou lógico-matemáticas: aritmética, geometria, álgebra, trigonometria, lógica, física pura, astronomia pura, etc.

Ciências naturais: física, química, biologia, geologia, astronomia, geografi a física, paleontologia, etc.

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Ciências humanas ou sociais: psicologia, sociologia, antropologia, geografi a humana, economia, lingüística, arqueologia, história, etc.

Ciências aplicadas (ciências que conduzem à invenção de tecnologias para intervir na natureza, na vida humana e nas sociedades): direito, engenharia, medicina, arquitetura, informática, etc.

Cada uma destas ciências subdivide-se em ramos específi cos, com nova delimitação do objeto e do método de investigação.

SEÇÃO 4 Métodos e técnicas de pesquisa

Se você deseja chegar a um conhecimento de nível científi co precisa seguir alguns passos importantes. É necessário saber o que fazer e como fazer para se chegar às conclusões desejadas. Para tal, é fundamental que você tenha clareza dos conceitos de método e técnica.

O método, segundo Garcia (1998, p. 4), representa um procedimento racional e ordenado (forma de pensar), constituído por instrumentos básicos, que implica utilizar a refl exão e a experimentação, para proceder ao longo do caminho (signifi cado etimológico de método) e alcançar os objetivos preestabelecidos no planejamento da pesquisa.

Esse método não pode ser visto como receita rígida de regras, capaz de garantir soluções para todos os problemas. Nunca existiu essa receita única, pois método científi co não é conjunto fi xo e estereotipado de atos a serem adotados em todos os tipos de pesquisa cientifi ca. (cotrin, 2002, p. 241).

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