Voz da cabballa

Voz da cabballa

(Parte 2 de 4)

As perguntas e as dúvidas não o abandonaram, até que um belo dia se deteve e perguntou: “Será que o mundo não tem um Amo? O Senhor o olhou e disse: “Eu sou o Amo do mundo” (Bereshit Raba, 39:1).

A partir de então, Abraham mudou seu nome e se converteu em

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Abraham, o Patriarca, precursor de uma nova linha de pensamento que não exalta o prazer em si mesmo e sim, a relação com quem o proporciona. Abraham explicou que para receber prazer é necessário conhecer a lei universal que governa toda a natureza, assemelhar-se a ela e assim, automaticamente, todos os prazeres do universo seriam nossos. O problema, concluiu, não é que queremos desfrutar, mas sim que não queremos saber de onde provém o prazer.

Abraham desenvolveu, em conseqüência, um método de ensino para alcançar esta relação com o Outorgante mediante a semelhança com Ele. Ensinou que Ele não é um ser e sim um princípio segundo o qual tudo funciona, o principio do outorgamento. Abraham dedicou sua vida a difusão deste método, a chave para ser feliz na vida.

Desde então, os sábios têm desenvolvido o método de Abraham, dandolhe diferentes nomes em diversas épocas, porém conservando sua essência.

A VOZ DA CABALA24

O grande Cabalista do séc. XVI, o Rabino Haim Vital escreveu que através de todas as gerações os ensinamentos têm sido sempre os mesmos em sua essência, a Sabedoria da Cabala , a sabedoria de receber (o prazer).

Atualmente, cada vez mais pessoas sentem que lhes falta um elemento chave em suas vidas e perguntam-se porque não podem ser felizes. A elas, a Cabala oferece uma resposta genuína e válida que tem esperado ser descoberta durante milênios e hoje em dia está à disposição de todos para se beneficiarem dela.

Sua utilização pode reunir as culturas divididas, curar a rejeição e aproveitar os dotes individuais para o bem de toda a humanidade. É este o elemento faltante, o adesivo que pode tornar possível uma única linguagem, um só pensamento, apesar dos séculos de animosidades, para que nunca mais voltemos a nos separar.

Os desejos não surgem do nada. Formam-se inconscientemente em nosso interior e surgem somente quando chegam a ser algo definido, como “Quero pizza”. Antes disto, os desejos não são percebidos ou ao menos, sentidos como uma inquietude geral. Todos têm experimentado esse sentido de querer algo, porém não sabendo exatamente o que; é um desejo que ainda não amadureceu.

Platão disse uma vez: “A necessidade é a mãe da invenção” e estava certo. De forma similar a Cabala ensina-nos que a única forma pela qual podemos aprender algo é primeiramente querendo fazê-lo. É uma fórmula muito simples: quando queremos algo, fazemos o necessário para conseguilo. Criamos tempo e acumulamos energia e desenvolvemos as habilidades necessárias. Isto significa que o motor da mudança é o desejo.

A forma em que se desenvolvem nossos desejos define e determina toda a história da humanidade. À medida que estes se desenvolvem, motivam as pessoas a estudarem seu meio ambiente, de forma que possam realizar seus desejos. Diferente dos minerais, plantas e animais as pessoas se desenvolvem constantemente. Em cada geração e em cada pessoa, os desejos

“… é totalmente impossível realizar um mínimo movimento sem alguma motivação ou seja, sem a possibilidade de beneficiar- se de alguma forma.

Rabi Yehuda Ashlag, “A Paz”

desejOs - O mOtOr da mudança

A VOZ DA CABALA26 surgem mais e mais fortes.

“… quando uma pessoa move sua mão da cadeira para a mesa parece-lhe que ao por a mão sobre a mesa, receberá maior prazer. Se não pensar assim, a pessoa deixaria sua mão na cadeira pelo resto de sua vida sem move-la sequer um centímetro; não há que falar de um maior esforço.

Rabi Yehuda Ashlag, “A Paz”

O motor da mudança –o desejo– é feito de cinco níveis, de zero a quatro. Os Cabalistas se referem a este motor como “o desejo de receber prazer” ou simplesmente “o desejo de receber”. No início da Cabala, há uns 5.0 anos, o desejo de receber estava no nível zero. Hoje, como podemos adivinhar está no nível quatro, o nível mais intenso.

Porém, naqueles novos dias em que o desejo de receber estava no nível zero, esses desejos não eram suficientemente fortes para nos separar da natureza e uns dos outros. Naqueles dias, esta unidade com a natureza que hoje em dia muitos de nós pagamos para re-aprender em classes de meditação (e reconheçamos, nem sempre com êxito), era a forma natural de vida. As pessoas não se conheciam de outra maneira, inclusive não imaginavam que poderiam estar separadas da natureza, nem desejavam.

Em realidade, naqueles dias, a comunicação da humanidade com a natureza e uns com os outros discorria com tanta fluidez que as palavras não eram necessárias e em seu lugar, comunicavam-se mediante o pensamento, em forma similar a telepatia. Era um tempo de unidade e a humanidade por completo era uma só nação.

Mas então ocorreu uma mudança: os desejos começaram a crescer e chegaram a ser mais egoístas. As pessoas quiseram mudar a natureza e usá-la em proveito próprio. Em lugar de querer adaptar-se a esta, quiseram mudá-la para suas próprias necessidades. Chegaram a distanciar-se da natureza e, por conseguinte a separar-se e alienar-se entre si. Hoje, muitos séculos depois, estamos descobrindo que esta não foi uma boa idéia; simplesmente não funciona.

E mais, desde aquela divisão, temos estado confrontando a natureza. Em

I: Conceitos Básicos 27 lugar de corrigir o aumento do egoísmo para permanecer em união com a natureza, temos construido um escudo mecânico e tecnológico que assegura nossa protegida existência dos elementos naturais. Isto significa, sem dúvida, que sejamos conscientes ou não, estamos em realidade tratando de controlar a natureza e tomar o assento do condutor.

Hoje em dia, muita gente está se cansando do fracasso das promessas tecnológicas de riqueza, saúde e o mais importante, de um amanhã seguro. Muitos poucos obtiveram tudo isso hoje em dia e inclusive não podem afirmar que terão o mesmo amanhã. Porém, o beneficio deste estado é que nos está forçando a reexaminar nossa direção e nos indagarmos: ”É possível que estejamos errando o caminho?”

Particularmente hoje, na medida em que reconhecemos a crise e o ponto morto que enfrentamos, podemos admitir abertamente que o caminho que temos escolhido é um beco sem saída. Em lugar de compensar nosso egoístico distanciamento da natureza escondendo-nos na tecnologia deveríamos fazer a mudança deste por altruísmo e conseqüentemente pela unidade com a natureza. Na Cabala, o termo usado para esta mudança é Tikkun (correção).

Conscientizarmo-nos de nosso alijamento da natureza significa reconhecer a divisão que aconteceu entre nós (seres humanos) há cinco mil anos. Isto é chamado “o reconhecimento do mal”. Não é fácil, mas é o primeiro passo para um amanhã melhor.

Ninguém gosta de encontrar-se engarrafado no meio do trânsito, andar entre a multidão de consumidores num “shopping” ou esperar para sempre na fila do caixa de um supermercado. Por que existem estas multidões?

Sempre estamos dispostos a compartilhar o mundo com amigos e parentes, com dezenas ou centenas de pessoas; a necessidade de compartilhar com os outros sete bilhões, sem dúvida, está menos clara. Por que então,há tanta gente no mundo?

O sentido comum nos demonstra que ter relações recíprocas com as pessoas nos é conveniente. Se estivéssemos sozinhos no mundo, comer inclusive uma fatia de pão requereria um grande esforço. Ou seja, semear o

Cada um de nós é uma peça do quebra cabeças que uma vez foi à única alma existente, a alma de Adam HaRishon (o Primeiro Homem). é chegado o momento de reunir todas estas peças: o tempo de correção é agora.

FragmentandO a alma

A VOZ DA CABALA30 trigo, esperar crescer, cozinhá-lo, moê-lo, amassá-lo e fazer o pão. Inclusive teríamos que construir o forno.

Em lugar disto, podemos ir à padaria mais próxima e comprá-lo com pouco dinheiro e seguir desfrutando da vida sem perder mais que uns minutos na compra. Ou seja, trabalhamos várias horas ao dia e gozamos dos produtos do resto do mundo. Gozamos do ótimo chocolate belga, do “fast food” americano, dos relógios suíços e do café brasileiro. Os chineses fazem os carros de brinquedo para nossas crianças e os japoneses fabricam os carros verdadeiros que nós dirigimos.

Mas esta é uma boa razão para que tanta gente exista? Se houvesse um bilhão de pessoas a menos no mundo sentiríamos sua ausência?

Os Cabalistas dizem que todos provêm de uma única alma, chamada “a alma de Adam HaRishon “ (o primeiro homem), que foi criada pelo Criador com o desejo geral de receber prazer e deleite, uma natureza completamente oposta a DÊLE, que é de total entrega e amor. A tarefa da alma de Adam HaRishon é a de assemelhar-se a natureza do Criador e ser tão afetiva e doadora como Ele, alcançando assim o ápice de todos os prazeres, o gozo infinito.

Segundo a Cabala, quando a alma de Adam HaRishon foi criada, tinha uma relação com o Criador que lhe causava um prazer limitado porque não havia se esforçado de forma independente para alcançá-lo.

O Criador quis que a alma de Adam HaRishon se desenvolvesse por seu próprio meio. Expondo-a então, em um ato premeditado, aos maiores prazeres, esta recebeu os prazeres e enchendo-se de regozijo, perdeu toda a noção do Criador – quem lhe havia proporcionado o deleite – e todo contato com Ele.

É como uma pessoa que reza para ganhar na loteria, prometendo doar a metade do prêmio para a caridade. Porém, uma vez que realmente ganhe, o prazer a que se expõe a supera e suas prioridades mudam. Se “furta” de sua promessa e encontra repentinamente melhores alternativas de aplicação

I: Conceitos Básicos 31 do que doar o dinheiro.

FRAGmENTOS DO PRAZER

Como resultado do “esquecimento” da relação com o Criador, a causa do grande prazer, a alma de Adam HaRishon foi afastada do mundo espiritual, dividindo-se em múltiplas partes chamadas “almas particulares” que logo foram descendo a este mundo “vestindo-se” em corpos humanos individuais, para poderem aprender gradualmente como receber o prazer predeterminado, em porções administráveis, sem perder o contato com o outorgante do prazer, o Criador.

De igual forma, se desejamos mover um peso de uma tonelada, não podemos pedir que uma só pessoa o faça. Porém, se dividirmos a tonelada em mil pequenos pedaços de um quilo e darmos uma só peça a cada uma de mil pessoas, poderemos facilmente mover este peso.

Este processo se expressa concisamente numa parábola de Baal

HaSulam: “havia um rei que queria enviar uma grande soma de moedas de ouro a seu filho, que vivia muito longe. Lamentavelmente, todas as pessoas em seu país eram ladras e enganadoras e o rei não tinha nenhum mensageiro leal. Que fazer? Dividiu as moedas em pequenas quantidades e as enviou através de muitos mensageiros, assim não valeria a pena mancharem sua honra pelo prazer de roubar.” (Árvore da vida, Baal HaSulam).

Hoje, nos encontramos num estado de pós-ruptura, em que cada um de nós é um mensageiro do rei que leva consigo uma pequena parte do grande tesouro do Criador. Nossa missão é fazer o que pede o rei e voltar a restabelecer a conexão com Ele, enquanto estamos vivos. Até que levemos as moedas a seu lugar, continuaremos voltando a este mundo.

Os Cabalistas que já atravessaram este processo, se referem a ele como

Tikkun (correção). Eles nos ensinam como corrigir nosso “pequeno - prazer” individual, para chegar ao alto da Escada Espiritual e não ter que reencarnar mais neste mundo.

A VOZ DA CABALA32

O CONJUNTO é (mUITO) mAIS DO QUE A SOmA DAS SUAS PARTES

O propósito do estudo da Cabala é ajudar a cada um de nós – partes individuais da alma de Adam HaRishon – a restaurar nossa unidade da maneira mais rápida e útil possível. Quando cada um corrigir sua parte, estaremos realizando a meta para a qual viemos a este mundo e finalmente poderemos desfrutar em conjunto dos enormes prazeres que o Criador desejou para nós no Pensamento da Criação.

4 a lei da realidade

Imagine-se como um curioso neste mundo. Você e Eu nos encontramos a um metro de distancia, nos falamos nos vemos, mas nenhum de nós tem a menor idéia sobre os pensamentos e desejos do outro. É possível até que neste preciso momento esteja pensando em outra pessoa que vive ou viveu em algum outro continente ou época.

É sabido que as pessoas enamoradas “levam consigo” a amada aonde quer que vá. Falar-lhes é uma experiência realmente curiosa; onde estiverem, seus pensamentos estão no maravilhoso “mundo sublime” dos enamorados.

Em contraste a isto, se me perguntarem ao lado de quem estive sentado hoje no metrô, no caminho do trabalho, ou ao lado de quem estive parado na fila para comprar as entradas da semifinal de futebol, seguramente

“… como a faca corta e divide um objeto físico em dois, assim a diferença de forma separa e divide o objeto espiritual em dois..”

Rabi Yehuda Ashlag, “Introdução ao Zohar”

A VOZ DA CABALA34 não poderia dizer, porque mesmo esperando na fila ou viajando no metrô, estava pensando em outras coisas ou pessoas.

“… não se trata de estar perto ou longe fisicamente, mas

Rabi Yehuda Ashlag, “Introdução ao Zohar”

sim de equivalência de forma…

A conclusão é que a proximidade corporal não é o mesmo que a proximidade em nossa vida interna, ou seja, quando há algo que realmente queremos e sentimos afinidade, isto ocupa todos os nossos pensamentos, sentimentos e imaginação.

Se observarmos como funciona a “lei de equivalência de forma” na natureza, notaremos que não há nada de excepcional aqui. Vemos só o que o nosso sistema de percepção – por exemplo, o olho – é capaz de captar por equivalência de forma.

O olho humano enxerga um comprimento de onda numa escala de cores que vai desde o violeta até ao vermelho. Por isso, somos incapazes de captar um comprimento de onda mais alta que o violeta, por exemplo, o ultravioleta, a menos que tenhamos um equipamento apropriado.

A abelha enxerga num comprimento de onda ultravioleta e dessa maneira localiza flores de distintos tipos. Os mosquitos por sua vez, captam o comprimento de onda apropriada a eles e assim podem dirigir “um ataque direto” às nossas veias. A “lei de equivalência de forma” funciona aqui de uma maneira muito tangível!

Sabemos que a realidade está composta de múltiplas freqüências que afetam nossas vidas mesmo sendo incapazes de percebê-las, como a radiação dos raios-X ou as ondas de rádio. Se tivéssemos o instrumento apropriado de captação, capaz de transformar estas ondas num comprimento adequado aos nossos sistemas naturais de percepção - os ouvidos, olhos, nariz e diversos sensores de nossos corpos - poderíamos reconhecer a existência destas ondas no ar.

I: Conceitos Básicos 35

“as pessoas são iguais em forma [quando] cada uma ama o que a outra ama e odeia o que a outra odeia.…

Rabi Yehuda Ashlag, “Introdução ao Zohar”

Por exemplo, se perguntarem a você agora se há alguma transmissão em sua estação de rádio predileta, você dirá que não pode saber a menos que ligue o rádio na freqüência daquela estação. O que é gerado então pelo rádio?

O aparelho de rádio simplesmente sintoniza a frequência que já se encontra no ar, inclusive antes de sintonizá-la. Logo converte a mensagem produzida pela emissora da rádio, de uma frequência de onda que não podemos perceber, para uma que nossos ouvidos são capazes de captar.

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