REPRESENTAÇÕES DO DISCURSO DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS Análise sociológica das manifestações de ódio no Facebook no episódio do jovem que teve a testa tatuada com a frase- “Eu sou ladrão e vacilão”

REPRESENTAÇÕES DO DISCURSO DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS Análise sociológica das...

UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO

CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS

CURSO DE CIÊNCIAS SOCIAIS

REPRESENTAÇÕES DO DISCURSO DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS

Análise sociológica das manifestações de ódio no Facebook no episódio do jovem que teve a testa tatuada com a frase: “Eu sou ladrão e vacilão”

Leandro Rodrigues Santos

Relatório de Pesquisa apresentado para a obtenção de nota na disciplina Sociologia I, ministrada pelo Prof. Dr. Horário Antunes de Sant’Ana Júnior

São Luís

Dezembro de 2017

REPRESENTAÇÕES DO DISCURSO DE ÓDIO NAS REDES SOCIAIS

Análise sociológica das manifestações de ódio no Facebook no episódio do jovem que teve a testa tatuada com a frase: “Eu sou ladrão e vacilão”

Resumo: As formas de violências hoje ultrapassam as fronteiras do ambiente real e encontram um terreno fértil para se desenvolver dentro do ciberespaço, onde o combate às formas de violação dos direitos ainda são incipientes. Nessa perspectiva, o presente trabalho analisa como se manifesta o discurso de ódio no Facebook, tomando como base o episódio em que um jovem teve a testa tatuada após uma suposta tentativa de roubo. Como metodologia para o desenvolvimento da pesquisa, foi feito um levantamento bibliográfico e analisados os comentários de vários usuários nas notícias sobre episódio postadas na fanpage do portal G1. O objetivo foi verificar como se caracterizou o discurso de ódio e o modo como ele gerou engajamento junto aos outros usuários.

Palavras-chave: violência, discurso, ódio, internet, redes sociais

  1. INTRODUÇÃO

A violência é hoje um dos principais problemas do mundo. A preocupação deve-se às múltiplas faces que ela pode assumir, trazendo graves consequências não apenas para aqueles que praticam ou sofrem com os atos de agressão, mas para toda a sociedade.

Os atos de violência estão se disseminando na sociedade e o público cada vez mais tem acesso a essas informações. A Internet e as redes sociais são ferramentas que, se por um lado, ajudam na divulgação de práticas que possam combater esses tipos de atos, por outro colaboram diretamente para a divulgação massiva dos mesmos, contribuindo, em alguns casos, com a banalização e até mesmo o incentivo desses casos.

Um episódio que teve grande repercussão foi registrado no início do mês de junho do ano passado no município de São Bernardo do Campo, no estado de São Paulo. Um adolescente de 17 anos de idade teve a testa tatuada com a frase “Eu sou ladrão e vacilão” após uma suposta tentativa de roubo de uma bicicleta.

O caso do jovem ficou conhecido após a divulgação na internet do vídeo em que o rapaz estava sendo tatuado à força. Os responsáveis pelo ato, os mesmos que divulgaram o vídeo, foram identificados como Maycon Wesley Carvalho dos Reis, de 27 anos, e Ronildo Moreira de Araújo, de 29 anos. Dias depois, eles foram presos e responderam pelo crime de lesão corporal gravíssima, mas não pelo de tortura, citado no inquérito policial, mas não acatado pelo Ministério Público (MP).

Além da agressão física, o adolescente foi vítima, pelas redes sociais, do ódio de muitos usuários que aprovaram o fato de ele ter tido a testa marcada. Em muitos casos, as pessoas desejaram que fossem praticadas outras formas de agressões ainda piores.

Tais situações ficaram claras nos comentários deixados no Facebook a cada nova notícia publicada sobre o caso. Muitas dessas mensagens tinham um teor agressivo que perpetuavam a violência e acarretavam em mais transtornos para o adolescente.

A verbalização do ódio e da discriminação não é um fenômeno recente. Contudo, no ambiente virtual, essa situação se potencializa, causando consequências negativas para aqueles que são vítimas desses discursos. É por meio das redes sociais que muitas vezes os usuários cometem ilícitos, propagam mensagens de conteúdo prejudicial, violam direitos fundamentais de outras pessoas e praticam diversos tipos de irregularidades. Nesses casos, esses indivíduos ultrapassam os limites da liberdade expressão e praticam delitos passivos de punição, conforme prevê o Código Penal.

É nesse terreno dentro do ambiente virtual que se alicerça o discurso de ódio. Ele consiste em manifestações segregacionistas que têm o claro objetivo discriminatório contra uma determinada pessoa ou grupos de indivíduos. Soma-se também nesse tipo de discurso a presença de estereótipos e preconceitos, que contribuem diretamente para a consolidação, exposição e intensificação de estigmas sociais.

Com isso, uma das finalidades desse trabalho é analisar como se manifestaram as práticas do discurso de ódio no episódio do adolescente que teve a testa tatuada após uma suposta tentativa de roubo e que foi vítima de manifestações discriminatórias na Internet.

Para fins metodológicos, no primeiro momento foi feito um levantamento bibliográfico sobre o tema. O objetivo foi buscar um referencial de autores que dessem suporte para a pesquisa e ainda apresentar as últimas discussões a respeito do discurso de ódio no ambiente virtual.

Ainda como parte das atividades metodológicas, foram escolhidas algumas reportagens publicadas na fanpage do portal de notícias “G 1” a respeito do caso e, em seguida, analisados os comentários que os usuários postaram. O propósito foi analisar como o discurso de ódio estava presente nas manifestações das pessoas e de que forma ele gerava um engajamento junto aos outros usuários.

Por fim, foram colocados os resultados da pesquisa, apresentando propostas de intervenção que levassem as pessoas a refletirem sobre as consequências negativas do discurso de ódio.

  1. VIOLÊNCIA E DISCURSO DE ÓDIO

A violência hoje pode ser observada e constatada de inúmeras formas. A sua raiz remete a uma gama de significados e definições, sendo que muitas vezes torna-se difícil elencar os motivos que geram os atos de violência e todas as suas consequências na sociedade.

Nesse cenário, a violência não pode ser observada de forma isolada, mas sim analisada de forma conjunta com outros campos. Compreendê-la em suas inúmeras formas que ela se estabelece dentro da sociedade contemporânea exige também o entendimento de outros cenários nos quais estão envolvidas as classes sociais, gênero, etnia, valores culturais carregados pelos sujeitos entre outras situações.

Martuccelli (1999) defende, por exemplo, que a violência não pode ser analisada levando em consideração apenas a ação daquele que pratica o ato. Segundo ele, é preciso entender o meio social em que esse indivíduo está inserido.

O sentido da violência deve ser procurado menos no interior da subjetividade do ator e mais a partir do referencial das redes sociais1 e das coações materiais legítimas onde o indivíduo está colocado. A violência nesse quadro é sempre o outro nome para designar a desigualdade na falta de ligação social. (MARTUCCELLI, 1999, p. 172).

Ainda nessa perspectiva, segundo o pesquisador, a violência surge no momento em que existe um déficit de informação, o que faz com que os atos violentos se sobressaiam, causando os danos não apenas em um indivíduo especificamente, mas em toda a sociedade.

Para Salles (2011), a percepção do significado da violência pode sofrer variações levando em consideração o contexto sócio-histórico-cultural no qual as manifestações e ações consideradas como atos de violência se expressam.

Aceitar a violência como algo natural, ou mesmo banalizá-la, sem procurar ao menos mostrar suas causas e consequências, pode contribuir para que as pessoas aceitem sem se intimidar a prática de atos violentos, gerando, assim a impunidade, o que, em última análise, só reforça a escalada da violência. (SALLES, 2001 p.58).

Muitos indivíduos utilizam as palavras para praticar atos de violência contra outras pessoas. É justamente em atos dessa natureza que se pode evidenciar a prática do discurso de ódio. Esse tipo de violência muitas vezes pode até passar despercebido, uma vez que o autor não age com agressividade física contra a vítima.

No entanto, as consequências podem ser ainda maiores do que aquelas proporcionadas pelas agressões físicas, pois o discurso de ódio contribui diretamente para a marginalização dos indivíduos que foram vítimas desses atos, aumentando as desigualdades sociais e violações de direitos.

O discurso de ódio pode ser caracterizado como mensagens que tenham o objetivo de inferiorizar ou insultar outros indivíduos. Ele é observado em atos de comunicação feitos para discriminar pessoas ou grupo sociais em virtude de raça, religião, nacionalidade, orientação sexual, gênero, condição física ou outra característica. Nas redes sócias, situações como essas ocorrem com bastante frequência.

Para Oliva (2014), o discurso de ódio utiliza-se de argumentos de impacto na psicologia individual e coletiva dos interlocutores de modo a segregar socialmente aquelas pessoas que são vítimas desse tipo de violência.

O discurso de ódio surge quando os indivíduos ultrapassam os limites da liberdade de expressão previstos na Constituição Federal. A legislação máxima do país dá garantias à livre manifestação de pensamento, contudo, restringe práticas que podem levar à inferiorização de outros indivíduos.

“Certamente, em qualquer circunstância, a liberdade ou as liberdades em espécie deverão respeitar os contornos da esfera de autodeterminação traçada pelo ordenamento jurídico, convivendo em harmonia com outros preceitos constitucionais, de modo a não discrepar da unidade sistêmica pretendida e, de outra parte, não deverão incorrer em condutas ilícitas, preestabelecidas pela legislação infraconstitucional”. (DE FREITAS; DE CASTRO. 2013, p.333).

Por essa razão é importante ressaltar que a liberdade conferida ao indivíduo pelos dispositivos legais não pode ser exercida de forma ilimitada. Qualquer tipo de conduta que venha a ultrapassar esses limites é passível de restrição e punição, como prevê a constituição brasileira.

Nas redes sociais, essa situação é ainda mais observada tendo em vista a própria característica do ambiente virtual. Dentro do ciberespaço, os usuários podem expressar, com mais liberdade, seus pontos de vistas sobre um assunto das mais variadas formas, alcançando outros indivíduos com posicionamentos semelhantes ou contrários.

Essa situação é causada, pois, nas redes sociais, a forma de sociabilidade entre os indivíduos é diferente daquela conferida no ambiente físico. A propagação dos discursos no ciberespaço - entre eles, aqueles direcionados com o objetivo de inferiorizar outras pessoas - é intensificada tendo em vista que há uma alteração das barreiras de interação dos atores envolvidos, situação essa causada pelas próprias características desse ambiente.

Os sujeitos no mundo digital estariam em constante encontro com a alteridade (o Outro), e esse encontro é sempre perturbador e violento, basta imaginar e reconhecer o lugar do Outro para sentirmos ódio. Entretanto, sentir ódio não é um problema, pois faz parte da nossa natureza. Ele se torna um problema social, a partir do momento que deixa de ser um sentimento, para ser externalizado através da linguagem, neste sentido, os sites de redes sociais possibilitam que o ódio apareça através dos espaços de interação mútua e conversação. (COIMBRA. 2015. p. 6).

É nesse contexto que surge, por exemplo, a figura do chamado hater2, termo que se popularizou principalmente dentro do ambiente virtual. Aqueles que levam esse título caracterizam-se como pessoas que violam as regras do convívio harmonioso e da liberdade de expressão para atacar de forma gratuita todos os que pensam ou agem de forma diferente, contribuído diretamente para a disseminação do ódio.

É na formação desses discursos que Orlandi (2005) chama atenção para o princípio da autoria em que o sujeito visível (enquanto autor) tem claras intenções e objetivos. Em se tratando de discurso de ódio, a intenção é desvalorizar outras pessoas em função de alguma característica específica ou ato que ela tenha praticado.

Ainda de acordo com o pesquisador, é por meio do discurso que os sujeitos se identificam como tal, assumindo uma determinada posição em relação em relação a outros indivíduos.

Devemos ainda lembrar que o sujeito discursivo é pensado como “posição” entre outras. Não é a forma de subjetividade, mas um “lugar” que ocupa para ser sujeito do que diz: é a posição que deve e pode ocupar todo o indivíduo para ser sujeito do que diz. (ORLANDI, 2005 p. 49).

Nessa perspectiva, Foucault (1996) acrescenta que o discurso também funciona como uma estratégia para mascarar a realidade, suplantar verdades, garantir posições e representar interesses. Dessa forma, o discurso dispõe de uma força que os indivíduos utilizam para fazer prevalecer os seus interesses.

Se o discurso verdadeiro não é mais, com efeito, desde os gregos, aquele que exerce o poder, na vontade de verdade, na vontade de dizer esse discurso verdadeiro, o que esta em jogo, senão o desejo do poder? O discurso verdadeiro, a que a necessidade de sua forma liberta do desejo e libera do poder, não pode reconhecer a vontade de verdade, essa que se impõe a nós há bastante tempo, é tal que a verdadeira que ela quer não pode deixar de mascará-la. (FOUCAULT, 1996, p. 20).

Com isso, observa-se que são várias as finalidades que o indivíduo pode dar ao discurso, dependendo do seu objetivo final. Uma dessas finalidades que pode ser acrescentada é a de fazer pré-julgamentos, contribuindo diretamente para a segregação da pessoa que está sendo alvo desse discurso.

Um exemplo dessa situação pode ser observado no episódio registrado no início do mês de junho do ano passado, quando um adolescente de 17 anos de idade teve a testa marcada com a frase “Eu sou ladrão e vacilão” após uma suposta tentativa de roubo de uma bicicleta.

O caso ganhou uma ampla repercussão e muitas pessoas se posicionaram a favor da “punição” sofrida pelo adolescente pelo delito que na época não chegou a ser confirmado pelas autoridades policiais. Além disso, nas redes sociais, os usuários expuseram os seus posicionamentos sobre o fato, deixando mensagens de ódio e de cunho violento contra o adolescente.

Nessa situação, o jovem foi vítima não apenas da agressão física sofrida, ao ter a testa tatuada por outras duas pessoas, mas também por toda a repressão causada pelas manifestações de ódio de milhares de usuários, o que certamente contribuiu para o agravamento dos transtornos psicológicos pelos quais passava o jovem.

Deve-se destacar ainda que tal situação contribuiu ainda mais para o processo de exclusão social desse adolescente, quando o ideal seria que a sociedade encontrasse formas de evitar que tais situações acontecessem.

Segundo Giddens (2012), no campo das Ciências Sociais, diversos teóricos já se debruçaram sobre as diferentes maneiras em que os indivíduos e comunidades passam por situações de exclusão social, casos esses diretamente relacionados com temas como habitação, educação, mercado de trabalho, juventude e criminalidade. O caso do adolescente de São Bernardo do Campo está relacionado com a exclusão social causada pela criminalidade.

A noção de exclusão social foi introduzida por sociólogos em referência a novas fontes de desigualdades e o conceito continua a informar grande parte da pesquisa social aplicada, que visa entender e resolver a desvantagem e a desigualdade. A exclusão social refere-se à maneira como os indivíduos podem ser separados do envolvimento pleno na sociedade mais ampla. (GIDDENS, 2012. p. 357).

Ainda segundo o autor, o conceito de exclusão social imediatamente reporta ao seu oposto, que é o da inclusão social. Além disso, as tentativas de incluir na sociedade o indivíduo ou grupo marginalizado se tornaram parte da agenda política moderna, mesmo sendo diferente o modo como essa prática é realizada nas mais diversas sociedades.

  1. ESTUDO DE CASO: O JOVEM QUE TEVE A TESTA TATUADA

Nessa perspectiva, o presente trabalho analisou os comentários dos usuários postados na fanpage do portal “G 1”, pertencente à Rede Globo de Televisão, sobre o caso em que o jovem teve a testa tatuada na cidade de São Bernardo do Campo (SP) em junho do ano passado. O foco foi o estudo sobre o discurso de ódio presente nos comentários.

É importante ressaltar que a escolha desse portal considerado como a base da pesquisa não levou em consideração aspectos políticos ou ideológicos, mas sim tão somente por ser um dos mais acessados em todo o país e com uma quantidade expressiva de seguidores, hoje com mais de 9,6 milhões de usuários ativos.

Foram escolhidas de forma amostral sete notícias publicadas pelo portal “G 1” em sua fanpage relacionadas sobre o episódio. Elas foram publicadas nos dias 12 de junho, 13 de junho, 23 de junho, 25 de junho, 27 de junho, 8 de julho e 13 de setembro. Todas foram compartilhadas milhares de vezes e ainda tiveram comentários e reações das mais variadas formas.

Em seguida, buscou-se separar os comentários das postagens. Para isso, foi utilizada a plataforma online Opsocial (http://www.opsocial.com.br/), que faz o monitoramento, análise de dados e gestão de mídias sociais. Todos os comentários dos usuários foram exportados em uma planilha do Excel para a melhor análise, recurso esse disponibilizado pela própria ferramenta.

Para a obtenção de um resultado ainda mais detalhado, também foi utilizada uma plataforma para a criação da chamada nuvem de palavras. O objetivo foi verificar, com o uso do software, as palavras que mais se repetiam no discurso das pessoas.

Uma das notícias publicadas na fanpage do portal G1, no dia 12 de junho de 2017, trazia o posicionamento do dono da bicicleta que foi furtada. Ele afirmava que se tratava de uma barbaridade o que foi realizado na testa do jovem. Nos comentários sobre a reportagem, observou-se a quantidade de xingamentos que foram feitos contra o adolescente.

Figura 1: adolescente sendo vítima do discurso de ódio

Outra publicação, já do dia 13 de junho, fala sobre o trabalho de uma clínica de reabilitação onde o jovem foi internado para se recuperar do uso de drogas. Os comentários da postagem também são depreciativos contra o adolescente.

Figura 2: em outra postagem, discurso de ódio torna-se mais forte e evidente

É interessante observar também o engajamento que o discurso de ódio provoca nas redes sociais. Utilizando a plataforma online Opsocial, que possibilita a extração de comentários do Facebook e a exportação para uma planilha do Excel, nota-se que os comentários com maior engajamentos são justamente os mais depreciativos.

Figura 3: engajamento dos usuários é maior nos comentários mais agressivos

A criação de uma nuvem de palavras também é interessante para observar a prevalência do discurso de ódio nas redes sociais, principalmente nesse episódio que está sendo estudado. Essa nuvem reúne as palavras que mais se repetem em um determinado contexto.

Para isso, utilizou-se a plataforma online Opsocial para fazer a extração dos comentários para uma planilha em Excel e, em seguida, uma ferramenta para a criação da nuvem de palavras com esses comentários. Tal análise foi feita na postagem do dia 25 de junho de 2017, que traz a informação sobre a primeira sessão que jovem passou para a retirada da tatuagem na testa.

Figura 4: nuvem de palavra evidencia discurso de ódio contra o adolescente que teve a testa tatuada

Nesse caso específico, observa-se que, entre as palavras que mais se repetem nos comentários dos usuários, estão “vagabundo”, “ladrão” e “lixo”, todas elas fazendo referência ao adolescente que teve a testa tatuada e, ao mesmo tempo discriminando-o pela sua atitude.

  1. CONCLUSÃO

É importante chamar-se atenção para o fato de que a liberdade de expressão não pode ser confundida com o ato de se expressar de uma forma que venha a insultar ou denegrir a imagem de outro indivíduo. É necessário ter em mente que existem limites que devem ser observados e levados em consideração pelas pessoas para que seja estabelecido o convívio harmônico entre os integrantes da sociedade.

A dificuldade nesse aspecto reside em justamente encontrar esse “limite” entre o direito do indivíduo de se expressar e as manifestações discriminatórias que se observam com bastante frequência dentro do ambiente virtual.

Observa-se que os discursos discriminatórios são ainda mais presentes no ambiente virtual por causa facilidade com que as informações circulam no ciberespaço e, muitas vezes, os usuários não sabem como lidar com opiniões e posicionamentos contrários aos seus, partindo então para as mais diversas formas de agressões e baixarias.

A falta de uma legislação específica que proíba e também puna situações de discurso de ódio pelas redes sociais favorece com que esses episódios sejam registrados com bastante frequência. Os responsáveis por essa prática se utilizam da liberdade que lhes é garantida para insultar ou discriminar aqueles que agem ou têm um posicionamento contrário. Muitas vezes, os autores das agressões não são punidos como deveriam.

Por essa razão, entender como se manifestam as práticas do discurso de ódio nas redes sociais é importante para que a temática seja discutida em seus mais variados aspectos para que as consequências da situação fiquem evidentes e, dessa forma, sejam apontadas possíveis soluções para contornar o problema.

O discurso de ódio nas redes sociais é um tema que precisa ser debatido, principalmente neste momento em que cada vez mais atos de violência se espalham das mais diversas formas. Nesta perspectiva, este trabalho buscou contribuir para que haja uma ampliação desse tema no ambiente acadêmico para que discussões sobre ele sejam cada vez mais fomentadas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988. 292 p.

COIMBRA, Michele Paschoal. O discurso do ódio nos sites de redes sociais: o universo dos haters no caso #eunãomereçoserestuprada. Disponível em: http://www.repositorio.jesuita.org.br/bitstream/handle/UNISINOS/5548/Michele%20Paschoal%20Coimbra_.pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em 23 de dezembro de 2017.

DE FREITAS, Riva Sobrado; DE CASTRO, Matheus Felipe. Liberdade de Expressão e Discurso do Ódio: um exame sobre as possíveis limitações à liberdade de expressão. Sequência: Estudos Jurídicos e Políticos, Florianópolis, p. 327-355, jul. 2013. ISSN 2177-7055. Disponível em: <https://periodicos.ufsc.br/index.php/sequencia/article/view/2177-7055.2013v34n66p327>. Acesso em: 23 de dezembro de 2017. 

FOCAULT, Michel. A ordem do discurso. São Paulo. Edições Loyola. 1996

GIDDENS, Anthony. Sociologia. Tradução: Ronaldo Cataldo Costa. Revisão técnica: Fernando Coutinho Cotanda. 6ª edição. Porto Alegre. Penso. 2012.

MARTUCCELLI, Danilo. Reflexões sobre a violência na condição moderna. In Tempo Social. Revista de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP). 157-175. São Paulo, 1999.

OLIVA, Thiago Dias. O discurso de ódio contra as minorias sexuais e os limites à liberdade de expressão no Brasil. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. São Paulo, 2014

ORLANDI, E. P. Análise de discurso: princípios e procedimentos. 6. ed. Campinas: Pontes, 2005.

SALLES, Vera Lúcia Rolim. Jovens, imaginário de paz e televisão. São Luís. EDUFMA, 2011.

1 Ao citar as redes sociais, o pesquisador faz referência aos laços e vínculos sociais de um determinado indivíduo no ambiente em que ele está inserido e não às comunidade virtuais existentes no ciberespaço onde também há formas de interação.

2 É importante destacar que a figura do hater sempre existiu, mas com a popularização das redes sociais no ambiente virtual esses usuários começaram a ganhar cada vez mais espaços, motivados pela facilidade com que podem expressar os seus posicionamentos no ciberespaço e pela falta de punição para aqueles que, ao extrapolarem os limites da liberdade de expressão, cometem crimes contra outros usuários.

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