ARTIGO Ubaldo Rizzaldo 4a ed

ARTIGO Ubaldo Rizzaldo 4a ed

(Parte 1 de 2)

Ambivalência da comunicação: a mentira é uma verdade ou a falsificação da verdade é uma mentira?

Ubaldo Rizzaldo

Aluno do Programa de Formação em Psicanálise da EPP, musicista e farmacêutico

“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” - Jesus em “João 8:32” no Novo Testamento da Bíblia Sagrada

“Isso é o diamante da sessão. Isso é a coisa mais importante.

Não é só se ele mentiu ou se equivocou. É quando a questão da relação paciente analista está em primeiro plano. É uma questão altamente transferencial, que deve ser discutida a fundo com o paciente para se ganhar muita coisa.” (ESCLAPES, 1/12/2017)

A partir de uma observação, durante a supervisão da sessão 19 de meu cliente a que fui submetido, de que a mentira seria um “diamante” para a análise do cliente, passei a considerar o assunto como tema central para um artigo. Podemos pensar a mentira como uma resistência a análise? Será uma forma de suportar a verdade que causa dor? A construção de uma vida em cima de mentiras é possível? Mentira ou fantasia, ou ainda, a ausência, a falsidade da verdade?

O cliente em foco aqui se demonstrou ser um poço sem fundo nesse quesito: mais de cinco situações foram flagradas, até o momento desta escrita, que reforçam o caráter imaginativo que o mesmo possui.

Como a análise ainda transcorre, mais estará por emergir?

Passada a primeira vez e o meu primeiro espanto de tal situação, passei a garimpar se haveriam novas oportunidades nesse lamaçal criado para esconder, ou se proteger, que o cliente criou para si e seus familiares e amigos, e incluiu o estagiário iniciante de psicanálise numa estrada de conhecimento dele, paciente, e de autoconhecimento, do futuro profissional.

Aqui procurarei trazer a relação de amor e ódio à verdade e à mentira, através de minhas reflexões e observações variadas, bem como opiniões e considerações próprias apoiadas na teoria considerada por

WR Bion no assunto. Várias questões a responder, várias elucubrações a obter, muito a elaborar.

O CASO CLÍNICO "A mentira pode ser uma tentativa de pôr vida no vazio." Cristopher Bollas

O cliente em questão tem 64 anos, denominado aqui por JP, no momento é casado, morando no interior do estado de São Paulo em uma cidade pequena bem perto de uma cidade de grande porte entre as inúmeras que o estado possui. No momento não trabalha, somente estuda e está recebendo aposentadoria do INSS.

Bastante difícil a qualificação do cliente, pois existe uma diferenciação do início das sessões e o que agora se conhece, quer dizer, se pensa que se conhece, pois, as informações dadas e obtidas em nossos primeiros contatos foram se modificando.

Na sessão 19 houve a descoberta do equívoco do endereço do cliente: se apresentou como morador de uma cidade, mas na realidade era outra. Alegou vergonha de onde morava e más condições financeira e pessoal.

Na sessão 23, surgiu a informação de um filho, fato inicialmente nem relacionado nas entrevistas e depois negado veementemente. Havia dito que não tinha, mas tem um filho não assumido que está em processo judicial de reconhecimento. Nas palavras do cliente o teste de DNA com resultado positivo para o exame de paternidade está errado.

Isso surgiu num claro ato falho.

Se mostrou como aposentado por tempo de serviço, mas na sessão 25 deixou transparecer que foi aposentado por problemas de saúde relacionados a problemas de diversas ordens na área traumatológica (ombro, colunas e joelhos). Declarou se sentir diminuído por ter sido aposentado antes do tempo de contribuição correto ou mesmo por idade.

Na entrevista de reconhecimento inicial alegou não ter feito tratamento psiquiátrico, mas novamente se confundiu, obliterando que havia feito uso de medicação controlada, receitada por profissional da área, realizando inclusive o procedimento de desmame necessário a descontinuidade do uso do remédio: isto ocorrendo na sessão 26.

Sempre alegou ser um leitor compulsivo e grande apreciador da leitura como forma de aprendizado e relaxamento mental. Na sessão 28 esta informação se desfez pois confirmou que é sim compulsivo comprador de livros e que muitos deles, os tem ainda na embalagem transparente que são entregues sem nunca os ter nem mesmo folheado.

Para o momento, termino as informações, destoantes e, aparentemente, agora realistas, na quantidade de relacionamentos amorosos efetivos. Na sessão 30, contou quatro casamentos em vez dos três que havia informado. Novamente alegou que eliminou o mais curto e tempestuoso, pois foi muito infeliz e nem deseja lembrar os fatos ocorridos durante o período. Pareceu-me um chiste, pois sorriu largamente sobre a situação.

Como um castelo de cartas criado a modo do gosto do cliente, o mesmo se desfaz ao sopro suave da simples realidade que traduz a pura verdade.

Paralelamente às situações descritas temos os comportamentos do cliente no setting retratando uma forte tendência de controle desde o horário de término à forma como se processa a sessão: verborragias sem oportunidade do estagiário se mostrar presente ou longos silêncios contemplativos e aparentemente pensativos e reflexivos. (totalmente respeitados na sua duração).

"Nem tudo é verdade. Nem tudo é mentira. Tudo depende do cristal com que se mira". poeta Campoamor

W.R.Bion (1897-1979) se interessou bastante por este binômio mentira/verdade e estabeleceu claramente que a mentira não é abertamente o oposto da verdade.

Uma mentira, uma entidade mentirosa, o indivíduo propriamente pode vir a ser e exercer, pois no campo da existencialidade, uma dimensão pode ser adquirida no tocante ao campo do pensamento que tem forma ilimitada de atuação.

Esclarece Bion que para ele, a verdade e mentira tem uma relação diferente dentro do mito de Édipo: há uma medida pulsional no conflito entre o pai Laio e o filho Édipo, mas entre Édipo e o ancião cego e profeta

Tirésias, a medida cognitiva tem mais ligação com “K”, o conhecimento e “(-) K”, o não conhecimento. Isto reflete um ataque ativo contra a função “K”, conhecimento, também podendo se considerar como uma indiferença, como que levado pelas circunstâncias da vida.

"O pensamento verdadeiro não requer formulação e nem um pensador. A mentira requer um pensador e uma mente hospedeira."

(BION, 1973, p. 112)., afirmava Bion nessa matéria, pois para ele, o aparelho psíquico não evolui, ou mesmo virá ter desenvolvimento mental, sem a verdade, podendo vir a sucumbir por prostração, portanto a mesma (a realidade) é primordial para o indivíduo.

Há uma precisão de igualdade do discurso do sujeito no tocante, ao que o indivíduo demonstra aos outros, paralelamente, ao que ele realiza. Verdade e mentira, realidade e fantasia, fatos da atualidade e os ocorridos anteriormente trarão à superfície a personalidade do sujeito, suas características reais, ao serem confrontados e relacionados para se encontrar o que realmente ocorreu.

Para Bion, algumas formas de mentira que os mentirosos utilizam e a experiência de desejar estão visceralmente ligadas. Em suas palavras: “(...) não é demais dizer que a raça humana deve sua salvação àqueles poucos mentirosos de talento, preparados para mentir, mesmo em face de fatos indubitáveis, a verdade de sua falsidade.” (BION, 1973,

Dentro do caso analisado observa-se que sem noção do ocorrido pelo individuo, um autêntico crescimento da personalidade, foi perturbado a partir dos primórdios do crescimento, pois as emoções difíceis, este tende mais a comandá-las e fugir destas, do que propriamente desafiá-las, sendo que Bion estudou este fato como mitos pessoais, como falsificações auto enganadoras. Freud também destacou o fato ilusório de que "a repetição da mentira a tornaria uma verdade" (FREUD, 1900, p.100) – técnica de uso nas massas humanas levada aos extremos pelos nazistas em sua época e mesmo hoje, entre políticos e mídias sociais.

Cabe lembrar que amnésia de forma total ou parcial, constante ou episódica, temporária ou permanente dependendo das causas é perda de memória; que confabulação, por alteração da memória de fixação, completa lacunas de memória sendo elementos de imaginação do doente ou mesmo lembranças isoladas; e que paramnésia, mesmo não havendo recusa da razão, traz o fato evocado não correspondendo ao objeto original da percepção sendo uma perturbação do reconhecimento mental. As amnésias, sonegadas e completadas por paramnésias e confabulações foram descritas por Freud como consequência do mecanismo de repressão vindo através das falsificações mentirosas utilizadas pelo indivíduo.

Sendo uma distorção da verdade, no conceito de mentira, predomina uma deliberação consciente, ou pré-consciente, diferentemente de seus companheiros, o cinismo, onde predomina as pulsões sádico-destrutivas, e a hipocrisia, onde o discurso moralista se contradiz com a atitude transgressora no mesmo assunto, por exemplo.

“Ser totalmente honesto para consigo mesmo é um bom exercício. Uma única ideia de valor me foi revelada. Descobri no meu próprio caso o enamoramento pela mãe e o ciúme do pai (...)” - Em carta de 15.10.1897, Freud comunica a Fliess.

"Introduzir o paciente à pessoa mais importante com que ele jamais poderá lidar, ou seja: ele mesmo”, (BION, 1992a, p. 13) afirmação bioniana quanto ao objetivo essencial da interpretação do analista, tem sido o meu objetivo para com JP.

As mentiras criadas por JP estão ficando tão pertencentes a ele, que passando a acreditar piamente nelas, estas são passadas ao analista como uma nova versão da verdade, fazendo o mesmo acreditar nessa realidade paralela como uma Matrix, tema que foi imortalizado em cinema.

Acredito que devido ao fato das idades de JP e analista não serem tão distantes, surgiu a figura do gêmeo imaginário apregoada por Bion no seu livro Estudos psicanalíticos revisados (1967), devido ao uso excessivo de identificações projetivas, pois há uma nítida indiscriminação por parte de JP da figura dele e do analista, traduzindo uma transferência psicótica além de uma variabilidade transferencial que vai da idealização ao denegrimento invejoso.

Em JP sinto viver a ambivalência emocional que ele comunica ao analista e ao mundo externo de amor e ódio tanto à verdade, bem como à mentira, e essas emoções convivem amigavelmente: não há cinismo e hipocrisia no meu sentir, mas uma falsidade de verdade para autoproteção.

JP não olha para câmera constantemente durante o atendimento online via Skype. Desvia o olhar como que não suportando manter o foco. Se sente incomodado. O que me fica difícil discernir se está incomodado com o fato que relata, ou incomodado em contar o fato como relata, pois, como muitas vezes já se comprovou, cria sobre realidade e transforma-a ao comando da sua intenção.

Um equívoco meu, que reconheço ter o ocorrido, é a minha apreensão restrita quanta a transferência, o que pode ter levado a um desvio do processo de tratamento pois apenas me detive a dar atenção ao conteúdo escutado, em detrimento de avaliar o material apreciado no contexto em qual berço se originou.

No caso de JP, e acredito que devido a minha pouca experiência, na sua recapitulação da própria estória pessoal, dei, infelizmente, por abandonadas as funções defensivas de transferência como repressão, racionalização, entre outras de delicada tenuidade.

No mote dos desejos edípicos, em que se odeia os objetos amados e se ama os objetos proibidos, é onde para JP ficam os seus dramas íntimos e as pendências que seu ego não quer dominar.

JP distintamente tem sentimentos análogos a fatos em sua vida:

para ilusões desfeitas tem ódio para com o outro; ojeriza à dependência de quem quer que seja; quando ajudado sente inveja do interessado.

Esses sentimentos são fáceis de serem reconhecidos no setting dentro da situação transferencial, pois briga com ódio com proibições e expectativas, que tem sua origem no superego e ideal do ego dele mesmo.

Bion afirmava que o “amor sem verdade não é mais do que paixão; verdade sem amor não passa de crueldade.” (BION, 1992a, p.

61), o que demonstra o valor na verdadeira "atitude psicanalítica interna" de minha ação interpretativa quanto a JP, para não o expor abruptamente aos fatos que não lhe trarão crescimento psíquico.

Como incongruência, antagonismo e até mesmo absurdos, fazem parte do relacionamento de JP consigo mesmo, do seu inconsciente com o seu consciente, e como a transferência leva em consideração que o relacionamento comigo, seu analista, não é exclusivo e nem único, a relação da falsidade e da verdade são afetados dentro de JP e no nosso convívio também.

Cabe sempre ter em mente que a relação de JP com os outros, bem como de qualquer ser humano em sociedade, tem falsidade, mentira, realidade distorcida ou mesmo, a simplória versão da omissão que se esconde na ideia de poupar a verdade dolorida.

Num relato instigante JP diz omitir para os pais já na infância na intenção de agradar a estes com o objetivo de conquistar acolhimento e dar satisfação a eles. Parece viver uma ficção, que pelo menos no campo das artes é parte integrante do meio, mas que sendo trazida para vida privada parece ser um fruto de gosto amargo ou no mínimo duvidoso.

Considerando-se que para ser mentira tem que haver intencionalidade, e mesmo que tendo por objetivo proteger um envolvimento com outrem, não pode ocorrer por deslize uma realidade falsificada, e esta é uma atitude repetitiva na vida de JP, na intenção de variar o comportamento das relações que o mesmo possui. Acredito também que deseje JP me direcionar quanto a reação que ele almeja de mim.

"A mentira pode se constituir como um "conluio sadomasoquista para 'envenenar' ou 'ser envenenado"'. WR Bion em Atenção e interpretação (p. 67),

Atado ao conceito de contratransferência, a concepção de transferência através de Betty Joseph cresceu em abrangência culminando no entendimento de transferência como situação total.

Segundo ela, somos seduzidos para o sistema defensivo do cliente para reconhecer, a convite deste, os sentimentos de alguns papéis em que os mesmos vivenciam e estes criam ainda o que está por baixo da organização de sua vida psíquica, em cada momento vivido, dentro do espaço analítico.

Na primeira situação de fraude passada com JP o supervisor me levou a concluir que tive um momento de Agorafobia, que seria medo de situações que possam causar impotência ou constrangimento, devido a minha paralisia diante do fato, paralisia esta, descrita por JP, bastante atuante nele em fatos pontuais em sua vida profissional e pessoal.

Eu, como estagiário de psicanálise, na procura de conhecer o trabalho a qual me proponho, sou estudioso, sempre em atualização e me dedico integralmente a este trabalho durante a sessão analítica, mas vou ter que contar com a possibilidade de reagir ao cliente a partir de meus conteúdos e não de um entendimento racionalizado da problemática de JP. Poder-se-ia esperar um clima de troca realizada de modo recíproco durante as sessões, pois fortes reações de transferência (e contratransferência) poderiam surgir, trazendo de modo geral, e traduzindo, um grau de cooperação cada vez mais forte. E foi o que aconteceu em vários momentos do convívio no setting, entre eu e JP.

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