A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 2 de 7)

— Pan— ela cochichou.

Faculdade: diziam que os tártaros tinham invadido Moscóvia e estavam avançando rumo ao Norte para São Petersburgo, de onde poderiam dominar o Mar Báltico e acabar conquistando todo o Oeste da Europa. E Lorde Asriel estivera no Extremo Norte: na última vez em que ela o vira, ele estava preparando uma expedição para a Lapônia... — Que é?

— Você também acha que vai haver guerra?

— Ainda não. Lorde Asriel não estaria jantando aqui se a guerra fosse explodir na semana que vem. — Também acho. Mas depois...

— Psiu. Vem vindo alguém. Ela se endireitou e olhou pela fresta da porta. Era o Mordomo, entrando para aparar o pavio da lamparina, como o Reitor mandara. A Sala de Estar e a Biblioteca eram iluminadas por luz anbárica, mas, na Sala Privativa, os Catedráticos preferiam as lâmpadas de nafta, mais antigas e mais suaves. Isso não mudaria enquanto o Reitor estivesse vivo.

O Mordomo aparou o pavio e colocou outra tora de lenha na lareira, depois escutou cautelosamente junto à porta antes de surrupiar um punhado de folhas da tabaqueira.

Mal tinha recolocado a tampa quando a maçaneta da outra porta girou e ele deu um pulo, sobressaltado. Lyra tentou não rir. O Mordomo enfiou às pressas as folhas de fumo no bolso e se virou para o recém-chegado.

— Lorde Asriel! — exclamou. Um arrepio de surpresa gelou as costas de Lyra. Ela não conseguia vê-lo e tentou dominar a vontade de mudar de posição para isso.

— Boa noite, Wren — disse Lorde Asriel, com aquela voz áspera que Lyra sempre escutara com uma mistura de prazer e apreensão. — Cheguei atrasado para o jantar. Vou esperar aqui.

O Mordomo parecia constrangido; só se entrava na Sala Privativa a convite do Reitor, e

Lorde Asriel sabia disso. Mas o Mordomo viu também o olhar de Lorde Asriel fixo em seu bolso estufado e resolveu não dizer nada.

— Devo avisar ao Reitor que o senhor chegou? — Não seria mau. Pode me trazer um café.

— Muito bem, senhor. O Mordomo saiu apressado, seu dimon trotando obedientemente atrás. O tio de Lyra foi até a lareira e estendeu os braços por cima da cabeça, se espreguiçando e bocejando como um leão. Estava usando roupas de viagem. Como sempre acontecia quando tornava a vê-lo, Lyra se lembrou de quanto ele a assustava. Agora estava fora de questão sair sem ser percebida: ela teria que esperar e torcer.

O dimon de Lorde Asriel, uma pantera branca, se postou logo atrás dele. — Vai mostrar as projeções aqui? — ele perguntou em voz baixa.

— Vou. Vai ser menos confuso do que irmos para o Auditório. Vão querer ver os espécimes também; daqui a pouco vou mandar chamar o Porteiro. São tempos difíceis, Stelmaria.

— Você devia descansar. Ele se esticou numa das poltronas, de modo que Lyra não podia ver seu rosto. — Devia, sim. E também mudar de roupa; com certeza, existe algum regulamento que permite que eles me multem em uma dúzia de garrafas por entrar aqui sem estar vestido adequadamente. Eu precisava dormir uns três dias. Mas o caso é que...

Houve uma batida na porta e o Mordomo entrou, trazendo um bule de café e uma xícara numa bandeja de prata. — Obrigado, Wren — disse Lorde Asriel. — Aquilo ali na mesa é Tokay?

— O Reitor mandou separar este especialmente para o senhor — informou o Mordomo.

— Restam só três dúzias de garrafas do 98.

— Não há bem que sempre dure. Deixe a bandeja aqui ao meu lado. Ah, peça ao

Porteiro para mandar as duas caixas que deixei na Portaria. — Para cá, senhor?

— Sim, para cá, ora. E vou precisar de uma tela e uma lanterna de projeção, também aqui, também agora.

O Mordomo mal conseguia segurar o queixo de surpresa, mas conseguiu engolir a pergunta ou o protesto.

— Wren, você está esquecendo o seu lugar — disse Lorde Asriel. — Não me questione; apenas faça o que eu mando.

— Muito bem, senhor — replicou o Mordomo. — Se posso dar uma sugestão, senhor, talvez seja melhor avisar o Sr. Cawson do que o senhor está planejando, senhor, senão ele ficará um tanto surpreso, se é que me entende.

— Está bem. Avise a ele, então. O Sr. Cawson era o Administrador. Havia uma rivalidade antiga e permanente entre ele e o Mordomo; o Administrador tinha mais autoridade, porém o Mordomo tinha mais oportunidades de se fazer notar pelos Catedráticos, e aproveitava cada uma delas. Ele ia adorar a oportunidade de mostrar ao Administrador que sabia mais do que ele sobre o que acontecia na Sala Privativa. Fez uma reverência e saiu. Lyra observou o tio se servir de uma xícara de café, bebê-la de uma vez e servir outra, que passou a beber mais devagar. Ela estava perplexa: caixas de espécimes? Uma lanterna de projeção? Que teria ele de tão urgente e importante para mostrar aos Catedráticos? Então Lorde Asriel se levantou e virou de costas para o fogo. Ela o viu de corpo inteiro, e se maravilhou com o contraste que ele formava com o Mordomo gorducho e com os

Catedráticos curvados e lânguidos: Lorde Asriel era um homem alto, de ombros largos, fisionomia sombria e feroz, olhos que pareciam cintilar com um humor selvagem. Tinha o rosto de uma pessoa a quem se obedecia ou combatia — nunca poderia ser tratada como inferior ou digna de compaixão. Todos os seus movimentos eram largos e possuíam um equilíbrio perfeito, como os de um animal selvagem; dentro de um aposento como aquele, ele parecia uma fera presa numa jaula pequena demais.

No momento, sua expressão era distante e preocupada. O dimon se aproximou e encostou a cabeça na cintura dele, e ele baixou os olhos para a pantera com um olhar enigmático, antes de lhe dar as costas e ir até a mesa. Lyra de repente sentiu o estômago dar um nó, pois Lorde Asriel havia tirado a tampa da garrafa de Tokay e estava enchendo uma taça.

— Não! O grito abafado saiu antes que ela pudesse contê-lo. Lorde Asriel ouviu e se virou imediatamente.

— Quem está aí? Ela não conseguiu se controlar: saltou para fora do armário e correu para arrancar a taça das mãos dele. O vinho voou, molhando a borda da mesa e o tapete, e a taça caiu e se despedaçou. Ele agarrou a menina pelo pulso, torcendo-o com força. — Lyra! Que diabos está fazendo aqui?

— Me solte e eu lhe digo!

— Primeiro vou lhe quebrar o braço. Como ousa entrar aqui?

— Acabei de salvar a sua vida! Por um segundo os dois ficaram imóveis, ela se retorcendo de dor e fazendo uma careta para reprimir os gemidos, ele inclinado sobre ela, com a testa franzida, como um trovão anunciando tempestade.

— O que você disse? — ele perguntou, em voz mais baixa. — O vinho está envenenado — ela resmungou, quase sem abrir a boca. — Vi o Reitor colocar um pó branco dentro dele.

Lorde Asriel a soltou e ela caiu no chão; nervoso, Pantalaimon esvoaçou para o ombro dela. O tio a encarou com uma raiva controlada e ela não ousou sustentar seu olhar.

— Entrei só para ver como era esta sala — ela contou. — Sei que não devia ter feito isso. Ia sair antes que alguém entrasse, mas o Reitor apareceu e fiquei encurralada. O armário era o único esconderijo. E vi quando ele colocou o pó no vinho. Se eu não tivesse...

Bateram na porta. — Deve ser o Porteiro — disse Lorde Asriel. — Volte para o armário. Se eu ouvir o menor barulho, vou fazer você ter vontade de morrer.

Ela correu para se esconder, e mal fechara a porta do armário quando Lorde Asriel falou em voz alta:

— Pode entrar! Como ele tinha dito, era o Porteiro. — Coloco aqui, senhor? Lyra viu o velho parado à porta com ar indeciso, e atrás dele a ponta de um grande caixote de madeira.

— Isso mesmo, Shuter. Traga as duas para dentro e coloque no chão perto da mesa. Lyra se acalmou um pouquinho e se permitiu sentir a dor no ombro e no pulso. Ela teria chorado de dor se fosse outro tipo de menina; mas só o que fez foi cerrar os dentes e movimentar de leve o braço até sentir que ficava mais leve.

Então ouviu o ruído de vidro se quebrando e o borbulhar de um líquido que se derramava.

— Maldição! Shuter, seu velho desastrado! Veja o que você fez! Lyra conseguia ver pouco, mas o suficiente. O tio dera um jeito de derrubar a garrafa de

Tokay, fazendo parecer que tinha sido o Porteiro. O velho pousou com cuidado o caixote no chão e começou a se desculpar. — Sinto muito, mesmo, senhor. A mesa estava mais perto do que eu pensava...

— Arrume alguma coisa para limpar esta sujeira. Vá depressa, antes que o tapete fique encharcado!

O Porteiro e seu jovem ajudante saíram apressados. Lorde Asriel se aproximou do armário e falou num cochicho:

— Já que está aí, pode fazer alguma coisa útil. Vigie atentamente o Reitor. Se me contar alguma coisa interessante a respeito dele, vou impedir que você tenha ainda mais problemas do que os que já vai ter. Entendeu? — Sim, tio.

— Se fizer um barulho sequer aí dentro, não vou ajudar você. Fica por sua conta. Ele se afastou, e estava novamente parado de costas para a lareira quando o Porteiro voltou com uma vassoura e uma pá para os cacos de vidro, além de um pano e uma tigela. — Só me resta pedir desculpas mais uma vez, senhor; juro que não sei o que me...

— Limpe isso aí e pronto. Enquanto o Porteiro enxugava o vinho do tapete, o Mordomo bateu e entrou com o criado de Lorde Asriel — um homem chamado Thorold. Os dois carregavam um caixote pesado, de madeira envernizada e alças de bronze. Viram o que o Porteiro estava fazendo e pararam, perplexos.

— Era o Tokay, sim — disse Lorde Asriel. — Uma pena. A lanterna está aí? Coloque-a perto do armário, Thorold, por favor. A tela vai ficar do outro lado.

Lyra percebeu que pela fresta da porta conseguiria ver a tela e o que fosse projetado nela, e pensou se o tio tinha feito de propósito. Protegida pelo barulho que o criado fazia ao desenrolar o linho rígido e montar a tela e sua armação, ela cochichou: — Está vendo? Não valeu a pena?

— Pode ser que sim... — disse Pantalaimon em tom severo, com sua vozinha de mariposa — ... e pode ser que não — completou.

Lorde Asriel ficou parado perto da lareira bebericando o resto do café e observando com ar sério enquanto Thorold abria a caixa da lanterna de projeção e desencapava a lente antes de verificar o tanque de óleo.

— Há bastante óleo, senhor — disse. — Quer que eu mande chamar um técnico para fazer a projeção? — Não, eu mesmo farei isso. Obrigado, Thorold. Eles já terminaram o jantar, Wren?

— Creio que estão quase terminando, senhor — respondeu o Mordomo. — Se entendi direito o que o Sr. Cawson disse, o Reitor e seus convidados vão se apressar quando souberem que o senhor está aqui. Posso levar a bandeja do café? — Pode levar.

— Muito bem, senhor. Com uma reverência leve, o Mordomo pegou a bandeja e saiu, e Thorold foi com ele.

Assim que a porta se fechou, Lorde Asriel olhou diretamente para o armário no outro lado da sala, e Lyra sentiu a força daquele olhar quase como se ele tivesse uma forma física, como se fosse uma flecha ou uma lança. Então ele desviou os olhos e falou baixinho com seu dimon.

A pantera veio se sentar calmamente ao lado dele, alerta, elegante e perigosa, os olhos verdes examinando o aposento antes de se voltarem, como os olhos negros dele, para a porta que dava para o Salão, no momento em que a maçaneta girou. Lyra não conseguia ver a porta, mas escutou uma respiração profunda quando o primeiro homem entrou.

— Estou de volta, Reitor — disse Lorde Asriel. — Por favor, traga os seus convidados; tenho algo muito interessante para mostrar.

— LORDE Asriel! — o Reitor exclamou em tom alto, e avançou para lhe apertar a mão.

De seu esconderijo, Lyra observava os olhos do Reitor, e de fato, por um segundo, eles foram até a mesa onde o Tokay estivera. Lorde Asriel falou:

— Reitor, cheguei tarde demais, não quis atrapalhar seu jantar, então me acomodei aqui.

Olá, Vice-reitor. Está com ótima aparência. Me perdoem os trajes, acabei de chegar. Sim, Reitor, o Tokay se foi. Acho que o senhor está pisando em cima dele. O Porteiro o derrubou, mas a culpa foi minha. Olá, Capelão. Li seu último artigo com grande interesse...

Ele se afastou com o Capelão, deixando a Lyra uma visão perfeita do rosto do Reitor.

Este estava impassível, mas o dimon em seu ombro arrepiava as penas e se movia sem parar de um pé para o outro. Lorde Asriel já estava dominando o ambiente, e, embora tivesse o cuidado de ser educado com o Reitor no território do próprio Reitor, era óbvio onde estava o poder.

Os Catedráticos saudaram o visitante e se espalharam pela sala, alguns indo se sentar em volta da mesa, outros procurando as poltronas, e logo o zumbido das conversas enchia o ar. Lyra percebia que eles estavam muito intrigados com a caixa de madeira, a tela e a lanterna de projeção. Conhecia muito bem os Catedráticos: o Bibliotecário, o Vice-reitor, o Inquiridor e o resto. Durante toda a vida, ela convivera com esses homens; eles a ensinavam, a castigavam, a consolavam, lhe davam presentinhos, proibiam que chegasse perto das frutas no Pomar; eram o que ela tinha de família. Ela podia até gostar deles como se fossem mesmo a sua família, se soubesse o que era uma família, embora nesse caso fosse mais provável que ela sentisse isso pelos criados da Faculdade; os Catedráticos tinham coisas mais importantes a fazer do que se importar com uma garota meio selvagem, meio civilizada, que o acaso colocara entre eles.

O Reitor acendeu o pavio sob a panelinha de prata e aqueceu um pouco de manteiga antes de abrir com uma faca meia dúzia de botões de papoula e jogar lá dentro. Depois de um jantar, sempre se servia papoula; ela clareava a mente e estimulava a língua, favorecendo a riqueza da conversa. A tradição era o próprio Reitor refogá-las.

Sob o chiado da manteiga no calor e o zumbido das conversas, Lyra se mexeu, procurando uma posição mais confortável. Com enorme cuidado, ela tirou do cabide uma das becas — uma túnica de pele que ia até o chão — e a estendeu no chão do armário.

— Você devia ter escolhido uma velha e áspera — sussurrou Pantalaimon. — Se ficar confortável demais, vai pegar no sono.

— Se isso acontecer, você tem obrigação de me acordar — ela respondeu. Sentou-se e ficou ouvindo a conversa. Uma conversa bastante chata, por sinal; quase toda sobre política, e ainda por cima política de Londres, nenhum assunto excitante como os tártaros. O cheiro agradável de papoula fritando na manteiga e de folha de tabaco penetrava agradavelmente pela fresta da porta do armário, e mais de uma vez Lyra percebeu que estava quase cochilando. Finalmente, ouviu que alguém dava tapinhas na mesa. As vozes silenciaram, e então o Reitor falou.

— Cavalheiros, tenho certeza de que falo por todos ao dar as boas-vindas a Lorde

Asriel. As visitas dele são raras, mas imensamente preciosas, e sei que esta noite ele tem algo muito interessante para nos mostrar. Como todos sabemos, estamos numa época de grande tensão política; Lorde Asriel tem que estar amanhã cedo em White Hall, e há um trem esperando com a caldeira cheia de vapor para levá-lo a Londres assim que tivermos terminado esta conversa; portanto, devemos utilizar o tempo com sabedoria. Imagino que quando ele terminar de falar haverá algumas perguntas; por favor, que sejam breves e relevantes. Lorde Asriel, gostaria de começar?

— Obrigado, Reitor — disse Lorde Asriel. — Para começar, tenho alguns fotogramas para lhes mostrar. Vice-reitor, acho que vai enxergar melhor daqui. Talvez o Reitor queira se sentar ali perto do armário.

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