A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 3 de 7)

Lyra admirou a habilidade de seu tio. O velho Vice-reitor era quase cego, de modo que era uma questão de cortesia arranjar para ele um lugar perto da tela, e isso fez com que o Reitor acabasse sentado ao lado do Bibliotecário, a menos de um metro do armário onde Lyra estava. Ela ouviu o Reitor murmurar enquanto se acomodava na poltrona:

— Esse demônio! Ele sabia do vinho, tenho certeza. O Bibliotecário cochichou de volta: — Ele vai pedir dinheiro. Se forçar uma votação...

— Se ele fizer isso, temos que nos opor, com toda a eloquência que pudermos. A lanterna começou a chiar enquanto Lorde Asriel a bombeava com força. Lyra mudou ligeiramente de posição para poder enxergar a tela, onde agora brilhava um círculo branco. Lorde Asriel pediu:

— Alguém pode diminuir a luz da lamparina? Um dos Catedráticos se levantou para fazer isso, e a sala escureceu. Lorde Asriel começou:

— Como alguns de vocês já sabem, há 12 meses parti para o Norte numa visita diplomática ao Rei da Lapônia. Pelo menos foi o que eu fingi que ia fazer. Minha verdadeira intenção era chegar ainda mais ao norte, até o gelo, para tentar descobrir o que aconteceu com a expedição Grumman. Uma das últimas mensagens de Grumman para a Academia em Berlim falava de um certo fenômeno natural que só é visto nas terras do Norte. Eu estava decidido a investigar isso, e também a descobrir o que pudesse sobre Grumman. Mas a primeira figura que vou lhes mostrar não se refere a nenhuma dessas coisas. Ele colocou o primeiro slide na armação e deslizou-o para trás da lente. Um fotograma circular em preto e branco bem definido apareceu na tela. Tinha sido tirado à noite, sob a lua cheia, e mostrava um casebre de madeira a meia distância, as paredes escuras contra a neve que o rodeava e cobria o telhado. Ao lado do casebre, havia uma série de instrumentos filosóficos que aos olhos de Lyra eram como alguma coisa do Parque Ambárico na estrada para Yarnton: antenas, fios, isoladores de porcelana, tudo brilhando ao luar e coberto de gelo espesso. Um homem envolto em peles, o rosto mal visível pela abertura do capuz, aparecia em primeiro plano, com a mão erguida como numa saudação. Ao lado dele, havia uma figura menor. A lua banhava tudo na mesma claridade pálida.

— Este fotograma foi feito com uma emulsão padrão, de nitrato de prata — Lorde Asriel informou. — Quero que vejam outro, tirado no mesmo local apenas um minuto depois, com uma nova emulsão, de preparo especial.

Ele retirou o primeiro slide e colocou outro no lugar. Esse era bem mais escuro; era como se o luar tivesse sido bloqueado por um filtro. O horizonte ainda estava visível, com a sombra escura do casebre e o telhado coberto de neve clara se destacando, mas não era possível identificar qualquer detalhe dos instrumentos. Mas o homem havia mudado inteiramente: estava banhado em luz, e uma fonte de partículas cintilantes parecia jorrar da sua mão erguida. — Essa luz está subindo ou descendo? — perguntou o Capelão.

— Está descendo — respondeu Lorde Asriel. — Mas não é luz. É Pó. Alguma coisa no modo como ele disse isso fez Lyra imaginar “Pó” com letra maiúscula, como se não fosse uma poeira comum. A reação dos Catedráticos confirmou sua sensação, porque as palavras de Lorde Asriel provocaram um silêncio súbito e coletivo, seguido por exclamações de incredulidade. — Mas como...

— É claro que...

— Não se pode...

— Cavalheiros! — era a voz do Capelão. — Vamos deixar Lorde Asriel explicar.

— É Pó — repetiu Lorde Asriel. — É registrado como luz porque as partículas de poeira afetam essa emulsão como os fótons afetam a emulsão de nitrato de prata. Foi em parte para testar isso que a minha expedição ao Norte foi montada. Como podem perceber, a figura do homem está perfeitamente visível. Agora quero que observem a figura à esquerda dele.

Indicou a sombra desfocada da figura menor. — Pensei que era o dimon dele — disse o Inquiridor.

— Não. O dimon estava enrolado no pescoço dele em forma de serpente. A figura que os senhores não conseguem ver muito bem é uma criança.

— Uma criança seccionada? — perguntou alguém; a maneira como essa pessoa se interrompeu mostrava que ela sabia que aquilo era uma coisa que não devia ter sido dita.

Houve um silêncio intenso. Então Lorde Asriel disse calmamente: — Uma criança completa. O que, dada a natureza do Pó, é exatamente o xis da questão, não é?

Durante vários segundos ninguém falou. Então se ouviu a voz do Capelão. — Ah — fez ele, como um homem sedento que, tendo acabado de beber à vontade, baixa o copo para poder soltar a respiração que estava prendendo enquanto bebia. — E os rios de Pó...

— Caem do céu e o banham no que parece ser luz. Podem examinar este fotograma com todo cuidado. Vou deixá-lo com vocês. Estou mostrando agora para demonstrar o efeito dessa nova emulsão. Mas gostaria de lhes mostrar outro.

Ele mudou o slide. O fotograma seguinte também tinha sido tirado à noite, mas dessa vez sem lua. Mostrava um grupo de tendas em primeiro plano, cujo contorno se podia ver contra o horizonte baixo, e do lado delas um monte de caixotes e um trenó. Mas a parte mais interessante da figura era o céu. Jorros e véus de luz pendiam como cortinas, dando voltas e se entrelaçando em ganchos invisíveis com centenas de quilômetros de altura ou deslizando de lado no sopro de um vento inimaginável. — Que é aquilo? — perguntou o Vice-reitor.

— É um retrato da Aurora Boreal.

— É um lindo fotograma — disse o Catedrático de Palmeriano. — Dos melhores que já vi.

— Perdoe minha ignorância — interpôs a voz trêmula do velho Diretor do Coral. —

Mas se eu algum dia já soube o que é a Aurora Boreal, esqueci. É o que chamam de Luzes do

Norte?

— É. Ela tem muitos nomes. É composta de tempestades de partículas carregadas e raios solares de força intensa e extraordinária. São invisíveis, mas provocam esta irradiação luminosa quando interagem com a atmosfera. Se houvesse tempo, eu teria mandado pintar este slide para lhes mostrar as cores; verde e rosa claros, na maior parte, com um toque de escarlate ao longo da borda inferior daquela formação que parece uma cortina. Isto foi tirado com emulsão comum. Agora quero que vejam uma imagem tirada com a emulsão especial.

— Ele já tem o apoio do Capelão— murmurou em resposta o Bibliotecário.

Ele retirou o slide. Lyra ouviu o Reitor dizer baixinho: — Se ele forçar uma votação, podemos tentar invocar a cláusula de residência. Ele ficou fora da Faculdade durante trinta das últimas 52 semanas. Lorde Asriel colocou um novo slide atrás da lente. A cena era a mesma: como acontecera com o outro par de fotos, muitas coisas visíveis à luz comum eram muito mais escuras neste, assim como as cortinas de luz no céu.

inconfundível de uma cidade: torres, domos, muralhasprédios e ruas, suspensos no ar! Ela

Mas, no centro da Aurora, bem acima da paisagem sombria, Lyra podia ver alguma coisa sólida. Pressionou o rosto na fresta para ver melhor e notou que os Catedráticos perto da tela também se inclinavam para a frente. Seu assombro cresceu ao ver ali no céu o contorno quase se engasgou de susto.

— Aquilo ali pareceuma cidade!

O Catedrático de Cassington comentou: — Exatamente — confirmou Lorde Asriel.

— Uma cidade em outro mundo, sem dúvida — o Decano falou, em tom de desprezo. Lorde Asriel o ignorou. Havia um tremor de excitação entre alguns Catedráticos, como se, tendo escrito tratados sobre a existência do unicórnio sem jamais terem visto um, lhes fosse apresentado um exemplar vivo, recém-capturado.

— É aquele negócio do Barnard-Stokes? — quis saber o Catedrático de Palmeriano. —

É, sim, não é?

— É isto que eu quero descobrir — disse Lorde Asriel. Ele se posicionou ao lado da tela iluminada. Lyra via seus olhos escuros observando os

Catedráticos, que contemplavam o slide da Aurora; ela via também, ao lado dele, o brilho verde dos olhos de seu dimon. Todas as cabeças veneráveis estavam eretas, os óculos brilhando; apenas o Reitor e o Bibliotecário estavam recostados em suas poltronas, com as cabeças muito juntas.

O Capelão estava dizendo: — O senhor diz que estava procurando notícias da expedição Grumman, Lorde Asriel. O

Dr. Grumman também estava investigando este fenômeno?

— Acredito que sim, e acredito também que conseguiu bastante informação sobre isso.

Mas ele não vai poder nos contar, porque está morto. — Não! — exclamou o Capelão.

— Infelizmente sim, e eu tenho a prova aqui comigo. Uma onda de nervosa apreensão percorreu a Sala Privativa enquanto, sob ordens de

Lorde Asriel, dois ou três Catedráticos mais jovens carregaram a caixa de madeira para a frente da sala. Lorde Asriel retirou o último slide, mas deixou a lanterna acesa e, no brilho teatral do círculo de luz, inclinou-se para abrir a caixa com um pé de cabra. Lyra ouviu o rangido de pregos saindo de madeira úmida. O Reitor ficou de pé para poder ver, tapando a visão de Lyra. O tio dela tornou a falar:

— Se vocês se lembram, a expedição de Grumman desapareceu há 18 meses. A

Academia Alemã o mandou avançar para o norte até chegar ao polo magnético, e ali fazer várias observações astronômicas. Foi durante essa viagem que ele observou o curioso fenômeno que acabamos de ver. Logo depois, ele desapareceu; se supõe que tenha sofrido um acidente, e seu corpo esteja todo esse tempo caído numa fenda qualquer. Na verdade, não houve acidente algum.

— O que você tem aí? — perguntou o Decano. — É um recipiente a vácuo? Lorde Asriel não respondeu logo. Lyra ouviu o estalido de presilhas de metal e um assobio de ar penetrando num receptáculo, e depois houve silêncio. Mas o silêncio não durou muito; depois de um instante, Lyra ouviu uma explosão de exclamações confusas: gritos de horror, protestos veementes, vozes alteadas de raiva e medo. — Mas o que...

não é humano...
aquilo foi...

— Mas o que foi que aconteceu com aquilo? A voz do Reitor calou todas as outras: — Lorde Asriel, em nome de Deus, o que o senhor tem aí?

— Esta é a cabeça de Stanislaus Grumman — a voz de Lorde Asriel disse. Acima do ruído de vozes, Lyra ouviu alguém ir tropeçando até a porta e sair, soltando gemidos incoerentes. Ela queria poder ver o que eles estavam vendo. Lorde Asriel continuou: — Encontrei o corpo dele conservado no gelo perto de Svalbard. Os assassinos fizeram isto na cabeça dele. Reparem no padrão de escalpelo característico. Acho que o senhor deve estar familiarizado com isto, Vice-reitor.

A voz do ancião era firme ao responder: — Já vi os tártaros fazerem isso. É uma técnica encontrada entre os aborígines da

Sibéria e do Tungusk. De lá, naturalmente, essa prática se espalhou para as terras dos escraelingues, embora eu acredite que ela agora esteja proibida na Nova Dinamarca. Posso examinar de perto, Lorde Asriel?

Depois de um silêncio breve, ele tornou a falar. — Minha visão não é muito nítida, e o gelo está sujo, mas me parece que há um buraco no alto do crânio. Estou certo? — Está, sim.

— Uma trepanação?

— Exatamente. Isso provocou um murmúrio de excitação. O Reitor saiu da frente, e Lyra tornou a enxergar a cena. O velho Vice-reitor, no círculo de luz do lampião, segurava um pesado bloco de gelo bem perto dos olhos, e Lyra conseguiu ver o objeto dentro dele: uma bola sanguinolenta quase irreconhecível como uma cabeça humana. Pantalaimon esvoaçou em volta de Lyra, e sua aflição a perturbou. — Quieto, escute — ela sussurrou.

— O Dr. Grumman já foi Catedrático nesta Faculdade — disse o Decano em tom veemente. — Cair nas mãos dos tártaros...

— Mas tão ao norte?

— Eles devem ter penetrado mais do que se imaginava!

— Será que ouvi o senhor dizer que o encontrou perto de Svalbard? — perguntou o

Decano. — Isso mesmo.

— Então está querendo dizer que os panserbjornes têm algo a ver com isto? Lyra não reconheceu aquela palavra, mas obviamente os Catedráticos sim. — Impossível — disse o Catedrático de Cassington com firmeza. — Eles nunca se comportariam assim.

— Então não conhece Iofur Raknison — retrucou o Catedrático de Palmeriano, que tinha feito ele próprio várias expedições às regiões árticas. — Não me surpreenderia que ele tivesse começado a escalpelar as pessoas à moda dos tártaros.

Lyra tornou a olhar para o tio, que observava os Catedráticos com um brilho de satisfação maldosa, sem nada dizer.

— Quem é Iofur Raknison? — alguém perguntou. — O rei de Svalbard — esclareceu o Catedrático de Palmeriano. — Sim, é isso mesmo, um dos panserbjornes. Ele é uma espécie de impostor; chegou ao trono através de trapaças, pelo que sei; mas é uma figura poderosa, nem um pouco tolo, apesar de suas afetações ridículas: construir um palácio de mármore importado, criar o que ele chama de uma universidade...

— Para quem? Para os ursos? — comentou outra pessoa, e todos riram. Mas o Catedrático de Palmeriano prosseguiu: — Eu lhes digo que Iofur Raknison seria capaz de fazer isso a Grumman. Ao mesmo tempo, com bajulação, é possível fazer com que ele se comporte de maneira bem diferente, se for preciso.

— E o senhor sabe fazer isso bem, não é, Trelawney? — comentou o Decano com zombaria.

— Claro que sei. Quer saber o que ele deseja acima de tudo? Até mais do que um diploma honorário? Ele quer um dimon! Se alguém descobrir um meio de lhe dar um dimon, ele fará qualquer favor.

Os Catedráticos riram com vontade. Lyra acompanhava isso tudo sem compreender: o que o Catedrático de Palmeriano tinha dito não fazia sentido. Além disso, ela estava impaciente para ouvir mais sobre o escalpelamento, e as Luzes do Norte, e aquele Pó misterioso. Mas ficou decepcionada, pois Lorde Asriel havia terminado de mostrar suas relíquias e suas fotos, e a conversa logo se transformou num debate acadêmico sobre a conveniência ou não de lhe dar dinheiro para equipar uma outra expedição. Os argumentos eram disparados de um lado para outro, e Lyra sentiu os olhos pesarem. Logo estava dormindo a sono solto, com Pantalaimon enrolado em seu pescoço, na sua forma de dormir favorita: como um arminho.

Ela despertou com um susto quando alguém a sacudiu pelo ombro. — Quieta! — ordenou o tio. A porta do armário estava aberta, e ele estava agachado na frente da luz. — Foram todos embora, mas ainda há alguns criados por aí. Vá para o seu quarto agora, e trate de não falar a ninguém sobre isso. — Eles votaram para lhe dar o dinheiro? — ela perguntou com voz sonolenta.

— O que é Pó? — ela continuou, se esforçando para ficar de pé depois de passar tanto tempo num lugar tão pequeno. — Não lhe interessa.

— Interessa, sim — ela retrucou. — Se queria que eu fosse uma espiã no armário, devia me contar sobre o que eu estou espionando. Posso ver a cabeça do homem?

A alva pelagem de arminho de Pantalaimon se arrepiou; ela sentiu cócegas no pescoço.

Lorde Asriel soltou uma risada curta.

— Não seja mórbida — disse, e começou a guardar os slides e a caixa de espécimes. — Vigiou o Reitor?

— Sim, e ele procurou o vinho antes de qualquer outra coisa. — Ótimo. Por enquanto eu o derrotei. Agora faça o que mandei, vá para a cama.

— Mas para onde o senhor vai?

— De volta para o Norte. Viajo em dez minutos.

— Posso ir junto? Ele interrompeu o que estava fazendo e a olhou como se fosse a primeira vez. Seu dimon também voltou para ela os enormes olhos verdes de pantera, e, sob os olhares concentrados de ambos, Lyra enrubesceu. Mas ficou firme. — Seu lugar é aqui — disse o tio finalmente.

— Mas por quê? Por que meu lugar é aqui? Por que não posso ir para o Norte com o senhor? Quero ver as Luzes do Norte, os ursos, os icebergs e tudo mais. Quero conhecer o Pó. E aquela cidade no ar. É um outro mundo?

(Parte 3 de 7)

Comentários