A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 4 de 7)

— Você não vem, garota. Tire isso da cabeça; estamos numa época perigosa demais.

Faça o que estou mandando e vá para a cama; se se comportar, trago uma presa de morsa entalhada pelos esquimós para você. Não discuta mais, ou vou ficar muito zangado.

E o dimon dele rosnou com tal ferocidade que Lyra de repente tomou consciência de como seria sentir aqueles dentes na garganta.

Lyra apertou os lábios e olhou de cara feia para o tio. Ele estava retirando o ar do recipiente a vácuo e não percebeu; era como se já a tivesse esquecido. Sem uma palavra, mas com os lábios apertados e o olhar furioso, a garota e seu dimon saíram e foram para a cama.

O Reitor e o Bibliotecário eram velhos amigos e aliados, e tinham o costume, depois de um episódio difícil, de beber uma taça de brantwijn e consolar um ao outro. Assim, depois que se despediram de Lorde Asriel, eles foram até os aposentos do Reitor e se acomodaram na sala de conversas dele; com as cortinas fechadas e o fogo na lareira reforçado, seus dimons nos lugares de costume, sobre o joelho ou o ombro, eles se prepararam para conversar a respeito do que acabara de ocorrer. — Acredita mesmo que ele sabia do vinho? — perguntou o Bibliotecário.

— Claro que sabia! Não imagino como, mas ele sabia, e derrubou a garrafa. Claro que foi.

— Perdão, Reitor, mas não consigo deixar de me sentir aliviado. Não estava gostando da ideia de... — De envenená-lo?

— Sim. De assassinato.

— Acho que ninguém gosta disso, Charles. Mas as consequências de não se fazer nada poderiam ser piores. Bom, alguma Providência interveio, e não aconteceu. Só lamento ter perturbado você com essa informação.

— Não, não — protestou o Bibliotecário. — Mas eu queria que o senhor tivesse me contado mais.

O Reitor ficou em silêncio por um instante, antes de dizer: — É, talvez eu devesse, mesmo. O aletiômetro avisa que as consequências serão desastrosas se Lorde Asriel continuar com sua pesquisa. Além do mais, a criança será envolvida, e quero mantê-la a salvo enquanto for possível.

Tribunal Consistorial de Disciplina? Aquele tal decomo é mesmo o nome?... Conselho de
— Lorde Asrielnão, não. Pelo contrário. E também, o Conselho de Oblação não está

— As atividades de Lorde Asriel têm alguma coisa a ver com essa nova iniciativa do Oblação? totalmente subordinado ao Tribunal Consistorial. É uma iniciativa semiprivada; está sendo dirigida por alguém que não gosta de Lorde Asriel. Entre os dois, Charles, eu tremo.

O Bibliotecário ficou calado. Desde que o Papa João Calvino havia transferido a sede do Papado para Genebra e criado o Tribunal Consistorial de Disciplina, o poder da Igreja sobre todos os aspectos da vida tinha sido absoluto. O próprio Papado fora abolido após a morte de Calvino, e em seu lugar crescera um emaranhado de tribunais, colegiados e conselhos, conhecidos coletivamente como Magisterium. Esses órgãos nem sempre eram unidos; às vezes crescia entre eles uma amarga rivalidade. Durante grande parte do século anterior, o mais poderoso deles tinha sido o Colegiado dos Bispos, porém, nos anos mais recentes, o Tribunal Consistorial de Disciplina tinha se tornado o mais atuante e o mais temido de todos os órgãos da Igreja.

Mas era sempre possível que entidades independentes crescessem sob a proteção de outra facção do Magisterium, e o Conselho de Oblação mencionado pelo Bibliotecário era uma dessas. O Bibliotecário não sabia muita coisa sobre ele, mas as coisas que ouvira lhe despertavam desagrado e temor, de modo que ele compreendia perfeitamente a aflição do Reitor.

— O Catedrático de Palmeriano citou um nome — disse, depois de um instante. —

Barnard-Stokes? Que negócio é esse de Barnard-Stokes?

mundo espiritual do céu e do inferno. Barnard e Stokes eram dois teólogoscomo posso
dizer?dois teólogos renegados, que defendiam a ideia da existência de vários outros

— Ah, não é da nossa esfera, Charles. Pelo que entendi, a Santa Igreja ensina que existem dois mundos: o mundo de tudo que podemos ver, ouvir e tocar, e outro mundo, o mundos como este aqui, nem céu nem inferno, mas materiais e pecaminosos. Estão aqui, bem próximos, mas invisíveis e inatingíveis. Naturalmente, a Santa Igreja desaprovou essa heresia abominável, e Barnard e Stokes foram silenciados. Mas, infelizmente para o Magisterium, parece haver sólidas provas matemáticas a favor dessa teoria dos outros mundos. Eu próprio nunca as estudei, mas o Catedrático de Cassington me disse que são muito sólidas.

— E agora Lorde Asriel tirou uma foto de um desses outros mundos — completou o

Bibliotecário. — E nós lhe demos financiamento para ir procurá-los. Entendo.

— Isso mesmo. O Conselho de Oblação e seus poderosos protetores irão pensar que a

Faculdade Jordan é um antro de apoio à heresia. E entre o Tribunal Consistorial e o Conselho de Oblação, Charles, tenho que manter o equilíbrio; enquanto isso, a criança está crescendo. Sei que não a esqueceram; mais cedo ou mais tarde, ela seria envolvida, mas será arrastada agora, com ou sem a minha vontade de protegê-la.

— Mas, pelo amor de Deus, como é que o senhor sabe disso? Foi o aletiômetro de novo?

— Foi, sim. Lyra tem um papel importante nessa história. A ironia é que ela tem que fazer tudo sem saber o que está fazendo. Mas pode ser ajudada, e se meu plano com o Tokay tivesse dado certo, ela ficaria em segurança por mais algum tempo. Eu gostaria de lhe poupar uma viagem para o Norte. Acima de tudo, eu queria poder explicar a ela...

— Ela não ia prestar atenção — contrapôs o Bibliotecário. — Conheço muito bem o jeito dela. Se alguém tentar lhe dizer qualquer coisa séria, ela mal escuta por cinco minutos e aí começa a se distrair. E não adianta lhe fazer perguntas depois, porque ela terá esquecido tudo.

— E se eu conversasse com ela sobre o Pó? Não acha que ela iria prestar atenção?

O Bibliotecário fez um ruído indicando até que ponto achava isso improvável.

— Por que ela iria prestar atenção? — perguntou. — Por que um enigma teológico distante interessaria a uma criança saudável e irresponsável? — Por causa do que ela terá que viver. Inclusive uma grande traição...

— Quem é que vai traí-la?

— Não, não, essa é que é a coisa mais triste: ela é quem vai trair, e a experiência será terrível. É claro que ela não pode saber disso, mas não há nenhuma razão para ela não saber sobre o problema do Pó. E você pode estar enganado, Charles; ela pode muito bem se interessar, se lhe for explicado de maneira simples. E pode ser que isso a ajude depois. Certamente ajudaria a diminuir a minha ansiedade.

— Este é o dever dos velhos: ter ansiedade por causa dos jovens — comentou o

Bibliotecário. — E o dever dos jovens é fazer pouco caso da ansiedade dos velhos.

Depois de algum tempo, os dois se despediram, pois era tarde e eles eram velhos e ansiosos.

A Faculdade Jordan era a mais grandiosa e mais rica faculdade de Oxford. Era provavelmente a maior, também, embora ninguém tivesse certeza disso. Os prédios, agrupados ao redor de três quadriláteros irregulares, datavam de todas as épocas, do início da Idade Média até meados do século XVIII. Sua arquitetura não tinha sido planejada; a faculdade crescera aos poucos, com o passado e o presente se misturando a cada esquina, e o efeito final era de uma imponência confusa e decadente. Sempre havia uma parte querendo desabar, e, durante cinco gerações, a mesma família — os Parslow — trabalhava para a Faculdade em tempo integral, como pedreiros e especialistas em andaimes. O Sr. Parslow atual estava ensinando a profissão ao filho; os dois, com mais três empregados, subiam como formigas diligentes pelos andaimes que estavam montados no canto da Biblioteca, ou ficavam sobre o telhado da Capela, e puxavam para cima novos blocos de pedra, rolos de chumbo brilhante, ou vigas de madeira.

A Faculdade era dona de fazendas e propriedades por toda a Inglaterra. As pessoas diziam que era possível caminhar de Oxford a Bristol, numa direção, ou de Oxford a Londres, em outra, e nunca sair das terras da Jordan. Em toda parte do reino, havia olarias e tanques de tintura, florestas e oficinas de naves atômicas que pagavam aluguel à Jordan, e todo primeiro dia de cada trimestre o Tesoureiro e seus funcionários somavam tudo, anunciavam o total ao Conselho e encomendavam um par de cisnes para o Banquete. Parte do dinheiro ia para novos investimentos — o Conselho acabara de aprovar a compra de um prédio de salas das conversas em Manchester —, e o que sobrava era usado para pagar os modestos salários dos Catedráticos e dos criados (e dos Parslow, e de mais de uma dúzia de famílias de artesãos e comerciantes que serviam à Faculdade), para manter a adega bem provida de vinhos, para comprar livros e anbarógrafos para a imensa Biblioteca — que ocupava um lado inteiro do Quadrilátero Melrose e se estendia, como a toca de uma toupeira, por vários andares no subsolo — e também para comprar o equipamento filosófico mais moderno para a Capela.

Era importante manter a Capela equipada com o que havia de mais moderno, porque a

Faculdade Jordan não tinha concorrentes, na Europa ou na Nova França, como centro de teologia experimental. Lyra sabia disso, pelo menos. Tinha orgulho do destaque de sua Faculdade e gostava de se gabar disso com os vários moleques com quem brincava junto ao Canal ou nos Barreiros; e olhava para os eruditos e professores visitantes com desprezo e piedade, porque eles não pertenciam à Jordan, e sendo assim deviam saber menos, coitados, do que o mais humilde Professor-assistente da Jordan.

O que era essa teologia experimental, Lyra sabia tão pouco quanto os moleques da rua.

Imaginava que era algo relacionado à magia, aos movimentos das estrelas e dos planetas, a minúsculas partículas de matéria — mas tudo isso era apenas palpite, na verdade. Com certeza, as estrelas tinham dimons, como os humanos, e na teologia experimental se conversava com eles. Lyra imaginava o Capelão falando solenemente, escutando os comentários dos dimons das estrelas e depois concordando com ar sábio, ou sacudindo a cabeça com tristeza. Mas o que se passava entre eles ela não conseguia imaginar.

E nem estava muito interessada. De certo modo, Lyra tinha alma de moleque; o que ela mais gostava de fazer era subir nos telhados da Faculdade com Roger, o ajudante de cozinha que era seu amigo, para cuspir caroços de ameixa na cabeça dos Catedráticos que passavam lá embaixo, ou piar como corujas do lado de fora da janela de uma sala de aula, ou apostar corrida nas ruas estreitas, roubar maçãs no mercado, brigar. Assim como ela não fazia ideia das disputas políticas que se escondiam sob a aparência de normalidade no dia a dia da Faculdade, também os Catedráticos, por sua vez, não conseguiriam enxergar o caldo fervilhante de alianças, inimizades, guerras e acordos que era a vida de uma criança em Oxford. Crianças brincando juntas: que cena agradável! Existe alguma coisa mais inocente e encantadora que isso?

Na verdade, Lyra e seus amiguinhos estavam envolvidos numa guerra mortal, naturalmente. Primeiro, as crianças de uma faculdade — serviçais jovens, os filhos de criados, e Lyra — declaravam guerra às de outra. Mas essa inimizade era esquecida quando as crianças da cidade atacavam uma criança de faculdade; então todas as crianças das faculdades se juntavam e lutavam contra as crianças da cidade. A rivalidade entre esses dois grupos tinha centenas de anos e era bastante profunda e apreciada.

Mas até isso era esquecido quando outros inimigos ameaçavam. Um inimigo era eterno: os filhos dos oleiros, que viviam perto dos Barreiros e eram desprezados tanto pelas crianças das faculdades como pelas da cidade. No ano anterior, Lyra e algumas crianças da cidade tinham feito uma trégua provisória e atacaram os Barreiros, atirando grandes pedaços de argila sobre os filhos dos fabricantes de tijolos e derrubando o ensopado castelo de barro que eles haviam construído; depois rolaram cada um deles na substância pegajosa de onde eles tiravam o sustento, até que todos — vencidos e vencedores — ficaram parecendo um bando de bonecos animados.

O outro inimigo regular tinha sua época: as famílias de gípcios, que moravam em barcos de canal, iam e vinham com as feiras de primavera e outono, e estavam sempre dispostos a brigar. Havia uma família em particular, que voltava regularmente para seu atracadouro na parte da cidade conhecida como Jericó, com quem Lyra vinha lutando desde a primeira vez que teve força para jogar uma pedra. Na última vez que essa família esteve em Oxford, ela, Roger e alguns dos outros ajudantes de cozinha da Jordan e da Faculdade St. Michael’s prepararam uma emboscada, jogando lama na barcaça pintada de cores brilhantes, até que a família inteira desembarcou para expulsá-los. Nesse momento, o esquadrão de reserva, sob as ordens de Lyra, invadiu o barco e o afastou da margem, deixando que a embarcação flutuasse canal abaixo, atrapalhando os barcos que passavam, enquanto os incursores de Lyra revistavam a barcaça de uma ponta a outra, procurando a rolha. Lyra acreditava firmemente nessa rolha e assegurou à sua tropa que se a puxassem o barco afundaria no mesmo instante; não a encontraram, e tiveram que abandonar o barco quando os gípcios os alcançaram; acabaram fugindo, pingando água e em meio a gritos de triunfo, pelas ruas estreitas de Jericó.

Aquele era o mundo e o prazer de Lyra. Na maior parte do tempo, ela era uma selvagenzinha ambiciosa e sem educação, mas sempre tivera uma sensação de que aquele não era o seu mundo inteiro, que uma parte dela pertencia à solenidade e aos rituais da Faculdade Jordan; e que, em algum lugar de sua vida, havia uma ligação com o elevado mundo da política representado por Lorde Asriel. Essa intuição apenas fazia com que ela se achasse superior e mandasse nos outros moleques; nunca passara pela sua cabeça tentar descobrir alguma coisa sobre isso.

Ela passara a infância, então, mais parecendo um gato selvagem. As coisas só mudavam um pouco quando Lorde Asriel aparecia na Faculdade. Ter um tio rico e poderoso era muito bom para se vangloriar, mas o preço disso era ter que ser agarrada pelo Catedrático mais ágil e levada à Governanta para ser lavada e metida num vestido limpo, sendo em seguida acompanhada (com várias ameaças) à Sala de Estar dos Decanos para tomar chá com Lorde Asriel. Alguns Catedráticos mais velhos também eram convidados. Lyra, rebelde, jogava-se numa cadeira até o Reitor lhe ordenar severamente que se sentasse direito, e ela então fazia uma cara tão zangada que até o Capelão achava graça.

Essas visitas formais e constrangedoras nunca variavam; depois do chá, o Reitor e o punhado de Catedráticos convidados deixavam Lyra e o tio sozinhos, e ele a chamava para ficar de pé à sua frente e contar o que aprendera desde a última visita dele. Ela então murmurava tudo que conseguia lembrar sobre geometria, ou árabe, ou história ou anbarologia, e ele, recostado, pernas cruzadas, a observava enigmaticamente até ela ficar sem palavras.

— Eu brinco, só isso. Por aí pela Faculdade. Sóbrincadeira.

No ano anterior, antes da expedição ao Norte, ele tinha perguntado também: — E como você passa o tempo quando não está estudando com afinco? E ela respondeu: Ele então pediu: — Me deixe ver suas mãos, garota.

Ela estendeu as mãos para serem examinadas, e ele as virou, para ver as unhas. Seu dimon estava deitado como uma Esfinge no tapete, sacudindo a cauda de vez em quando e encarando Lyra sem piscar.

— Sujas — declarou Lorde Asriel, empurrando as mãos dela. — Aqui neste lugar não lhe fazem tomar banho? — Sim, mas as unhas do Capelão estão sempre sujas. Até mais que as minhas.

(Parte 4 de 7)

Comentários