A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 5 de 7)

— Ele é um homem culto. Qual é a sua desculpa?

— Devo ter sujado depois que lavei.

— Onde é que você brinca, para se sujar tanto assim? Ela o encarou desconfiada. Tinha a impressão de que subir no telhado era proibido, embora ninguém tivesse lhe dito isso com todas as letras. — Em algumas salas velhas — respondeu afinal.

— E onde mais? — Nos Barreiros, às vezes.

— Em Jericó e Port Meadow.

— Mais algum outro lugar?

— Está mentindo. Ontem mesmo vi você no telhado. Ela mordeu o lábio e ficou calada. Ele a observava ironicamente. — Quer dizer que brinca no telhado também? — continuou. — Costuma entrar na

Biblioteca? — Não. Mas encontrei uma gralha no telhado da Biblioteca.

— Foi mesmo? E a pegou?

— Ela estava com uma pata machucada. Eu ia matar e assar ela, mas Roger disse que tínhamos que cuidar dela. Então lhe demos sobras de comida e um pouco de vinho, e ela melhorou e voou para longe.

— Quem é Roger? — Meu amigo. O ajudante de cozinha.

— Entendo. Então você andou pelo telhado inteiro...

— Não o telhado inteiro. Não dá para chegar no Prédio Sheldon porque é preciso dar um pulo da Torre do Peregrino, por cima de um espaço. Há uma claraboia que se abre ao telhado, mas não consigo alcançar. — Você andou pelo telhado inteiro, menos o Prédio Sheldon; e lá embaixo?

— Embaixo?

— Para baixo do chão a Faculdade é tão grande quanto para cima. Estou surpreso de ver que você ainda não descobriu isso. Bem, já estou de partida. Você parece bastante saudável. Tome aqui.

Tirou do bolso um punhado de moedas, de onde separou e entregou a ela cinco dólares de ouro. — Não lhe ensinaram a agradecer? — perguntou.

— Muito obrigada — ela murmurou.

— Você obedece ao Reitor?

— Ah, sim.

— E respeita os Professores?

— Sim. O dimon de Lorde Asriel riu baixinho. Era o primeiro som que ele fazia, e Lyra enrubesceu.

— Então vá brincar — disse Lorde Asriel. Lyra se virou e disparou para a porta, aliviada, se lembrando de parar e dizer até logo.

Assim tinha sido a vida de Lyra antes do dia em que ela resolveu se esconder na Sala Privativa e pela primeira vez ouviu falar no Pó.

E, naturalmente, o Bibliotecário estava enganado ao dizer ao Reitor que ela não prestaria atenção; ela teria ouvido com muita atenção quem quer que pudesse lhe falar do Pó. Nos meses seguintes, iria ouvir muita coisa sobre o assunto, e finalmente iria saber mais sobre o Pó do que qualquer outra pessoa no mundo; mas, enquanto isso, havia toda aquela fascinante vida da Jordan acontecendo bem à sua volta.

De qualquer maneira, havia outra coisa para se pensar. Nas últimas semanas, um boato vinha se espalhando pelas ruas — um boato que fazia algumas pessoas rirem e outras silenciarem, assim como algumas pessoas riem de fantasmas e outras têm medo deles: sem que qualquer pessoa pudesse imaginar o motivo, crianças estavam começando a desaparecer.

Acontecia assim: ao longo da margem oriental da grande rodovia que é o rio Ísis, repleto de barcaças de tijolos, asfalto ou milho navegando devagar, até abaixo de Henley e Maidenhead chegando em Teddington, onde a maré do Oceano Germano alcança, e ainda bem mais abaixo até Mortlake, passando pela casa do grande mago Dr. Dee, por Falkeshall, onde os parques-jardins ostentam seus chafarizes e suas bandeirolas durante o dia, e seus lampiões nas árvores e seus fogos de artifício à noite; e passando pelo Palácio de White Hall, onde o Rei comanda semanalmente o Conselho de Estado; pela Torre Shot, pingando seu infindável chuvisco de chumbo derretido em barris de água escura; e ainda mais abaixo, até onde o rio, agora largo e imundo, faz uma grande curva para o sul.

Ali fica o bairro de Limehouse, e lá está a criança que vai desaparecer. É um menino chamado Tony Makarios. A mãe pensa que ele tem 9 anos, mas ela tem memória fraca, destruída pela bebida; ele pode ter 8, ou 10. Seu sobrenome é grego, mas, assim como a idade, pode ser apenas um palpite da mãe dele, porque ele parece mais chinês que grego, e pelo lado da mãe ele tem sangue irlandês, escraelingue e lascar. Tony não é muito inteligente, mas tem uma espécie de ternura desajeitada que às vezes o leva a dar um abraço meio bruto na mãe e plantar um beijo pegajoso em seu rosto. A pobre mulher geralmente está tonta demais para tomar uma iniciativa dessas, mas corresponde com carinho, quando percebe o que está acontecendo.

No momento, Tony está vagando pelo mercado na rua Pie. Está com fome; é de noitinha e ele não vai encontrar comida em casa. Tem no bolso um xelim que um soldado lhe deu para levar um recado à sua garota favorita, mas Tony não vai desperdiçar seu dinheiro com comida, quando se pode conseguir tanta coisa de graça.

De modo que ele fica vagando pelo mercado com seu pequeno dimon — uma pardoca — no ombro observando tudo, por entre as barracas de roupas usadas e as de papéis da sorte, os vendedores de fruta e o vendedor de peixe frito; e quando uma barraqueira e seu dimon estão ambos olhando para o outro lado, a pardoca dá o sinal, e as mãos de Tony vão à frente e voltam para dentro da camisa larga com uma maçã ou um punhado de castanhas, e finalmente com um pastelão quentinho.

A barraqueira o vê e dá um grito, e seu dimon-gato salta, mas a pardoca de Tony está voando, e o próprio Tony já está quase na esquina. Palavrões e pragas o acompanham, mas não até muito longe; ele para de correr junto à escada do Oratório de Santa Catarina, onde se senta e pega seu troféu quente e amassado, deixando um rastro de molho na camisa.

E ele está sendo observado; uma dama usando um casaco longo de pele de raposa amarela e vermelha, uma linda jovem, cujos cabelos castanhos brilham delicadamente dentro da sombra de seu capuz forrado de pele, está parada à porta do Oratório, alguns degraus acima do garoto. Talvez o ofício esteja terminando, pois pela porta atrás dela jorra luz, lá dentro um órgão está tocando, e a dama está segurando um livro de orações enfeitado com pedras preciosas.

Tony nada percebe. Feliz, com o rosto enterrado no pastelão, os dedos dos pés curvados para dentro e as solas descalças juntas, ele mastiga e engole enquanto seu dimon se transforma numa ratinha e alisa os bigodes.

O dimon da jovem dama está se destacando do casaco de pele de raposa. Ele tem a forma de um macaco, mas não um macaco comum: tem os pelos compridos e sedosos, de um tom dourado forte e lustroso. Com movimentos sinuosos, ele desce lentamente a escadaria na direção de Tony e se senta no degrau acima do garoto.

Então a ratinha percebe alguma coisa e se transforma outra vez em pardoca, virando a cabecinha de lado e saltando um ou dois passos pela pedra.

O macaco observa a pardoca; a pardoca observa o macaco. O macaco estende a mão devagar. Tem a mão pequena e preta, as unhas são garras perfeitas, os movimentos são suaves e convidativos. A pardoca não consegue resistir; se aproxima com mais alguns saltos e então esvoaça para a mão do macaco.

O macaco a ergue e a estuda de perto antes de se levantar e voltar para junto do seu ser humano, levando consigo o dimonpardoca. A dama abaixa a cabeça perfumada para lhe sussurrar alguma coisa. E então Tony se vira; não consegue evitar. — Rateira! — chama, de boca cheia, com certo susto.

— Olá! — diz a linda dama. — Qual é o seu nome?

— Tony.

— Onde é que você mora, Tony?

— Na alameda Clarice.

— Este pastelão é de quê?

— De carne.

— Gosta de chocolatl?

— Gosto!

— Por acaso tenho mais chocolatl do que poderia beber. Quer vir me ajudar a acabar com ele?

Tony já está perdido — desde o momento em que seu dimon insensato saltou para a mão do macaco. Ele acompanha a jovem e o macaco dourado ao longo da rua Dinamarca, passando pelo Cais do Algoz e descendo a Escadaria do Rei George, até uma portinhola verde na parede de um armazém de teto alto. Ela bate, a porta é aberta; eles entram, a porta se fecha. Tony nunca mais sairá — pelo menos por aquela entrada; e nunca mais vai ver a mãe; e ela, pobre bêbada, vai pensar que o filho fugiu, e, quando pensar nele, vai achar que a culpa foi sua e vai se desmanchar em lágrimas.

O pequeno Tony Makarios não foi a única criança raptada pela mulher com o macaco dourado. No porão do depósito, ele encontrou uma dúzia de outras, meninos e meninas, nenhuma delas com mais de 12 anos — apesar de que, tendo todas elas uma infância parecida, ninguém tinha certeza da própria idade. O que Tony não percebeu, naturalmente, era o que todas tinham em comum: nenhuma criança naquele porão quentinho tinha chegado à adolescência.

A gentil dama acomodou-o num banco ao longo da parede e lhe mandou, por uma criada silenciosa, uma caneca de chocolatl tirado da panela sobre o fogão de ferro. Tony comeu o resto do pastelão e bebeu o líquido quente e doce sem prestar muita atenção ao que estava em volta, e ninguém prestou muita atenção nele: era pequenino demais para ser uma ameaça e apático demais para desempenhar satisfatoriamente o papel de vítima.

Foi outro menino quem fez a pergunta óbvia. — Ei, dona! Por que trouxe a gente para cá? Era um moleque de ar durão, com um bigode de chocolatl e uma ratazana preta e magricela como dimon. A dama estava parada perto da porta, conversando com um homem corpulento com jeito de capitão de navio; quando se virou para responder, ela tinha uma aparência tão angelical à luz sibilante da lamparina a nafta que todas as crianças se calaram.

— Queremos a sua ajuda — ela disse. — Vocês não se importam em nos ajudar, não é? Ninguém conseguia dizer uma palavra. Tímidos de repente, se limitavam a ficar olhando para ela. Nunca tinham visto uma mulher assim; ela era tão graciosa, simpática e boazinha que eles sentiam que não mereciam tamanha sorte, e fariam com prazer tudo que ela pedisse, apenas para ficar mais um pouco com ela.

Ela revelou que iam fazer uma viagem; as crianças seriam bem alimentadas e vestidas, e aquelas que quisessem poderiam mandar um recado para a família dizendo que estavam em segurança. Logo o Capitão Magnusson as levaria para o seu navio, e quando a maré estivesse favorável, iam sair velejando até o mar e depois rumar para o Norte.

Logo as poucas crianças que queriam mandar um recado para o lar que tivessem estavam sentadas em volta da linda dama, que escrevia o que elas lhe ditavam e deixava que desenhassem um X desajeitado no final, dobrava a folha, a colocava dentro de um envelope perfumado e escrevia nele o endereço que lhe davam. Tony teria gostado de mandar alguma coisa para a mãe, mas sabia que ela não ia conseguir ler. Deu um puxão na pele da manga do casaco da dama e cochichou que queria que ela dissesse à sua mãe aonde ele estava indo e tudo mais; ela inclinou a cabeça graciosa para bem perto do corpinho malcheiroso do menino, acariciou sua cabeça e prometeu passar adiante o recado.

Então as crianças se amontoaram para se despedir. O macaco dourado acariciou os dimons de todas, e todas elas tocaram na pele de raposa para dar sorte, ou como se estivessem recebendo alguma força ou esperança ou bondade vinda da mulher, e ela se despediu de todas e as levou até uma lancha a vapor parada no cais, deixando-as aos cuidados do valente capitão. O céu já estava escuro, o rio era uma massa de luzinhas saltitantes. A dama ficou parada no cais acenando até não conseguir mais ver os rostos das crianças.

Então voltou para dentro do depósito, com o macaco dourado aninhado em seu seio, e jogou a pequena pilha de cartas na fornalha antes de sair por onde tinha entrado.

Era muito fácil atrair as crianças dos bairros miseráveis, mas finalmente as pessoas começaram a perceber, e a polícia teve que entrar em ação, embora com alguma resistência. Por algum tempo, não houve mais enfeitiçamentos. Mas o boato tinha nascido e, aos poucos, foi mudando, crescendo e se espalhando, e quando, passado algum tempo, algumas crianças desapareceram em Norwich, e depois em Sheffield, e depois em Manchester, as pessoas nesses lugares que sabiam dos desaparecimentos em outras cidades acrescentavam novos fatos à história, que ia ganhando força.

E assim cresceu a lenda de um misterioso grupo de feiticeiros que roubavam crianças.

Alguns diziam que o chefe era uma linda mulher, outros falavam num homem alto, de olhos vermelhos, e uma terceira versão falava num rapaz que ria e cantava para suas vítimas, que o seguiam como carneirinhos.

Quanto ao local para onde levavam as crianças perdidas, não havia duas versões iguais.

Alguns diziam que era para o Inferno, debaixo da terra, para a Terra Encantada. Outros afirmavam: para uma fazenda onde as crianças eram confinadas e engordadas para serem servidas à mesa. Outros diziam que elas eram vendidas como escravas para tártaros ricos...

Mas uma coisa em que todos concordavam era o nome desses raptores invisíveis.

Tinham que ter um nome, ou então não poderiam ser mencionados, e falar sobre eles — especialmente para quem estava são e a salvo em casa, ou na Faculdade Jordan — era delicioso. E o nome com que eles aparentemente foram batizados, sem que ninguém soubesse por quê, foi Gobblers. — Não fique fora até tarde, senão os Gobblers vão pegar você!

— Minha prima em Northampton conhece uma mulher cujo filho foi roubado pelos

Gobblers... — Os Gobblers estiveram em Stratford. Dizem que eles estão vindo para o sul!

E inevitavelmente: — Vamos brincar de crianças e Gobblers! Foi o que Lyra disse a Roger, o ajudante de cozinha da Faculdade Jordan. Ele a teria seguido até o fim do mundo. — Como é que se brinca disso?

— Você se esconde e eu o encontro e o abro ao meio, como fazem os Gobblers.

— Você não sabe o que eles fazem. Pode ser que não façam nada disso.

— Você está com medo deles. Estou vendo! — disse ela.

— Não tô. Aliás, nem acredito neles.

— Eu acredito — ela retrucou com firmeza. — Mas nem eu tenho medo. Faço o que meu tio fez na última vez que veio a Jordan. Eu vi. Ele estava na Sala Privativa e havia um convidado que não foi educado, e tio Asriel só fez olhar firme para ele, e o homem caiu morto na hora, espumando pela boca.

— Duvido. Nunca falaram sobre isso na cozinha. Além do mais, você não pode entrar na Sala Privativa.

— Claro que não falaram. Eles não iam contar esse tipo de coisa aos criados. E eu estive na Sala Privativa, sim. De qualquer modo, ele está sempre fazendo isso. Fez com uns tártaros que o pegaram uma vez. Amarraram o meu tio e iam cortar as tripas dele, mas, quando o primeiro chegou com a faca, meu tio olhou bem para ele, e ele caiu morto, então veio outro, e meu tio fez a mesma coisa com ele, e no final só sobrou um. Tio Asriel disse que ia deixar o homem vivo se ele o desamarrasse, e foi o que ele fez, e então meu tio matou ele mesmo assim, para lhe dar uma lição.

Roger duvidava dessa história ainda mais do que dos Gobblers, mas era boa demais para ser desperdiçada, de modo que os dois se revezaram sendo Lorde Asriel e os tártaros que iam morrer; em vez de espuma, os dois usaram bicarbonato adocicado.

Mas isso foi uma distração. Lyra ainda queria brincar de Gobblers e convenceu Roger a descer para as adegas, onde eles entraram com o chaveiro de reserva do Mordomo. Juntos atravessaram as grandes câmaras onde o Tokay e o Canary da Faculdade, o Burgundy e o brantwijn descansavam sob as teias de aranha de muitos anos. Os antigos arcos de pedra se erguiam acima deles, apoiados em colunas grossas como dez árvores juntas; o chão era de pedras irregulares, e por toda parte havia garrafas arrumadas em prateleiras e barris. Era fantástico. Esquecendo-se dos Gobblers, as duas crianças foram de uma ponta à outra, cautelosamente, segurando uma vela com dedos trêmulos, tentando enxergar em cada canto escuro, com uma única pergunta cada vez mais forte na mente de Lyra: qual era o gosto do vinho?

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