A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 6 de 7)

Havia um modo fácil de saber. Lyra — apesar de Roger ser totalmente contra — escolheu a garrafa mais velha, retorcida e verde que conseguiu encontrar, e, não tendo nada com que pudesse tirar a rolha, quebrou a garrafa no gargalo. Encolhidos no canto mais escondido, os dois bebericaram o líquido púrpura, curiosos para ver quando ficariam bêbados e como saberiam que estavam. Lyra não gostou muito do sabor, mas tinha que admitir que tinha algo de solene e de complexo. O mais engraçado era observar os dois dimons, que pareciam ficar cada vez mais tontos: caíam, davam risadinhas sem motivo e mudavam de forma imitando monstros, cada um tentando ficar mais feio que o outro.

Finalmente, e quase ao mesmo tempo, as crianças descobriram como era ficar bêbado. — Eles gostam disso? — ofegou Roger, depois de vomitar muito.

— Gostam, sim — disse Lyra, nas mesmas condições. — E eu também — acrescentou teimosamente.

A única coisa que Lyra aprendeu nesse episódio foi que brincar de Gobblers levava a lugares interessantes. Lembrou-se das palavras do tio na última conversa que tiveram e começou a explorar o porão, pois o que havia acima do solo era apenas uma pequena fração do todo; como um enorme fungo cujas raízes se estendem por muitos quilômetros, a Jordan, ao se ver brigando por espaço com a Faculdade St. Michael’s de um lado, a Faculdade Gabriel do outro e a Biblioteca da Universidade atrás, começara, ainda na Idade Média, a se espalhar por baixo da terra. Túneis, poços, câmaras, porões, escadarias — tudo isso tinha escavado tanto a terra abaixo da Jordan e por centenas de metros ao redor dela que havia quase tanto ar debaixo da terra quanto acima dela; a Faculdade Jordan ficava sobre uma espécie de espuma de pedra.

Tendo provado o gostinho de explorar o subsolo, Lyra abandonou seu território de costume, os Alpes irregulares que eram os telhados da Faculdade, e mergulhou com Roger neste mundo subterrâneo. Brincar de Gobblers virou caçar Gobblers, pois o que seria mais provável do que haver tais criaturas escondidas no subsolo, à espreita?

De modo que certo dia ela e Roger desceram para a cripta sob o Oratório. Era ali que as gerações de Reitores vinham sendo enterradas, cada um em seu caixão de carvalho forrado de chumbo. Os caixões ficavam dentro de nichos ao longo das paredes de pedra. Uma placa de pedra abaixo de cada um dava os nomes deles:

Simon Le Clerc, Reitor 1765-1789 Cerebaton Requiescant in pace

— Que quer dizer isso? — Roger perguntou. — A primeira linha é o nome dele, e a segunda é romano. E as datas no meio da linha são o tempo que ele foi Reitor. E o outro nome deve ser o dimon dele. Saíram caminhando ao longo da cripta silenciosa, lendo mais inscrições:

Francis Lyall, Reitor 1748-1765 Zohariel Requiescant in pace

Ignatius Cole, Reitor 1745-1748 Musca Requiescant in pace

Lyra achou interessante constatar que, em cada caixão, havia uma placa de bronze com uma imagem diferente: num era um basilisco; no outro, uma mulher loura; no outro, uma serpente; no outro, um macaco. Percebeu que eram imagens dos dimons dos mortos. Quando as pessoas chegavam à idade adulta, seus dimons perdiam o poder de se transformar e ficavam com uma forma única e permanente. — Esses caixões têm esqueletos dentro! — Roger sussurrou.

— Deve ter fantasmas por aqui— disse Roger, com um arrepio de prazer.

— Carne em putrefação — Lyra sussurrou de volta. — E vermes e lombrigas se retorcendo nos buracos dos olhos deles... Depois da primeira cripta, eles encontraram um corredor cujas paredes eram cobertas de prateleiras de pedra. Cada prateleira era dividida em quadrados, e em cada quadrado descansava uma caveira.

O dimon de Roger, com o rabo entre as pernas, estremeceu junto ao corpo dele e soltou um uivo breve e fraco.

— Quieto! — mandou Roger. Lyra não podia ver Pantalaimon, mas sabia que, em sua forma de mariposa, ele estava descansando em seu ombro e com certeza tremendo também. Estendendo a mão, ela pegou a caveira mais próxima e a tirou do lugar.

— O que está fazendo? Não é para tocar nelas! — Roger protestou. Sem lhe dar atenção, ela ficou girando a caveira nas mãos. De repente alguma coisa saiu pelo buraco na base do crânio, passou entre os dedos dela e caiu no chão ruidosamente. Com o susto, ela quase deixou cair a caveira.

— É uma moeda! — Roger exclamou, tateando no chão. — Pode ser um tesouro! Ele ergueu o objeto à luz da vela e ambos o contemplaram de olhos arregalados. Não era uma moeda, e sim um pequeno disco de bronze com um entalhe grosseiro representando um gato. — Como os dos caixões — disse Lyra. — É o dimon dele. Só pode ser.

— É melhor botar de volta — Roger, inquieto, aconselhou. Lyra girou a caveira e deixou o disco cair de volta em seu lugar imemorial antes de recolocá-la na prateleira. Os dois descobriram então que cada um dos crânios tinha sua moeda-dimon representando o companheiro da vida do dono ainda perto dele na morte.

— O que você acha que estes eram quando estavam vivos? — Lyra perguntou. —

Provavelmente Catedráticos, imagino. Só os Reitores ganham caixões. Com certeza, foram tantos Catedráticos durante todos esses séculos que não haveria lugar para enterrar todos, de modo que eles cortam a cabeça e guardam. É mesmo a parte mais importante deles...

Não encontraram Gobblers, mas as catacumbas sob o Oratório mantiveram Lyra e Roger ocupados durante muitos dias. Certa vez, ela inventou de fazer uma brincadeira com alguns dos Catedráticos mortos, trocando os discos dentro dos crânios, dando a eles dimons errados; Pantalaimon ficou tão nervoso com isso que se transformou num morcego e começou a voar para cima e para baixo soltando gritos agudos e batendo as asas no rosto dela, mas ela não deu atenção; a brincadeira era boa demais. Porém ela pagou por isso mais tarde. Na cama, em seu quartinho apertado no topo da Escadaria Doze, ela foi visitada por uma assombração e acordou gritando por causa das três figuras de túnica paradas ao lado da cama apontando os dedos ossudos antes de jogar para trás os capuzes e mostrar os tocos sangrentos onde deveriam estar as cabeças. Só quando Pantalaimon se transformou num leão e rugiu foi que eles recuaram, fundindo-se à matéria da parede até que só restaram de fora os braços, depois as mãos secas, cinzentas-amarelas, depois os dedos convulsivos, depois nada. De manhã, a primeira coisa que ela fez foi correr para as catacumbas e devolver as moedas-dimons aos seus verdadeiros donos, sussurrando “Perdão! Perdão!” às caveiras.

As catacumbas eram muito maiores do que a adega, mas também tinham um limite.

Depois que Lyra e Roger exploraram cada canto delas e se certificaram de que não havia Gobblers por lá, voltaram a atenção para outra coisa — mas não antes de terem sido vistos saindo da cripta pelo Intercessor, que os chamou ao Oratório.

O Intercessor era um ancião gorducho conhecido como Padre Heyst. Sua função era dirigir todos os ofícios da Faculdade, pregar, orar e ouvir confissões. Tinha se interessado pelo bem-estar espiritual de Lyra quando ela era menorzinha, mas foi desencorajado pela indiferença e pelos falsos arrependimentos dela. Finalmente chegara à conclusão de que espiritualmente ela não era promissora.

Ouvindo o chamado dele, Lyra e Roger se viraram com relutância e foram, arrastando os pés, para dentro do Oratório escuro, cheirando a mofo. Aqui e ali tremulavam chamas de velas diante das imagens dos santos; um ruído fraco e distante vinha do mezanino do órgão, onde alguns consertos estavam sendo feitos; um criado polia o púlpito de bronze. Padre Heyst, na porta da sacristia, fez um aceno.

— Onde estiveram? — perguntou. — Já vi vocês saindo de lá mais de uma vez. O que estão tramando?

Seu tom não era de acusação; ele parecia genuinamente interessado. Empoleirado em seu ombro, o dimon do padre estendeu para eles a língua de lagarto. Lyra respondeu: — Queríamos ver a cripta.

— Por que motivo?

— Osos caixões. Queríamos ver todos os caixões — ela disse.

— Mas por quê? Ela deu de ombros — sua resposta de costume quando se sentia pressionada. — E você? — ele continuou, olhando para Roger. O dimon do rapaz começou a balançar a cauda de terrier, para aplacá-lo. — Qual é o seu nome? — Roger, Padre.

— Se é um criado, onde trabalha?

— Na cozinha, Padre.

— Não devia estar lá agora?

— Sim, Padre.

— Então vá. Roger se virou e saiu correndo. Lyra arrastou o pé de um lado para o outro no chão. — Quanto a você, Lyra, fico contente em ver que está se interessando pelas coisas do

Oratório. É uma menina de sorte, por ter tanta História à sua volta. — Hum — murmurou ela.

— Mas me espanta a sua escolha de companheiros. Você se sente sozinha?

— Não — ela disse.

— Sentesente falta da companhia de outras crianças?

— Não estou falando de Roger, o ajudante de cozinha. Estou falando de crianças como você. Crianças de berço nobre. Gostaria de ter alguns companheiros desse tipo? — Não.

— Outras meninas, talvez...

— Sabe, nenhum de nós quer que você perca todos os prazeres e divertimentos comuns da infância. Às vezes penso que sua vida aqui deve ser solitária, no meio dos velhos Catedráticos. Sente isso?

— Não. Ele juntou os polegares sobre os outros dedos entrelaçados, incapaz de pensar em outra coisa para perguntar àquela criança obstinada.

— Se estiver com algum problema, sabe que pode me contar — disse finalmente. —

Espero que sempre se lembre disso. — Sim.

— Tem feito suas orações?

— Sim. — Muito bem. Agora vá. Com um suspiro de alívio mal disfarçado, ela se virou e saiu. Não tendo conseguido encontrar Gobblers debaixo da terra, Lyra voltou para as ruas.

Era onde se sentia em casa.

Então, quando ela tinha quase perdido o interesse neles, os Gobblers apareceram em Oxford.

A primeira notícia que ela teve foi quando sumiu um menino de uma família gípcia que ela conhecia.

Foi na época da Feira de Cavalos, e a bacia do canal estava apinhada de barcos e barcaças, com mercadores e viajantes, e os ancoradouros ao longo do cais em Jericó cintilavam com os arreios brilhantes e ressoavam com o ruído de ferraduras e os gritos dos negociantes. Lyra sempre gostara da Feira de Cavalos; além da chance de um passeio clandestino em algum cavalo mal vigiado, havia inúmeras oportunidades para provocar uma batalha.

E esse ano ela tinha um ótimo plano; inspirada pela captura do barco no ano anterior, dessa vez ela pretendia navegar um pouco mais antes de ser expulsa. Se ela e os amigos das cozinhas das faculdades pudessem chegar até Abingdon, poderiam fazer uma grande bagunça no dique...

Mas nesse ano não haveria guerra. Enquanto percorria a borda do estaleiro de Port

Meadow ao sol da manhã com dois moleques, passando um para o outro um cigarro roubado e soprando a fumaça com bastante ostentação, ela escutou um grito numa voz conhecida.

— Bem, o que foi que você fez com ele, seu bunda-mole? Era uma voz poderosa, voz de mulher — mas uma mulher com pulmões de couro e cobre. Lyra na mesma hora tentou ver de onde ela vinha, pois tinha reconhecido a voz de Mãe Costa, que, em duas ocasiões, tinha deixado Lyra quase desmaiada com uns pescoções, mas em três lhe dera pão de mel quente, e cuja família era famosa pelo luxo e pela imponência de seu barco. Eram príncipes entre os gípcios, e Lyra admirava muito Mãe Costa, mas pretendia passar ainda algum tempo cautelosa, pois era deles o barco que ela havia roubado.

Um dos moleques companheiros de Lyra pegou automaticamente uma pedra no chão quando ouviu a gritaria, mas Lyra ordenou:

— Pode ir soltando. Ela está nervosa. Pode quebrar você ao meio como um graveto. Na verdade, Mãe Costa parecia mais ansiosa do que zangada. O homem com quem falava, um mercador de cavalos, dava de ombros e espalmava as mãos.

— Bom, eu não sei — dizia ele. — Ele estava aqui e no minuto seguinte tinha sumido.

Não cheguei a ver para onde ele foi... — Ele estava ajudando você! Estava segurando seus malditos cavalos!

— Bom, ele devia ter ficado aqui, não é? Sair correndo no meio do trabalho... O homem não chegou a terminar a frase, pois Mãe Costa lhe pregou um tremendo tabefe na lateral da cabeça, acompanhado de tantos xingamentos e safanões que ele berrou e se virou para fugir. Os outros mercadores de cavalos zombaram, e um potro assustadiço empinou, sobressaltado.

— O que está acontecendo? — Lyra perguntou a um menino gípcio que a tudo assistia, boquiaberto. — Por que ela está com tanta raiva?

— É o filho dela — explicou o menino. — Billy. Com certeza, ela acha que os Gobblers pegaram o garoto. E pode ser verdade, mesmo. Eu não vejo o Billy desde...

— Os Gobblers? Então eles chegaram a Oxford? O menino gípcio se virou para o outro lado para gritar para os amigos, que estavam observando Mãe Costa:

— Ela não sabe de nada! Nem sabe que os Gobblers tão aqui! Meia dúzia de moleques olharam para ela com expressão de desprezo, e Lyra jogou fora o cigarro, reconhecendo a deixa para uma boa briga. No mesmo instante, os dimons de todos se prepararam para a guerra: cada criança era acompanhada por dentes, ou garras, ou pelos eriçados, e Pantalaimon, desprezando a imaginação limitada daqueles dimons gípcios, se transformou num dragão do tamanho de um cão veadeiro.

Mas antes que a batalha começasse, Mãe Costa se intrometeu, empurrando dois gípcios e confrontando Lyra como se fosse uma lutadora profissional. — Você sabe dele? — ela interpelou Lyra. — Viu o Billy?

— Não. Acabamos de chegar. Não vejo o Billy há meses. O dimon de Mãe Costa fazia círculos no ar acima da cabeça dela — um falcão de olhos amarelos e ferozes que olhavam para todos os lados sem piscar. Lyra ficou com medo; ninguém se preocupava quando uma criança sumia por algumas horas, principalmente uma gípcia: no mundinho dos barcos gípcios, todas as crianças eram preciosas e intensamente amadas, e cada mãe sabia que, se seu filho estivesse longe de sua vista, não estaria longe da vista de outra mãe, que o protegeria instintivamente.

No entanto, ali estava Mãe Costa, rainha entre os gípcios, aterrorizada pela ausência de uma criança. O que estava acontecendo?

Mãe Costa olhou sem ver o grupinho de crianças, saiu tropeçando por entre a multidão, indo na direção do ancoradouro, sempre gritando pelo filho. No mesmo instante, as crianças esqueceram a briga, diante daquele sofrimento.

— Esses Gobblers são o quê, afinal? — perguntou Simon Parslow, amiguinho de Lyra. O primeiro menino gípcio respondeu: — Você sabe. Eles estão roubando crianças por toda parte. São piratas...

— Eles não são piratas — corrigiu outro gípcio. — São canorbais. É por isso que o nome deles é Gobblers, papões.

— Eles comem crianças? — perguntou outro amigo de Lyra, Hugh Lovat, ajudante de cozinha na St. Michael’s.

— Ninguém sabe — disse o primeiro menino. — Levam a criança e ninguém mais tem notícia dela.

— Isso nós todos sabemos — disse Lyra. — Há meses estamos brincando de crianças e

Gobblers, antes de vocês, aposto. Mas duvido que alguém já tenha visto um Gobbler. — Já viram — disse um garoto.

— Quem? — Lyra insistiu. — Você já viu? Como é que sabe que não é só uma pessoa?

— Charlie viu eles em Banbury — disse uma menina gípcia. — Eles ficaram falando com uma mulher enquanto outro homem tirou o filho dela do jardim. — É, eu vi eles fazerem isso! — confirmou Charlie, um menino gípcio.

— Como é que eles eram? — Lyra quis saber.

— Bom, eu não vi direito — Charlie confessou. — Mas vi o caminhão deles — acrescentou. — Eles chegam num caminhão branco. Colocam o menino no caminhão e saem disparados. — Mas por que chamam eles de Gobblers? — Lyra insistiu.

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