A Bussola De Ouro - Philip Pullman

A Bussola De Ouro - Philip Pullman

(Parte 7 de 7)

— Porque eles papam as crianças — disse o primeiro garoto gípcio. — Nos contaram lá em Northampton. Eles estiveram por lá e tudo mais. Tinha uma garota em Northampton, levaram o irmão dela e ela disse que os homens que levaram ele disseram que iam comer ele. Todo mundo sabe disso. Eles papam as crianças todinhas.

Uma menina gípcia começou a chorar alto. — É a prima de Billy — Charlie informou. Lyra perguntou: — Quem viu o Billy por último?

— Eu! — uma dúzia de vozes exclamou.

— Eu vi o Billy segurando aquele pangaré do Johnny Fiorelli.

— Eu vi ele perto do vendedor de maçã caramelada.

— Eu vi ele se balançando no guindaste... Depois que conseguiu entender tudo aquilo, Lyra ficou sabendo que Billy tinha sido visto não mais de duas horas antes.

— Então, nas últimas duas horas, os Gobblers estiveram por aqui... Todos olharam em volta, estremecendo, apesar do sol quente, do porto apinhado, do cheiro familiar de alcatrão, cavalos e folha-de-fumo. O problema era que, já que ninguém sabia como eram esses Gobblers, qualquer pessoa podia ser um Gobbler, como Lyra declarou ao bando de crianças perplexas, todas elas — as das faculdades e as gípcias — já agora sob o seu domínio.

— Eles têm que parecer pessoas comuns, senão seriam logo descobertos — ela explicou. — Se só aparecessem à noite, podiam ter qualquer aparência. Mas, se aparecem à luz do dia, têm que parecer gente normal. Então qualquer pessoa aqui pode ser um Gobbler... — Não pode, não — disse um gípcio em tom hesitante. — Conheço elas todas.

— Está certo, não estas aqui, mas qualquer outra — disse Lyra. — Vamos procurar os

Gobblers! E o caminhão branco também!

Aquilo provocou um estouro de boiada. Outros logo se juntaram aos primeiros, e, em pouco tempo, havia umas trinta ou mais crianças gípcias correndo de uma ponta à outra dos ancoradouros, entrando e saindo dos estábulos, subindo pelos guindastes e gruas no estaleiro, saltando por cima da cerca para dentro do pasto, 15 crianças ao mesmo tempo agarradas à corda que se usava para atravessar o rio de águas verdes, e correndo a toda pelas ruas estreitas de Jericó, por entre as casinhas de tijolos, e entrando no grande oratório de St. Barnabas, o Químico, com sua torre quadrada. Metade delas não sabia o que estavam procurando e achava que se tratava apenas de uma brincadeira, porém as mais próximas a Lyra sentiam medo e aflição de verdade cada vez que avistavam uma figura solitária num beco ou na meia-luz do Oratório: seria um Gobbler?

Mas, naturalmente, não era. Finalmente, sem sucesso e com a sombra do desaparecimento verdadeiro de Billy pesando sobre todo mundo, o entusiasmo foi diminuindo. Quando Lyra e os dois jovens das faculdades saíam de Jericó perto da hora do jantar, viram os gípcios reunidos no ancoradouro vizinho àquele em que o barco dos Costa estava atracado. Algumas mulheres choravam bem alto, e os homens, furiosos, formavam grupinhos; todos os seus dimons estavam agitados, voando nervosos ou rosnando para as sombras.

— Aposto que os Gobblers não teriam coragem de vir aqui — Lyra disse a Simon

— Não— ele concordou sem muita firmeza. — Mas sei que sumiu uma garota do

Parslow quando os dois atravessavam a soleira do grande saguão da Jordan.

Mercado.

— Quem? Lyra conhecia a maioria das crianças do Mercado, mas não sabia que alguma tinha desaparecido.

— Jessie Reynolds, da selaria. Ontem ela saiu só para buscar um pedaço de peixe para a janta do pai, mas na hora de fechar ainda não tinha aparecido. E ninguém viu ela. Procuraram no Mercado inteiro e em toda parte.

— Ninguém me contou isso! — disse Lyra indignada. Achava uma falha imperdoável de seus súditos não a manterem sempre informada de tudo. — Bom, foi ontem que aconteceu. Ela pode já ter aparecido.

— Vou perguntar — disse Lyra, se virando para tornar a sair. Mas ainda não tinha passado pelo portão quando o Porteiro a chamou. — Venha cá, Lyra! Você não pode sair esta noite. Ordens do Reitor.

— Por que não?

— Já disse, ordens do Reitor. Ele disse que se você voltasse, para não sair de novo.

— Então me pegue — ela o desafiou, e saiu correndo. Atravessou em disparada a rua estreita e entrou no beco onde as camionetes descarregavam mercadoria para o Mercado Coberto. Como era hora de fechar, havia poucas camionetes por ali, mas um grupinho de jovens fumava e conversava perto da porta central, em frente ao alto muro de pedra da Faculdade St. Michael’s. Lyra conhecia um deles, um rapaz de 16 anos, que ela admirava porque ele conseguia cuspir mais longe que qualquer outra pessoa que ela ouvira falar; foi até lá e ficou esperando humildemente que ele a percebesse. — Ei, o que você quer? — ele finalmente perguntou.

— A Jessie Reynolds sumiu?

— Foi. Por quê?

— Porque um menino gípcio também sumiu hoje, e tudo mais.

— Estão sempre sumindo, esses gípcios. Depois de toda Feira de Cavalos eles somem.

— Os cavalos também — comentou um dos amigos dele.

— Mas é diferente — Lyra protestou. — Era um garotinho. Ficamos procurando ele a tarde toda, e as outras crianças disseram que os Gobblers pegaram ele. — Os quê?

— Gobblers— repetiu o conhecido de Lyra, cujo nome era Dick. — Que coisa idiota.

— Os Gobblers — ela repetiu. — Nunca ouviu falar dos Gobblers? Aquilo era novidade também para os outros rapazes, e, tirando alguns comentários grosseiros, eles escutaram com atenção o que ela lhes contou.

Esses gípcios vivem com essas ideias idiotas.

— Disseram que os Gobblers apareceram em Banbury há poucas semanas e levaram cinco crianças — Lyra insistiu. — Com certeza, vieram para Oxford agora para pegar as nossas. Devem ter sido eles que pegaram a Jessie.

camionete, e ouviu contar issoUm menino pequeno... Mas não sei dessa história de

— Sumiu um menino lá para as bandas de Cowley — contou um dos rapazes. — Agora me lembro. Minha tia, ela veio aqui ontem, porque vende peixe e batata frita de uma Gobblers. Não existem Gobblers. É só uma história.

— Existem sim! — contestou Lyra. — Os gípcios já viram eles. Acham que eles comem as crianças que eles pegam e...

Ela parou a frase no meio, porque de repente tinha se lembrado de uma coisa. Durante aquela noite estranha que ela passara escondida na Sala Privativa, Lorde Asriel tinha mostrado um slide de um homem com jorros de luz entrando nele; e ao lado do homem havia uma figura pequena com menos luz em volta; e Lorde Asriel tinha dito que era uma criança; e alguém perguntara se era uma criança seccionada, e o tio tinha dito que não, que essa era a questão. Lyra sabia que “seccionada” queria dizer cortada.

E então uma coisa lhe atingiu o coração: onde estava Roger? Ela não o via desde a manhã... De repente ficou com medo. Pantalaimon, como um leão em miniatura, saltou para os seus braços e rosnou. Ela se despediu dos rapazes junto ao portão e caminhou em silêncio de volta para a rua Turl, depois correu o mais que podia até a Faculdade Jordan, entrando pela porta um segundo antes do dimon, agora em forma de leopardo.

O Porteiro estava zangado. — Tive que ligar para o Reitor e contar tudo — declarou. — Ele não gostou. Eu não queria estar no seu lugar, mocinha, por dinheiro nenhum.

— Onde está o Roger? — ela quis saber. — Não vi. Ele também vai ver só. Ah, quando o Sr. Cawston o pegar... Lyra correu para a Cozinha entrando no meio daquela agitação barulhenta e fumegante. — Onde está o Roger? — berrou.

— Some daqui, Lyra! Estamos ocupados!

— Mas onde é que ele está? Você deve saber! — Lyra gritou para o Chefe da Cozinha, que lhe deu um tapa na orelha e a expulsou de lá.

Bernie, o Confeiteiro, tentou acalmá-la, mas não conseguiu. — Eles pegaram o Roger! Aqueles Gobblers malditos, alguém devia pegar e matar eles!

Eu odeio eles! Vocês não se importam com o Roger... — Lyra, todos nós nos importamos com o Roger...

— Não, porque senão paravam o trabalho e iam procurar por ele nesse instante! Odeio vocês!

— Pode haver um monte de motivos para o Roger ter sumido. Seja sensata. Temos o jantar para preparar e servir em menos de uma hora; o Reitor tem convidados na Residência e ele também vai jantar lá, o que significa que o Chefe vai ter que mandar a comida para lá bem depressa, para não esfriar; com uma coisa e outra, Lyra, a vida tem que continuar. Tenho certeza de que o Roger vai aparecer...

Lyra saiu correndo da Cozinha, derrubando uma pilha de tampas de prata e ignorando o rugido de raiva que isso provocou. Correndo, desceu os degraus e atravessou o Quadrilátero, passou entre a Capela e a Torre Palmer e entrou no Quadrilátero Yaxley, onde ficavam os prédios mais antigos da Faculdade.

Pantalaimon corria de um lado para o outro na frente dela na forma de um leopardo em miniatura e disparou escada acima até o último andar, onde ficava o quarto de Lyra. A menina abriu a porta de sopetão, arrastou a cadeira cambaleante para perto da janela, abriu a janela e passou para o lado de fora. Logo abaixo da janela havia uma calha de pedra forrada de chumbo com uns 30 centímetros de largura, para recolher a água da chuva; de pé dentro dela, Lyra virou e subiu pelas telhas rústicas até chegar à cumeeira do telhado. Ali ela abriu a boca e gritou. Pantalaimon, que sempre se transformava em pássaro quando estava no telhado, voava em círculos ao redor dela, acompanhando-a com seu grasnado agudo de gralha.

O céu do final de tarde se tingia de cores — pêssego, damasco, creme, delicadas nuvens de sorvete num largo céu alaranjado. As torres e os campanários de Oxford estavam em volta deles, na mesma altura; os bosques verdes de Château-Vert e White Ham se mostravam a cada lado — um a leste, outro a oeste. Em algum lugar, havia gralhas grasnando e sinos tocando, e dos Currais dos Bois as batidas ritmadas de um motor a gás anunciavam a decolagem diária do zepelim do Correio Real para Londres. Lyra ficou olhando enquanto ele subia acima do campanário da Capela de St. Michael’s, a princípio do tamanho da ponta do dedo mindinho dela quando ela estendia o braço, depois ficando cada vez menor, até virar um pontinho no céu perolado.

Ela se virou e baixou o olhar para o Quadrilátero mergulhado em sombras, onde os

Catedráticos, vestindo suas becas pretas, já começavam a chegar, sozinhos ou aos pares, para a Despensa, seus dimons caminhando ou voejando ao lado deles, ou então calmamente empoleirados em seus ombros. Estavam acendendo as luzes no Salão; ela via os vitrais da janela começando a brilhar um a um à medida que um criado percorria as mesas, acendendo as lamparinas. O sino do Administrador começou a tocar, anunciando a meia hora antes do jantar.

Aquele era o mundo dela. Ela queria que ele permanecesse a mesma coisa para sempre, mas ele estava mudando ao seu redor, pois alguém lá fora estava roubando crianças. Ela se sentou na cumeeira do telhado, o queixo apoiado nas mãos.

— É melhor irmos salvar o Roger, Pantalaimon — declarou. Ele respondeu da chaminé, com sua voz de gralha: — Vai ser perigoso.

— Claro! Eu sei disso.

— Não esqueça o que eles disseram na Sala Privativa.

— O que foi? — Alguma coisa sobre uma criança lá no Ártico. Aquela que não estava atraindo o Pó.

— Disseram que era uma criança completaE daí?

— Pode ser isso que vão fazer com o Roger, os gípcios e as outras crianças.

— Como é?

— Bom, o que completa quer dizer?

— Sei lá. Com certeza, cortam elas no meio. Acho que elas viram escravas. Isso seria mais útil. Com certeza, eles têm minas por lá. Minas de urânio para as naves atômicas. Aposto que é isso. Se mandassem adultos para o fundo das minas, eles morreriam, então usam crianças porque elas são mais baratas. Foi isso que fizeram com ele.

— Eu acho... Mas a opinião de Pantalaimon teve que esperar, porque uma voz que vinha de baixo começou a gritar:

— Lyra! Lyra! Desça daí neste instante! Alguém batia na janela. Lyra reconheceu a voz e a impaciência: era a Sra. Lonsdale, a

Governanta. Impossível se esconder dela!

— Quantas vezes já lhe disseram para não ir ao telhadoVeja o seu estado! Veja esta

Com o rosto tenso, Lyra escorregou pelo telhado até a calha e tornou a entrar pela janela. A Sra. Lonsdale estava enchendo de água uma pequena bacia descascada, com o acompanhamento de gemidos e batidas que o sistema hidráulico produzia. saia: está imunda! Tire a roupa imediatamente e se lave enquanto eu procuro alguma coisa decente que não esteja rasgada. Não sei por que você não consegue ficar limpa e arrumada...

Lyra estava aborrecida demais até para perguntar por que tinha que se lavar e se vestir, e nenhum adulto fornecia uma razão por iniciativa própria. Ela puxou o vestido pela cabeça e o deixou cair sobre a cama estreita, e começou a se lavar com má vontade enquanto Pantalaimon, agora um canário, saltava cada vez mais para perto do dimon da Sra. Lonsdale, um impassível cão de caça, tentando em vão implicar com ele.

— Veja o estado deste guarda-roupa! Faz semanas que você não pendura um vestido!

Veja isso, veja aquiloLyra não queria ver. Ela fechou os olhos enquanto esfregava o

Veja como este está amassado... rosto com a toalha fina.

— Vai ter que usar este assim mesmo. Não dá tempo de passar. Deus me perdoe, menina, veja os seus joelhos, veja o estado deles...

— Não quero ver nada — Lyra resmungou. A Sra. Lonsdale lhe deu um tapa na perna. — Lave — ordenou com ferocidade. — Tire toda essa sujeira.

— Por quê? — Lyra finalmente perguntou. — Eu nunca lavo os joelhos. Ninguém vai olhar para os meus joelhos. Por que tenho que fazer isso tudo? A senhora também não liga para o Roger, igual ao Cozinheiro Chefe. Eu sou a única que...

Outro tapa, na outra perna. — Chega dessa bobagem. Sou uma Parslow, como a mãe do Roger. Ele é meu primo em segundo grau. Aposto que não sabia disso, porque aposto que você nunca perguntou, Srta.

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