Introdução a sociologia- ELIAS, Norbert

Introdução a sociologia- ELIAS, Norbert

(Parte 1 de 13)

p: EDUCAÇÃO E SOCIOLOGIA, Émile Durkl3

9'HISTORIA DA GEOGRAFIA, Paul Claval 0 OU K É 0 OCIDENTE?, Phillipe Nemo

!°PAliA UMA SOCIOLOGIA DA CIÊNCIA, 1W

-A INTERPRETAÇÃO DAS AFASIAS, SigmÇÕ-I oPSICANÁLISE E RELIGIÃO, Eridi Frornm

-cAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DE is9>í

•fA FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO, Olivier Keln-

:' 0 NASCIMENTO DO TEMPO, Ilya Prigogn pi INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA, Norbert~S

«A EVOLUÇÃO PSICOLÓGICA DA CRIAN>'gO MEDICO NA ERA DA TÉCNICA, Karl J!? rO PAROXISTA INDIFERENTE, Jean Baud3QUESTÕES DE RETÓRICA; LINGUAGE]SSN> ' toO PROCESSO DA EDUÍCAÇÃO, Jeroino Br^

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HERANÇA E FUTURO DA EUROPA, HanTOSrred

TEMPOS CATIVOS: AS CRIANÇAS TV; Li-•Sco

JSAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DESEratoO MISTÉRIO DA SAÚDE, Hans-Georg Cag- 3 nOLECÇÃO BIBLIOTECA 7O

Assinada por um dos nomes máximos da Sociologia contemporânea, esta introdução tem o mérito de constituir uma abordagem diferente, nada convencional e de grande poder de síntese. Sucessivamente, Norbert Elias retoma as interrogações formuladas por August Comte acerca da Sociologia; fala do papel do sociólogo como destruidor de mitos, das características universais da sociedade humana e da teoria do desenvolvimento social.

A cultura como sistema aberto, como acto e drama que se expressa na palavra e na imagem para análise e interpretação do quotidiano.

Introdução à Sociologia

Título original: Was ist Soziologie?

Tradução: Maria Luísa Ribeiro Ferreira

Capa de F.B.A.

Depósito Legal n° 283730/08

Biblioteca Nacional de Portugal - Catalogação na Publicação

ELIAS, Norbert, 1897-1990

Introdução à sociologia. - Reimp. - (Biblioteca 70 ; 16) ISBN 978-972-4-1486-7

CDU 316

Impressão e acabamento:

PENTAEDRO para

EDIÇÕES 70, LDA. Outubro de 2008

ISBN: 978-972-4-1486-7

ISBN da 3a edição: 972-4-1227-X ISBN da 2a edição: 972-4-1005-6 ISBN da 1a edição:972-4-0400-5

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Se, ao escrevermos uma introdução à sociologia, nos des- viamos um pouco dos caminhos usuais e, ao fazê-lo, tentamos ajudar o leitor a encarar de um modo novo os problemas

básicos da sociedade, em primeiro lugar só podemos confiar em nós mesmos. No entanto, estamos sempre dependentes da ajuda, encorajamento, estímulo e sugestões dos outros. Não posso aqui mencionar todos os que, de um ou de outro modo, me ajudaram neste trabalho. Porém, além do director desta colecção, Professor Dieter Claessens, a quem dedico este livro, devo mencionar explicitamente o Doutor W. Lepenies, que com grande habilidade e tacto adaptou o manuscrito do autor (demasiado longo, difícil e não facilmente sujeito a cortes) ao -formato adequado para a colecção. Volker Krumrey prestou-me considerável auxílio e conselho na preparação do manuscrito. Também gostaria de exprimir os meus calorosos agradecimentos aos meus amigos e colegas Eric Dunning, Johan Goudsblom e Hermann Korte, pelos estímulos e conselhos que me prestaram. Finalmente, não posso deixar de agradecer ao meu editor Doutor M. Faltermaier, cuja paciência de tempos a tempos pus à prova.

Leicester, 1969 NORBERT ELIAS

* Referente* & edição original alemã (luventa Verlag, Munique, 1970).

Norbert Elias foi um dos cientistas alemães que fugiu dá Alemanha nos anos 30, fazendo da Inglaterra o seu lar. A sua contribuição cientifica fundamental, Über den Prozess der Zivilisation, foi publicada em 1939 na Suíça, sendo também publicada aí, em 1969, uma nova edição, com um novo e importante prefácio. No entanto, só agora as principais obras de Elias, incluindo o presente livro, começam a ser acessíveis aos leitores ingleses. Contudo, a obra de Norbert Elias como professor na Universidade de Leicester teve uma influência considerável. Podemos hoje -falar de toda uma geração de sociólogos ingleses que foram seus alunos e que, como tal, difundiram o seu entusiasmo contagiante por este tema. Os leitores deste livro reconhecerão o que os cativou —os dotes naturais de Elias como professor. Também podemos falar de um interesse renovado pela obra deste autor na Alemanha e na Holanda onde, depois de reformado pela Universidade de Leicester em 1962, leccionou em diversas universidades como professor visitante. O destino de Norbert Elias tem sido singular pois se o seu maior impacto como professor se deu em Inglaterra, o impacto posterior do seu trabalho científico tem-se dado no universo acadêmico da Alemanha.

What is Sociology? foi publicado pela primeira vez em 1970, produto tardio da carreira do seu' autor. Na última frase de uma última nota diz-se: «ToçLa a teoria tardia se desenvolve simultaneamente como continuação de teorias anteriores e como ponto de partida critico decorrente destas.» Embora esta afirmação se refira a Marx, ela também se aplica a Elias. Numa breve introdução, ilusoriamente superficial, o leitor descobrirá uma nova justificação da sociologia, recorrendo-se às idéias básicas primeiramente traçadas por Augusto Comte. Posteriormente, Elias irá retomar categorias básicas do pensamento sociológico, continuando assim a «tradição sociológica» embora tomando uma posição crítica relativamente a contributos maiores tais como os de Marx, Weber e Parsons. Neste processo vai induzindo o leitor a repensar temas fundamentais do discurso sociológico tais como indivíduo, grupo e owíros.

A idéia deste tipo de abordagem decorre da própria obra socio-histórica do autor. Esta versa essencialmente sobre padrões mutáveis de interdependência relativamente às relações de poder entre os homens em sociedade. A uma primeira análise das mudanças de etiqueta, relativas ao aparecimento do «absolutismo» monárquico (na França medieval), seguiu-se um estudo da sociedade cortesã CDie hõfische Gesellschaft, 1969). Em ambas as obras o autor acentua que da interpenetração de inúmeros interesses e intenções individuais— sejam eles compatíveis ou opostos e hostis — algo vai decorrendo que, ao revelar-se, se verifica não ter sido planeado nem requerido por nenhum indivíduo. No entanto apareceu devido às intenções e actos de muitos indivíduos. E isto, na verdade, representa todo o segredo da interpenetração social — da sua obrigatoriedade e regularidade, da sua estrutura, da sua natureza processual e do seu desenvolvimento; isto é o segredo da sociogénese e da dinâmica sociais. [Über den Pro-

zess der Zivilísation (1969), I, p. 221].

É evidente que Elias clarifica o Jacto de, nesse jogo de interdependências, governantes e reis, personagens importantes e outros, terem uma influência considerável, insistindo no entantç no facto de eles próprios constituírem uma parte das interdependências em que são relativamente dominantes [Die hõfische Gesellschaft (Neuuned: Hermann Luchterhand Verlag, 1969), p. 213-221].

Ao relatar sistematicamente esta visão da história e das diferenças de poder, Norbert Elias deu um contributo fundamental para a moderna sociologia. A introdução que se segue pode ser proveitosamente lida em separado, mas o leitor aperceber-se-á de que Introdução à Sociologia se baseia num trabalho científico, que reúne simultaneamente aspectos de história política, de psicologia das profundezas e de sociologia, numa síntese original de considerável vigor.

Universidade da Califórnia, Berkeley

Para compreendermos de que trata a sociologia, temos que nos distanciar de nós mesmos, temos que nos considerar seres humanos entre os outros. Na verdade, a sociologia trata dos problemas da sociedade e a sociedade é formada por nós e pelos outros. Aquele que estuda e pensa a sociedade é ele próprio um dos seus membros. Ao pensarmo-nos na sociedade contemporânea, é difícil fugir ao sentimento de estarmos a encarar seres humanos como se fossem meros objectos, separados de nós por um fosso intransponível. Este sentido de separação é expresso, reproduzido e reforçado pôr conceitos e idiomas correntes que fazem com que este actual tipo de experiência surja como evidente e incontestável. Falamos do indivíduo e do seu meio, da criança e da família, do indivíduo e da sociedade ou do sujeito e do objecto, sem termos claramente presente que o indivíduo faz parte do seu ambiente, da sua família, da sua sociedade. Olhando mais de perto o chamado «meio ambiente» da criança, vemos que ele consiste primariamente noutros seres humanos, pai, mãe, irmãos e irmãs. Aquilo que conceptualizamos como sendo a «família», não seria de todo uma família se não houvesse filhos. A sociedade que é muitas vezes colocada em oposição ao indivíduo, é inteiramente formada por indivíduos, sendo nós próprios um ser entre os outros.

No entanto, os instrumentos convencionais com que

Pensamos e falamos são geralmente construídos como se tudo aquilo que experienciássemos como externo ao indivíduo fosse uma coisa, um «objecto»' e, pior ainda, um objecto estático. Conceitos como «famüia» ou «escola» referem-se essencialmente a grupos de seres humanos

Interdependentes, a configurações específicas que as pessoas formam umas com as outras. Mas a nossa maneira tradicional de formar esses conceitos faz com que esses grupos formados por seres humanos interdependentes apareçam como bocados de matéria-objectos tais como as rochas, árvores ou casas. Este modo reificante de falar, que tradicionalmente usamos, e os modos usuais de pensar sobre grupos de pessoas — mesmo quando se trata de grupos a que pertencemos — manifestam-se de muitas maneiras, não só no termo «sociedade» e no modo como o consideramos conceptualmente. É usual dizermos que a sociedade é a «coisa» que os sociólogos estudam. Mas este modo reificante de nos exprimirmos levanta grandes dificuldades, chegando por vezes a impedir a compreensão da natureza dos problemas sociológicos. No modelo de senso comum que hoje domina a nossa própria experiência ou a dos outros, a relação com a sociedade é ingenuamente egocêntrica, tal como é indicado na figura 1. Configurações como a universidade, a cidade, o sistema e inúmeras outras, podem ser substituídas por família, escola, indústria ou estado.

Estado Indústria

Escola . ~~ Família

Figura l—Padrão básico de uma visão egocêntrica da sociedade

Quaisquer que sejam essas configurações, o modo típico e predominante de conceptualizar esses grupos sociais e a autopercepção que expressam, correspondem geralmente ao diagrama apontado, que nos mostra a pessoa individual, o ego particular, rodeado de estruturas sociais. Estas são entendidas como objectos em cima e acima do ego individual. O conceito de sociedade também é encarado deste modo.

Para melhor compreender a problemática sociológica, ou o que habitualmente se designa como o seu tema, precisamos de reorientar a nossa compreensão do conceito de «sociedade» do modo implícito na figura 2.

Figura 2 — Representação de indivíduos interdependentes (•família», «estado», f grupo», sociedade», etc.)1

Este diagrama deveria ajudar o leitor a transpor a frágil barreira de reificação de conceitos, que obscurece e distorce a compreensão da nossa própria vida em sociedade. Tal reificação é um encorajamento constante à idéia de que a sociedade é constituída por estruturas que nos são exteriores — os indivíduos —e que os indivíduos são simultaneamente rodeados pela sociedade e separados dela por uma barreira invisível. Como veremos, estas concepções tradicionais serão substituídas por uma visão naais realista das pessoas que, através das suas disposições e inclinações básicas são orientadas umas para as outras e unidas umas as outras das mais diversas maneiras. Estas pessoas constituem teias de interdependência

°u configurações de muitos tipos, tais como famílias, escolas, cidades, estratos sociais ou estados. Cada uma dessas pessoas constitui um ego ou uma pessoa, como

. l As figuras reportam-se ao capítulo «Notas e referên-cias», p. 193. 15 muitas vezes se diz numa linguagem reificante. Entre essas pessoas colocamo-nos nós próprios. '

Tal como já foi dito, para compreender de quê trata a sociologia temos que estar conscientes de nós próprios como seres humanos entre outros seres humanos. À primeira vista isto parece um lugar comum. Cidades e aldeias, universidades e fábricas, estados e classes, famílias e grupos operacionais, todos eles constituem uma rede de indivíduos. Cada um de nós pertence a esses indivíduos — é isso que significam as expressões «a minha, aldeia, a minha universidade, a minha classe, o meu país». Ao nível de uma linguagem quotidiana, tais expressões são perfeitamente usuais e inteligíveis. No entanto, se quisermos pensar de um modo científico, geralmente esquecemos que é possível designar essas estruturas sociais de «minha», «dele», «nossas», «vossas», «deles». Em vez disso, referimo-nos habitualmente a essas estruturas como se elas existissem não só acima e para além de nós mesmos, mas também acima e para além de qualquer pessoa. Neste tipo de pensamentp, parece evidente que o «eu» ou «os indivíduos particulares» estão de um lado, havendo do outro lado a estrutura social, o «meio ambiente» que me rodeia, a mim e aos outros

«eus».

Isto explica-se por várias razões; aqui apenas nos orientamos para uma delas. O constrangimento característico

que as estruturas sociais exercem sobre aqueles que as formam é particularmente significativo. Procuramos dar uma explicação satisfatória a esta imposição, atribuindo uma existência a essas estruturas — uma realidade objectiva, que se coloca acima dos indivíduos que as constituem e para além desses próprios indivíduos. A maneira corrente de formarmos ás palavras e os conceitos reforça a tendência do nosso pensamento para reificar e desumanizar as estruturas sociais. Isto conduz, por um lado, à «caracte- rística metafísica das estruturas sociais», que hoje tantas vezes aparece no pensamento quotidiano e no pensamento sociológico. Uma das suas expressões mais típicas reside na imagem da relação entre o indivíduo e a sociedade, simbolizada na figura 1. Esta concepção metafísica é posteriormente sustentada pela transposição automática de modos de pensar e de falar, primeiramente desenvolvidos e testados na investigação de relações naturais em física e em química. Esses modos foram transpostos para a investigação das relações sociais entre os indivíduos. Antes de ser possível uma aproximação científica dos factos naturais, as pessoas explicavam as forças naturais em termos e modos de pensar decorrentes da experiência que tinham das forças interpessoais. O sol e a terra, as tempestades e os sismos, que hoje consideramos manifestações naturais de forças físicas e químicas, eram interpretados em termos da sua própria experiência de fenômenos humanos e sociais. Viam-nos quer como pessoas, quer como resultados de acções e desígnios de pessoas. Só gradualmente se operou a transição do pensamento mágico e metafísico para o pensamento científico interpretativo dos aspectos físico- -químicos do universo. Esta mudança de perspectiva está largamente dependente do desaparecimento de modelos explicativos heterónomos e ingenuamente egocêntricos,cujas funções foram assumidas por outros modelos de discurso e de pensamento, mais estreitamente correspondentes à dinâmica imanente dos acontecimentos naturais.

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